segunda-feira, 20 de abril de 2015

O IRS

Nunca fui a uma repartição de Finanças nos EUA. Para pagar impostos, sempre tratei tudo por correio ou pela Internet. O normal é o meu contabilista submeter os impostos via Internet.

Quando se tem rendimentos de trabalho e não há grande património, tratar dos impostos nos EUA é muito fácil. Cada formulário tem instruções detalhadas e exemplos para nós seguirmos. Quando comecei a estudar na universidade aqui, havia workshops para ensinar aos estudantes estrangeiros como fazer os impostos, mas seguindo as instruções também lá se vai. Vejam as instruções de como preencher o formulário normal, que é o 1040. Está tudo explicado passo por passo e o IRS diz-nos os nossos direitos e as nossas responsabilidades. Em Portugal, para fazer impostos, tenho de procurar informação nos jornais de quais as deduções a que tenho direito. As instruções do formulário não me dão essa informação.

Quando comecei a namorar com o meu marido, ele costumava preencher o formulário rápido 1040-EZ, que é para quem não tem deduções. Eu disse-lhe que ele devia preencher o normal, pois assim poderia deduzir as despesas de educação e os impostos estatais. Nesse ano eu fiz-lhe os impostos--era fácil, bastava seguir as instruções--e ele recebeu mais de $2000 de reembolso, muito mais do que se ele tivesse feito através do formulário fácil. Houve um outro ano, ainda antes de nos casarmos, em que ele submeteu os impostos e recebeu um reembolso maior do que o esperado. O IRS detectou um erro e devolveu-lhe o montante correcto, sem que ele tivesse de fazer nada.

Há cerca de quatro anos, o IRS enviou-nos uma carta para nós produzirmos recibos das despesas de educação porque o meu marido tinha regressado à universidade e nós usámos uma das deduções para despesas de educação. Nós enviámos um papel que a universidade nos envia, mas eles disseram que esse documento não era válido, era apenas um documento informativo, mas não era prova de pagamento, logo nós tínhamos de pagar quase $1800 num espaço de 30 dias. Enviámos o cheque e também contactámos a universidade para obter o extracto de tudo o que tinha sido pago e enviámos com o cheque. Passados umas semanas, recebemos um envelope com um cheque do IRS devolvendo o que tínhamos pagado. Tudo foi tratado por correio, não tivemos de falar com ninguém directamente, a não ser o nosso contabilista e a universidade.

Tudo isto a propósito desta entrevista do Tiago Caiado Guerreiro no Observador. É verdade, em Portugal, o estado dificulta ao máximo a informação e, não só viola leis, como trata mal quem o sustenta. E depois os nossos governantes e os candidatos a governantes pagam os impostos que devem apenas se lhes apetece...

Grécia: Eppur si muove

Vou dizer-vos uma coisa: eu deixei de ver TV depois da quarta temporada do True Blood. Foi a última série televisiva que segui. E foi a quarta temporada porque o livro quatro da Sookie Stackhouse foi o meu preferido, pois foi o que virou a história completamente e deu uma linha de continuidade aos livros. Eu li cerca de oito, se não estou em erro, acho que foi no livro nove que eu perdi o interesse por completo e já não terminei. Hoje em dia, as minhas novelas preferidas têm a ver com economia, e uma das que sigo atentamente é a da Grécia.

Num artigo da Bloomberg, é relatado que o governo grego passou legislação para transferir todas as reservas do governo local para tentar fazer face à suas obrigações com a Troika, que já não é Troika para eles, porque são um bocado Shakespearianos e mudaram o nome à rosa, apesar de o aroma ser exactamente o mesmo. Este comportamento da Grécia indica-nos que eles querem fazer tudo por tudo para continuar no euro. Nenhum governo de pessoas inteligentes gastaria todas as suas reservas de dinheiro para continuar a fazer face a responsabilidades de um projecto do qual pensam desistir. Se era para desistir, teriam guardado o dinheiro e feito planos de contingência para sair porque no caso de saída, essas reservas de dinheiro seriam críticas.

Ou seja, o Syriza parece que esperneia, é petulante, extremamente agressivo, e desafia a UE; depois acaba por fazer o que é preciso para ficar na UE e renega as promessas eleitorais que os elegeram, alienando os seus eleitores. Não sei até que ponto todo este drama que acompanha isto não é uma produção alemã porque ter uma Grécia mal comportada, que justifica fuga de dinheiro para países seguros e política monetária über-expansionista beneficia primeiramente a Alemanha.

Tenho pena de eu não saber grego para poder ler as notícias em grego, só para ter acesso a informação que não é distorcida pela máquina de comunicação social europeia.

domingo, 19 de abril de 2015

Um conflito geracional em marcha?

David Ricardo achava que o aumento da dívida pública seria anulado com um aumento da poupança privada porque, se assim não fosse, seria a geração seguinte a ter de pagar a dívida contraída pelo governo no presente. O facto de as gerações estarem ligadas por heranças aos herdeiros deveria bastar para assegurar essa sensibilidade em relação ao futuro. A história mostra que as coisas não são bem assim. Seja por «ilusão fiscal», seja por pura indiferença em relação ao futuro financeiro da próxima geração, a “geração presente” não parece comportar-se de forma altruísta em relação aos seus herdeiros. Esta realidade tornou-se mais evidente nas últimas décadas.

Entre 1960 e 1992, nos países industrializados, as transferências e subsídios subiram de 8 para 21% do PIB – Portugal também atingiu estes patamares na última década. Esta evolução do chamado Estado-providência gerou algumas perversões. Por exemplo, no Reino Unido, o quinto da população mais rica recebe mais 40% da despesa pública na saúde do que o quinto da população mais pobre - para o ensino secundário e universitário, os valores são, respectivamente, 80% e 500%.

De qualquer maneira, não há dúvida de que o Estado-providência reduz bastante a desigualdade inerente ao capitalismo. Sem as transferências e os subsídios, em 1991, na maioria dos países europeus, mais de um quinto de todas as famílias ficaria com menos de 40% do rendimento familiar médio. Graças às transferências e aos subsídios, a percentagem de famílias em “pobreza profunda” reduz-se a 5% ou menos.

Este crescimento do Estado-providência só foi possível com um grande aumento da dívida pública. Daqui resulta, para muitos, outra perversão, mais concretamente: uma transferência adicional dos contribuintes para os “rentistas” (os detentores de obrigações) sob a forma de juros da dívida. Esta foi uma consequência imprevista do Estado-providência: a ressurreição dos rentistas. Grande parte da esquerda não vê (ou não quer ver) a ligação entre a expansão do Estado-providência e o poder inaudito dos “rentistas” ou “especuladores”, como gostam de lhes chamar.

Durante grande parte do século XX (em especial nos anos 1920), foram os rentistas que se lixaram nas situações de aperto. A hiperinflação (o seu maior inimigo) levou à “eutanásia dos rentistas”, como lhe chamou Keynes. Desta vez, até porque os rentistas aprenderam a lição, o ajustamento está-se a fazer com o aumento dos impostos, sobretudo os do consumo – nos anos 1920 a correlação de forças era diferente e havia o medo do comunismo, o que levou os governantes a preferirem sacrificar os rentistas.

Em 2001, Niall Ferguson em “The cashus Nexus” (publicado recentemente em português com o título “A lógica do dinheiro”, donde retirei todos os dados acima referidos) previa que as dívidas públicas da maior parte dos países ocidentais se tornariam insustentáveis no curto prazo. Não se enganou.

Fergunson acha que o Estado-providência conseguiu, em grande medida, acabar com as velhas disputas entre rentistas, empresários e trabalhadores. Mas o preço foi um sistema de direitos universais que se tornou insustentável.

Segundo Ferguson, as “contas geracionais” (impostos líquidos totais durante vidas completas, ou seja, é a soma de todos os impostos futuros que os cidadãos nascidos em determinado ano pagarão durante as suas vidas, segundo a política actual, menos as transferências que receberão) estão desequilibradas na maior parte dos países ricos – o caso é mais grave em países como os EUA, Finlândia, Espanha e Suécia.

Ora, este desequilíbrio das “contas geracionais” torna inevitáveis futuros cortes na despesa ou aumentos de impostos. Das duas, uma: ou a próxima geração acabará a pagar impostos mais elevados para as pensões e outras transferências da presente geração, incluindo os juros das obrigações; ou os direitos dos idosos são reduzidos, com cortes nas pensões e um aumento forte da inflação (penalizando sobretudo os rentistas), e neste caso a conta será de novo paga pela geração que a gerou. Pode haver alguns paliativos: maior crescimento económico ou aumento da imigração – os imigrantes estarão em princípio em idade de trabalhar e de pagar impostos. Infelizmente, como é sabido, os sinais não são positivos a esse respeito, nomeadamente com a expansão dos partidos nacionalistas e xenófobos e de leis anti-imigração, o que é, à primeira vista, contraproducente em termos dos interesses económicos da sociedade a longo prazo.

Em princípio, os políticos, por motivos eleitorais, tenderão a privilegiar os mais velhos, até porque muitos dos futuros contribuintes ainda não nasceram sequer e, portanto, não votam, para já.

A idade não tem constituído uma fractura política decisiva. Mas o risco existe. Resumindo o argumento de Ferguson: o Estado-providência resolveu, em parte, as tradicionais disputas de classes (rentistas, empresários e trabalhadores), mas, se não for reformado, levará ao agravamento de um novo tipo de conflitos entre gerações.

sábado, 18 de abril de 2015

Fraude e abuso de crianças

No outro dia, recebi um telefonema a respeito de um dos meus cartões de crédito. Disseram-me que o meu cartão tinha sido usado duas vezes na América do Sul e que o sistema tinha identificado as transacções como potencialmente fraudulentas, logo gostariam que eu os informasse da sua legitimidade. Realmente eram fraudulentas, eu não fui à América do Sul, nem comprei nada na Internet, que pudesse ter sido pago lá.

Quando nós usamos um cartão de crédito, a informação da transacção é enviada para um computador que usa as características da transacção como inputs num modelo para determinar se deve ser aceite. Há vários tipos de modelos para fazer isto, uns mais sofisticados do que outros: modelos de variáveis dependentes limitadas, modelos de Markov escondidos, redes Bayesianas, etc. (Nos links incluí alguns papers como exemplos, mas muitos mais há.) Uns calculam a probabilidade de o cliente pagar o crédito ao banco, outros computam a probabilidade de a transacção ser fraudulenta, etc. A literatura está cheia de estudos destes modelos para efeitos de fraude de cartões de crédito.

Tenho especial carinho pelos modelos de variáveis dependentes limitadas porque são poderosos e relativamente fáceis de construir e usar e aplicam-se a muitas áreas, por exemplo, podem ser usados para determinar os factores de risco que afectam a probabilidade de uma criança ter excesso de peso. Talvez, já se tenham apercebido do que eu estou a pensar. Um modelo deste tipo poderia ser construído para identificar os factores que contribuem ou que estão associados a uma criança estar em risco de ser vítima de violência doméstica. Bastava digitalizar toda a informação dos casos de crianças que estiveram sob a alçada da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, ou outra entidade, e analisar os dados.

Poder-se-ia construir vários modelos: risco no espaço de um mês, risco no espaço de três meses, etc. Risco pode ser definido como uma hospitalização da criança, abuso sexual, morte, etc. Quando a CPCJ recebia uma denúncia, demorava-se uma ou duas semanas a recolher informação acerca da criança e bastaria fazer os inputs das características da criança e da sua família e ter-se-ia uma estimativa de risco, o que permitiria priorizar os casos.

Os modelos deste tipo também teriam uma outra vantagem: permitiriam identificar quais as características que aumentam o sucesso da intervenção, quer dizer, que factores é que estão associados a um nível de risco mais baixo: será que o ideal é fazer uma visita ao domicílio no espaço de um mês após receber a queixa, ou é mais eficaz mandar chamar a família ao gabinete, ou pedir a intervenção do Ministério Público quando se reúnem certas condições, etc. Análises deste tipo também seriam importantes quando se está a formular legislação porque permitiriam ao legislador fazer leis mais eficazes para a protecção de menores.

Os modelos não devem ser a única forma de orientar a acção destes serviços. As profissionais que lá trabalham poderiam ter uma percepção de risco para uma criança muito maior do que o que o modelo indicasse, o que deveria aumentar a prioridade do caso, mas quando os serviços têm recursos escassos e muitos casos, um protocolo de acção que use estes modelos seria bastante benéfico, que o digam as empresas que oferecem cartões de crédito aos clientes.

Ainda a escrita...

Ontem o meu dia foi intenso em questões de escrita e correspondência:
  • Às vezes passo por períodos em que acordo cedo e depois não consigo dormir, como aconteceu a noite passada, quando acordei antes das quatro da manhã. Decidi levantar-me e fui escrever uma curta carta a uma amiga e uma nota de obrigada à minha sogra, que me enviou uma lembrança por causa da morte da Stella, a minha cadelinha. Como eu mandei fazer selos com duas fotos da Stella, achei que seria uma boa ocasião para usá-los. Para além disso, umas das minhas coisas preferidas é receber correio a sério, logo também gosto de o enviar. Depois voltei para a cama e adormeci.
  • A caminho do trabalho, parei nos correios e aproveitei para enviar um pacote ao meu sobrinho em Portugal. Depois de preencher o formulário da alfândega, dirigi-me ao balcão onde um senhor de origem hindu me atendeu. Quando ele olhou para o formulário da alfândega, ficou encantado por eu ter escrito tudo muito legivelmente. É que ele tinha de passar as moradas e a descrição do conteúdo para o computador e ele disse que muitas vezes não conseguia ler a letra de quem escrevia, mas a minha letra era muito boa e ele conseguia lê-la. Fiquei feliz que uma coisa tão pequena o tenha feito feliz.
  • Este fim-de-semana, eu tinha considerado ir a Memphis, mas mudei de ideias porque vou ter visitas no próximo fim-de-semana e não quero encher a minha semana de diversões, pois a viagem demora-me 11-12 horas de carro para cada lado. Porque não voar? Porque os meu cães vão comigo e eu nunca meteria os meus cães num porão de avião. Para além disso, eu, um carro e uma estrada aberta é uma coisa excitante. She needs wide open spaces, como cantam as Dixie Chicks...

    Como cancelei a viagem, telefonei à minha amiga Elinor, que vive na minha casa em Memphis para dizer que não iria. Conversámos por alguns minutos e ela disse-me que tinha conversado com o Alex, o senhor que me cuida da relva do jardim. Durante a conversa, ele disse à Elinor que gostava muito de receber o meu pagamento pelos serviços. Dizia ele que eu era a única pessoa que lhe enviava cartões escritos à mão, juntamente com o pagamento, onde lhe dizia obrigada por cuidar do nosso jardim e lhe desejava uma boa semana. Ele já está no negócio da relva há mais de 20 anos. E acrescentou ele "What a nice lady she must be!"

    A última vez que conversei com o Alex foi ao telefone, talvez há coisa de um mês, para lhe pedir para ele ir recolher as folhas que tinham caído durante o inverno. Quando lhe telefonei, estranhei o seu tom de voz. Estava feliz, meteu conversa comigo, e acabámos por conversar durante meia hora. Depois de eu falar com a Elinor é que eu me apercebi a razão de ele ter sido tão amigável: foram os meus bilhetes de obrigada. Havia alturas em que eu chegava a casa e o jardim estava tão giro porque ele tinha estado lá com a equipa dele, que eu ficava mesmo feliz e achava por bem dizer-lho aquando do pagamento.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Antes da natalidade, acabem com a brutalidade

Abri a página do Público e, para além da morte de Mariano Gago, estava em destaque o caso de um menino de quatro anos que foi sujeito a maus tratos pelo padrasto. O menino sobrevive à sua irmã, de dois anos, que morreu vítima desse mesmo padrasto. Diz a notícia:
A denúncia anónima, que chegou à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Loures em Setembro, dizia respeito a “negligência da mãe e à possibilidade de as duas crianças serem vítimas de maus tratos”. A queixa não referia maus tratos graves, mas descrevia uma situação em que “as crianças ficavam entregues, que a mãe não dava os cuidados básicos essenciais, que tinha tido vários companheiros”, explica Fátima Duarte.

A retirada pode ser decidida pela CPCJ, se houver o consentimento da mãe, ou por um juiz, no caso de não haver consentimento ou de o Ministério Público decidir chamar a si o processo e propuser essa medida. “Até agora”, o Ministério Público não chamou a si o processo, confirma a responsável.

A denúncia não preveniu a tragédia, como reconhece Fátima Duarte. A técnica confirma que não houve nenhuma visita à casa da família por parte dos elementos da CPCJ de Loures mas explica que a instituição iniciou diligências para encontrar a mãe e obter o seu consentimento. “Mas foi muito difícil. O tempo foi passando e aconteceu esta tragédia.”

O caso estava entretanto a ser acompanhado pelo Núcleo de Crianças e Jovens em Risco no Centro de Saúde de Loures e a CPCJ local deciciu não avançar com nenhum tipo de intervenção. “Nalguns casos, a intervenção de primeira linha consegue resolver as situações e não é necessária a intervenção da comissão”, explica. “Neste caso, e em concordância com o Núcleo de Crianças e Jovens em Risco no Centro de Saúde de Loures, não houve intervenção.”

"Mas foi muito difícil. O tempo foi passando..." diz a técnica. Eu adoro o surrealismo, eu adoro esta percepção de urgência que se tem em Portugal, que nem dá a estas pessoas que trabalham nestes sítios, vontade de ir visitar a casa de duas crianças que podem estar em perigo. Para mim, a dificuldade reside em perceber como é que se dorme sabendo que estas coisas acontecem no sítio onde trabalhamos. Há algum controle de risco nestes serviços? Qual é o número aceitável de erros? Não me digam que é zero, porque obviamente não é zero, basta ler os jornais. Eu preferia que fossemos honestos e dissessemos que, de vez em quando vão haver erros, mas há um esforço contínuo de colmatar falhas e não podem exceder um certo limite. Se excederem esse limite, deveria haver consequências para quem está à frente do serviço.

E, finalmente, eu gostaria de saber como é que o caso destas e de outras crianças se insere na política de natalidade que se anda a discutir. Há algum plano para minimizar maus tratos ou o objectivo é aumentar a natalidade o suficiente para absorver as vítimas da violência doméstica? Por favor, esclareçam-nos.

Yin / Yang. Ou, obrigado e desculpe, Professor.

Como escrevi ontem num comentário, uma das principais motivações para a conclusão da minha tese de doutoramento foi cumprir o nº 3 do art. 8º do capítulo III (Regime de Transição) do Decreto-Lei 205/2009, de 31 de Agosto. Este Decreto-Lei, que formulou o novo Estatuto da Carreira Docente Universitária, foi uma criação e uma batalha de Mariano Gago.
Apesar de várias discordâncias políticas e ideológicas, é evidente que a Ciência deve muito a Mariano Gago. Em sentido contrário, é o responsável político pela minha tese de doutoramento. Eu agradeço-lhe a primeira, o país saberá perdoar-lhe a segunda.

Façam bolhas...

A política monetária do BCE está a distorcer a percepção de risco na Europa, relata a Bloomberg. Empresas com bons perfil de risco conseguem bond yields muito próximas das de empresas consideradas lixo. E algum deste lixo está na própria Alemanha:
German health-care company Fresenius SE last year sold 450 million euros ($483 million) of bonds due February 2024 that were rated BB+, the top junk rating, and priced to yield 4 percent. They now yield 1.8 percent, according to data compiled by Bloomberg. That’s approaching the average yield of 1.04 percent for similar maturity bonds with an average rating four levels higher at A3, Bank of America Merrill Lynch index data show.

“The difference between investment-grade and junk used to be a cliff,” said Jonathan Pitkanen, London-based head of investment-grade credit research at Columbia Threadneedle Investments, which manages about $200 billion in fixed income globally. “These days it’s more of a bump.”

Depressa, para o BenMobile...

Quem precisa de um Batman, quando um Ben Bernake é tão prestável em combater os maus da fita? Há duas semanas, Ben Bernanke decidiu dar porrada na Alemanha: diz que a Alemanha é "subsidiada" pelo euro e, por isso, rouba crescimento a outras economias, pois se a Alemanha tivesse moeda própria, não conseguiria exportar tanto, o que produziria oportunidades de exportação para outros países. E, não contente com uma moeda fraca, a Alemanha também insiste em seguir políticas internas que suprimem a sua procura interna. Diz o nosso Gentle Ben:
First, although the euro—the currency that Germany shares with 18 other countries—may (or may not) be at the right level for all 19 euro-zone countries as a group, it is too weak (given German wages and production costs) to be consistent with balanced German trade. In July 2014, the IMF estimated that Germany’s inflation-adjusted exchange rate was undervalued by 5-15 percent (see IMF, p. 20). Since then, the euro has fallen by an additional 20 percent relative to the dollar. The comparatively weak euro is an underappreciated benefit to Germany of its participation in the currency union. If Germany were still using the deutschemark, presumably the DM would be much stronger than the euro is today, reducing the cost advantage of German exports substantially.

Second, the German trade surplus is further increased by policies (tight fiscal policies, for example) that suppress the country’s domestic spending, including spending on imports.

In a slow-growing world that is short aggregate demand, Germany’s trade surplus is a problem. Several other members of the euro zone are in deep recession, with high unemployment and with no “fiscal space” (meaning that their fiscal situations don’t allow them to raise spending or cut taxes as a way of stimulating domestic demand). Despite signs of recovery in the United States, growth is also generally slow outside the euro zone. The fact that Germany is selling so much more than it is buying redirects demand from its neighbors (as well as from other countries around the world), reducing output and employment outside Germany at a time at which monetary policy in many countries is reaching its limits.

E, a meu ver, ainda há outra coisinha: se um dia os investidores se virarem contra a Alemanha e lhe retirarem o privilégio de financiamento a taxas ridículamente baixas, vai haver fogo de artifício...

Então não havia nada a fazer...

Hoje vi uma foto de Coimbra (acima) com uma pequena inundação que resultou de uma chuva intensa de apenas meia hora. Podeis crer que não fiquei muito feliz. Então fui à procura de cartas hidrográficas de Portugal na Internet. Sabem, é que nos EUA há cartas que nos indicam onde são as flood plains (zonas de inundação) de 25 anos, de 100 anos, etc. Faz parte do sistema de gestão de risco do país. Por exemplo, quando nós compramos uma casa com um empréstimo bancário numa zona de cheias com certa frequência, somos obrigados a ter um seguro contra cheias. E claro, quando compramos a casa, quem vende é obrigado a informar-nos do risco que corremos. Grande inovação, não acham? A Federal Emergency Management Agency é que trata de avaliar e mitigar os riscos das emergências. Quer dizer, trata destas coisas quando os governos republicanos não destroem a agência com a mania do governo pequeno e as emergências acabam em fiascos como os furacões Katrina e Rita. Aqui está o mapa do sítio onde eu moro agora.

Dizia eu que fui à caça de mapas para Portugal e encontrei várias notícias recentes a dizer que Portugal tem 54 zonas de cheias. Não especificam o risco destas zonas (qual a frequência), mas ao fundo da notícia do Correio da Manhã diz que os mapas servem para respeitar uma directiva europeia "transposta para o direito nacional pelo decreto-lei n.º 115/2010, de 22 outubro". E depois de ler isto fiquei completamente confusa. É que eu ouvi alguém politicamente importante em Portugal dizer que não havia nada a fazer a respeito das inundações, e essa informação foi pronunciada cinco anos depois da lei portuguesa, que adoptava a europeia, obrigar Portugal a fazer qualquer coisa.

Então, em que ficamos? É para fazer qualquer coisa ou não? Ou o fazer qualquer coisa significa fazer os portugueses passar por parvos?

Ah, pois é, nós, aqui no outro lado do Atlântico, estamos sob os seguintes avisos para que tenhamos sempre o que fazer. Ele há avisos de inundações rápidas, inundações mais lentas, tornados... E estamos no meio de uma tempestade de relâmpagos. É uma maravilha!

E nós, pimba, Deleuze.

É provável que a visão pós-moderna da arte contemporânea seja a antítese do pensamento de Oscar Wilde. O escritor irlandês escreveu isto no prefácio do Retrato de Dorian Gray: 
"O artista é o criador de coisas bonitas. Revelar a arte e esconder o artista é o objectivo da arte."
Pronto, lá se iam os artistas performativos. E a Ana Malhoa.

Love's Labour's Lost

Num desses encontros, um contemporâneo da licenciatura - na verdade, terminou-a um ano depois de mim -, colega de curso de mestrado, e actualmente professor associado, disse-me: "O Nuno doutorado será uma descaracterização de si."
Na verdade, meu caro, foi apenas como a prostituição. Fazer o que é pedido em troca de dinheiro. Ou, para quem não aprecia alegorias de exclusão social, foi como algum sexo no casamento. Sem prazer nem vontade, mas para manter a felicidade conjugal.

Not that ISI

Encontro gente pelos corredores da universidade que me pergunta gentilmente pelo doutoramento, muitas vezes pelo tema abordado. À minha resposta, é costume interpelarem-me a bibliografia.
"Leste este? Criticaste aquele? Reviste aqueloutro?"
Calma, gente, só escrevi uma tese, não foi nenhum artigo científico.

Olá

Recebi ontem o catálogo da Boden, mas esqueci-me de olhar para ele. Lembrei-me hoje e, ao desfolhar, admirei imediatamente duas coisas: a cesta da modelo (não tirei foto), que não está à venda, mas que me recorda das cestas portuguesas da minha infância, e os azulejos. Pensei em Portugal, mas nas páginas não dizia o local. No entanto, ficam avisados que o meu faro para estas coisas é muito bom, logo ficou a dúvida e uma nota mental.

Depois, dediquei-me a ser pragmática e tentei encontrar a roupa que estava na capa do catálogo, pois o corte recordava-me de uma túnica que eu tenho deles, mas não a encontrei, o que achei estranho. O que eu encontrei, escondido sob meia página dobrada, na página de trás da capa, foi a minha confirmação: um "Olá" e um pedido de desculpa. Diz o Johnnie para eu o desculpar pelo português do "Olá", pois estão em "city break". Johnnie, dahlin', consider yourself excused!

Eu desculpo qualquer coisa a quem decide fazer fotos para um catálogo em Portugal.

P.S. E as pedrinhas da calçada são tão queriduxas...

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Qual o maior obstáculo das mulheres?

São as próprias mulheres, a começar por esta CEO do Texas, a minha terrinha actual. Diz ela que não é conveniente uma mulher ser Presidente dos EUA por causa das hormonas e de não ser correcto de acordo com a bíblia. Antes que vocês me perguntem que raio faço eu no Texas, eu digo-vos: dá-me um gozo enorme ser do contra e o meu voto anula o dela. Mas não é tudo mau, eu vivo em Houston e a mayor de Houston não é só mulher, também é homossexual. Imaginem vós: a quarta cidade maior dos EUA, que é a maior cidade do Texas, que é um sítio cheio de pessoas realmente com ideias muito interessantes e retrógradas, é governada por uma mulher homossexual. E Houston é a cidade que mais cresce nos EUA e ela participou nesse crescimento...

Agora vocês perguntam-se porque é que eu não tenho tanto carinho pela ideia de ter uma mulher à frente em Portugal. É simples: Portugal está em grandes sarilhos, é muito provável haver uma outra crise antes de 2020, logo porque razão quereria eu uma mulher à frente das coisas quando o país implodisse novamente? Para que o insucesso de Portugal fosse associado à governação de uma mulher, apesar de não ter sido ela a escavacar o país? É injusto! E há muito boa gente em Portugal que torceria contra uma mulher só pelo prazer de a ver falhar, mesmo que isso fosse contra os seus próprios interesses e os interesses de Portugal.

Em 2008, eu gostaria que Hillary Clinton tivesse sido presidente nos EUA, mas hoje acho que foi melhor que Barack Obama tivesse sido presidente. As mulheres são muito mais alvo de comentários negativos do que os homens mestiços. É muito comum ouvir-se "She must be in that time of the month", "Must be the hormones" , etc. Está bem que a Sra. Clinton já está na menopausa (ah, mesmo na menopausa pode sofrer de calores, como presume a CEO texana), mas os americanos gostam de gozar com ela, apesar de ela ter sido uma advogada muito mais competente do que o marido. E depois convenhamos, nunca foi alcoólica como Bush II, nem nunca foi apanhada a trair o marido, mas a sua virtude não é valorizada. A virtude nas mulheres não é valorizada; é esperada.

É mais do que justo que seja um homem a reabilitar o país depois de um homem enterrar o país.