sábado, 9 de julho de 2016

De luto, outra vez...

Na quinta-feira, passei o dia a pensar se vos devia escrever sobre o que está a acontecer nos EUA, mas os acontecimentos de ontem deram uma nova dimensão à mudança que atravessamos na sociedade americana.

Esta semana, dois homens foram mortos por polícias: um em Baton Rouge, Louisiana, outro em Minneapolis. Ambos eram não-brancos. Na terça-feira, em Baton Rouge, Alton Sterling, um homem de raça negra, estava a vender CDs à porta de uma loja de conveniência, quando um sem-abrigo persistentemente o incomodou pedindo-lhe uma esmola; Alton mostrou uma arma e disse ao sem-abrigo para não o incomodar. O sem-abrigo telefonou ao 911 (polícia) e dois agentes responderam ao incidente. A morte de Alton, às mãos da polícia, à saída da loja, foi capturada em vídeo e tornou-se viral.

O incidente de Minneapolis, na quarta-feira, não foi capturado em vídeo, mas a namorada de Philando Castile, a vítima, fez um vídeo a relatar a situação enquanto Philando morria a seu lado no carro, com o polícia mesmo ali ao lado, e este vídeo também se tornou viral. O carro onde iam, que Philando conduzia, foi parado por um polícia. O Minneapolis Star Tribune tem o seguinte relato:

"The girlfriend said on the video that the officer “asked him for license and registration. He told him that it was in his wallet, but he had a pistol on him because he’s licensed to carry. The officer said don’t move. As he was putting his hands back up, the officer shot him in the arm four or five times.”

The video shows a uniformed police officer holding a pistol on the couple from outside the car. The officer can be heard to say, “I told him not to reach for it. I told him to get his hand out.”"


Fonte: Star Tribune

Quando tanta gente possui uma arma, é compreensível que haja alguns polícias que não lidem bem com o medo de poderem ser vítimas dos cidadãos, mas o que é notório é que, dado o número de incidentes que envolvem vítimas não-brancas e polícias brancos, esse medo está correlacionado com raça, o que inspira movimentos como "Black Lives Matter".

Após a morte de Alton Sterling e de Philando Castile, este último um individuo perfeitamente integrado na sociedade, empregado numa escola, respeitado e apreciado por pais e alunos (mas, no vídeo, a namorada diz que tinham marijuana no carro, o que é ilegal), várias vigílias e movimentos de protesto aconteceram. Um deles foi em Dallas, na quinta-feira à noite. E ontem de manhã, quando o despertador do meu telefone tocou e eu lhe peguei para o desligar, a primeira coisa que vi foi uma notificação a dizer que cinco polícias tinham sido mortos a tiro em Dallas, num protesto motivado pelos muitos casos de violência policial contra minorias.

Um sniper posicionou-se num edifício com um parque de estacionamento e disparou para a multidão, alvejando polícias. E tudo foi capturado em vídeo. Quando vi um dos vídeos posto na página do The New York Times, senti uma mistura de perturbação e incredulidade porque os disparos da arma eram tão consistentes e pareciam durar tanto tempo, que sentia-se a frieza de quem puxava o gatilho.

Há duas coisas que se aprende nos EUA acerca da atitude em relação a armas: uma é que há pessoas que querem ter uma arma para se proteger, e a segunda é que um dos motivos invocados para a Constituição permitir o porte de armas é o povo ter a capacidade de se revoltar contra o governo/estado, se o governo/estado se virar contra o povo. E pelo que se lê e ouve nas notícias foi exactamente este último motivo que inspirou o suposto sniper, pois ele estava revoltado contra pessoas brancas, especialmente polícias.

O suspeito acabou por morrer, quando a polícia enviou um robô armadilhado com uma bomba para o local onde ele estava, durante o processo de negociações que decorriam entre ele e a polícia e que não tinham resultado. O suspeito era Micah Xavier Johnson, de 25 anos, natural de Mesquite, Texas, um veterano militar que tinha servido no Afeganistão.

O ataque de Dallas foi o pior incidente, em termos de mortes da força policial, desde os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001. Julgo razoável presumir que ainda haverá mais, até se conseguir mudar a situação.

17 comentários:

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    1. Sim, pelo que posso perceber foi mesmo isso. Enviaram um robô com explosivos e detonaram-no.

      É o mundo (novo) americano, das policias militarizadas, possuindo armas de guerra que a maior parte dos exércitos nem sequer ainda possui. Neste caso, tenho poucas duvidas que será considerado justificado - as duas partes estavam a trocar tiros, funcionalmente não é diferente. Mas ainda assim...

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    2. Sim! Com um robô com uma bomba. Isto deve ser restos de equipamento da guerra...

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    3. Não é (necessariamente) equipamento militar. É um robô para desactivação de bombas. A forma mais segura de desativar uma bomba é leva-la para um lugar remoto e fazer uma explosão controlada. Usam-se robôs para isso. As brigadas de minas e armadilhas têm equipamento deste tipo.

      Neste caso, em vez de transportarem uma bomba para um lugar remoto e fazerem-na explodir, explodiram propositadamente o robô ao pé duma pessoa. A "inovação" está na utilização.

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  2. Exacto, Luís. Do ponto de vista da acção policial, perfeito, nada, rigorosamente nada a apontar. Um individuo fortemente armado recusou render-se, a prioridade num caso destes deve ser acima de tudo proteger a vida e a integridade física dos agentes, usou-se a tecnologia para resolver o problema. Assunto resolvido... embora provavelmente não arrumado. Nada, absolutamente nada a apontar à perfeição técnica da acção policial. Agora, isto gera algumas questões doutro cariz. Assumindo que o sujeito estava cercado, numa situação na qual não ameaçava ninguém de forma iminente, sem reféns e sem quaisquer hipóteses de escapar-se será legítimo abate-lo? Aqui é que eu já começo a ter algumas interrogações. Se ele tivesse algum refém, uma pessoa que fosse, pois aí não teria quaisquer dúvidas. Agora, nesta situação específica já o assunto é outro. Sou o mais possivel a favor da filosofia "Make my day." mas, lá está, que os patifes façam algo que justifique serem mortos. Numa situação assim não sei se me sinto tão confortavel.

    Por outro lado e algo a montante de tudo isto, as tensões raciais nos US estão ao nivel dos 1960s. Mais uma das boas heranças que aquele pateta idealista e orelhudo que está na Casa Branca deixará ao sucessor.

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    1. A sua última observação, Zuricher, está tão carregada de animosidade racista que me recomenda não acrescentar mais seja o que for ao meu repúdio pelo que escreveu.

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    2. Rui, claramente algo se intrometeu entre o que eu escrevi e o que o Rui leu. O meu último parágrafo nada tem de racista, de todo em todo. De há muito que sou crítico de Obama e costumo compara-lo com o pior presidente Americano do pós-guerra, Jimmy Carter. Conseguindo aquele ser ainda pior do que este, aliás. Ora, Jimmy Carter era um branquinho alourado da Georgia com origens agrárias e não é por isso que deixo de manifestar a minha posição em contra do seu desastroso mandato. Felizmente apenas um, enquanto este já vai no segundo.

      Se a sua ideia adveio do uso da expressão "tensões raciais", é uma expressão comum nos EUA, desde o cidadão comum aos media. Está a um nivel que não se via desde os 1960s. O inquilino da Casa Branca tem sempre um papel importante nestas questões e a acção de Obama, muito «in your face», tem sido nefasta para todos não sendo de admirar este agravamento da situação. Nem Jimmy Carter foi tão ruim. Nisto como em vários outros aspectos, aliás.

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    3. Zuricher: portanto, chamar "pateta idealista e orelhudo" é racismo, se o alvo for um "não-branco". E, se for uma mulher, é "sexismo". E depois há quem se admire do sucesso de um troglodita como Donald Trump. Cá para mim, os polícias mortos em Dallas eram todos gay, e o assassino padecia de "homofobia".

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    4. AAHHH!!! Tem a ver com coisas do politicamente correcto. Pois, por isso é que, genuinamente, não percebi onde é que o Rui Fonseca viu racismo no que escrevi. Não reparo nessas coisas do politicamente correcto porque, simplesmente, não estou programado dessa forma. E já não tenho idade para me reprogramar dessa forma. Com o que o Geraldo Geraldes disse já percebi um bocadinho melhor a coisa. Agradecido!

      Uma notinha sobre as suas palavras para com Donald Trump. Concordo plenamente consigo. Donald Trump diz o que muitos gostariam de dizer mas não podem por sentirem-se totalmente castrados por essa coisa execravel do politicamente correcto. Penso que advém daí muito do apoio que tem.

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  3. "o número de incidentes que envolvem vítimas não-brancas e polícias brancos"

    penso que em grande parte desses incidentes os policias também são não-brancos (o que, aliás, não invalida a possibilidade de racismo por detrás disso - se haver uma perceção de que a sociedade se incomoda menos com mortes de negros, é de esperar que mesmo policias negros se sintam mais há vontade para matar negros do que brancos)

    "um dos motivos invocados para a Constituição permitir o porte de armas é o povo ter a capacidade de se revoltar contra o governo/estado, se o governo/estado se virar contra o povo"

    Parece-me ser a única maneira da confusa redação da 2ª emenda fazer sentido - a ideia de que as armas são para o individuo se proteger a si próprio e à família de assaltantes não bate certo com a parte de "A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State", e a ideia que a 2ª emenda se refere à Guarda Nacional não bate certo com "the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed" ("the right of the people", não dos estados federados) - o conjunto do texto parece implicar que se está a falar do direito de cada um ter armas (a segunda parte do texto), para depois esses cidadãos armados poderem criar um exército revolucionário se for preciso (a primeira parte do texto).

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    1. Sempre foi isso que o meu marido me disse. E explica, e justifica, a importancia das armas para os americanos.

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    2. Já agora, acho que isso é reforçado por, se não estou em erro, as únicas liberdades verdadeiramente garantidas tanto pela Bill of Rights dos EUA como pela sua antepassada inglesa serem a liberdade de expressão (ou, em Inglaterra, a liberdade de apresentar reclamações ao governo) e a liberdade de ter armas (em Inglaterra, apenas para os protestantes) - tudo o resto são direitos processuais: não aumentar impostos sem a aprovação do parlamento, não manter alguém preso sem o apresentar a um juiz, não confiscar propriedades sem "due process", etc. O ponto de as únicas duas liberdades em que é mesmo dito que o governo não as pode retirar (em vez de dizer que o governo só as pode retirar se seguir determinados procedimentos) serem exatamente as que dão mais jeito para derrubar o governo (liberdade de expressão para poder mobilizar os descontentes, e armas para a insurreição) parece indicar que a ideia era mesmo essa.

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    3. Bem exposto, Miguel Madeira.

      Mas, francamente, acho que centrar o debate acerca destes "incidentes" na questão das leis de porte de arma é altamente redutor. Poderia ter-se feito o mesmo acerca de Lee Harvey Oswald, também em Dallas, a 22 de Novembro de 1963.

      Já agora, o assassino de Dallas também era "não-branco". Se se salienta - e não contesto essa saliência - essa qualidade no caso das vítimas, dever-se-ia também salientá-la no caso dos perpetradores. É que a violência racial tem muitos pais.

      Finalmente, este movimento "Black Lives Matter" é altamente pernicioso ao clima de paz racial que todos desejarão.

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    4. Essa leitura parece-me bastante clara. Resta saber se faz sentido no século XXI.

      Se esse é o único, ou principal motivo, para permitir o porte de armas, ele deixa de fazer sentido a partir do momento que o estado tem o exclusivo de: tanques, caças, drones, porta-aviões, submarinos, ogivas nucleares, etc.

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  4. https://www.commentarymagazine.com/american-society/harvard-study-debunks-police-shootings-myth/

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  5. Obrigado pelo link, Geraldo. Muito disto está envolvido em mitos vários propagados por esta administração. São narrativas que servem os objectivos de Obama, do que lhe vai pela cabeça, embora não correspondam necessariamente à realidade. É o problema de ter idealistas a governar seja o que for quando, na realidade, é gente que não serve sequer para governar uma mercearia. Se os factos não correspondem ao que imaginam, não hesitam em omitir e torcer para apresentar apenas a parte da verdade que corresponde ao que idealizam e agem de acordo com essa realidade sesgada. Não pode senão dar asneira. Isto é Obama, claramente. Repito, o pior presidente Americano do pós-guerra e, provavelmente, do século XX. Quer outro exemplo desta patetice toda? A generalidade dos tiroteios tem ocorrido em "gun free zones" mas isto é algo que raramente aparece em público porque expõe o disparate da narrativa de Obama sobre as armas. Quando estas coisas acontecem noutros sítios...

    http://controversialtimes.com/issues/constitutional-rights/12-times-mass-shootings-were-stopped-by-good-guys-with-guns/

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  6. Nem de propósito, acabo de ler isto num forum que sigo sobre uma temática totalmente diferente das armas mas que tem tido nos últimos dias um tópico sobre o assunto a propósito do travel alert emitido pelas autoridades das Bahamas. Uma frase deliciosa que cito integralmente e sem comentários:

    "Mostly we don't have a gun problem in the US, we have a US citizen with a gun problem."

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