quinta-feira, 28 de julho de 2016

À beira da ruptura

Em Espanha, quase não se discutiram as sanções nos media. Talvez porque toda a gente percebeu que aquilo não ia dar em nada. Mas, em Portugal, foi criado um enorme folhetim, alimentado diariamente. Serviu sobretudo para ressuscitar as nossas padeiras de Aljubarrota que, de peito feito, andam por aí a acusar de antipatriotismo quem duvida da estratégia do nosso Nuno Alvares Pereira, perdão, do nosso primeiro-ministro. Enfim, acabou o suspense. Ganhámos esta batalha. Demos cabo dos boches. Brindamos.
O problema é que o patriotismo desta gente não descansa. Nem em férias. Não devem tardar as cenas dos próximos episódios. A próxima temporada da série “À beira da ruptura” já deve estar a ser preparada. É preciso manter o povo entretido – “alienado”, como diziam antigamente os nossos camaradas -, que as coisas não estão para brincadeiras. Quem vão ser agora os vilões? O terrível Wolfgang Schäuble continuará a assombrar a nossa pátria? Qual será o destino dos antipatriotas e traidores, vendidos aos interesses sórdidos do grande capital e de Bruxelas? Brevemente saberemos. Os assessores de António Costa já devem estar a escrever o novo guião.

14 comentários:

  1. Exactamente, o que penso! A governação de Portugal é sempre um grande circo -- por alguma razão, os portugueses têm a expressão idiomática "para inglês ver".

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  2. Em Portugal, o "enorme folhetim" foi criado e mantido pelos media/comentadores afetos ao anterior governo. Por exemplo: José Gomes Ferreira da SicN em 18 Maio: "Em Julho, a Comissão Europeia vai cair em cima do Governo".
    Mas não desesperem: comecem já a lançar o próximo folhetim, o dos cortes nos fundos estruturais.

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  3. O nosso inimigo Schäuble:
    http://www.politico.eu/article/wolfgang-schauble-bails-out-spain-portugal-sanctions-juncker-german-finance-minister/

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  4. Eu sigo uma série de jornais internacionais - incluindo o FT, a newsletter da ILO ou o Guardian - e todos fizerem várias notícias e artigos sobre as potenciais sanções. Não que isto valide o tipo de discussão e comentário que se tem feito em Portugal sobre as mesmas, mas acho que estás a subvalorizar a atenção a que elas tiveram direito fora de Portugal.

    A mim o que me chateia é as pessoas pensarem nas sanções (ou inexistência delas) mais no que toca ao seu peso na balança do poder político do que no que concerne ao impacto que poderiam ter no país. Mas pronto, é o que dá ser anjinho.

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  5. É muito certo o que expõe mas não limitado à questão das sanções. O que refere em relação a este tema é o tratamento jornalístico normal, seja do que for, em Espanha.

    Primeiro, o jornalismo em Espanha é muito diferente do jornalismo em Portugal. Cingindo-nos apenas à imprensa de qualidade num país e no outro, os jornais Espanhóis têm muito mais qualidade (de longe!) que os jornais Portugueses e tratam os temas, sejam eles quais forem, com muito maiores sobriedade e objectividade. O sensacionalismo histérico não existe na imprensa de referência Espanhola até por ser algo conotado com pasquins e fraca qualidade jornalística. Esse sensacionalismo existe nos media que são o que são, não negam o que são e nem têm pretensões a fazer jornalismo de referência. E isto num contexto em que os jornais têm, desde sempre, as suas assumidas conotações políticas, algo que até poderia estimular o sensacionalismo contra os de sinal contrário à tendencia do jornal. Não acontece.

    A juntar ao anterior há uma tradição muito antiga da imprensa Espanhola, algo que vem de sempre, que é uma acrescida sobriedade quase raiando a discrição na notícia sobre assuntos de Estado, mormente quando versam relações com o estrangeiro. Onde em Portugal há histeria nestes assuntos com arremesso de lama para todos os lados e mais alguns, em Espanha há muito maior sobriedade.

    Tudo isto advém do que é a sociedade Espanhola, da sua maneira de ser, da forma como reconhece a qualidade e de como pune quem se desvia desses padrões. Se reparar, José Carlos, não está a haver em Espanha aproveitamento político desta situação, nem por parte do Partido Popular nem por parte dos partidos da oposição.

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  6. O Zuricher claramente discorda da maioria dos espanhóis que eu conheço.

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  7. Ou então acabou de escrever quatro parágrafos cheios de disparates. Uma das duas.

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    1. Caro André Gama, não apenas vivi em Espanha vários anos como já fui cidadão Espanhol tendo deixado de o ser por renúncia. De qualquer forma entendo onde quer chegar e é uma constante em vários temas em Espanha. É comum os Espanhóis queixarem-se de várias coisas... porque o termo de comparação é a Europa além-Pirinéus. Quantas e quantas vezes disse em Espanha, aquando de queixas sobre isto e aquilo, que felizes eram por não conhecer a realidade Portuguesa sobre o mesmo tema. Quando comparado com França, sobretudo França é o termo de comparação habitual, pois muitas coisas em Espanha têm algumas deficiências.

      Também pode achar que escrevi disparates e é assunto seu. Cada um é livre de pensar o que quiser. O estatuto pessoal que alcancei na minha vida permite-me ter costas largas o suficiente para aguentar as opiniões negativas (ou positivas, é igual) seja de quem for. Ficam exactamente aí: nas costas.

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    2. Toda a gente se queixa: Portugueses, Espanhóis, Lituanos, Ingleses(um bocado menos, muitas vezes por vaidade), Americanos, Argentinos.

      O meu comentário era mais específicio no que toca ao jornalismo: a ideia que tenho do jornalismo espanhol pela minha convivência com amigos espanhóis é de que a imprensa espanhola está mais directamente ligada ao poder e aos partidos políticos que a portuguesa. Lembro-me de ocasiões várias em que ouvi pessoas queixarem-se de não poder confiar no jornal a), b) ou c) por estarem demasiado ligados ao partido x) ou y).

      Agora isto não é necessariamente um elogio ao jornalismo português, mas no que toca aos meios de jornalismo mais "mainstream" portugueses, não sinto quando leio ou oiço notícias que um jornal ou televisão esteja particularmente afecto a um partido, mesmo com a quantidade de desinformação que por aí anda. Talvez seja por eu ter alguma presumida sensatez para filtrar aquilo que acho serem disparates daquilo que considero ser a verdade ou os factos. E atenção, não acho que os meios de comunicação não sejam muitas vezes manipulados pelos partidos através do discurso usado e dos temas em que insistem. Mas, na minha opinião, o Donald Trump ter mais tempo de antena que qualquer outro candidato por exemplo deve-se mais a ele dizer disparates em que a imprensa decide concentrar-se para ganhar audiências, do que ele ter relações duvidosas e ilícitas com a imprensa de modo a manipula-la.

      In short, acho que em Portugal temos mais incompetência que corrupção na comunicação, e acho que em Espanha a balança está um bocado mais inclinada no sentido inverso. E, para mim, prefiro incompetência a corrupção.
      Mas é sintomático do mundo em que vivemos, em que esta seja a escolha potencial neste assunto como em tantos outros: a escolha entre o menor de dois (ou mais males)

      E já agora, obrigado pela resposta sóbria aos meus comentários um bocadinho menos educados. Mas é bom saber não somos os únicos por aqui capazes de levar uma boca "in stride". Fair play.

      PS: Eu no fundo acertei: você enquadrava-se de facto numa das duas hipóteses :P

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    3. André Gama, o seu comentário tem vários planos e tentarei engloba-los nesta minha tréplica.

      Conforme disse, o jornalismo de referência Espanhol tem assumidas preferências políticas. Eu sempre li o ABC (monárquico até à medula) e o El Mundo (de direita, próximo do PP). Porém, não me caem os parentes na lama se ler o El País (o jornal do PSOE). E, no que toca a diários, por aqui me fico. Não toco em lixo género o Público. Ora, mesmo com estas preferências assumidas, algo muito anglo-saxónico, de resto, os jornais Espanhóis conseguem ser muito mais objectivos do que os jornais Portugueses pretensamente independentes. Sim, é certo que há incompetência no jornalismo Português que se traduz na fraquissima qualidade do que se publica. O jornalismo Espanhol é muito mais profissional, muito mais informativo e formativo. E daqui advêm tanto a qualidade como a sobriedade. Quer isto dizer que os jornais Espanhóis são muito bons? Não necessariamente. Quer dizer, acima de tudo, que os jornais Portugueses são tão maus que a generalidade da imprensa de referência de qualquer outro país ocidental é óptima por comparação. Ainda assim o El Mundo e o El País, principalmente estes dois, não ficam propriamente a perder na comparação com o Le Figaro ou o Le Monde.

      Ora esta sobriedade normal na imprensa Espanhola leva-nos ao ponto que originou esta troca de comentários. Com fairplay, evidentemente, mas ainda assim com a clareza necessária a não prejudicar a franqueza. Não é só na tendência política assumida que a imprensa de referência Espanhola bebeu das influências anglo-saxónicas. O tratamento dos assuntos de Estado, mormente se envolvem relações externas, é algo feito com pinças mantendo sempre o difícil equilibrio entre noticiar e informar os leitores, num prato e, no outro, nunca, jamais, prejudicar os interesses do Reino e a actividade do governo, seja de que cor for, nas negociações que estiverem em causa. Isto porque, não nos enganemos: de direita ou de esquerda, encantado da vida. Mas sempre, sempre, sempre e acima de tudo Espanhóis.

      Claro que tudo isto advém do que é a própria sociedade Espanhola e os seus filhos, os políticos. Não se viu em Espanha, nem agora nem noutros momentos anteriores - aquando do resgate à banca, por exemplo - o PSOE, a UPyD (que na altura estava com imenso élan) ou mesmo, por exemplo, o PNV, com atoardas que visavam minar os objectivos do governo, em suma, os interesses de Espanha. É uma realidade totalmente distinta da Portuguesa, principalmente da Portuguesa de hoje em dia com aquele inenarravel Partido Socialista.

      A terminar uma ilustração dos parágrafos anteriores e da Espanholidade dos actores políticos. Espanha foi o único país que teve um líder comunista, para mais num momento conturbado, que era primeiro Espanhol e só depois Comunista. O que até, visto dum dado prisma, pode ser uma contradição de termos. Mas era o que acontecia. Não gosto de Santiago Carrillo, naturalmente, abomino a sua ideologia e enojam-me as suas ideias. Reconheço-lhe, porém, o mérito (que se posto no contexto histórico em que existiu passa de mérito a grande mérito) de ser, antes e acima de tudo, Espanhol. Esta linha, de resto, foi seguida posteriormente por Anguita, Llamazares e até mesmo Cayo Lara. O garoto que por lá anda agora é que começou a borrar a pintura...

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    4. Foda-se, assim vale a pena responder a comentários por aqui!

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  8. Este governo "puxou" a atenção dos Portugueses para o ponto que pretendia. Todos foram atrás. Foram atrás do Número do défice. Para uma análise correcta, seria necessário atentar à forma como esses défice tem sido obtido, em particular, ao aumento da dívida pública (novamente em Junho), às taxas de juro extraordinariamente baixas e aos atrasos no pagamentos a fornecedores. O que me parece que os Portugueses deviam equacionar era se não se está a perder uma oportunidade rara de reduzir a dívida e dar assim um outro futuro ao País. É preciso notar que a Alemanha já se financiou com taxas negativas e Portugal ao insistir no aumento da dívida (apesar de tão elevada) julgo que não consegue beneficiar de taxas de juro ainda mais baixas do que aquelas que poderia beneficiar se tivesse uma política consistente de redução do défice e da dívida. Isto sim, é algo que os jornalistas deviam equacionar, e até este blog se não me levam a mal.

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  9. Eu acho muito positivo o tratamento detalhado pela imprensa portuguesa do processo que deu origem à proposta de sanções a Portugal e a Espanha, os diversos passos por que passou na burocracia de Bruxelas como se fosse uma decisão altamente técnica e baseada em pressupostos sólidos e finalmente a sua anulação através de uma simples decisão política.
    Penso que o facto da imprensa portuguesa ignorar em larga medida a política a nível europeu e não informar devidamente a opinião pública portuguesa é um grande handicap do nosso país em relação aos outros países europeus. Gostaria que este tratamento detalhado pela imprensa de assuntos decididos a nível europeu abrisse um precedente e que a nossa imprensa começasse a cobrir jornalisticamente de forma minimamente decente a política europeia

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