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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Confiança e lucro

Uma história interessante de uma companhia privada que cuida de refugiados na Noruega. De realçar a história pessoal dos dois irmãos e a sua dedicação à expansão do sector privado, o que contrasta com a ideia de que no norte da Europa são todos socialistas. Fica aqui a filosofia de trabalho dos irmãos, que é baseada na confiança, mas recomendo a leitura integral do artigo:
“We have a coast culture in our companies,” Kristian says. “We are professional but informal, and we base everything on trust. When you grow up in a small place, you can’t do anything wrong. You get a bad reputation.”

Fonte: Bloomberg

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Frases famosas 8

8. Manoel de Azevedo Fortes, engenheiro-mor do reino quando ainda havia um lá para os séculos dezassete e dezoito,

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Já ganhei o dia...

Picture a city with an iconic golden bridge, trams, bronzed surfers and a vibrant technology industry. San Francisco? Definitely. But what about Lisbon?

The Portuguese capital already has the bridge, trams and surfers. Now it's starting to show off its tech strength too, with a raft of startups in Lisbon catching the attention of international investors.

Uniplaces was founded three years ago and finds accommodation for students across 38 countries. It has won backing from renowned angels such as Alex Chesterman, founder of Zoopla, and European venture capital firms including Octopus Investments.

Andre Albuquerque, head of growth at Uniplaces, thinks the Lisbon-San Francisco comparison is a valid one. "It's a booming environment and I see a lot of similarities from the energy of the people who are in both cities."

Fonte: Bloomberg

terça-feira, 18 de agosto de 2015

"Marcação"

Ontem, quando abri a página da Yahoo, apareceu uma rapariga, que me parece ser "importante". É uma actriz americana, a Shay Mitchell de quem eu nunca tinha ouvido falar; aliás, eu nem sequer tinha ouvido falar na série que ela faz, uma coisa chamada "Pretty Little Liars". Como eu deixei de ver TV depois da quarta temporada do True Blood, estou completamente desactualizada.

Tem 28 anos e aspirações de se tornar numa Gwyneth Paltrow. Digo isto porque, há uns anos, a Gwyn teve a ideia de criar uma página de "estilo de vida" chamada Goop. Era uma coisa tipo "Martha Stewart Living" para o século XXI. Hoje em dia, páginas à la Goop são mais abundantes do que cogumelos na relva depois de uma chuvinha de Outono.

A página da Shay Mitchell, que ela criou com uma outra pessoa que eu também não conheço, chama-se "Amore & Vita". Como sou curiosa, fui ver do que se tratava. O design pareceu-me estar muito ao corrente das últimas vagas estilísticas. Pergunto-me muitas vezes qual é o estilo que vai estar na moda a seguir a este...

Num dos posts lá do sítio, encontrei um artigo com "18 Dicas do Richard Branson para o Sucesso". Decidi ler. Eu até tenho o livro dele lá em casa porque um antigo aluno meu emigrou para a Austrália e decidiu que eu era a pessoa ideal a quem oferecer a sua mini-biblioteca, que está repleta de livros sobre sucesso e faria inveja ao Donald Trump. Foi assim que eu descobri que havia um tipo chamado Robin Sharma que escreve livros sobre monges e Ferraris. Ainda não me deu vontade de ler Branson, nem Sharma e, por vezes, penso que essa vontade nunca me irá chegar porque prefiro outro tipo de livros.

Ao ler as 18 dicas, houve várias das quais gostei. Deixo aqui a minha preferida, que é sobre gestão de marca, tendo sublinhado a parte da mensagem que eu acho mais importante:

Define your brand.

When it comes to defining your brand, Branson advises entrepreneurs to do the opposite of what he did with Virgin, which is spreading out all over the place. And while it’s true that Virgin branches into many different industries, Branson says the company is actually quite focused on one thing: “finding new ways to help people have a good time.”

Stick to what you know. Underpromise and overdeliver. Because if you don’t define your brand, your competitors will.

Portugal também tem marcas a crescer que nem cogumelos. Há quem diga que é mau serem tantas, mas eu acho que pode ser muito bom. Como a probabilidade de sucesso é muito baixa, é benéfico para o país haver* muitas tentativas para aumentar o número de marcas e empresas que sucedem. No entanto, espero que, a longo prazo, os casos de falhanço se devam mesmo a ineptitude dos investidores e gerentes, em vez de burocracia, excesso de impostos, acesso caro a infraestruturas, energia, e financiamento, legislação inadequada para o país, etc.

* Escrevi "haverem", um dos meus erros mais frequentes, e depois corrigi. Talvez ainda haja esperança que o meu português seja reabilitado e eu pare de misturar gramática inglesa com portuguesa.

terça-feira, 26 de maio de 2015

A NOS continua a assediar-me...

Abri hoje o meu email e tinha correspondência do meu procurador em Portugal. A NOS enviou-me uma carta cheia de mentiras. Reparem que me telefonaram, no dia 19 de Maio, a dizer que o caso estava resolvido e, alguns dias depois, confirmaram este facto a uma jornalista. Mas como são incompetentes, esqueceram-se de tirar esta cartinha do molho da correspondência que enviam para assediar as pessoas. A propósito, já vos disse que quando a NOS celebrou o "contrato" com a minha informação, o meu bilhete de identidade estava fora do prazo? Pois é, não tinha validade. Viva a NOS, viva a incompetência!

Notem o nível de asco da correspondência! A carta diz que me deram oportunidades de eu pagar a prestações, o que aos olhos dos advogados da NOS, faz da NOS uma companhia adorável. É pena que eu nunca tenha visto essa oferta; logo, mais uma coisa que faz da NOS uma companhia mentirosa. Esta carta também me diz que, muito provavelmente, a NOS diz que investiga um caso, mas o modus operandi é nunca desistir de um caso por mérito e seguir sempre a via do tribunal, sobrecarregando a justiça e passando o custo da sua incompetência para os contribuintes portugueses.

Eles decidiram desistir do meu caso porque eu fiz barulho nas redes sociais e o meu post foi partilhado por blogues como "O Insurgente". Não teve nada a ver com o mérito dos meus argumentos. Depois, como são estúpidos, esqueceram-se de tirar o meu nome da lista de vítimas e enviaram a carta.

Isto é uma clara violação da lei portuguesa, uma afronta à dignidade das pessoas, e uma péssima gestão de recursos. Pensem nisso quando contemplarem comprar algo da NOS; pensem nisso quando quiserem investir na NOS. Sabem o que eu quero? Eu quero que quando ouçam o nome NOS o associem a uma companhia mal gerida que não terá problema nenhum em assediar-vos e perseguir-vos quando lhe der na real telha.

Mas nem tudo é mau, porque isto também é uma razão pela qual eu vou fazer queixa destes advogados à Ordem dos Advogados e vou escrever à Ministra da Justiça a perguntar por que razão os meus impostos estão a ser gastos para manter um sistema de justiça que serve uma companhia terrorista que gosta de perseguir cidadãos que obedecem à lei.

Caros governantes de Portugal, quando falam em competitividade, a que competição se referem? É aquela em que as companhias competem entre si para ver quem trata pior as pessoas? É para isto que nós vos pagamos salários?

Ó querido CEO da NOS, já sinto pena de si por ter empregados que contratam um escritório de advogados tão mau: eles mentem, violam a lei, são mal-educados ao telefone. Não faz mal, terei muito prazer em ser o vosso Quebra-NOS. Querem luta? Encontraram a pessoa ideal! Bring it on...

P.S. O meu procurador é um amigo meu, que é meu procurador para efeitos fiscais, ou seja, para lidar com o Ministério das Finanças, mas a NOS gosta muito de me enviar correspondência ao cuidado dele.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Vamos a um copinho?

Eu já vos disse que Houston é uma das cidades que mais cresce nos EUA. O crescimento está a sair de áreas que eram tradicionalmente industriais para zonas mais recentes, sem uma grande história. Houston era uma pequena cidade até 1900, altura em que um furacão destruiu a ilha de Galveston e causou o maior número de mortes por causa de um furacão nos EUA. Entre 6.000 e 12.000 pessoas pereceram. Depois disso, Galveston, que era uma cidade muito cosmopolita, perdeu o brio e Houston começou a crescer por ser mais dentro de terra e, por isso, não estar sujeita a tanta destruição em caso de furacões.

Um dos artigos de hoje na Bloomberg fala das cidades nos EUA onde há mais crescimento: são as cidades a oeste. Oeste nos EUA é uma coisa relativa. Por exemplo, o Texas é sudoeste, apesar de na minha cabeça isto ser mais leste do que outra coisa. Se pensarmos que os EUA foram povoados do nordeste para oeste, ajuda a compreender a lógica subjacente, mas eu tento não pensar muito no que os americanos chamam às coisas e vou com a maré. No artigo da Bloomberg, há este pedaço que eu acho delicioso:

“The decline in manufacturing in the East, combined with an increase in service and technology jobs, is moving the country’s economic gravity westward,” said Kenan Fikri, a researcher at Washington’s Brookings Institution. “Compared to eastern cities, those in the West don’t have the economic baggage that comes from an industrial legacy.”

Estão a ver o copo, não estão? Estes sítios, por não terem uma história de indústria, têm uma vantagem relativamente aos sítios tradicionalmente industriais. As desvantagens do passado tornaram-se as vantagens do presente e futuro. O copo que costumava estar meio-vazio, está agora meio-cheio. Pensem nisso na próxima vez que vos disserem que o presente e o futuro de Portugal estão limitados por causa do seu passado não-industrial.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Prenda de natalidade para os governantes de Portugal

Caros Governantes Actuais e Futuros,

Parece que andam preocupados com a falta de bebés que as mulheres não produzem em Portugal. As mulheres também andam preocupadas com a falta de homens que lavam pratos lá em casa. É necessário um compromisso. O ideal será permitir, em Portugal, a poliandria: uma mulher e vários homens. Este arranjo é o ideal porque muitas mulheres para além de trabalhar fora de casa, também tratam de filhos e casa, ou seja, são multi-taskers. Os homens ainda não conseguiram obter tanta desenvoltura, logo é preciso um período de transição. A poliandria como suporte desse período de transição tem vários benefícios, como por exemplo:

  • As políticas actuais para governar Portugal causam depressão e homens deprimidos não têm vontade sexual, logo aumentando o acesso de uma mulher a vários homens, sem que a sociedade torça o nariz, ultrapassa-se esse problema facilmente.
  • É pro-natura: o pico da vida sexual das mulheres ocorre mais tarde do que o dos homens, logo é preciso mais do que um homem para as satisfazer, à medida que elas envelhecem.
  • Os homens teriam outro homem (ou outros) com quem partilhar a mancave e, partilhando as responsabilidades de casa, estas seriam feitas mais rapidamente, logo os homens poderiam jogar jogos de vídeo mais tempo.
  • Permite a uma mulher ter conversas especializadas: um homem com quem discutir poesia, outro matemática, etc.
  • Os lares terão pelo menos três salários ou três subsídios de desemprego/formação etc., o que permite economias de escala no consumo e aumenta a qualidade de vida dos cidadãos. Isto permite ao governo português continuar políticas de baixos salários, já que há uma clara incapacidade de produzir crescimento de salários (e da economia).
  • Esta política aumentaria a imigração de mulheres de outros países que viriam viver para Portugal.
  • É provável que mais homens estrangeiros também imigrassem para Portugal: o incentivo de ter mais tempo para jogar no computador ou na Playstation é imbatível.
  • Portugal seria visto como um dos países socialmente mais avançados no mundo e seríamos reverenciados internacionalmente pelo nosso engenho.
  • Haveria uma grande probabilidade de nós roubarmos população à Alemanha, em vez de eles continuarem a levar os nossos cérebros e a deixarem para os contribuintes portugueses a dívida dos ditos.
  • Os homens já passaram tempo suficiente a pensar em threesomes, agora é a vez das mulheres.

Claro que é necessário um estudo mais aprofundado desta alternativa. Sugiro que esse estudo seja conduzido apenas por mulheres, pois os homens já passaram tempo mais do que suficiente a forçar e a legislar o corpo da mulher. Nós já conquistámos o direito de decidir como melhor organizar a sociedade por uns tempos, pois os homens já tiveram esse privilégio por vários milénios.

P.S. Obrigada pela inspiração, Luís Lavoura. Isto é que é trabalho de equipa!

Turbinação do passado

Vi o vídeo da Ana Malhoa para me educar (ou será deseducar?). As mamas dela recordaram-me da última vez que fui a Las Vegas. Fui ao Crazy Horse com um amigo, que insistiu em comprar-me uma lap dance. Eu escolhi a moça, que era uma rapariga asiática, que eu achei bonita. Enquanto ela me conduzia ao sítio onde me iria fazer a lap dance, olhou para as minhas mamas e disse "Are those real?" Eu respondi "Yes", ao que ela disse "You're lucky, I had to pay for mine."

Inveja de mamas é uma condição que aflige muitas mulheres, mesmo as profissionais; também aflige alguns homens. Felizmente, ainda não tive de as espremer para ninguém. O cérebro espremo quase todos os dias. Work it, NAJ!!!

P.S. Tenho de meter isto em Competitividade: as mamas são uma vantagem comparativa...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tomem lá este pacote

Conversei agora com um amigo acerca de um pacote que ele enviou para os EUA. Ontem eu disse-lhe para usar o número do pacote que está no recibo para ele ver a situação do pacote na página dos CTT. Ele não sabia que o pacote tinha número no recibo. A página dos CTT dizia que o pacote já tinha sido expedido. Então hoje pergunta-me ele qual a página internacional onde fazer o tracking do pacote. Para os EUA é a USPS (United States Postal Service). Sabem porque é que ele me perguntou isto? Porque eu já o tinha ajudado com outro pacote.

Aqui há uns meses, a irmã do meu amigo enviou um pacote para uma pessoa em Londres. O pacote nunca chegou ao destinatário porque ela enganou-se na morada. O meu amigo não sabia isto, apenas sabia que não tinha chegado, logo foi aos correios ver o que tinha sucedido ao pacote. Não sabiam dizer nem sabiam como ele podia obter mais informação. Esse pacote tinha tido um seguro, não era correio normal, mas eles também não se disponibilizaram a accionar o seguro. Não havia nada a fazer--não é esta a solução de António Costa?

Ele falou-me no caso, pois estava frustrado. Eu disse para ele ver o número do pacote e ir à página dos CTT para ver se tinha saído de Portugal. Ele viu e já tinha saído. Então eu fui ao Google procurar a página dos correios britânicos. Nessa página, inseri o número do pacote e vimos qual a empresa privada que o tinha apanhado. Fui à página dessa empresa, meti o número e vi que estava retido em armazém porque como a morada estava errada, tinha sido recusado. Depois escrevi um email para ele enviar para o Customer Service da empresa britânica. Houve uma troca de emails durante alguns dias.

Durante este processo, o meu amigo disse-me "Como é possível que tu me tenhas ajudado mais do que as pessoas que trabalham para os CTT?" Eu nunca trabalhei para os correios, mas sei como o processo funciona. Há pessoas que trabalham para os correios e não sabem como funciona, nem demonstram interesse em aprender e atender bem o cliente. Sempre que eu envio algo nos EUA, o empregado dos correios americanos informa-me que há um número no recibo com o qual eu posso acompanhar o pacote. Depois dizem-me que, dentro dos EUA, eu posso estar descansada que as coisas funcionam relativamente bem; quando o pacote sai dos EUA, eles dizem que não se podem responsabilizar pela performance dos correios estrangeiros.

Portugal é um país com uma alta taxa de desemprego. É impossível que estas pessoas que têm emprego nos correios, e que demonstram este desinteresse pelo que fazem, sejam o melhor que existe no país. E é triste que quem tenha emprego não sinta que tê-lo é um privilégio e não dê o seu melhor para contribuir para a empresa e para Portugal, especialmente numa área tão sensível como os correios.

terça-feira, 7 de abril de 2015

I'm just fooling with you!

Para além das pessoas que nele escrevem, há duas coisas que eu acho muito giras neste blogue, "A Destreza das Dúvidas": a primeira é o título, porque eu gosto muito de duvidar e devo isso ao Descartes e ao sistema de ensino português, que nos deu a ler "O Discurso do Método" no ensino secundário; a segunda coisa que eu acho engraçada é mais obscura e tem a ver convosco e a escolha colectiva que vocês fazem. Essa segunda coisa é que um dos posts mais lidos no blogue é sobre Daniel Kahneman e o seu livro "Thinking Fast and Slow". Eu ainda não li o livro, mas já li muitos artigos de Kahneman e muitas entrevistas e vi muitos vídeos dele. A primeira vez que encontrei o trabalho dele foi numa aula de doutoramento de "Advanced Production Economics", a propósito dos enviesamentos que os investidores (profissionais) têm.

Pensar rápido quer dizer que se suspende a dúvida, gosto particularmente da expressão em inglês "suspension of disbelief" (suspensão da incredulidade). Há um custo em abrandar para pensar e nem sempre esse custo vale a pena, é por isso que nós desenvolvemos instintos de sobrevivência. Talvez há dois anos, eu e um amigo fomos a um centro comercial. Ele queria comprar um creme para a cara. Ele tinha 26 anos, eu tinha 40. Quando ele soube a minha idade, pouco tempo depois de me conhecer, ficou chocado. Mais tarde pediu-me ajuda e disse "Eu não sei o que tu fazes, mas eu quero fazer o que tu fazes porque tu não pareces ter 40 anos." Fomos a um balcão da Estée Lauder e ele pediu para ver os cremes e começámos a conversar com a empregada. A certa altura ele disse a idade dele e depois perguntou à empregada para adivinhar a minha. Ela disse 28. Nós rimos. Depois de sairmos da loja, ele e eu conversámos sobre o episódio e o nome de Kahneman surgiu porque o que nós fizemos com a empregada, sem querer, foi "anchoring bias"--enviesamento de ancoragem. A idade que ela me deu foi condicionada pela idade que ela sabia que ele tinha.

Ontem, no post acerca da minha mediocridade, eu explorei este enviesamento convosco para gerar dúvida. Falar em Clinton, Reagan, ou num salário alto, cria uma âncora para vocês determinarem um valor--enviesa a vossa opinião. Mas enviesa no sentido oposto ao que vocês tinham porque, ao pensar que a minha universidade era fraca, vocês já estavam enviesados a meu respeito. Há um custo em pensar devagar e obter informação e nós usamos outra informação mais fácil de obter para formar opiniões. A fama da universidade onde uma pessoa estuda é informação relativamente fácil de obter e, muita gente, usa isso para calibrar a opinião que tem acerca do valor profissional dessa pessoa. Há uns meses atrás disseram-me que Carl Sagan era um cientista medíocre porque não lhe deram "tenure" (efectividade) em Harvard. Eu retorqui com o exemplo de Einstein, pois o grande contributo de Einstein foi pensado quando ele trabalhava no gabinete de patentes, depois de não ter conseguido obter uma posição a ensinar numa universidade--seria Einstein um cientista medíocre, perguntei. Responderam-me, então, que Einstein não fora verdadeiramente um cientista porque não trabalhava numa universidade quando fez as suas descobertas mais importantes. Conclusão: Sagan medíocre, mas cientista; Einstein nem sequer era cientista e, obviamente, medíocre.

Quando Einstein falava do gabinete de patentes, dizia que era muito vantajoso trabalhar ali porque intelectualmente não era tão exigente e ele tinha muito mais tempo para pensar. O facto de Einstein estar num ambiente pouco competitivo libertou recursos mentais que ele usou para desenvolver ideias que eram muito avançadas para a época. A competição impõe um custo mental para algumas pessoas, mas nós usamos ambientes competitivos para hierarquizar o valor das pessoas. Pessoalmente, eu sei que não me dou bem em ambientes competitivos, logo nesses ambientes eu tenho resultados medíocres. Os sítios onde eu me dou melhor são sítios onde há mais cooperação e menos competição. A única pessoa com quem eu compito é comigo própria: defino uma ideia do que eu quero atingir, porque sei que sou capaz, e dirijo o meu esforço nesse sentido.

Portugal é um país onde há demasiada competição e cultivo do individualismo, logo eu não me dou bem aí. Os EUA, que são conhecidos por serem mais competitivos e individualistas, têm uma sociedade mais cooperativa do que a portuguesa actual. Parece contraditório, mas é verdade. Basta vocês pensarem nos acidentes naturais que acontecem nos EUA e na forma como toda a sociedade americana os encara.

Pensem na época de ouro de Portugal: os Descobrimentos. O que eram os Descobrimentos? Foram um esforço de cooperação da sociedade, quando o sector privado e o estado cooperaram para definir objectivos, uma estratégia, e a sua execução. Toda a sociedade estava alinhada no mesmo sentido. Pensem nos marinheiros que navegavam: todos juntos, nuns barcos frágeis, com pouca informação, e num ambiente muito adverso, como é que eles conseguiram sobreviver? Trabalhando juntos e cooperando. Agora pensem no Portugal actual e deixo-vos esta pergunta: em que porção do nosso sistema educativo é que nos ensinaram a trabalhar juntos e a cooperar com outras pessoas?

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Baby, I'm a fool

Quando eu andava no décimo-segundo ano, fartava-me de calcular a minha média para entrar a faculdade. Nessa altura, eu não tinha computador nem folhas de cálculo, era tudo à mão. A minha mãe via-me todos os dias a fazer cálculos de médias presumindo vários cenários e dizia que eu estava prestes a enlouquecer. Mas eu não desistia nunca de massacrar os números.

Se eu quero uma coisa, eu sou muito obsessiva e, infelizmente, falta-me um gene: aquele gene que nos faz desistir facilmente. O que vale é que eu sou bastante desinteressada e não quero muita coisa. Eu sabia que não era uma aluna excelente, mas também sabia que as minhas notas da escola não revelavam tudo a meu respeito, logo tinha de arranjar maneira de compensar com as notas da PGA e do exame de matemática. Calcular a minha média ajudava-me a idealizar uma estratégia e a focar-me no meu objectivo, da mesma forma que os jogadores pensam em como vão marcar o golo, não pensam em como vão falhar o golo.

Quando eu decidi que queria vir para os EUA fazer um mestrado, foi a mesma coisa: defini uma estratégia para o que eu queria. Eu só tinha dinheiro para vir um semestre e a universidade para onde eu iria não poderia ser muito cara, mas como já conhecia uma universidade e sabia que tinha imediatamente emprego part-time, havia uma grande vantagem em regressar à mesma universidade, pois eliminava uma grande porção da incerteza. Para além disso, eu tinha-me apaixonado por um gajo de lá--isso ajudou-me a decidir vir para os EUA, mas não determinou. Eu nunca decido nada baseado em homens: os homens vão e vêm, mas eu fico. As minhas decisões são baseadas naquilo que me faz confortável. Não acho saudável ficar numa situação em que eu pense "Se não fosses tu, eu estaria melhor!" Isso é meio caminho andado para o insucesso e eu não gosto de falhar antecipadamente.

Depois também havia a minha área de interesse. Eu já me interesso por questões ambientais e agricultura desde o início dos anos 90. O meu tio disse-me há dois anos que o meu bisavô era agricultor, logo a culpa deve ser dele. Eu achava que iriam ser áreas muito importantes. E eu tinha razão, poucos anos depois de eu sair do doutoramento, os EUA começaram a produzir etanol de milho, o que ligou o mercado de energia ao mercado de milho, apesar de já estarem um bocado ligados antes porque o gás natural é usado para produzir alguns fertilizantes de nitrogénio que são usados para produzir milho. Depois a Goldman Sachs começou a investir em commodities agrícolas e o mercado de especulação em agricultura expandiu, logo de um momento para o outro esta área onde eu agora trabalho ganhou outro brilho.

Notem que especulação não é uma coisa automaticamente má, é o que dá oportunidade a quem produz e a quem consome commodities para gerir risco. O que é isso de gestão de risco? O objectivo é um agricultor ou uma empresa que compra commodities não ir à falência, logo o especulador acaba por assumir parte desse risco. Assim como quando vocês compram um seguro para o vosso carro, o objectivo é terem alguém que assuma parte do risco ao qual vocês são expostos quando conduzem. Mas vocês pagam a alguém para assumir esse risco, logo é normal que os especuladores façam dinheiro. Se eles não fizerem dinheiro, a oportunidade para gerir esse risco desaparece.

O Departamento de Agricultural Economics da Oklahoma State University tinha mais dinheiro para financiar estudantes do que o Departamento de Economia. Eu já tinha falado com ambos os departamentos antes de sair dos EUA a primeira vez, logo já estava no sistema, não era uma incógnita. Era simples, eu tinha um semestre para vir e arranjar uma maneira de financiar o meu mestrado. Não havia margem para erro. Há certas alturas na vida em que não há margem para erro, gestão de risco é essencial. A vida não é uma optimização sem restrições; é exactamente o oposto, é uma optimização com restrições. Quem não sabe as restrições que tem, não sabe qual é a área de viabilidade do problema, nem o conjunto de soluções de onde vai sair a "solução óptima".

E depois há que ter em atenção que isto é um processo dinâmico. As coisas estão sempre a mudar: umas vezes muito, outras vezes pouco. O meu objectivo não é ser a campeã absoluta no próximo desafio; os meus objectivos são: (1) não ser eliminada do jogo e (2) expandir o número de oportunidades futuras. É um jogo de sobrevivência. É por isso que o Warren Buffett é agora um dos gajos mais ricos do mundo. Já viram há quantos anos ele sobrevive? A minha vantagem comparativa é que eu me apercebi desta dinâmica quando era ainda muito jovem e eu sabia muito bem quais os meus pontos fortes e quais os fracos, logo foi mesmo uma questão de usar "leverage", para além de ter tido muita sorte.

E por falar em enlouquecer, aqui vai um tema da Melody Gardot, "Baby, I'm a fool!"

sexta-feira, 27 de março de 2015

Surrealismo europeu...

Hoje fui ler o Der Spiegel por causa do acidente aéreo, dado que a Blommberg tinha-me enviado uma notificação push por causa dos documentos que foram encontrados em casa do piloto. Não se preocupem, eu não sei tudo--eu não sei ler alemão, apesar de eu achar que alguns dos poemas de Rainer Maria Rilke são muito bons, mas eu leio a tradução em inglês.

Na página do Der Spiegel em inglês, está lá uma notícia de como a Espanha recuperou e está a emergir como um modelo para a Europa. O artigo é comprido, diz que a Irlanda e Portugal também são exemplos a seguir:

Along with Portugal and Ireland, Spain represents an example of how an economic crisis can be turned into an opportunity. These countries' experiences show that a nation can recover its economic competitiveness through painful reform, even in a monetary union.
A Grécia é um exemplo a não seguir:
[...] Spain -- especially in the eyes of liberal economists -- represents the counterpoint to Greece, which has gotten entangled in its national battle against economic relegation and is losing ever more time with its recriminations against the rest of the euro group. That's one view.

E o que é que faz a Espanha tão magnífica aos olhos dos alemães? É que se tornou numa mini-Alemanha:

The model being emulated by the country during its upturn is unmistakable. During the crisis, Spain copied the German economic model, successfully putting its emphasis on exports. In 2014, almost one third of Spanish goods and services were shipped outside of the country. 25,000 new jobs were created in the Spanish car factories of Opel, Seat, Renault, Ford and Nissan alone. Once the unions consented to making production more flexible, Mercedes invested €190 million ($208 million) in the factories. "We've been on the move," says López, who also once worked in Stuttgart.
E depois há cerejas no cimo deste bolo, porque para ajudar isto tudo, o euro está barato--obrigada, ó Grécia. Syriza, seus malucos, vocês dão um jeitaço...
The European Central Bank is predicting that Spain will be one of the economic drivers of Europe in 2015. Powered by a cheap euro and low interest, economic growth is predicted to rise by 2.3 percent this year. The Spanish government is expecting one million additional jobs for 2014 and 2015.

Mas note-se, todo este sucesso depende muito da indústria automobilística: o que está a crescer são as exportações de automóveis. Isto faz muito sentido, porque em Portugal o que está a crescer são as vendas de automóveis. Está a dar-me vontade de ouvir o GRAVITY do James Brown porque o modelo de gravidade de comércio internacional prevê que a maior parte do comércio internacional de um país é com os países vizinhos. Há uma atracção entre países vizinhos para comercializar uns com os outros, uma coisa parecida com a lei da gravidade.

Há umas nuvenzinhas, porque isto é tudo surreal como os quadros do René Magritte--já viram aquela garrafa de vidro que ele pintou com nuvens? As garrafas estão em saldo, tomem lá três pelo preço de uma:

A questão do desemprego espanhol é uma grande porcaria: acima de 23%. Fuck me running backwards on a rainy day!!! Como é que um país em que uma em quatro pessoas está desempregada é um modelo para o que quer que seja, especialmente quando os países têm dívidas públicas anormais? Só na União Europeia... Se se dissesse uma coisa dessas nos EUA, ser-se-ia tão ridicularizado que, por isso, ninguém se atreve a fazê-lo, nem sequer pensá-lo.

Reparem, não há nada diferente na UE. Ter desemprego anormal é normal. E dar subsídios independentemente do valor dos projectos para a economia continua a ser o modus operandi, apesar de o Der Spiegel dizer que há mais cuidado. Não há mais cuidado nada, a própria revista afirma que os subsídios foram cancelados por causa de uma reportagem deles. Diz o Der Spiegel:

Even the European Union, for whom Spain was one of its biggest subsidy recipients, has become more careful. It had plans to co-finance the unnecessary expansion of a container terminal in Cádiz, Andalusia, which has been little used for years. In the wake of a SPIEGEL report about the plans in October, the EU cancelled its co-financing in early March. Now Spain needs to submit a new project proposal for the project, which the public port company had already almost finished building using loans.
Mas note-se que quem barafustou pelos subsídios à Espanha foram os media alemães; os espanhóis ficaram caladinhos...

sábado, 7 de março de 2015

Malandro do mercado...

Aviso: Isto é comprido! Desculpem lá esta barbaridade...

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Às vezes, as pessoas tentam explicar-me que o mercado é mau. É um estupor este mercado, trata mal as pessoas, não tem pena de ninguém, e tem uma grande predilecção por fazer mal a Portugal. Eu que sou economista sirvo o malandro do mercado. Tudo de mau que o mercado tem, nós economistas também temos. É uma visão um bocado pessimista das pessoas...

Eu gosto do mercado, especialmente do mercado D. Pedro V em Coimbra, onde as senhoras vão vender a fruta e os legumes que produzem. É um mercado que funciona bem, talvez por ser dominado por mulheres--vá lá, não se irritem, isto é uma pequena provocação porque os portugueses precisam de se rir e sorrir. Ultimamente, quando passo por esse mercado fico um bocado triste porque não se vê quase ninguém da minha idade ou mais jovem. Muitas pessoas não gostam destes mercados dos quais eu gosto; gostam dos supermercados e dos hipermercados, que eu acho um bocado estéreis e pouco interessantes. Mas entendo porque gostam dos "mercados" modernos, pois permitem que se compre uma variedade maior de coisas na mesma viagem, logo são muito convenientes.

Só para verem o quanto eu gosto destes mercados dos agricultores, vou dizer-vos que o meu cão Alfred ia comigo ao Farmers' Market em Fayetteville, no AR, todos os Sábados de manhã. Então se eu mencionasse "Farmers' Market", o Alfred imediatamente ia para a porta de acesso à garagem pôr-se a postos para ir às compras. Era um mercado numa praça da cidade e os cães eram bem-vindos. Depois disso, ainda não encontrei outro Farmers' Market onde eu pudesse levar os meus cães.

Em economia, nós dizemos que os preços são a forma como a informação circula no mercado. Quando se acompanha um mercado estamos essencialmente a acompanhar o preço actual e depois usamos informação fundamental do mercado (acerca de quantidades produzidas, procuradas, armazenadas, etc.) para vermos se o preço reflecte essa informação e para formarmos expectativas de preços futuros. Ora se os preços são a forma como produtores e consumidores comunicam, é importante haver uma forma de todos terem acesso a essa informação para que haja realmente a formação de um mercado. Notem que para haver um mercado, tem de haver uma intersecção da oferta e da procura; se estas duas nunca se intersectam, nunca há uma transacção, e nunca há um mercado.

A informação não é grátis, há um custo associado ao processo de descoberta do preço, mas os benefícios dessa informação são dispersos por todos--isto é uma situação de externalidades positivas. Nem sempre o benefício pessoal excede o custo de descoberta. Por exemplo, quando vos chega a publicidade de um hipermercado a casa, quem paga o custo de vos informar é a loja, mas cada um de vós beneficia dessa informação e pode assim fazer escolhas mais educadas. Já no caso do Mercado D. Pedro V, em Coimbra, como o preço é determinado no local, quem suporta o custo de descoberta do preço é quem vai ao mercado, mas há consumidores que vão ao mercado e não compram nada, logo tiveram o custo mas não tiveram um benefício que excedesse o custo. Agora podem dizer-me que talvez a pessoa achasse que o preço estava demasiado caro e não conseguiu regatear, logo era preferível ir à loja da esquina ao pé de casa. Sim, mas ir à loja da esquina também tem um custo de deslocação e de descoberta de preço.

No mercado de commodities agrícolas, o processo de descoberta de preço é extremamente importante e em muitos países o processo é facilitado pelos governos ou por associações de produtores. Há produtos que têm mais informação do que outros por causa do tamanho e importância do mercado. Por exemplo, eu contei-vos no outro dia que encontrei informação acerca dos preços de mandioca numa página de Internet tailandesa. É a página da Thai Tapioca Starch Association. O amido de mandioca tailandês é o melhor do mundo, logo os produtores de lá organizaram-se e formaram um mercado de futuros, e disponibilizam informação acerca de produção, preço de futuros, preço spot, etc. ao mercado mundial .

Para a formação da expectativa de preços não é apenas importante o preço actual; também se deve ter em atenção a história dos preços, pois pode haver sazonalidade (efeito de coisas como época do ano, feriados, etc.) e efeitos lag (isto é atraso no efeito que uma variável tem na outra). Por exemplo, a produção de gado nos EUA ainda não recuperou totalmente da seca que houve em 2012. Nessa altura, abateram-se muitos animais, inclusive vacas reprodutoras; como demora pelo menos dois anos a reconstruir o rebanho reprodutor, o número de animais produzidos para abater ainda hoje sofre efeitos desse evento. Quer isto dizer que para entender o efeito de uma seca no preço da carne que se vende no supermercado, por exemplo, é importante ter acesso a vários anos de dados para se fazer a análise. O ideal seria ter uma série de dados suficientemente longa para que houvesse mais do que uma seca representada.

Recolher e manter todos estes dados custa dinheiro e esforço, especialmente para um produtor individual que pode ou não ter um benefício que excede o custo de tanto esforço. Mas se houver uma forma de centralizar o custo de obter a informação e disseminá-la prontamente por muitos produtores, então divide-se o custo por muitos e é muito mais provável que o benefício de ter acesso a essa informação exceda essa fracção do custo. É esta a lógica pela qual a USDA (United States Department of Agriculture) despende tanto esforço e dinheiro a recolher e a disponibilizar tantos dados agrícolas (ver Quickstats ou PSD online), não só para os EUA, mas também para alguns países que são importantes competidores dos produtores americanos. Mas não são só os americanos que fazem isto, pois a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no Brasil, o Ministério de Agricultura, Gado e Pesca na Argentina, a Associação de Produtores de Tapioca da Tailândia, etc. também reconhecem que esta informação é importante para os produtores planearem a sua actividade e terem uma vantagem no mercado mundial. Ter acesso a dados que podem ser facilmente manipulados e analisados é muito importante.

Há um blogue dos produtores de leite portugueses no Wordpress que usa dados recolhidos pelo Observatório do Mercado de Leite da Comissão Europeia. A Comissão Europeia publicou o último relatório dos preços do leite em 5/3/2015 e comparando-o com o americano ficamos a saber o seguinte:

  • O relatório da UE está completo até final de Janeiro e o mês de Fevereiro está incompleto, i.e. não há dados para todos os países; o relatório da USDA tem dados completos até 2/27/2015.
  • O relatório da UE é mensal e tem dados mensais; o relatório da USDA é semanal e tem dados diários, semanais, e mensais.
  • O relatório da UE refere-se a preços nacionais; o relatório da USDA refere-se a preços em zonas dos EUA.
  • A UE tem um relatório diferente para os lacticínios e nesse há uma tabela semanal de preços, logo é um relatório semanal; a USDA tem leite e lacticínios no mesmo relatório semanal.
  • A UE não formata os documentos em texto, usando imagens para ilustrar alguns dos dados; a USDA formata o documento em texto de forma a que os utilizadores possam usar macros para automaticamente recolher os dados e guardá-los em bases de dados, i.e., não há imagens, é tudo texto.
O leite é um produto que se estraga facilmente. Planear a actividade com dados que saem mensalmente e ainda por cima têm um mês de atraso é uma grande dor de cabeça. E depois ter a informação num formato que não facilita a sua armazenagem e análise é outra dor de cabeça. E quem diz o leite, diz outras coisas. Note-se as consequências disto: por a UE disponibilizar dados numa forma tão inútil, limita não só a utilidade dos dados, como o número de empregos que poderiam ser criados. Pensem nas empresas de consultoria que poderiam recolher, analisar e construir previsões para informar os produtores e os processadores. Pensem também nas pessoas que poderiam usar estes dados para ajudar a planear as compras de grandes cadeias de supermercados, processadores, etc. Pensem nos ganhos que se poderiam obter por se ter informação de melhor qualidade e não ter de estar constantemente a subsidiar produtores para os manter em actividade, pois estes poderiam ver quais os produtos onde obteriam melhor rendimento e poderiam planear a sua actividade melhor.

segunda-feira, 2 de março de 2015

O oportunismo...

A propósito do comentário do Manuel Cabral acerca das qualificações dos trabalhadores portugueses, recordei-me de um rapaz que eu conheci em 2009 ou 2010, quando eu trabalhava na Universidade do Arkansas. O César Hidalgo é um rapaz do Chile, nascido em 1979, que tem um doutoramento em Física da Universidade de Notre Dame, nos EUA. Antes disso tinha estudado Física na Pontificia Universidad Católica de Chile. Talvez alguns de vós já tenham encontrado o nome dele porque ele foi mencionado num artigo no Público acerca da influência de uma língua no mundo. A Revista Wired, em 2012, considerou que Cesar Hidalgo é uma das 50 pessoas "that could change the world." O que o distingue dos outros é a sua originalidade quando olha para dados. Por exemplo, ele cria arte com representações gráficas de dados. Mas também cria representações gráficas da densidade entre variáveis em países diferentes, etc. Actualmente, o César é o director do Macro Connections Group no MIT.

Conheci-o porque ele foi convidado para apresentar um seminário no Departamento de Economia onde eu trabalhava. Depois do seminário, o convidado de honra, os estudantes e os professores foram todos para um bar na Dickson St. para conversar. Durante a conversa ele disse uma coisa que não me saiu da cabeça e frequentemente penso nela. Ele disse que não tinha aprendido nada de física durante o seu doutoramento nos EUA. Todo esse conhecimento tinha sido adquirido quando ele tinha estudado no Chile. O que os EUA lhe tinham ensinado foi a ver o mundo de forma a que a teoria que ele tinha aprendido pudesse ser aplicada de uma forma criativa.

Aqui há uns anos, depois do colapso financeiro, uma das histórias que passou na NPR era sobre um modelo desenvolvido por Ben Bernanke nos anos 80, o modelo chamava-se "financial accelerator". As previsões desse modelo indicavam que os EUA iam entrar em crise. Nessa história há uma parte que eu acho engraçada e que sublinhei para vós:

Bernanke's computer model is called the "financial accelerator." It's now in the office of Mark Gertler, an economics professor at New York University, who worked on it with Bernanke decades ago. You might expect a model of the economy to look like a video game, with avatars and a virtual trading floor. But when asked to show off the financial accelerator, Gertler turns to his computer and starts printing out paper.

That's because he and Bernanke worked on equations, not computer programs. "For that, we have highly intelligent and ambitious graduate students," Gertler says.

A investigação pesada nos EUA depende actualmente dos estudantes estrangeiros, mas antes disso dependia de cientistas estrangeiros que vieram para os EUA como refugiados. As universidade americanas têm uma visão oportunista do mercado.

Uma das minhas antigas alunas da cadeira de econometria que eu leccionei na Universidade dos Arkansas é do Sri Lanka e, depois de terminar o curso e regressar para o seu país, pediu-me ajuda para encontrar um programa de mestrado nos EUA e para organizar a sua candidatura e o financiamento dos estudos. Como ela terminou o curso recentemente, eu decidi escrever-lhe para ver como as coisas tinham corrido. No email, ela disse que tinha arranjado emprego, pois durante o curso tinha tido um estágio dentro da universidade, o que lhe deu oportunidade de encontrar um emprego de consultoria no governo local de Nova Iorque, e depois disso encontrou um emprego normal.

Diz ela que pessoas que tinham acabado o curso um ano e seis meses antes dela ainda não tinham emprego. O seu conhecimento de estatística aplicada com SAS e Stata ajudou-a bastante--esta parte fez-me orgulhosa porque as minhas recomendações foram todas no sentido de ela ter um bom background nesta área e conseguir estágios. E depois ela mencionou uma coisa que aprendeu na cadeira do primeiro ano de Microeconomia do Andy Horowitz--uma curiosidade, o Andy fala português porque se apaixonou pelo Rio de Janeiro e decidiu aprender. Ele disse: "It's not about where you have absolute advantage; it's about where you have comparative advantage." É a teoria de David Ricardo, que até tinha ascendência portuguesa.

E agora pergunto-vos o seguinte:

  • Temos nós em Portugal uma visão oportunista do mercado?
  • Será que exploramos as áreas onde temos vantagens comparativas ou esperamos que vantagens absolutas nos caiam do céu?
  • Quando Álvaro Santos Pereira mencionou que devíamos olhar para coisas usando uma visão oportunista do mercado, o que é que o país lhe fez?
  • Quando o nosso governo olhou para todos os licenciados portugueses, tiveram uma visão oportunista do mercado?
  • Quando António Costa olhou para as cheias na baixa de Lisboa, teve uma visão oportunista do mercado?
  • Quando a Grécia elegeu um governo maluco, tiveram os nossos governantes uma visão oportunista do mercado?
"Eppur si muove!"

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Lá se foi o jantar...

Uma das coisas que mais se ouve em Portugal é que a língua portuguesa não é muito simpática para criar marcas que singrem no estrangeiro. É preciso uma palavra inglesa, francesa, italiana...

Quando hoje abri o meu email, lá dentro estava uma mensagem da Antropologie, uma marca americana que se destaca pelo seu design muito "earthy"--será que dizer terra-a-terra informa bem do que eles são? Já vos falei deles anteriormente. É uma especie de cultivo do ambiente orgânico e descontraído, que faz lembrar as visitas que se faziam às casas das nossas avós. Isto para quem foi neto na minha geração (anos 70); os netos actuais estão com azar porque as avós modernas já são--como dizer?--modernas e não usam nada destas coisas que se encontram na Anthropologie, como lençóis entremeados com renda, tapetes tecidos à mão, louças um pouco toscas, etc. Mas, talvez a próxima geração regresse ao que se era. "The times, they are a-changing," como cantava o Dylan...

Há muitas coisas feitas em Portugal à venda na Anthropologie e é uma loja que dá imenso prazer de se visitar--há uma em Londres. Mas, para além do design extraordinário que eles pedem emprestado aos tempos antigos e ao artesanato, agora deu-lhes para pedir emprestada a língua portuguesa e vendem artigos que têm nomes portugueses. No outro dia encontrei uns guardanapos que eles baptizaram de "Jantar"; hoje vi uma louça que se chama "Linhas"--imaginem , linhas, que tem o som "nh" que só nós escrevemos assim! Os franceses usam o "gn" e os espanhois o "ñ". Que malandragem... E nós a dizermos que a nossa língua é complicada e eles descomplicam a coisa e metem-na à venda.

Depois de ver o pseudo-roubo das "Linhas" e do "Jantar", que nem são fabricados em Portugal, decidi ir ver quais outras palavras portuguesas eles tinham usado. E, na lista de artigos feitos em Portugal, estão lá coisas (tapetes de banho, toalhas de banho, e uma cortina de banho) baptizadas de Agueda (nós escrevemos Águeda), Lagoa, Bordado, e Primula (prímula, para nós; primula também é usado em inglês).

Da próxima vez que vos disserem que o português não é boa língua para baptizar coisas para vender lá fora, lembrem-se que já ficámos sem jantar.

Ah, e como referiu a Sara no seu primeiro post, o design é essencial para as exportações modernas. E nisso, nós somos um dos países mais ricos do mundo--ver o que diz a CNN de nós: "fabulous design" e eles nem saíram de Lisboa. Quando chegarem ao Porto perdem a cabeça...

domingo, 25 de janeiro de 2015

O custo da ignorância

Ontem, a minha chefe foi a uma gala com o marido e, como nenhuma das suas babysitters usuais estavam disponíveis, pediu-me para tomar conta da sua filhota de 11 anos. Depois de ela regressar da gala tivemos oportunidade de conversar. Eu tinha levado a minha máquina de costura para ensinar a filha a costurar e tinha-a transportado num saco Vera Bradley. A filha dela disse-lhe que gostaria de ter um saco Vera Bradley e eu comentei que a margem de lucro da Vera Bradley era fenomenal (no meu emprego anterior, a Vera Bradley era um dos nossos clientes e eu ouvia os comentários dos nossos analistas).

A Vera Bradley começou por fabricar os seus sacos de tecido de algodão nos EUA; mas, à medida que introduziu itens mais complexos, como porta-moedas, passou a produção das coisas que eram mais intensivas em trabalho para a China. Hoje em dia, tudo é fabricado na China, mesmo os sacos mais simples. A minha chefe retorquiu que isso foi o que aconteceu com a McKenzie Childs, que agora fabrica tudo na China. Esta marca de autor, no início, fabricava todos os produtos em Amherst, Nova Iorque. Depois da marca ir à falência, o fundo de investimento que a comprou manteve o design nos EUA mas mudou a produção para a China, o que desagradou a muitos dos clientes mais antigos, pois massificou-se a produção e diluiu-se o prestígio da marca. Muitas das clientes antigas, as que eram mais abastadas, deixaram de comprar.

Esta semana que passou, visitei a loja da Crate and Barrel. Costumo receber o catálogo deles, e já o recebo há vários anos, apesar de Houston, para onde me mudei há pouco mais de um ano, ser a primeira cidade onde moro que tem uma loja Crate and Barrel. Esta marca especializa-se em artigos para classe média/média alta. O design é limpo, com algumas tendências minimalistas, e há uma clara aposta na qualidade. Gosto muito de visitar esta loja e a da Pottery Barn porque em ambas encontram-se lá muitos artigos feitos em Portugal e o design é extremamente agradável. Quando regressei a casa, e fiz uma busca de artigos portugueses, fiquei deveras surpreendida com o número e variedade do que se encontra na Crate and Barrel: 545 itens! Não pensei serem tantos, mas ainda bem que me enganei.

Quando falo com portugueses, ouço frequentemente queixas de que a nossa competição é a China e estamos condenados a baixos salários por causa da China. Estas pessoas não podiam estar mais erradas. Estamos condenados a baixos salários porque não conhecemos o mundo, nem o que os clientes estrangeiros querem. Há mercado para produtos portugueses se nós soubermos posicionar-nos no mercado. Escolhendo nós uma atitude de ignorância e baixa auto-estima não nos leva a lado nenhum, só nos atrasa. E, se pensam que eu não tenho razão, enganem-se.

Na Fresh Market, uma mercearia gourmet, onde se faz compras ao som de música clássica, a lata de atum mais cara tem atum português e diz na descrição do produto "During his travels to Portugal, Cole spent some time in the south and discovered some fishermen catching tuna off the Atlantic coast.", mas a marca não é portuguesa--apesar de usar Portugal como forma de se distinguir da competição. O preço do atum é $14,99 por lata antes do imposto de venda. Afinal, o Michael Porter tinha razão ou não? Não é preciso um novo relatório Porter, o anterior ainda serve. É preciso é que os portugueses mudem de atitude. A nossa ignorância sai-nos muito cara, mas dá muito dinheiro aos estrangeiros.