domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ainda o Blink! e a tomada de decisão

Diz Gladwell no posfácio do seu livro:

Uma das perguntas que me têm feito inúmeras vezes desde a publicação de Blink é quando é que devemos confiar nos nossos instintos e quando é que devemos pensar conscientemente nas coisas. Bem, há uma resposta parcial.

Para escolhas claras, é preferível fazer uma análise deliberada. Quando questões de análise começam a ficar mais complicadas – quando temos de equacionar muitas variáveis diferentes -, então os nossos processos de pensamento inconsciente podem ser superiores. Ora, percebo que isso é precisamente o oposto da sabedoria convencional.

Tipicamente, consideramos que a nossa avaliação instantânea é melhor para questões triviais imediatas. Aquela pessoa é atraente? Quero aquele chupa-chupa?

Para confirmar esta “resposta parcial” Gladwell socorre-se do estudo de um psicólogo holandês, chamado Djiksterhuis. Este interrogou vários clientes de um grande armazém holandês que vende produtos baratos, como acessórios de cozinha, sobre o tempo que tinham despendido a pensar antes de comprarem o que tinham comprado. Algumas semanas depois, contactou todos os clientes para apurar o grau de satisfação com as suas opções. Conclusão: os que tinham despendido mais tempo na hora de decisão estavam mais satisfeitos. Djiksterhuis fez a mesma experiência com clientes do Ikea, “onde as pessoas faziam compras muito mais complicadas e dispendiosas”. Conclusão: desta vez, os que tinham confiado mais nos seus instintivos eram os que estavam mais satisfeitos.

Gladwell acrescenta ainda uma citação de Sigmund Freud para reforçar a tese. Dizia então Freud:

Quando tomo uma decisão pouco importante, penso que é sempre vantajoso considerar todos os prós e contras. Porém, em questões vitais como a escolha de um parceiro ou parceira ou de uma profissão, a decisão deve vir do inconsciente, de algures dentro de nós. Penso que nas decisões importantes da nossa vida pessoal deveríamos reger-nos pelas necessidades interiores profundas da nossa natureza.

Problema resolvido? Nem por isso. Diz Gladwell:

A verdade é que não é uma questão a que euou outra pessoa qualquerpossa responder definitivamente. É demasiado complicada. Estou convencido de que o melhor que podemos fazer é tentar decifrar a quantidade certa de análise consciente e inconsciente caso a caso.

(…) Penso que a tarefa de descobrir como combinar o melhor da deliberação consciente e da avaliação instintiva é um dos grandes desafios do nosso tempo. (…) Se um empresário aposta num produto novo, como é que pesa as informações que obtém através da análise racional do mercado existente e os seus instintos sobre o potencial da sua ideia nova?

A este tipo de perguntas, Gladwell prefere, como sempre, responder com exemplos ilustrativos:

A verdade é que a avaliação de jogadores de basquetebol é um exemplo muito bom do que eu tenho estado a falar aqui - a necessidade de compreender quando devemos confiar nos nossos instintos e quando não devemos confiar neles.

Gladweel refere aqui um livro de três economistas (David Berri, Martin Scmidt e Stacey Brook) “para estabelecer uma medida mais sofisticada para avaliar jogadores profissionais de basquetebol.” Estes economistas recorrem a uma infinidade de estatísticas para medir o desempenho dos basquetobolistas americanos e chegam por vezes a conclusões surpreendentes. Alguns atletas “que eram considerados muito bons acabavam por parecer bastantes medíocres” e vice-versa. Esta ideia é tratada no filme Moneyball com o Brad Pitt, e que anda aí nas salas de cinema, só que nesse caso trata-se de jogadores de basebol.

Significa isto que já não há espaço para a avaliação instintiva de jogadores? Bem, no caso do filme acima referido (baseado numa história real) parece ser essa a conclusão. A verdade é que há: Como é que se mede, por exemplo, a atitude e a motivação de um atleta?

Ele trabalha muito? É um bom companheiro de equipa? Sai a noite inteira para beber e drogar-se ou leva o seu trabalho a sério? Até que ponto é resistente perante a adversidade? Quando a pressão é maior e o jogo está em causa, como é que ele reage? É uma pessoa com potencial para melhorar ao longo do tempo?

Todos concordarão que estas perguntas são muito mais complicadas – e tão mais importantes como – simples medidas estatísticas de desempenho.

Conclui Gladweel sobre o assunto:

As equipas de basquetebol melhores e de maior sucesso – como as melhores e mais bem sucedidas organizações de qualquer espéciesão as que compreendem como combinar a análise racional com a avaliação instintiva.

Em suma, tudo isto é muito complicado e misterioso e não é possível encontrar fórmulas para resolver o problema.

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