sábado, 20 de agosto de 2016

Extensão do campo da luta

Nas férias andei a ler contos de Tchekhov e o primeiro romance de Michel Houellebecq, “Extensão do domínio da luta”, agora publicado em português. Encontrei intersecções entre os dois autores. Comecemos pelo mestre do conto. Uma “velha” (na verdade, tinha 50 anos, mas no século XIX alguém com mais de 40 já era velho) dá conselhos a uma bela jovem de 23 anos, rica e solteira. Diz-lhe para arranjar rapidamente um marido e depois poderia ter os amantes que quisesse. A jovem que não caísse no seu erro. Desgraçadamente, percebera tarde demais que essa coisa da moral era uma invenção de beatas invejosas que não queriam que os outros se divertissem. Há, como é evidente, um fundo de verdade na observação da “velha”, aliás bem documentado. Por exemplo, após a morte de Cristo, nos dois ou três primeiros séculos não passou pela cabeça de nenhum cristão que Maria pudesse ser virgem. Uma minoria de fanáticos muito activos (e, como a história mostra, há-os sempre em todas épocas) acabou por associar o sexo a uma coisa suja. Esta visão impôs-se e provocou sofrimento a muita gente. Freud explica. Curiosamente, o génio austríaco nunca defendeu o liberalismo sexual. No seu pessimismo antropológico (desculpem lá o palavrão) acreditava com certeza que essa alternativa ainda seria pior.
Chegamos assim a Houellebecq. Em todas as suas obras, o personagem principal é um tipo solitário, culto e hiperlúcido; nuns casos percebe-se que é feio (à semelhança do autor), noutros, a julgar pelo número de conquistas, parece ser atraente para as mulheres. Houellebecq tornou-se muito conhecido pelas suas diatribes contra o islão. Na verdade, o genial escritor francês odeia, antes de tudo o mais, o mundo ocidental. Diz a personagem principal do seu romance: “De todos os sistemas económicos e sociais, o capitalismo é, sem contestação, o mais natural. Isto basta para indicar que deverá ser o pior.”
O liberalismo económico é cruel. Gera um sistema de vencedores e vencidos. Uns acumulam fortunas pornográficas, outros apodrecem no desemprego e na miséria. Mas o liberalismo sexual é tão ou mais impiedoso que o económico e gera tanto ou mais sofrimento. Quando o adultério é proibido, cada um encontra mais ou menos o seu lugar. Ao invés, num sistema sexual perfeitamente liberal, uns têm uma vida erótica excitante, repleta de aventuras e experiências; outros, os feios, estão condenados à solidão e a entreter-se com vídeos pornográficos. Houellebecq acha que a adolescência e a juventude, quando a beleza está no auge, marcam a maioria dos indivíduos para o resto da vida.
Pode-se ser um vencedor, ou um vencido, em ambos os campos da luta. Mas também se pode ser um vencedor no campo económico e um vencido no campo sexual. É o caso de uma das personagens do romance, 28 anos e rápida progressão na empresa, mas com “cara de sapo”. Dos vencidos do campo sexual ninguém fala, ninguém quer saber, não há partidos que os representem. São uma massa invisível de homens e mulheres a sofrer em silêncio. 

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