quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Estigma

“Um homem jovem, casado, pai de família, branco, urbano, do Norte, heterossexual, protestante, de educação universitária, bem empregado, de bom aspecto, bom peso, boa altura e com um sucesso recente nos desportos.” Segundo Erving Goffman (1922-1982), este era o único tipo de homem na América dos anos 60 que não tinha nada que o pudesse envergonhar.
Partindo do pressuposto que são poucos os que pertencem àquele tipo de homem, Goffmann conclui que todos nós carregamos um estigma. Estigma é uma palavra inventada pelos gregos, para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava sinalizar alguma coisa de extraordinário ou de mau sobre o status moral de quem os carregava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou um traidor. Mais tarde, foram acrescentados mais níveis de metáfora ao termo original. Goffman considera três tipos de estigma: (1) as deformações físicas; (2) as culpas de carácter individual (vontade fraca, paixões tirânicas, crenças falsas e rígidas, desonestidade, sendo estas inferidas a partir de comportamentos de distúrbio mental, prisão, alcoolismo, homossexualidade, desemprego, tentativas de suicídio, comportamentos políticos radicais); (3) estigmas de raça, nação e religião.
Em todos estes três tipos de estigma – incluindo os que os gregos tinham em mente – verifica-se o mesmo problema: um indivíduo que poderia ter sido facilmente integrado e recebido nas relações sociais quotidianas possui um traço que pode impor-se à atenção dos outros e afastá-los, destruindo as possibilidades de atenção para outros atributos do “estigmatizado”.
Como resultado, quando o estigma não é notório e há a possibilidade (mesmo que remota) de o esconder, os estigmatizados esforçam-se por esconde-lo e encobri-lo sempre que estão na presença dos “normais”. Os normais podem ser estranhos ou pessoas próximas, como no caso do homossexual que esconde as suas preferências sexuais da família e amigos.
O surdo, o cego, o ex-doente mental, o ex-presidiário, o judeu, etc. fazem muitas vezes esforços descomunais para parecer “normais” e serem reconhecidos como tal e, assim, evitarem o isolamento ou o desprezo dos normais. Isto, como é evidente, leva a que vivam num clima de permanente tensão, com o medo de a qualquer momento serem apanhados em falso. E quase todos, repito, temos algures um estigma qualquer que nos persegue – curiosamente, diz Goffman, muitas vezes os que se sentem estigmatizados numa coisa são ainda mais implacáveis com os estigmas dos outros.
A relação entre os estigmatizados e os “normais” nunca é fácil. Ninguém está à vontade nas situações de contacto. A experiência mostra, todavia, uma coisa positiva. Esse embaraço recíproco tende a diminuir. Com o tempo, ambos, estigmatizados e normais, acabam por se acostumar com a situação e deixam de se sentir tão incomodados com a presença e as diferenças do outro.

8 comentários:

  1. Não discordo da reflexão, mas atrevo-me a considerar: Será que há alguém efectivamente "normal"? Náo teremos todos os nossos estigmas e complexos, tentando escondê-los em nós, mas procurando-os nos outros? Como se precisassemos de uma validação "vês, até os outros têm as suas falhas"

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    1. É exactamente isso, Catarina. A falha é minhnão expliquei bem, mas "normal" e "estigmatizado" não são pessoas concretas em Goffman, são tipos ou categorias. Todos nós temos, de facto, um estigma qualquer e a tendência é escondê-lo para sermos aceites pelos outros. Isto levanta muitas questões. É melhor assumi-lo esse estigma? Devemos juntar-nos aos "nossos" ou aproximarmo-nos dos "normais", com o risco de sermos depois desprezados pelos nosso? A gestão e manipulação (como lhe chama Goffman) não é fácil, nem evidente, nem há consensos sobre isso. A única coisa boa é que o contacto regular entre normais e estigmatizados tende a diminuir o embaraço recíproco. Por exemplo, este sociólogo esteve vários meses a estudar os comportamentos em hospitais psiquiátricos e percebeu que com o tempo as pessoas "normais" tendem a saber lidar com mais naturalidade com os doentes, não apenas os médicos e enfermeiros, mas também as pessoas da comunidade ou cidade onde estava localizado o hospital.

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  2. https://www.mathsisfun.com/data/images/normal-distrubution-large.gif

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    1. Sim, se calhar essa é a melhor definição de "normalidade". Goffman apenas diz que são um conjunto de normas comummente aceites por uma sociedade, comunidade ou grupo e os "normais" são os que não se afastam ou desviam muito dessas normas. Somos todos normais e estigmatizados ao mesmo tempo, dependendo dos atributos em questão e, por isso, "normais" e "estigmatizados" mais do que pessoas concretas são tipos.

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  3. Zé Carlos, eu não sei o que tomaste hoje, mas espero que tenhas muito mais na despensa. Gostei muito de te ler...

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  4. É uma interpretação muito interessante do funcionamento social e, se bem entendi os conceitos de estigma e normalidade em Erving Goffman, algo que vai mudando, abatendo estigmas e criando estigmas novos como o que, muito recentemente, foi descrito por uma advogada americana que decidiu mudar de vida e dar a sua visão sobre algumas mudanças no seu país, entre os fundadores e a actualidade, bem como nela mesma. Não é ciência, é apenas, e não pouco, uma descrição sublime da introspecção e da extroversão à la Jung.

    Susan Cain - O poder dos introvertidos - TED Talk/Fev.º 2012
    vídeo (19 minutos)
    https://www.ted.com/talks/susan_cain_the_power_of_introverts?language=pt

    Trancrição (2.979 palavras)
    https://www.ted.com/talks/susan_cain_the_power_of_introverts/transcript?language=pt

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