segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Nada a esconder

Como nos lembra Mick Hume em “Direito a ofender”, junto com “fobia”, “negacionismo é outra das palavras usadas com mais eficácia para tolher a liberdade de expressão. Primeiro, era usada apenas para os que levantavam dúvidas sobre o Holocausto dos judeus na II Guerra Mundial. Entretanto, o seu uso estendeu-se a outras áreas.  Alterações climáticas, racismo, violações, desigualdades nas suas mil e uma variantes, já para não falar do “negacionismo do negacionismo”. Parece que o debate público está contaminado por “negacionistas”. Gente que ultrapassou o limite de expressar uma opinião honesta e que se recusa a ver a realidade. Enfim, gente em estado de negação e a padecer de uma perturbação psiquiátrica. Não se trata apenas de acusar alguém de questionar a ortodoxia actual, como antes se fazia com os hereges que duvidavam de verdades consideradas sagradas. Não. Uma vez mais, entramos no domínio da psiquiatria, como se alguém estivesse a reprimir factos inquestionáveis sobre o Holocausto e as alterações climáticas – factos considerados verdadeiros por toda a gente e que, por isso, não podem ser questionados.
Sobra uma questão: o que fazer com os “negacionistas”? Prendê-los é uma hipótese. Quer dizer, já é mais do que uma hipótese. Por exemplo, o historiador David Irving foi condenado a três anos de prisão por um tribunal austríaco por negar o Holocausto. Em 2014, um relatório de uma comissão de deputados britânicos exortou a BBC e outros media a não darem tempo de antena aos cépticos sobre as alterações climáticas. Bjorn Lomborg, autor de “O ambientalista Céptico”, tem sido vítima de protestos efusivos por onde passa e impedido de exprimir as suas dúvidas, nomeadamente em universidades, o que torna o seu caso especialmente ilustrativo desta onda de intolerância que, aos poucos, vai tomando conta do espaço público. Repare-se que Lomborg nem sequer nega o aquecimento global, simplesmente acha que esse está longe de ser o maior problema da humanidade.
Tudo isto é grave. Por duas ordens de razões, como explica Mick Hume. Primeiro, por razões de princípio. A liberdade de expressão só faz sentido se a defendermos para as ideias que detestamos. Isto significa que mesmo quando pensamos estar perante mentirosos perversos, os ditos negacionistas, devemos defender o seu direito de exprimir as suas ideias, por mais detestáveis e perversas que nos pareçam. No fundo, trata-se de seguir a máxima atribuída a Voltaire: “Discordo do que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres”. Segundo, por razões práticas. Desde Descartes que a ciência se funda na dúvida metódica. A única maneira estarmos certos de uma verdade é permitirmos que ela seja posta à prova por todo o tipo de argumentos. Se, ao invés, tentarmos silenciar as opiniões supostamente extremistas e falsas, estamos a gerar um efeito contraproducente. O cidadão comum pode, legitimamente, perguntar: será que, afinal, eles têm alguma coisa a esconder?

9 comentários:

  1. E mais uma vez isso parece demonstrar como, pelo menos em teoria, os politicamente corretos teriam razão quando dizem que o uso de determinadas palavras em vez de outras contribui para manter ou estabelecer um dado sistema de poder.

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    1. os politicamente correctos atribuem um poder mágico às palavras e, já agora, mostram um certo desprezo ou cepticismo em relação à autonomia ou capacidade das pessoas em escolher o que acham correcto e errado, como se bastasse dizer certas palavras para logo as massas em peso seguirem acefalamente um racista ou machista. Isto não quer dizer que as palavras não têm poder, têm, mas não aquele que lhes é atribuído pelos politicamente correctos. Para mim, aqui a grande questão é: isto contribui ou não para aumentar a liberdade de expressão? A escolha de palavras como fobia e negacionismo não é inocente. Além disso, nesta história de intolerância (disfarçada de tolerância, o que torna a coisa mais perversa) há muito mais do que palavras, há acções que visam claramente silenciar certas pessoas que se afastam da ortodoxia.

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    2. Para mim, mais perigoso do que pensar que o uso de certas palavras "proibidas" conduz automaticamente a actos desprezíveis é a ideia peregrina de que o uso de palavras "correctas" elimina esses actos desprezíveis. O sentimento de falsa segurança é incomparavelmente mais perigoso do que o sentimento de insegurança.

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  2. Vamos la ver uma coisa. Não confundir alhos com bugalhos. Não vou falar (ainda) daquilo que é do domínio legal (como o negacionismo do holocausto em certos países), mas deste debate da "coisa do politicamente correto". Uma coisa é liberdade de expressão e "opiniões", outra coisa é a credibilidade que se deva dar a essas opiniões. Porque elas não são todas iguais. Se eu agora me puser a dizer que eu "acho" que o Sol gira à volta da Terra e que "acho" que as pessoas que dizem o contrário estão a tentar silenciar-me, isso também seria um atentado do politicamente correto? ver aqui uma versão mais extensa: http://theconversation.com/no-youre-not-entitled-to-your-opinion-9978

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    1. No post, nunca falo do politicamente correcto - não quis misturar as coisas. Em relação à sua questão. O holocausto é um facto histórico e as mentiras sobre o holocausto são obviamente desprezíveis, mas é um erro prender alguém que o negue. Perante opiniões desprezíveis, ou as ignoramos (como quando ouvimos um bêbado ou um maluco dizer enormidades) ou as combatemos, por vezes com contundência, com mais argumentos e provas. Criminalizar ou começar a chamar negacinista e fóbico a toda a gente que não reconhece certos factos é que me parece o pior dos caminhoa. A prazo, sem querermos, estamos a dar cobertura a alguém para nos restringir a nossa própria liberdade de expressão.

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    2. A questão é mesmo a da cobertura. A dúvida metódica é diferente da desinformação sistemática. Não se pode dar a mesma cobertura a todas as opiniões. Há as que estão erradas e não fundamentadas (como a negação da influência do homem no aquecimento climático, o autismo provocado pelas vacinas, o impacto negativo do Brexit na economia europeia e do Reino Unido, o afundamento demográfico devido aos refugiados, etc.). Essas não devem ter o mesmo trato. Não estão em pé de igualdade. Os erros vão de ambos lados: quantas vezes se acusou gente de fantasia para depois se provar que tinham razão? Mas, para ter razão é preciso ter os bons argumentos e não falseá-los. É disso que se trata. Senão trata-se de uma mera opinião e essa não deve ter o mesmo valor (nem a mesma proteção)

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  3. Um ponto que poderia ser levantado nesta questão da liberdade de expressão é como verdadeiramente aplicar a liberdade de expressão num mundo de recursos escassos.

    Um exemplo extremo é o caso dos oradores convidados para falar numa universidade (sobretudo convidados pela própria universidade) - muita gente fala de "intolerância" ou "violação de liberdade de expressão" quando há protestos estudantis contra a respetiva universidade convida alguém para ir lá falar; mas a verdade é que não há nenhuma "liberdade" de ir falar numa sessão organizada por uma universidade - o ser convidado é um privilégio que a universidade atribui a uma dada pessoa, e o ato de convidar Fulano e não Beltrano implica sempre a decisão de dar a palavra a Fulano e não a Beltrano.

    [Acho que conferência organizadas por grupos de alunos é um caso diferente, embora possa ser parecido se houver mais grupos a querer organizar atividades do que espaços disponiveis, e for preciso alguém decidir quem vai poder organizar a sua atividade]

    Até certo ponto, o mesmo pode ser dito de convites para ir falar na televisão (nomeadamente na pública) e afins; NÃO me parece que se coloque a respeito da internet e redes sociais, onde não há qualquer escassez real de espaço, nem nos jornais.

    Já agora, outras duas palavras que me parece que desempenham uma função semelhante - "extremismo" e "radicalização".

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  4. Têm razão. Há "buzz words" a mais e como se fossem moedas...

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