sábado, 23 de outubro de 2021

Qual orçamento?

Não sei o porquê da fita relativamente ao orçamento. Não há dinheiro -- qual da três palavras é que as pessoas não percebem, para parafrasear o outro. Se antes da pandemia, quando as coisas não estavam tão mal, o país era financiado a dívida, transferências da UE, e agravamento fiscal, o que se pode esperar de agora? Milagres era no tempo da Rainha Santa; no século XXI, já nem rosas há, só espinhos. Depois, o orçamento é completamente irrelevante porque o governo não cumpre -- chamam-se cativações.

O Presidente da República devia dissolver a AR porque a actual governação não assegura os princípios básicos da Constituição da República, aquele documento que ele se comprometeu a defender. Ele não era professor de Direito Constitucional? Então devia saber o que fazer e até o que inovar dentro dos parametros da CRP para salvar o país e os portugueses. É que estamos mesmo nesse ponto -- é preciso que alguém se erga e salve o país.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Dinheiro bem gasto

Um dos meus colegas é extremamente extrovertido, ri-se muito, dá uma dinâmica muito agradável a reuniões, e conversar com ele é sempre muito fácil. Como tinhamos uma tarefa para completar, passámos algum tempo ao telefone. Já quase no final ele perguntou-me como estavam as coisas na minha vida pessoal e eu disse que estava bem, tinha acabado de vir de férias e estava a tentar prestar mais atenção à minha sanidade mental. Ah, também arranjei uma terapeuta permanete para lidar com a minha ansiedade.

Dado que ele acompanha o meu Facebook, disse-me que a ideia que ele tem de mim é que era uma pessoa muito feliz, muito contente comigo própria, que apreciava as coisas da vida, fazia as minhas viagens, etc. Eu estava correcta, deviamos ser assim porque só nós próprios é que podemos tratar da nossa felicidade, rematou ele.

Concordo, mas cá entre nós, detesto perseguir a felicidade. A minha felicidade acontece muito naturalmente, é quase serendipidade. Fiquei, no entanto, um pouco preocupada com ele, dado que esta pandemia tem sido bastante dura para com todos nós e eu sei que ele beneficiava bastante da energia do escritório, de poder sair com os colegas para almoçar, etc. Como me perguntou se frequentava restaurantes aqui na cidade, indiquei-lhe alguns sítios onde vou de vez em quando e que têm esplanadas.

Vários dias por semana também vou a parques onde passeio o Julian, o meu cão, e muitas vezes é mais por insistência dele do que ideia minha, dado que ele se estaciona em frente da porta que vai para a garagem, como que a dizer que vamos andar de carro. Nas raras ocasiões em que tem oportunidade de se escapulir para a garagem, encontro-o sentado à frente da porta do carro, no lado do passageiro, talvez a rezar um Abre-te porta.

Hoje fomos ao Hyde Lake, em Shelby Farms, para apreciar o crepúsculo, que é a minha altura preferida do dia. Estava absolutamente deslumbrante e uma pessoa anda ali e pensa que o dinheiro dos impostos foi muito bem gasto naquela obra. O lago foi ampliado, construíram habitats para os animais selvagens, incluíram mobilíario urbano interessante que serve as pessoas, etc. Aquilo ficou mesmo bem feito e vou sugerir ao meu colega que leve lá a família.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Fácil, mas assustadora

O meu lema de vida é "trabalhar muito e desfrutar ainda mais" e talvez a idade me tenha ajudado a chegar lá porque, antes, trabalhava muito e desfrutava pouco. Então nas minhas férias, sou muito mais motivada para a diversão do que o normal, apesar de que a pandemia tenha exigido que se faça férias mais recatadas. Nesta altura do ano pareceu-me que as coisas pandémicas estavam mais bem encaminhadas e encontrei-me com bastantes pessoas nos 10 dias que estive fora em Houston, só que eram pessoas que não eram totalmente desconhecidas: ou amigos ou amigos de amigos.

Na minha primeira Sexta-feira de férias tive uma festa de anos de um amigo. Não sou muito próxima dele, mas temos uma grande amiga em comum com quem eu fui. Obviamente, eu e ela tivemos de nos esmerar na aparência, dado que andámos à míngua social durante este último ano e meio. Decidi usar um vestido que comprei em Julho do ano passado e que ainda não tinha usado fora de casa. Não é que o vestido seja muito espampanante (eu não acho), mas tem um decote super-giro e revelador, o que parece deu alguma informação a meu respeito.

A festa consistia de cinco pessoas e mais tarde outras duas apareceram. As mulheres estavam em minoria, só duas comigo. Nós as duas entrámos em grande, às gargalhadas, no jardim do primeiro bar onde fomos, o que é perfeitamente normal, pois tínhamos estado a ouvir música portuguesa da nossa juventude. Também é difícil aos meus amigos ficarem mal-dispostos a meu lado porque digo umas coisas engraçadas.

Um dos convidados que eu não conhecia olhou para mim mais o meu decote e concluiu que eu era uma mulher fácil, achando por bem partilhar esta informação com o aniversariante. Passados uns dias, fui tomar café com o aniversariante, que dizia "Rita, tu és uma mulher muito interessante, mas assustas a malta." Só mais tarde soube pela amiga em comum o comentário da mulher fácil. As primeiras aparências enganam e, depois de uma noite a conversar comigo, acharam que não tinham bolina para a Rita das férias. Efectivamente, não sou muito modesta nem na língua, nem no decote.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Apertar o cinto

Durante uma conversa com um amigo meu, calhou falar na necessidade de os europeus apertarem o cinto, o que o meu amigo achava não ser difícil porque já estão habituados. Até podiam não fazer férias. Não sou tão optimista pela simples razão de os europeus já andarem a apertar o cinto há muitos anos e, mesmo assim, necessitam de se endividar e continuar a apertar o cinto cada vez mais. Depois há a agravante de o apertar o cinto ser cada vez mais difícil. Se se aperta muito, começa-se a partir alguns ossos.

Uma forma de apertar o cinto é pela imigração, pois acaba por reduzir os salários praticados no país para onde se emigra, o que permite produzir bens e serviços a custos mais reduzidos. Quem emigra recebe melhores salários do que no país de origem e quem vive no país receptor é beneficiado pelos custos mais baixos das coisas. A teoria é gira, mas a prática é mais complexa; no entanto, os ingleses são seres supimpas e fizeram o favor de ilustrar o conceito com o Brexit.

Mesmo assim, há sempre o receio de que estas coisas na Europa alimentem os nacionalismos e a instabilidade social e a paz que tem havido não perdure muito mais. Nota-se que a geração actual não tem grande conhecimento do preço da paz. Esse também foi outro tópico que falámos: ignora-se bastante a história e mesmo em termos de ensino, a qualidade do conteúdo está desactualizada.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

O arrependido

Morreu o Colin Powell, um homem bastante habilidoso e capaz de funcionar de forma bi-partidária ou até acima de questões partidárias. Na imprensa de esquerda, pontificam-se loas ao homem, mas com a devida reticência por causa do desastre que foi a segunda invasão do Iraque, que diziam não ser invasão, mas acabou sendo. Mas arrependeu-se desse snafu e mais recentemente falou contra Donald Trump, logo, apesar de ser de direita, ficou completamente reabilitado aos olhos da esquerda americana. Esta é capaz de ser uma grande diferença entre a direita e a esquerda nos EUA, dado que a direita não reabilita ninguém da esquerda.

Pessoalmente, sempre achei que seria um bom candidato ao meu voto e, se eu tivesse de escolher entre Biden e Powell, preferiria Powell sem qualquer hesitação. É duvidoso que os republicanos arranjem alguém deste calibre para futuras eleições.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

De volta

Terminei as minhas quartas férias deste ano e, mais uma vez, fui para fora cá dentro. Passei o dia a conduzir e consegui parar apenas para meter gasolina duas vezes durante os 912 Km que separam Houston de Memphis. No Arkansas havia imensos camiões em ambos os sentidos, o que não é normal. A rota Little Rock-Memphis costuma ser a que tem mais camiões, mas, com a aproximação das festas natalícias, deve haver bastante mercadoria em trânsito por todo o lado. Pelo caminho, vi um acidente e batantes animais atropelados: três cachorros, veados, guaxinins, etc. Tive imensa pena da bicharada, mas há muito mais gente a conduzir agora, o que não deve ajudar, especialmente depois de termos tido aquele período mais lento, em que muitos animais expandiram o seu território em resposta à menor mobilidade de pessoas.

Na estrada também vi bastantes caravanas. Com a pandemia, as pessoas começaram a reformar-se mais cedo e há também menos reformados a trabalhar em part-time, logo desatou tudo a comprar caravanas. Uma das minhas colegas até se reformou antes dos 65 para poder andar a viajar com o marido. Tive imensa pena que saísse, pois gostava bastante do trabalho dela. Combinámos ir sair para almoçar, mas ela mal tem andado por estas bandas. Não me admiraria se pessoas como ela acabassem por vender as respectivas residências para serem completamente móveis. Uma outra colega também já tinha saído antes da pandemia; ela e o marido tinham comprado um apartamento em Orange Beach, no Alabama, que arrendam a terceiros quando não estão lá.

Ainda é cedo para perceber as implicações da pandemia na sociedade americana, mas suspeito que serão bastante profundas. Estas mulheres que se reformam mais cedo que os maridos preocupam-me um bocado, dado que provavelmente irão sobrevivê-los e ao reformarem-se mais cedo ficam com uma pensão menor e sacrificam parte da sua carreira profissional. Não sei se isto não se tornará num problema no futuro.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Leis do não

Em 2015, no dia do meu aniversário, conheci uma senhora que tinha o mesmo aniversário que eu, mas que nasceu 43 anos antes de mim. A ocasião era mesmo o seu jantar de aniversário, que por também ser o meu, levou a que eu fosse convidada. Ela e eu temos várias coisas em comum para além da baixa altura: ambas vivemos em cidades chamadas Fayetteville e eu vivi numa rua de nome Sweetwater, enquanto que ela viveu numa cidade com esse nome. Ontem fomos almoçar juntas porque ela tornou-se parte do meu grupo de amigos de Houston.

Conversar com pessoas mais velhas nos EUA é muito engraçado porque elas ouvem-nos e tratam-nos como se fossemos iguais. Mesmo o meu ex-sogro, que agora tem 82 anos, conversa comigo e faz-me perguntas, genuinamente interessado na minha opinião. Aquela ideia que os mais velhos devem ser colocados num pedestal em que têm a última palavra em tudo é aqui bastante estranha. A minha vizinha que tem 96 anos, esta senhora que tem 92, e o meu ex-sogro todos andaram na universidade -- ele até chegou a fazer um doutoramento, apesar de serem todos de origens humildes e até de regiões rurais.

Nessa altura, quando estas pessoas se formaram, os EUA não eram considerados a potência que são hoje e até se pode dizer que a infância destas pessoas foi bastante marcada pelo período pós-Grande Depressão e depois a Segunda Grande Guerra Mundial, alturas em que a comida escasseava e os recursos eram desviados para o esforço de guerra. Mesmo assim, a educação desta geração não foi sacrificada. No entanto, não nos podemos esquecer que estas pessoas minhas amigas são uma minoria: a maioria dos americanos apenas frequentava o ensino secundário, que foi bastante promovido entre 1910 e 1940.

Ontem na nossa conversa de almoço falámos de várias coisas, inclusive sexo e a forma como as mulheres encaram relações amorosas. Dizia a minha amiga que conhecia várias mulheres que tinham parceiros apenas para satisfazerem as suas necessidades sexuais e algumas até tinham mais do que um, o que me fez recordar alguns dos artigos que saem na revista The Atlantic sobre a sociedade e o sexo. Muitos desses artigos argumentam que as mudanças sociais de atitude relativamente a relações e sexo são iniciadas pelas mulheres: elas é que mudam o "contrato social" quando lhes convém. Mesmo assim, há certas coisas que se mantêm: muitos homens, independentemente da idade, preferem mulheres na casa dos 20 anos, já as mulheres preferem homens que têm idade mais próxima às delas, de acordo com os dados recolhidos por páginas de Internet de encontros amorosos.

Talvez fosse mais fácil contrariar estas predisposições dos homens e das mulheres quando as pessoas se encontravam pessoalmente e se criava alguma atracção física, mas agora, que muitas pessoas se conhecem online e as preferências são declaradas antecipadamente, parece que entrámos num período em que é mais difícil chegar a um compromisso. Em vez de leis da atração, receio que o que prevalecerá será potencialmente as "leis do não".

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Construção

Uma das primeiras coisas que vi ao entrar em Houston foi o que me pareceu um cão vadio. Deu-me imensa pena ver o animal ao lado da estrada, mas parecia estar bem alimentado. Já não me recordo se estava na parte da US-59 ou da I-69, dado que se sobrepõem. Depois o telemóvel mandou-me por umas ruas secundárias perto do Bush Internationa Airport porque a I-69 estava em obras. Era tudo meio feinho e senti exactamente o mesmo da primeira vez que cá vi: esta cidade é muito feia. Nem todas as partes são feias, mas as que são sobre-compensam. É difícil imaginar o futuro quando estou perto de coisas feias. Mesmo assim, adoro Houston. Cresci imenso aqui, tive experiências incríveis, nem todas boas ou más, e tenho bastantes amigos ligados ao tempo que passei aqui.

Na Sexta-feira, passei a tarde com a minha vizinha que tem 96 anos. O plano da família é que ela chegue aos 100, mas ela ainda não se convenceu. Por causa da pandemia, deixou de jogar golfe e agora perde o equilíbrio facilmente quando está em terreno mais incerto, como é o caso do relvado lá de casa. Passou a usar uma bengala de apoio que detesta, mas ainda vive sozinha e, recentemente, conduziu o carro pela vizinhança para ver se a bateria não vai abaixo. Uma das filhas que passa lá por casa frequentemente ralha com ela se ela tira a máscara em frente a amigos e também deixou recado para eu não entrar em casa. Como uns senhores estavam a cortar a relva e fazia muito barulho, tive cartão verde para entrar, mas sem o conhecimento da filha.

Conversámos sobre muitas coisas, inclusive de arrependimentos, que eu disse ter pouquíssimos. O facto de eu ser lenta é devido a passar demasiado tempo a analisar as coisas, logo quando decido algo, considero que, dada a informação que tenho, essa era a decisão acertada. Ela que já viu muito mais coisas do que eu, sente o peso de algumas experiências menos conseguidas. Acha que foi má para algumas pessoas, fez coisas que agora acha feias, etc. Pois, mas nós não somos perfeitos e cada momento da nossa vida é definido por tudo o que veio atrás. Sem o passado não existe presente -- para o bem e para o mal.

Ainda não me sinto crescida, não acho que sou adulta, disse-lhe, e ela respondeu-me que ela também não. Toda a nossa vida é uma sucessão de aventuras, de dias cheios de eventos que nos eram desconhecidos momentos antes. Todos os diálogos inventados na hora, os movimentos improvisados como se tivessemos certeza que era assim que deviam ser. Mesmo aos 96, a nossa vida é tão curta.

O meu jantar de hoje foi passado com algumas amigas que conheci através dela, pessoas das relações dela há décadas e que entraram na minha há uns cinco ou seis anos. Tornámo-nos bastante amigas e, apesar da distância e da pandemia, falamos todas as semanas, fazemos viagens juntas, e visitamo-nos frequentemente. Se estou deprimida ou em baixo, telefonam-me para me animar, enviam-me livros de auto-ajuda, máscaras para o Covid-19, autocolantes de bouledogues franceses para o meu carro, etc.

Não somos crescidos, mas é assim que crescemos. Acima de tudo, a nossa vida é um encadeado de amizades: através de umas pessoas conhecemos outras. Constantemente, há quem entre e saia do nosso dia-a-dia, mas é juntos e desta colecção de momentos que construímos esta coisa a que chamamos vida.

domingo, 10 de outubro de 2021

Doce

Passei os últimos dois dias a desenferrujar algum do meu português e tem sido bastante bom. Na Sexta-feira à noite, o convívio durou das 10 das noite até quase às 5 da manhã, noitadas destas eram normais durante a faculdade, mas agora já duvidava que aguentasse até à meia-noite. Parece que sim e bem bom, como cantavam as Doce.

A noite começou com uma digressão pela música portuguesa, com músicas e bandas clássicas, e eu a professar a minha eterna admiração pelos GNR, indiscutivelmente a melhor banda portuguesa. Também houve fado porque nós somos os portugueses a sério, aqueles que saíram e descobriram o mundo. Pelo meio, conversámos de Anna Akhmatova, uma poeta russa que descobri há pouco e que ando a digerir. Surpreendentemente, não foram os meus amigos russos e ucranianos que me falaram dela. Também veio à baila a Arooj Aftab, uma cantora paquistanesa, que tem uma voz de sonho. Estas tertúlias em que se fala de arte, filmes, música, literatura, política, história... são das coisas que mais aprecio. Mas é tão bom ter alguém com quem trocar ideias em português.

Prometeram-me um bacalhau à Brás que aguardo ansiosamente, pois nunca fiz. Recordo-me da minha mãe fazer isso e também bacalhau à Gomes de Sá, mas o único bacalhau que eu costumava cozinhar era o com natas. Sempre achei as outras receitas intimidantes. Os meus amigos portugueses falam frequentemente das comidas e bebidas que trazem de Portugal, mas eu quase que nunca trago coisas para comer. Invisto mais em artesanato e livros, logo rodeio-me de coisas portuguesas não-comestíveis. A maior parte do Portugal comestível que eu consumo é comprado nos EUA. Achei engraçada esta diferença.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Leao

Estou de férias e vim a Houston. Antes de partir, dei um pulo ao cabeleireiro, mas como a minha estilista habitual não está a ver ninguém porque a filha testou positivo para Covid, tive de ir a outro lado. Fiz a reserva online e reparei que o sobrenome da estilista que me ia atender me parecia português: Leao. Era mesmo, é uma senhora que já deve ter mais de 60 anos, que nasceu em Hong Kong, de pai português e mãe chinesa. O pai registou-a como portuguesa, mas ela só descobriu há pouco tempo, quando pediu a uma amiga que falava português para traduzir um papel.

Perguntei-lhe se tinha passaporte, mas não tinha o português, nem se apercebeu que podia tirar, que podia viver em Portugal, que direitos tinha enquanto portuguesa. Também não precisa, dado que também tem nacionalidade americana e britânica. Fiquei curiosa em saber quantas pessoas não estarão em situação semelhante, em que são cidadãos de Portugal, mas não sabem o que isso significa.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Caixa de Pandora

Devíamos ter tido um dia em cheio, agora que os Pandora Papers saíram e, supostaments, são tão mais completos do que os Panama Papers, o que nos garantia que os mauzitos iam cair desta vez. Era, era, mas o Facebook, o Instagram, e o WhatsApp tiveram um treco de mais de 6 horas, qual caixa de Pandora.

Felizmente, parece que nenhum político de alto calibre português tem contas off-shore. *cough, cough* O PS teve mesmo visão quando passou aquela lei em que se pode repatriar dinheiro pagando só 5% de imposto. Isto evitou enormes chatices e até ajudou a equilibrar o erário público.

Imagine-se que os moços do Facebook nem entrar no seu edifício conseguiam porque o leitor de cartões não estava a funcionar e não abria a porta. Uma incompetência tamanha só podia ser produto americano.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Decepcionante

Estava a ler a coluna do Ross Douthat no NYT e caiu-me o queixo. Falava ele da possibilidade de Biden perder contra Trump em 2021. É provável que sim, mas seria extremamente decepcionante que as próximas eleições tivessem estes dois candidatos como escolha. Ambos são medíocres e demasiado velhos para o cargo. A que estaremos nós reduzidos se estes dois são o melhor que os partidos têm para oferecer e os eleitores acharem bem.

O que vale é que ainda há muita água para passar debaixo desta ponte: continuamos com bastantes incertezas relativamente à pandemia, às quais se acresce uma possível crise energética, bancos centrais a normalizarem a poítica monetária, e um mercado laboral muito desequilibrado. Não há como sair disto sem uma crise.

domingo, 3 de outubro de 2021

A arte de dizer mal

Jantei fora com uns amigos americanos e a noite prolongou-se. Acabámos a falar de política--se me dissessem há 30 anos que os meus serões seriam assim passados, acharia que a pessoa realmente não percebia nada de mim. Afinal quem não percebia de mim era eu própria, mas digressiono.

O mais interessante para mim nos EUA é a forma como os americanos se criticam a si próprios, ao seu governo, à sua cultura. Perguntava-me um dos meus amigos o que era ser americano? Não é nada porque a América é tão heterogénea, nada que se compare aos alemães, italianos, polacos, etc. Na Europa é que se encontra uma verdadeira identidade nacional, concluia ele.

Depois é preocupante a forma como os americanos estão endividados, a tal máquina impressora de dólares que só é viável porque os EUA têm a reserva de valor internacional, mas até quando durará isso, perguntava. Não há resposta satisfatória porque tudo tem um fim, mas por enquanto os valores da América não só prevalecem como servem de farol para outros países, logo talvez seja uma questão de crença.

Pode parecer difícil de acreditar que uma sociedade que produz Trump possa criar algo de valor, mas há um enorme enigma: porque é que alguém como Trump pode despoletar mais progresso social do que um Obama? Como é que a sociedade civil se movimentou tanto, definindo caminhos e valores que repudiava versus outros que preferia?

O que para mim é salutar é que os americanos são imbatíveis a dizer mal e a apontar os seu próprios erros e limitações e fazem-no a pessoas de fora, são mais duros consigo próprios do que com os outros. Ninguém diz "está calado para não dar mau aspecto." Pelo contrário, se um diz mata, o outro diz esfola. Enquanto este espírito de auto-crítica durar, os americanos estarão safos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Irresistível

É imperativo gozar com o estado da justiça portuguesa. Afinal o Rendeiro esqueceu-se que, após condenação, teria de se render. O melhor é processá-lo por publicidade enganosa. Entretanto, vale a pena alargar o portfólio de ditados populares:
  • Foge, foge ó Rendeiro -- de Portugal nem leves o cheiro
  • Mais vale um Rendeiro em fuga que Outubro de chuva
  • Rendeiro fora de casa, orelhas do Costa em brasa
  • A justiça lenta o coração do Rendeiro alenta
  • Não adianta chorar sobre o Rendeiro fugido
  • Rendeiro nas Bahamas disfarça-se até com mamas
  • Mais depressa que a 100, Rendeiro vai, mas não vem
  • Rendeiro de charuto nem parece ser corrupto
  • Da melhor democracia, até Rendeiro se extravia
  • Num longe mar vê-se o Rendeiro a nadar

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Finalmente diferente

O Julian foi hoje ao check-up anual e, pela primeira vez desde que começou a pandemia, o veterinário estava com máscara. As auxiliares também estavam, à excepção de uma, mas notava-se que as máscaras não eram usadas com grande rigor. Eu lá estava com a minha máscara, como tenho feito desde o início. Às vezes pergunto-me se estas pessoas já tomaram a vacina. Seria um hipócrita se não tivessem tomado, já que passam a vida a vacinar cães.

Mas a adopção da máscara agora indica que há qualquer coisa a mudar, apesar de ser por ordem do condado. Antes também houve alturas em que era obrigatório e pouco caso faziam. Parece que aos poucos as coisas entram nos eixos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Concordámos em discordar à vezes

Na minha reunião semanal com as minhas amigas de Houston, uma delas perguntou o que achávamos da terceira dose e se iríamos tomar. A questão não é tão pertinente para mim, que sou a mais nova e que não estaria afectada a curto prazo, dado que apenas aconselharam os mais idosos e de maior risco a levar. Mesmo assim, dei a minha opinião e acho imoral estar a dar terceiras doses nos EUA, quando os países mais pobres nem uma dose têm para toda a gente. Por sorte, eu tinha lido uma peça de opinião no NYT em que se falava da forma vergonhosa como os países mais ricos se têm comportado no acesso às vacinas e mencionei algumas das coisas que li.

Instead, as the Duke scientist Gavin Yamey told The Lancet, “rich countries behaved worse than anyone’s worst nightmare.” They bypassed Covax — either completely or by slow-walking their financial contributions — cut multiple deals directly with vaccine manufacturers and bought up many more shots than they would need, long before any had been authorized for use. As a result, not only did Covax never amass the purchasing power at the heart of its plan, but also by the time the initiative secured enough funds to start buying shots, it was at the end of a long queue.

De nada valeram estes argumentos para persuadir a minha amiga, dado que nos EUA não há falta de vacinas, foi a lógica dela. Ela ainda disse que era a favor de se partilhar a receita das vacinas para que os países pobres as pudessem fabricar. Só que os países pobres não só não têm as fábricas, como não têm a mão-de-obra porque uma das coisas que os países ricos fazem bem é captar a mão-de-obra qualificada dos pobres. Foi nessa altura que ela avançou o argumento dos contribuintes americanos pagarem impostos logo têm direito a que o governo lhes forneça vacinas.

Discordo na teoria, mas não subscrevo na prática, dado que na minha vida pessoal não sou apologética da pobreza franciscana, e muito menos vivo assim. Como dizia a minha amiga, sou contribuinte pagante e não pago assim tão pouco, mesmo assim, a não ser que me digam que as doses que já tomei não oferecem protecção nenhuma, irei evitar tomar a terceira dose.

O sabor amargo da terceira dose, que o Biden já foi tomar -- conflito de interesse! -- não me sai da boca porque isto de salvar os ricos e deixar morrer os pobres é digno do século XIX, não do XXI, e é mais um pontinho que marco contra o Biden. Até o Bush se preocupou em ajudar os países de África a combater o vírus do SIDA, logo como é que o Biden tem desculpa para agir assim?

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Preparem-se agora

A frequência de notícias sobre a falta de gás natural na Europa intensifica-se e crê-se que o problema poder-se-á espalhar à América do Sul, Ásia, etc.

Desde a Administração Obama, mais precisamente em Maio de 2011, que os EUA se tornaram exportadores líquidos de gás natural por causa do "fracking" (usando água), uma tecnologia que remonta a 1947 e que começou a ser mais estudada durante a Admininstração Bush I, mas que só com o Obama atingiu o seu potencial. Se calhar, até se recordam de ocasiões esporádicas em que houve preços negativos de gás natural, quando havia excesso de oferta, sem que houvesse como transportar tanto produto. Este ano não deve ser assim.

Como é que os americanos se tornaram exportadores de produtos derivados do petróleo? Por causa das crises do preço do petróleo na década de 1970. O Presidente Jimmy Carter foi o primeiro a contemplar a ideia de os americanos se tornarem independentes em energia. Os presidentes que se seguiram começaram a trabalhar nas políticas de diversificação de produção: fracking, biodiesel e etanol, e energias renováveis. Só demorou uns 35 anos, que é menos de uma ditadura em Portugal.

Há muita gente ainda a celebrar os resultados das autárquicas, mas se o inverno for muito frio, os novos autarcas poderão ter em mãos uma situação catastófica poucos meses após assumirem funções, logo há que precaver-se. Há que fazer um levantamento dos pontos mais fracos de cada autarquia o quanto antes e depois delinear um plano para lidar com os problemas antes que eles apareçam. O governo central tem de coordenar os esforços e fazer triagem de recursos. É mesmo preciso haver plano B porque ainda nem nos livrámos da pandemia.

Não pensem que terão tempo de esperar que a UE acuda Portugal porque a UE vai estar de mãos cheias. Sabemos que a Europa envia dinheiro se morrer muita gente, mas dá mau aspecto deixar morrer as pessoas só para se ter mais uma bazuca.

sábado, 25 de setembro de 2021

Texas vs. Portugal

Continuando com a nossa pequena obsessão com o aborto no Texas, há pelo menos um médico que desobedeceu à lei do Texas e depois escreveu uma peça de opinião no WashPost sobre a sua desobediência. "Desobediência" é o título do filme sobre o Aristides de Sousa Mendes, cuja história tive oportunidade de conhecer precisamente no Texas, no Museu do Holocausto, em Houston. Surpreendentemente, os livros de história portugueses não ma ensinaram, nem sequer os meus professores, provavelmente porque a sociedade portuguesa quer-se bem-comportada, o que dá jeito quando é preciso ir tomar as vacinas. A história do Aristides de Sousa Mendes devia ser conteúdo obrigatório nas escolas. Felizmente, os americanos já são empacotados com o gene da desobediência: speak truth to power e do the right thing, como se diz cá na terra. Sendo assim, há organizações não-lucrativas nos EUA que ajudam as mulheres necessitadas a ter abortos, se assim o quiserem, mas não é o melhor que se pode fazer e temos de continuar a salvaguardar os direitos destas pessoas.

O conhecimento mínimo que se deve ter dos EUA é que são uma imensa manta de retalhos, dado que há competição por poder entre o governo federal, o governo dos estados, e o governo local (cidades e condados). Para além disso, a Comunicação Social, o chamado quarto poder, é muito poderosa e tão eficaz que andam portugueses a fazer campanha contra o Texas nas redes sociais. Finalmente, a sociedade civil americana é muito activa e por isso anda tudo frequentemente à batatada. O próprio Texas é um estado muito heterogéneo: há sítios muito progressivos, bem mais progressivos do que Portugal, por exemplo, e outros bastante conservadores.

Como dizia a Ruth Bader Ginsberg, "Real change, enduring change, happens one step at a time," o que é ainda mais pungente nos EUA onde, para se mudar alguma coisa, é preciso muito esforço dada a fragmentação do poder. A realidade é que as coisas mudam e, quando mudam, já foram sujeitas a tanto escrutínio e a tantos desafios que é difícil desfazer o que já foi feito. Há décadas que se tenta repelir Roe vs. Wade, a decisão do Supremo Tribunal que concede às mulheres o direito ao aborto, e o caso ainda sobrevive, apesar do suspense contínuo.

Decidi fazer uma pesquisa acerca do aborto em Portugal e a situação não é assim tão diferente de muitos sítios na América, inclusive o Texas. Resume-se assim, de acordo com o abstracto de um estudo do Miguel Areosa Feio, publicado em 2021, no Sociologia: Problemas e Práticas:

A despenalização do aborto previu eliminar os abortos clandestinos, embora ainda existam barreiras ao aborto seguro que afetam mais as mulheres desfavorecidas: objeção de consciência, prazos demasiado curtos para o procedimento, períodos de reflexão obrigatórios ou a estigmatização. Foi investigada a relação entre a formulação legislativa e a sua implementação, sendo que eventuais discrepâncias atestam a falência parcial dos seus objetivos. Foram analisados os dados quantitativos da DGS e qualitativos provenientes de entrevistas e focus group com especialistas e profissionais de saúde. As evidências produziram orientações para debates futuros.
No artigo mesmo, esta parte é de salientar:
Em Portugal existem hospitais em que a generalidade dos profissionais de saúde habilitados para a realização de IG declararam objeção de consciência (Chavkin, Leitman e Polin, 2013), aspeto que se concretiza nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Açores, Alentejo e nos distritos de Castelo Branco e Guarda por constrangimentos no funcionamento das consultas (DGS, 2016, 2018, 2019; Stifani, Vilar e Vicente, 2018). Nestes casos, o procedimento passa pelo encaminhamento para serviços privados, o que, na grande maioria das situações acontece para o centro da cidade de Lisboa, independentemente da zona de residência da mulher, numa manifesta iniquidade na garantia plena do direito à saúde em situações de aborto.
Esta é a realidade portuguesa, o que me leva a pensar nas mulheres portuguesas a quem a lei portuguesa falha e que vêem a campanha que se faz em Portugal para mudar o Texas -- ou será para enxovalhar? Como é que estas mulheres se sentem ignoradas em Portugal? Mais vale emigrar para o Texas, ao menos todo mundo civilizado anda a defender os direitos de quem lá está.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Os cães ladram...

E a caravana passa. Comentava a Ana no último post que não fazia sentido emigrar para os EUA porque os americanos chicoteavam os emigrantes do Haiti na fronteira e tinham outras cenas. Ninguém foi chicoteado, mas houve um guarda que lançou uma corda pelo ar num gesto que não é admissível. Os Texanos são efectivamente marados e há que manter a reputação de serem cowboys, mas o certo é que entre ir para o Haiti e para os EUA, as pessoas preferem os EUA--obviamente! E entre Portugal e os EUA, também é EUA: basta ver o número de refugiados que vem para os EUA comparado com o que vai para Portugal, mesmo fazendo o ajuste pelo tamanho da população.

Como dizia a minha empregada que é das Honduras, a qualidade de vida aqui é muito melhor do que nos países de onde estas pessoas vêm, apesar de se suspeitar que muitos destes emigrantes estivessem em outros países da América Latina e aproveitaram a mudança de regime de imigração para os cidadãos do Haiti por causa do terramoto para tentar entrar.

Há um ponto curioso que as pessoas parecem não compreender: quem define os valores da sociedade ocidental hoje em dia são os americanos. O que as pessoas valorizam é o que alguns americanos valorizam. As grandes questões actuais têm todas o marketing americano: o aquecimento global, o movimento MeToo, os direitos da comunidade LGBTQ, o multiculturalismo, o racismo, a violência, etc. Tudo isso é discutido na praça pública porque os media americanos fazem cobertura dessas questões. O facto de ser discutido em praça pública quer dizer que não é consensual, mas é preciso avançar estas causas e os EUA são um bom laboratório de questões sociais para o resto do mundo.

Finalmente, parem de dizer que o aborto é ilegal nos EUA: o aborto é permitido desde 1973, mas com restrições e as restições variam de estado para estado. O que está em causa é as restrições serem demasiado apertadas em alguns sítios, mas isso não significa que a sociedade americana é atrasada. Até 2007, Portugal tinha restrições ao aborto muito mais apertadas do que os americanos, logo os portugueses não estão mais avançados do que os americanos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Vai abrir

Passou um bocado despercebida, mas a administração Biden anunciou na Segunda-feira que vai suspender as restrições de entrada nos EUA a pessoas da UE (e do Reino Unido) que estejam vacinadas. O plano é normalizar as coisas em Novembro, o que, suponho, dá algum tempo para avaliar como a Europa se ajusta à rentrée em termos de pandemia.

Estou bastante curiosa para ver como é que os portugueses vão reagir a isto, dado que no início da pandemia vi muitas pessoas a pedir informações nos grupos do Facebook acerca de como emigrar para os EUA. Perante tanta insistência em obter informação, a minha hipótese é que muitos irão sair -- ou então já saíram para outras paragens.

O desemprego americano recuperou bastante desde o início da pandemia: chegou a estar quase nos 15% e agora encontra-se em 5,2%. Há um enorme desajuste no mercado de trabalho que está a fazer pressionar os salários mais baixos para aumentarem porque não há muitos trabalhadores interessados nos empregos disponíveis, nem os patrões conseguem encontrar empregados com qualificações que desejam, ou seja, os emigrantes terão bastantes oportunidades.

A União Europeia não está a recuperar tão rápido como se deseja. Só para se ter uma ideia, de acordo com uma publicação da União Europeia, em que usaram preços correntes convertidos para euros para calcular a porção do PIB mundial que cabia aos EUA e à UE, e passo a citar o original:

In 2018, the United States accounted for a 24.0 % share of the world’s GDP. Although the United States’ share in 2018 was 0.9 percentage points less than it had been in 2008, it moved ahead of the EU-27 whose share fell from 25.6 % in 2008 to 18.6 % in 2018. Note these relative shares are based on current price series in euro terms, reflecting market exchange rates.

Se usarmos os números do Banco Mundial, com as séries ajustadas pela paridade do poder de compra e a preços constantes em dólares internacionais de 2017, em 2008, a UE detinha 19,12% do PIB mundial; em 2019, estava em 15,25%; e em 2020, estima-se ter estado em 14,8%.

É uma tempestade perfeita.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Húbris outra vez

Se não me falha, já vamos na terceira vez em que deitamos foguetes antes do tempo: primeiro, a pandemia não chegava a Portugal porque os portugueses eram geneticamente superiores; segundo, Portugal não ia ter muitos casos porque os portugueses eram pessoas que sabiam o que tinha de ser feito; terceiro, vencemos a guerra contra o vírus porque Portugal é o melhor do mundo a vacinar. Caminhamos para outro embate com a realidade porque ainda não aprendemos a lição.

Em primeiro lugar, há a qualidade dos dados. As vacinas são uma contagem efectiva, enquanto que os números da população são estimativas, logo estimativas têm erros. O erro mais óbvio é que os dados preliminares do censo da população de 2021 indicam que a população portuguesa é de 10.347.892, mas a estimativa oficial da população é de 10.297.081 em 2020, de acordo com o INE; mas se forem ver o que o Worldometers usa, por exemplo, encontram 10.160.514. Ou seja, no cálculo da percentagem da população vacinada, parece que o denominador usado é inferior ao real, logo a percentagem da população vacinada é superior ao real--não se espantem se começarem a ver percentagens superiores a 100%.

Mesmo a contagem das vacinas é problemática: o processo de vacinação já se arrasta há nove meses, logo nesse período, é natural que pessoas vacinadas tivessem morrido de outras causas, mas não tenham sido retiradas da contagem. Na proporção de vacinados por faixa etária, também haverá pessoas que agora estão numa faixa etária alta, mas que foram vacinadas numa faixa etária inferior -- é que em 9 meses, alguns que tinham 64 anos, passam a ter 65, por exemplo. Como eu dizia, não se espantem se começarem a ver percentagens superiores a 100%.

O esforço de vacinação não é apenas português porque houve residentes que se foram vacinar ao estrangeiro -- até vieram aos EUA, imaginem -- porque Portugal estava atrasado nas vacinas. Depois chegaram a Portugal e inscreveram a sua vacinação no respectivo centro de saúde. Parte dos emigrantes que viajaram a Portugal durante este verão fizeram isto porque mostrar o certificado de vacina é mais prático do que andar a fazer testes Covid para poder ir de um lado para o outro.

Um outro problema é que numa população envelhecida, a vacina não é tão eficaz e a população portuguesa é das mais envelhecidas do mundo. Depois combina-se isto com o facto de Portugal ter casas mal-preparadas para o Inverno, logo as pessoas passam frio, vivem com humidade, bolores, carunchos, etc., o que enfraquece o sistema imunitário.

Os preços da energia também contribuem para a falta de conforto das casas, dado que Portugal tem energia das mais caras da Europa, o que é agravado pelo fraco poder de compra dos portugueses. Há menos de duas semanas, João Galamba afirmou que o governo não descartava preços mais altos de electricidade para 2022. Na semana passada e em resposta à subida do preço do gás natural, a Espanha anunciou medidas de emergência para reduzir os custos de energia para os consumidores espanhóis.

Finalmente, temos de considerar que a pobreza aumentou com a pandemia, logo vai haver gente a passar fome para além de frio; ser vacinado não vai adiantar grande coisa quando não se tem energia para lutar contra uma infecção.

domingo, 19 de setembro de 2021

O fim

Fiquei acordada até às duas da manhã para terminar de ver A Cozinheira de Castamar. O início da série foi bom, mas tem algumas coisas que me incomodaram um bocado, pois não desenvolve bem as personagens secundárias, que depois irão ser bastante importantes para a história. Mereciam ter uns arcos mais detalhados. Para o fim, acabam por compensar essa falha e as coisas tornam-se mais complexas e dinâmicas. 

Não sei se o fim é credível, pois parece mais sonho do que a realidade das personagens principais. Talvez seja indicação que estão a contar seguir a série. A Netflix diz que é a primeira época, o que pode indicar que possa haver uma segunda, mas a série não foi desenvolvida originalmente por eles. 

Ainda não encontrei nenhuma produção portuguesa no catálogo de séries da Netflix, apesar de já ter visto filmes de países mais pequenos, como da República da Geórgia (The Trader e My Happy Family), que tem menos de 4 milhões de habitantes -- achei ambos fascinantes. Aliás o My Happy Family é capaz de ser um dos meus filmes preferidos.   

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Franhol

Desde há uns meses para cá que me tem apetecido praticar o meu francês que anda pelas ruas da amargura. Ainda não me resignei a ler, mas cheguei a comprar um livro audio da Marguerite Duras, que ainda não terminei. No outro dia, lembrei-me de perguntar à minha antiga professora de francês, que também é bastante minha amiga, se seria aconselhável arranjar uma explicadora online, pois encontrei uma plataforma que oferece esse serviço e tem vários preços, mas por $40/hora já se faz a festa. Sugeriu-me que usasse o Duolingo e também podia ver uma série francesa na Netflix, que era parecida com o Twin Peaks, que ela sabe que eu adoro.

Comecei a ver a dita série e mal conseguia entender uma palavra. Aquele pessoal parece que engole as palavras--dava jeito uma personagem tipo o Gordon do Twin Peaks, que gritava e falava devagar para toda a gente o compreender. O pior era a história, pois aquilo é bastante assustador e eu já não tenho 18 ou 19 anos. Além disso, o Twin Peaks tinha bastante sentido de humor e a estética era mesmo do outro mundo. A série francesa peca em ambas essas frentes. Desisti.

Ataquei a série Valéria, que tinha começado a ver há alguns meses, mas não me tinha entusiasmado no primeiro episódio. Desta vez persisti e acabei por gostar muito. Para além de ter muita graça, até  tem o benefício de se ouvir calão. E depois passa-se em Madrid, o que acho uma mais-valia porque gostaria muito de voltar a visitar, desde que vi algumas gravuras do Goya quando estive em Miami, FL, em Dezembro de 2019.

O espanhol até nem é uma língua muito feia e percebi mais dos diálogos da Valéria do que dos da Zone Blanche, a tal série francesa. Já me disseram que se passarmos um mês em Espanha, saímos de lá a falar espanhol, o que também me alicia muito. Andava assim um bocado indecisa entre o espanhol e o francês, mas não me impediu de começar a ver outra série espanhola, La Cocinera de Castamar, de que também estou a gostar muito. E a Netflix já me deu mais recomendações de coisas espanholas.

Hoje voltei a atacar o francês: decidi ouvir o podcast "Change Ma Vie". Não é que me interesse muito sobre o tema de mudar de vida -- eu, que me farto de mudar! -- mas a Clotilde Dusoulier foi das primeiras bloguers que segui por causa do seu Chocolate &  Zucchini, logo tenho um fraquinho por ela.

No podcast, que compreendi para aí 85% ou mais, ela fala da importância de sonhar e de nos darmos permissão de desejar mais e melhor para podermos ter uma vida auto-realizada. Nos dias de hoje é muito difícil pensar e querer uma vida plena e, para além disso, muitas vezes quando se planeia tudo, acabamos por não valorizar outras oportunidades que vão surgindo. Ou seja, compreendi o que foi dito, mas não compreendi de todo ser tão detalhado na forma como se planeia a vida. 

Ainda não consegui decidir-me entre o francês e o espanhol, mas se calhar o melhor é enveredar por podcasts em francês e séries em espanhol.


quinta-feira, 16 de setembro de 2021

P'rá-Frentex

O Gavin Newsom, governador da California, safou-se da tentativa de o destitiur do cargo. E não só se safou, como teve resultados muito bons, logo temos aqui, quase certamente, um futuro candidato às Presidenciais americanas pelos Democratas. Como candidato não adianta nada ao partido, pois a Califórnia já vota Democrata com ou sem ele. Se ele for o candidato, não voto nele. Com o Biden tive de engolir o sapo por causa do Trump, mas só me sacrifico uma vez. No NYT, o Charles M. Blow, um comentador negro, diz que os Democratas estão a falhar aos homens negros. Não tenho simpatia nenhuma, pois já tivemos um presidente negro, o que nunca tivemos foi uma presidente. E, ainda por cima, há mais mulheres do que homens negros, logo se isto é falhar aos negros, que diremos nós do que estão a fazer às mulheres... Felizmente, no meu outro país, que é über-progressivo, brevemente iremos ter uma Presidente e uma Primeira-Ministra. Os portugueses são assim: p'rá-frentex.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Orientação

A minha empregada que veio das Honduras recebeu recentemente a irmã mais os seus dois filhos, logo há três crianças lá em casa com 12 anos ou menos. A mais velha ainda não foi para a escola porque ainda têm de ir tratar da papelada. Perguntei se os meninos gostavam de viver aqui e ela disse que sim, estavam todos muito felizes, era outra qualidade de vida e a educação era melhor.

Ela tem uma filha com uns problemas de saúde, que ficou recentemente uns quatro dias no hospital e depois foi transferida para o St. Jude. No St. Jude, que é um hospital para crianças com cancro, as famílias não pagam pelos cuidados médicos, dado que o hospital é financiado através de doações. Explicava-me ela todas estas reviravoltas de saúde, mas metade ficou por entender porque falava muito rapidamente e eu não quis interromper o entusiasmo.

No entanto, não parececia nada preocupada, nem sequer falou nos custos do hospital, mas também não lhe perguntei se tinha seguro de saúde. Em algumas cidades, há apoios para os imigrantes ilegais terem acesso a seguro de saúde a custo reduzido.

Os EUA são um país muito engraçado. Muitos imigrantes ilegais, mesmo não falando inglês, conseguem orientar-se relativamente bem e alguns até pagam impostos sobre o rendimento. Já certos americanos, apesar da vantagem de terem nascido e crescido no país, têm a vida de pantanas, como foi o caso do canalizador e da sua esposa.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Histórias

À conta da morte de Jorge Sampaio, mais uma vez tive de levar com a lição habitual: não se pode dizer mal dos mortos e se eu digo mal dos deificados portugueses, falam-me dos americanos problemáticos. Por exemplo, o Clinton teve affairs, logo é mauzito porque nunca nenhum político português faria tal coisa, subentendo. O Bush filho também é um caso bicudo porque invadiu "um país milenar." Na verdade, ele invadiu dois países e nenhum deles era milenar.

Há uma enorme hipocrisia da parte dos portugueses: ao mesmo tempo que se orgulham de terem sido um país de conquistadores, como cantam os Da Vinci, e de terem metido o nariz em todo o lado, nem queriam dar independência às colónias, acham de mau tom as incursões dos americanos. Não é que os americanos tenham tido razão em iniciar as guerras, mas achar-se moralmente superior é muito fajuto.

Quanto ao Bush II, que fez muita asneira e foi um péssimo presidente, tem o mérito de se ter arrependido e de, após ter saído da Presidência, se ter dedicado à causa dos veteranos, mas também tinha uma enorme dívida para com estas pessoas. Talvez quando morra, os portugueses digam bem dele porque está na moda. O pior é o Salazar, que está mortinho da Silva, e agora não se pode dizer mal dos mortos...

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Normal, também

A Administração Biden decidiu impôr um mandato de vacinas que abrange as empresas que têm mais de 100 empregados. A justificação é segurança no local de trabalho, ou seja, é abrangido pelo OSHA (Occupational Safety and Health Act), assinado pelo Nixon em 1970. Note-se que em Portugal, quem teve Covid só precisa de uma dose de vacina para ser considerado vacinado, mas nos EUA alguém que tenha recuperado de Covid tem de completar o número de doses normal, o que atrasa o processo de vacinação.

Muitos políticos republicanos fazem campanha contra as vacinas, ao mesmo tempo que se vacinam, mas é normal em todo o lado que os políticos digam uma coisa e façam outra. Do lado das empresas, muitas já tinham imposto regras restritivas porque têm medo de processos em tribunal, se as pessoas ficarem doentes no local de trabalho. Com a ordem do Biden, dá para se culpar o governo, em vez de se passar pelo mau da fita. Normal, também.

domingo, 12 de setembro de 2021

Vinte anos

Este ano, celebra-se os 20 anos dos actos de terrorismo de 11/9/2001, mas nota-se que o tom da conversa mudou. Nos jornais e revistas, há artigos a discordar da chamada Guerra ao Terrorismo. Cometeram-se abusos e injustiças e o fiasco da saída do Afeganistão serviu para trazer todas as atrocidades mais uma vez à baila. Depois, a maioria dos americanos discorda do que foi feito.

Acho lamentável que o Biden tenha usado esta data para motivos políticos, dado que o plano era sair do Afeganistão antes de 11 de Setembro, custasse o que custasse, e nem sequer teve o cuidado de sair de cabeça erguida, saiu às três pancadas, arricascando a vida de muita gente.

Mas a realidade é mais complicada, pois os americanos não saíram completamente: a política oficial é que saiu, mas a verdade é que há várias organizações de fins não-lucrativos que ainda estão a tentar tirar refugiados do Afeganistão e muitas pessoas sentem-se moralmente obrigadas a cuidar de quem nos ajudou. É salutar ver a sociedade civil a divergir do governo, como se assistíssemos ao país a acordar de um longo pesadelo.

sábado, 11 de setembro de 2021

A propaganda

Morreu Jorge Sampaio, logo foi elevado a um dos melhores Presidentes da República. Não foi. Foi um presidente medíocre que meteu Sócrates à frente do país com carta branca para se endividar e já sabemos onde a República foi parar. Depois temos o outro génio das contas à portuguesa, o actual Primeiro Ministro que diz que Portugal resistiu bem à crise da pandemia porque está a crescer acima da média. Portugal foi dos países que mais sofreu, pois não só perdeu em PIB que caiu acima da média, apesar de ser bastante raquítico à partida, perdeu também em vidas. Obviamente que a qualidade de vida e morte dos portugueses interessa pouco ao PM; mas, pronto, dá jeito que os reformados morram mais depressa, assim nem é preciso cativar a despesa. Deus cativa-lhes a vida e fica tudo equilibrado como que milagrosamente.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Metidos num picle

Como se diz na América, we're in a pickle. Estamos prestes a atingir o nível máximo de dívida, logo o Congresso precisa de agir. Mais valia não haver teto da dívida, se é para ter estas crises com todos os presidentes que tomam posse. Tanto Obama como Trump tiveram direito a "government shutdowns", que são uma grande chatice para quem faz análise de dados. Depois, o Biden é um incompetente, logo não vai ser uma coisa bonita de se ver.

Ou seja, este Presidente vai durar um termo e desgastar a imagem do Partido Democrata, o que dá grande vantagem a um candidato republicano. Pelo sim, pelo não, o Trump continua a recolher doacções para a sua causa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A má história

A New Yorker desta semana tem um longo artigo sobre o Afeganistão que é extremamente crítico da intervenção americana. Os erros precedem Bush II e continuaram com Obama; chamar-lhe erros é favor porque são mesmo atrocidades. Sendo assim, a má execução do Biden é perfeitamente previsível, pois tem sido uma litania de más escolhas e coisas mal-feitas. Faz-me pensar nos relatos que vemos nos livros de história em que as coisas são apresentadas como se tivessem lógica e tivessem acontecido da melhor forma. Espero que esse ponto de vista esteja em vias de extinção.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Nada a fazer

A telenovela da torneira tornou-se numa saga do teto quando houve uma pequena inundação cá em casa por causa do ar condicionado e de um dos canos ter ficado entupido, o que levou a que o teto tenha ficado danificado. O canalizador ofereceu-se para reparar o teto e eu concordei, mas foi um enorme erro. A carrinha do homem avariou, o carro que a esposa comprou por $1000 é uma porcaria e também avaria amíude. Foram comprar material e o carro foi assaltado, já é o segundo assalto que têm num curto espaço de meses. Ficaram sem telefone, sem documentos, etc. porque deixaram tudo no carro quando foram à loja. Não percebo como é que não entendem o conceito de telemóvel.

No final da semana passada dei-lhes $575 para comprar os materiais para o teto, mas não compraram tudo e ficaram sem dinheiro--já gastaram $1000 a reparar o carro. Tive de avançar $300 + $100 + $125 da parte de trabalho porque estão sempre sem dinheiro, apesar de, no total, eu já lhes ter dado mais de $3000 pelos vários trabalhos que já fizeram nas últimas duas semanas e também tiveram outros clientes. Depois combinam e aparecem atrasados, têm de sair por 10 minutos e só regressam passadas três horas, ou seja, passei o Domingo e o feriado sem ir a lado nenhum porque não sei quando aparecem.

Quando me pediram os $125 fiquei bastante chateada e disse-lhes que não era banco. Com os outros, uma pessoa paga no fim tudo de uma vez e não tem de andar com estas complicações de horários. Isto confunde-me imenso porque como é que eu conto as horas que ele trabalhou se eles está sempre a entrar e a sair.

Depois uma pessoa dá uma oportunidade pensando que os está a ajudar e eles pegam no dinheiro e enterram-se ainda mais comprando um carro que devia estar na sucata. Como é que se arranja maneira de orientar estas pessoas? É que isto é que alimenta a pobreza endémica americana, as péssimas escolhas. Por muitas oportunidades que o país tenha e tem bastantes, se as pessoas ecolhem mal, não há grande coisa a fazer.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Dejá Vu

Quem conhece a história dos EUA, recorda-se certamente do conflito entre o poder dos estados e o poder federal durante o Movimento dos Direitos Civis, em que alguns estados resistiam em eliminar a segregação entre brancos e negros. Desse tempo saíram bastantes episódios icónicos para a história americana que vão desde casos em tribunal, manifestações, intervenção do governo federal para escoltar alunos negros que estavam matriculados em escolas de brancos, etc. Daí saiu o Civil Rights Act de 1964 e a Affirmative Action. Penso que o mesmo acontecerá com a questão do aborto.

A maioria dos americanos é a favor, mas há certos estados que insistem em limitar o acesso -- muitos americanos também são a favor de restrições a acesso. Não há legislação federal que garanta o acesso ao aborto e até agora o que garante é a decisão do SCOTUS em Roe vs. Wade. Ou seja, há bastante trabalho que pode ser feito do ponto de vista legislativo e da parte do governo federal, à semelhança do que aconteceu com o Civil Rights Movement e parece que a administração Biden se compromenteu a avançar a causa. Veremos se tem imaginação para tal.

sábado, 4 de setembro de 2021

Don't mess with Texas

O SCOTUS decidiu deixar em vigor uma lei do Texas que proibe o aborto após as seis semanas. O Justice Roberts, que é o meu contorcionista preferido, decidiu votar pela minoria. A modos que está tudo furioso, mas pela minha parte acho que este é o melhor resultado. Não é que eu seja a favor da lei do Texas, mas já é um bocado cansativo ter de depender do SCOTUS para defender este direito. Está na hora da sociedade civil se mexer e despachar alguns destes legisladores. É preciso fazer campanha contra eles e tirá-los do poleiro. Nesse aspecto, o reinado de Trump serviu para alguma coisa: incentivar a sociedade civil a ser mais vocal acerca do que realmente querem.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Ida em Nova Iorque

A depressão tropical Ida matou pelo menos 43 pessoas na zona Nordeste dos EUA, umas histórias muitos tristes, com pessoas a morrer afogadas em apartamentos que ficavam em caves, outras em carros apanhados em ruas com água. Há dois dias tinha matado seis quando passou pela Louisiana e Mississippi, deixando cenas de destruição completa. Mesmo assim, dada a densidade populacional da zona afectada, podia ter sido bem pior. A governadora de Nova Iorque tomou posse há pouco mais de uma semana e já foi catapultada para uma tragédia deste calibre.

Estas últimas semanas, com as tempestades e a crise no Afeganistão, quase que dava para pensar que tínhamos saído da pandemia, mas é capaz de ser apenas um curto interregno.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Uma família

Um amigo meu enviou-me uma notícia de Portugal sobre a família do intérprete que auxiliava os militares portugueses no Afeganistão e que foi deixada para trás. Achei mal, obviamente. Não percebo a dificuldade de trazer uma família, ou será que a pessoa tinha um harém? Mesmo se tivesse, até dava jeito para reforçar a população portuguesa, logo devia ser uma coisa de alta prioridade.

Alguém sabe o que anda a fazer o pessoal do Ministério dos Negócios Estrangeiros? Nem ajudam refugiados, nem actualizam as páginas dos consulados/embaixadas. Ainda têm informação acerca do lançamento da Presidência portuguesa da UE, como se tivesse sido alguma coisa de jeito. Só gastaram dinheiro mal gasto e deram má publicidade ao país.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O marketing

Espalhada pela comunicação social de hoje, a notícia de que tinha acabado a guerra do Afeganistão, mas claro que é puro marketing. Faz-me impressão não haver mais sobriedade depois da porcaria que fizeram. Agora o verniz está estalado e as coisas não parecem ir correr bem para esta Administração. A economia já atingiu o pico, o investimento em infraestrutura vai criar sérios problemas na economia porque não há mão-de-obra suficiente, a pandemia ainda vai demorar mais um ano ou dois, e daqui para a frente iremos ser brindados com as consequências da má execução da saída do Afeganistão. Os democratas vão sair desta administração enfraquecidos, mas antes irão ter bastantes derrotas nas eleições do próximo ano. É a vida e eles bem merecem deitar-se na cama que fizeram.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Segunda semana

Estamos na segunda pior semana da Administração Biden, que está a demonstrar ter o mesmo nível de incompetência da do Trump. Há apenas a diferença de que não há tuítes, mas há comunicações do Presidente ao povo quase todas as semanas, o que já irrita as almas. Os portugueses, especialmente os lisboetas, irão divertir-se com esta: diz o Político que o governo americano entregou uma lista de nomes de cidadãos americanos e aliados afegãos que precisavam de ser evacuados ao Talibã, com a desculpa de que era para os salvar. É completamente inacreditável que sejam tão negligentes. Espero bem que alguém processe o governo americano e, se precisarem de dinheiro para pagar advogados, eu ajudo.

Parte da Louisiana, inclusive Nova Orleães, está sem electricidade por causa do furacão Ida. Há hospitais com pacientes em ventiladores que não têm electricidade para os ligar, mas a FEMA (agencia do governo federal) está no campo e o apoio parece estar a decorrer como deve ser, mas ainda é cedo para deitar foguetes. (Nos EUA, o governo federal só pode intervir depois de o governo local pedir ajuda ao estado e o estado pedir ajuda ao governo federal.) Há sítios na Louisiana que estarão sem electricidade durante semanas e as indicações é que quem evacuou não deve regressar antes que tenha ordem das autoridades.

Em Memphis, estamos sob alerta devido a possíveis inundações e rajadas de vento que podem chegar a 64 Km por hora. A electricidade tem falhado e neste momento, 2:15 da manhã, estou sem e mesmo o telefone não está a ligar à Internet, mas dá para enviar SMS. Não é costume estar acordada a esta hora, mas a modos que adormeci antes de conseguir publicar.

Adenda: Temos electricidade. Demorou quase hora a meia a ligarem.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Um monstrinho

Estamos todos a acompanhar o furacão Ida, que aterrou hoje na Louisiana, no décimo-sexto aniversário do furacão Katrina. Eu que estou em Memphis, a seis horas de Nova Orleães, já vi a força deste monstrinho. Algumas das bandas exteriores chegaram aqui por volta das quatro da tarde. Primeiro chovia enquanto fazia sol, uma hora depois era um ventania misturada com chuva, e o ar muito húmido e quente.

Amanhã, para além da chuva, também esperamos muito vento, e uma descida da temperatura. A zona de West Memphis, que fica no Arkansas, no outro lado do rio Mississippi, está sob aviso de inundações. Uma das minhas amigas vive em Baton Rouge, LA, e estava bem humorada, dizia que tinha comprado uma casa à prova de furacão, mas que só iria ter a certeza por volta das duas da manhã. Esperemos que corra bem e que não haja muitas fatalidades.

domingo, 29 de agosto de 2021

Incompreensão

O serão de sexta-feira cá em casa foi absolutamente maravilhoso, pois os meus amigos portugueses de Memphis (só conheço uma família aqui) vieram jantar cá a casa. É sempre muito especial falar em português europeu porque gosto muito da sua sonoridade, mas poder falar de arte, livros, história é mesmo um privilégio e, nesse aspecto, sou mesmo priviligiada pois tenho bastantes amigos por todo o lado e acho-os bastante interessantes, apesar de também serem muito diferentes.

Depois aconteceu o dilúvio do ar condicionado e tive de chamar o canalizador outra vez. Obviamente que estou imensamente grata por ter vindo ajudar-me nesta altura, mas ele e a esposa também estavam muito agradecidos de poder ganhar algum dinheiro extra. Disseram-me que eu era uma pessoa muito fácil para quem trabalhar: tratava-os bem, a casa era arrumada e limpa e não tinha baratas, nem outras pestes, pagava a tempo e horas e bem, e eles já pensavam em mim mais como uma amiga do que como uma cliente.

Esta foi a segunda vez que pessoas que trabalham em reparações ficaram surpreendidas que eu os tratasse bem. Quando me mudei cá para casa e contratei um senhor para me ajudar com a reparação das paredes e lhe ofereci almoço e nos sentámos juntos à mesa, ele achou estranho. Nunca ninguém lhe tinha feito isso. Ontem, a este casal, como eu ia buscar jantar fora, perguntei se queriam alguma coisa e também tiveram a mesma reacção.

Não percebo.

Cómico

Enquanto terminava de ler o romance "Cómicos", de Antero de Figueiredo, ouvi um barulho de água que parecia o meu cão a beber, mas durava tanto que também pensei que o cão estivesse roto. Qual quê, era a válvula de escape da água da condensação do ar condicionado que timha entupido e começou a inundar o sótão, logo o teto estava a pingar no chão de madeira. Por sorte, o cunhado da minha vizinha é engenheiro e veio em meu auxílio. Juntos descobrimos a causa do problema e conseguimos desentupir parte do mecanismo. O resto precisava de um canalizador, logo lá telefonei ao senhor que esteve cá há dois dias. Quer dizer, a novela continuou e isto dava para um romance que talvez fique para depois de eu dormir porque já são quanse 2:30 da manhã. Até já...

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Alguns milagres

O New York Times noticiou que, nos últimos dias, uma média de 20 mil pessoas estavam a ser evacuadas diariamente de Cabul, mas hoje o número tinha baixado para 13400 (o total de evacuados até 24 de Agosto rondava os 58,7 mil). Nos últimos dias, mediante informação de que a zona em redor do aeroporto não era segura, foram dadas indicações para as pessoas saírem da zona de risco. Entretanto, houve pelo menos duas explosões que mataram pelo menos 13 americanos e feriram 15; o número de afegãos que pereceram excede os 30 e mais de 140 ficaram feridos. Foi precisamente isto que dominou todo o serviço noticioso e que levou o Presidente Biden a discursar esta tarde, prometendo caçar os culpados, o que não é congruente com o facto de ele querer que as forças militares saiam até de 31 de Agosto. (O que me apetecia era um Presidente dos EUA mudo, que não desse nem um piu porque uma pessoa fica farta de tanta idiotice.)

Mas vamos às boas notícias. De acordo com a World Central Kitchen, uma organizão de fins não-lucrativos fundada pelo chefe espanhol Jose Andres, que fornece refeições a pessoas carentes, já chegaram pelo menos sete aviões com refugiados ao aeroporto de Dulles, na Virgínia. Esta era a contagem à meia-noite, hora local, de ontem. A campanha do Instagram de Quentin Quarantino indicou que, até às 20 horas de ontem, a operação Flyaway também recolheu 350 pessoas em 24 horas, mas não indicaram o país para onde foram. A equipa de Hillary Clinton também teve pelo menos um voo que saiu de Cabul e já aterrou algures, de acordo com informação do New York Times de há uns dias.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Telenovela da torneira

Ontem o canalizador e a sua esposa regressaram para substituir o fundo do armário debaixo do lava-loiça. Por causa da fuga da torneira antiga, a madeira estava cheia de caruncho e tinha arqueado. Um mau aspecto horroroso, que me deprimia tanto que esvaziei o armário e coloquei quase todas as coisas que lá estavam na garagem: out of sight, out of mind. Eu não sabia, mas a torneira nova é muito zen. Tem linhas muito simples e quando olho para ela sinto uma paz enorme.

Por volta das 14 horas de ontem, a esposa do canalizador enviou mensagem a dizer que iam chegar brevemente, mas quando apareceram não ficaram muito tempo porque apenas mediram o armário e depois foram comprar materiais. Ah e também foram a casa buscar prendas para o meu cão porque ela gosta muito de cães, achava o meu muito giro, e tinha um dinheiro extra. Regressaram quase às cinco da tarde, não faço ideia como gastaram tanto tempo. Há umas quatro lojas de ferramentas e construção a menos de 10 minutos de minha casa.

Esta família é muito conversadora e, para além de se entreterem um ao outro, também me arrastam para o debate. A senhora falava de tudo. A certa altura, falou da sua medida de crédito (credit score), que é um número que sumariza a nossa história de crédito e que determina muitas coisas: as taxas de juro que pagamos, a nossa capacidade de obter crédito, o custo de seguros, a possibilidade de arrendar uma casa, etc. A escala vai até 850, mas um número acima de 700 é bom. As variáveis que contam para o cálculo são a longevidade da história de crédito da pessoa, se paga as contas a tempo e horas, se tem muitas contas abertas recentemente, qual a percentagem de crédito que usa, etc.

Ora neste casal, ela com 38 e ele com 53 anos, ela tinha um número nos 500 e ele tinha um número ainda pior porque pagava tudo a dinheiro e não usava crédito, logo não havia dados a substanciar que ele pagava as coisas a tempo e horas. Mas ela dizia que pagavam sempre as contas, só que há uns meses tinha ficado doente com pneumonia dupla e esteve internada, até perdeu 20 Kg. E, exacto, não tinha seguro de saúde e não tinha dinheiro para pagar a conta, logo teve de ir a aconselhamento para organizar o pagamento da dívida. A conselheira tinha dito que a credit score ia aumentar, mas ainda não tinha aumentado. Também havia outro pormenor: tinha uma conta à ordem, mas estava com saldo negativo de mais de $200.

Até às 23h30m da noite, contaram-me muitos detalhes sobre toda a sua vida e escolhas que faziam e já me tinham dito outras tantas no dia anterior. Não são pessoas más, nem burras, são apenas desorientadas, o que pode sair caro. Não se pense que é uma coisa única dos americanos porque eu conheço pessoas desorientadas de outras nacionalidades, inclusive portugueses. O que é único nos americanos é a singeleza com que nos contam estas coisas, como se nos conhecessem e confiassem em nós, e até nos pedem a opinião.

No final, por reparar o armário, que lhes demorou em excesso de cinco horas, pediram-me uns $760, que incluia mais de $400 em materiais porque achavam muito dinheiro e deram-me descontos. Eu disse que não queria desconto, que não me importava de pagar tudo. Então ia ser $1060, mas pedi que me dissessem quanto custavam as coisas e fiz os cálculos eu própria. Ele diz que cobrava $100 por hora, logo paguei-lhe $1200, o que dava mais de 7 horas de mão de obra e os tais $400 e pouco de materiais, mas achei o valor justo. No ano passado veio um canalizador arranjar uma fuga na parede de um quarto de banho, custou $2300, e fiquei com o quarto de banho todo destruído, sem a sanita montada, nem o chão arranjado, porque a reconstrução era à parte. Esse canalizador trabalhava para uma empresa em vez de trabalhar por conta própria, logo daí o preço mais alto.

Ia pagar com cheque, mas já passava das 23 horas e não sabiam se dava para ir trocar por dinheiro. Sugeri que depositassem pela app do banco, mas não queriam depositar porque depois o banco ficava com parte do dinheiro para cobrir o saldo negativo. Precisavam do dinheiro para pagar o aparelho de dentes de uma das filhas, que custava $750, o que era uma fortuna. Quando eu usei aparelho, o tratamento custou mais de $6 mil e era 2006, logo não achei caro. Acabei por pagar via Venmo e espero que vivamos felizes para sempre.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Sobrevivência

Veio cá o canalizador trocar a torneira da cozinha. Encontrei-o pelo NextDoor, mas demorou algum tempo até acertar as agulhas. Quem trata da publicidade e do contacto com os clientes é a esposa, como é um bocado desorganizada demorou a responder-me. Ele parece que trabalha mais de 90 horas por semana e ela anda com ele porque senão não o via. Costuma-se dizer que quem corre por gosto não cansa e talvez seja este o caso. Por duas horas de serviço paguei $300, o que incluiu algumas peças mais a mão-de-obra, e que era o preço de tarifário. Não me parece que ganhe pouco e precise de trabalhar tanto.

Antes de eles chegarem, fui ao Lowe's comprar uma torneira nova, o que custou $200 mais imposto, ou seja uns $220. Ainda se considerou reparar a outra, mas podiam ser precisas peças e ia ser um pesadelo encome encontrar as coisas e quem pagava o tempo de andar à caça de peças era eu. A nova funciona bastante bem, o único defeito que acho que tem é ser um bocado grande para aquele lava-loiças. A culpa é de toda a gente agora querer cozinhas enormes com lava-louças do tamenho dos que se vêem em casas campestres, logo a selecção de torneiras é limitada. Outro factor limitante é o lava-louças ter quatro buracos e muitas torneiras agora são para um ou dois.

Durante a visita ninguém usou máscara. Ainda pensei nisso, mas tenho a certeza que esta malta já apanhou o vírus, logo, mesmo que não estejam vacinados, já estão imunes. Mantive a distância e acho que correu bem, mas digo-vos daqui a cinco dias.

A esposa era muito conversadora e contou que recentemente tinham visitado as Smoky Mountains para trabalhar nuns apartamentos muito caros. As pessoas eram estranhas e ninguém usava máscara, dizia ela. Depois, quase que não havia gente de cor e os três que encontrou eram muito diferentes das pessoas que ela via em Memphis. Aliás, as de Memphis são muito únicas, não fazia ideia de onde vêm.

Contei-lhe que dois terços da população de Memphis era negra por causa dos surtos de febre amarela do seculo XIX, em que muitos brancos morreram e outros saíram da cidade e não regressaram. Ela perguntou-me porque é que os negros não morreram e eu respondi que a febre amarela veio de África, os negros estavam expostos à infecção,logo tinham mais imunidade porque muitos que não eram resistentes tinham morrido em África. Era o mesmo que se passava com a pandemia agora: chegamos à imunidade quando os menos resistentes morrerem. A vacina serve para nos tornarmos mais resistentes e sobrevivermos.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Os surpreendidos

A eleição de Barack Obama inaugurou um novo paradigma na política internacional americana, mas talvez a mudança até tenha ocorrido durante a presidência de George W. Bush. Depois do falhanço das intervenções no Iraque e no Afeganistão, os americanos perderam o apetite por intervenções via conflitos bélicos, mas continuaram a apoiar intervenções humanitárias, que já vinham da presidência de Clinton. Por exemplo, o governo Bush teve algum sucesso na luta contra o virus do SIDA, que fez parte de um investimento crescente até 2010 em África (saúde, desenvolvimento, e segurança), e as tranferências para a América Latina continuaram uma trajectória ascendente de 1996 até aos cortes orçamentais da Grande Recessão.

Em termos de intervenções militares é que houve uma clara retracção: não houve intervenção na Síria depois do uso de armas químicas em 2013, contrariando a linha vermelha que Obama traçou em 2012; ficaram de lado quando o avião da Malásia foi abatido sobre solo ucraniano (2014); no mesmo ano, depois da Crimeia ser anexada à Rússia, também abdicaram de interferir. No seguimento da eleição de Donald Trump, a política não mudou em nada. O assassinato de Jamal Khashoggi, em 2018, veio à luz do dia por via do governo da Turquia, uma situação deveras confrangedora tanto para os países europeus, como para os EUA, que não demonstraram interesse em que se soubesse a verdade. A única missão mais arriscada ainda foi a caça a bin Laden, cujo assassinato foi bastante cirúrgico e não causou um novo conflito.

Ou seja, a saída do Afeganistão é congruente com a política international americana dos últimos 10 anos. Que os países europeus tenham saído antes e não tenham evacuado os seus cidadãos mais os trabalhadores locais que os auxiliavam é um falhanço dos europeus, não é um falhanço dos americanos; os americanos ficaram para trás a tratar da segurança tanto de americanos, como dos outros. Obviamente que o planeamente e execução da saída americana tresanda a incompetência e não é aceitável o que os americanos fizeram. Só que também não é aceitável que os europeus venham dizer que foram apanhados de surpresa por uma América que já anda em modo "não me meto mais nisto" há uns 10 anos.

domingo, 22 de agosto de 2021

Regresso da máscara

Desde as 7 da manhã de Sexta-feira que o condado de Shelby, onde fica Memphis, mandatou o uso de máscaras em recintos públicos fechados. Há excepções, como por exemplo quando se está sentado num restaurante ou num bar; mas para circular dentro do recinto é preciso a máscara. Há duas semanas, os hospitais e as unidades de cuidados intensivos estavam com ocupação acima de 60%, mas o hospital em Bartlett, que é a 10 minutos de minha casa, estava lotado. Os de East Memphis também andava perto disso. Os dados ainda não foram acutualizados para o público esta semana, mas a imposição do uso de máscara foi indicada como uma tentativa de achatar a curva -- onde é que já ouvimos isso?

Os aficionados da liberdade lá continuam a protestar contra máscaras e vacinas, mas hoje perdemos um. O locutor de rádio conservador Phil Valentine, em Nashville, morreu de pneumonia devido a Covid-19 aos 61 anos. Tinha dito que, se apanhasse o virus, a probabilidade de morrer era de menos de 1% -- pois, mas o problema é quando nós somos o quase 1%. É que alguém tem de ser. Antes de morrer, ainda se desdisse e apelou a que os seus ouvintes se vacinassem. Já é tarde. Mesmo que se vacinem agora, se precisarem de duas doses, vai levar pelo menos cinco semanas a ganharem imunidade, ou seja, vai ser já Outubro e isto piora à medida que o tempo arrefece. Mas mais vale tarde do que nunca.

Também temos de nos lembrar que temos todos de morrer, logo se alguns escolhem ser mais relaxados porque acham que vale a pena correr o risco, apenas estão a apressar uma coisa que é certa. O Phil achou a experiência de ficar doente interessante, logo tirou alguma utilidade da coisa, como se diz em economês, e a sua família recebeu condolências dos políticos mais importantes do Tennessee.

sábado, 21 de agosto de 2021

Já nem beijos, nem abraços

Desejava eu, já há largos anos, que houvesse uma livraria online que servisse a comunidade lusófona e agora há. Chama-se Buobooks e vende livros em português para todo o mundo através do uso de impressoras locais para assim baixar os custos de portes. Notem que esta malta não me paga para eu lhes fazer publicidade, nem comprei nenhum livro ainda, mas achei curioso dado que já tinha pensado em algo parecido. Bem sei, bem sei: as minhas preferências literárias são tão específicas que dificilmente lá encontrarei algo. Não faz mal porque eu tenho uma alfarrabista muito boa no Porto que me atura com aparente agrado, mesmo quando peço para me enviarem as coisas por DHL em vez de correio normal, apesar do preço.

Nunca tinha investigado o tópico, mas a página da Buobooks diz que a diáspora brasileira é de 4 milhões, a portuguesa de 11 milhões, e a africana de 50 milhões. Eu sabia que havia muitos portugueses fora de Portugal, mas não pensava que fossem mais do que a população do país. Vocês sabem se o Parlamento já actualizou as leis eleitorais para permitir aos portugueses exercer plenamente os seus direitos? E o MRS devia andar a certificar-se que a CRP era observada. Afinal de que serve ter um professor de Direito Constitucional como Presidente? Não me digam beijos e abraços porque até disso ele desistiu.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Que fiasco

Há um dia, o Ian Bremmer, Presidente do Eurasia Group e um dos cientistas políticos mais pragmáticos e informados do mundo, dizia que ainda não estava tudo perdido para o Biden, que esta situação podia ser o equivalente à linha vermelha do Obama no uso de armas químicas na Síria -- má, mas ultrapassável. Para o Biden, as coisas só piorariam se houvesse algo parecido com a crise de reféns no Irão que aconteceu ao Jimmy Carter em 1979-81, diz Bremmer.

Acho que dificilmente isto cai no esquecimento, dado o envolvimento da sociedade civil em tentar retirar refugiados do Afeganistão. Diz o New York Times que a equipa da Hillary Clinton orgaizou um vôo charter para tirar mulheres em risco. O Tommy Marcus já tem $6,2 milhões em menos de dois dias para vôos e apoio a refugiados e suspeito que, nos próximos dias, vamos descobrir muitas mais iniciativas privadas. Não me surpreenderia que mais inovações da sociedade civil estivessem a caminho, dado que quatro anos de Donald Trump treinaram bem o pessoal.

Entretanto, depois de evacuar cerca de 3500 militares, os EUA estão a enviar 6 mil para tentar estabilizar a situação. É uma completa humilhação, daquelas a que nos tínhamos habituado durante a presidência do Trump e convenhamos que muita gente que votou Biden argumentava veementemente que, ao menos com ele, não teríamos situações destas.

O que vale é que há sempre alguns americanos que não perdoam e são excelentes a criticar-se a si próprios: completo falhanço de planeamento, execução, e comunicação. Um fiasco completo. Vale a pena ver o Bremmer.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O aparente silêncio

O dia começou com várias notícias acerca da decisão da Administração Biden de autorizar doses suplementares da vacina de Covid-19. Suspeito que a medida teve mais a ver com querer abafar notícias sobre o Afeganistão, do que com a preocupação com a saúde dos americanos, mas é sinal que alguém sabe que meteram o pé na poça. Os meus amigos americanos pouco ou nada falam dos eventos do Afeganistão, mas é daqueles silêncios que dá para cortar com uma faca. Uma das minhas amigas nonagenárias escreveu-me ontem um email em que mencionou que as notícias são demasiado deprimentes, mas não disse quais notícias exactamente. Quando enviei um link a algumas amigas para uma campanha de angariação de fundos para retirar pessoas do Afeganistão, agradeceram-me, mas não disseram mais nada. Sinal de desconforto da malta.

Há que ler entre as linhas. Ao longo do dia, as notícias começaram a reaparecer. Nas redes sociais, as pessoas partilhavam informação de como ajudar. O Instagram Quentin.Quarantino, que frequentemente faz campanhas de angariação de fundos para causas liberais, conseguiu reunir quase $5,5 milhões em apenas um dia para transportar refugiados para fora do Afeganistão--o objectivo inicial era $550 mil para levar dois aviões a Cabul e evacuar 300 pessoas. O criador da página é Tommy Marcus, um jovem de 25 anos, de ascendência italiana.

Segundo a descrição do GoFundMe e do Instagram, o Tommy está a coordenar com várias organizações humanitárias, governos, veteranos militares, activistas, etc. Já foi reunida uma lista inicial de pessoas que precisam de sair do país porque são potenciais alvos mortais, o objectivo é reirar as unidades familiares destas pessoas. Como conseguiram muito mais dinheiro do que contavam, estão a tentar encontrar mais pessoas que precisem de ser evacuadas. Os aviões vão sair da Europa, logo é provável que estes refugiados sejam evacuados temporariamente para algures na Europa. Será curioso ver que países os irão acolher.

Para alguns afegãos, a saída dos americanos do Afeganistão é capaz de ser o melhor que poderia acontecer. Quando os americanos saíram do Vietname, os refugiados vietnamitas acabaram por construir uma comunidade vibrante nos EUA, logo espera-se que o mesmo suceda com estes refugiados. Obviamente, que a Administração Biden vai ter de criar um programa de imigração especial para estas pessoas; nem há alternativa, dado o péssimo aspecto que tudo isto tem.

Depois há os que ficam. Durante estes quase 20 anos de ocupação, o que começou como uma vingança pelo ataque de 11 de Setembro de 2001, tornou-se num programa de educação de muita gente, logo o povo que o Talibã irá tentar governar não é o mesmo de há 20 anos. Talvez não faça diferença nenhuma ou talvez faça toda a diferença para aqueles que não vão sair.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Acabou a lua de mel

Nas redes sociais e na imprensa, multiplicam-se as vozes contra o que se passa com a retirada das forças americanas do Afeganistão. Há especial preocupação com a situação das mulheres e crianças e várias influenciadoras americanas apelaram para que se façam doações a causas que apoiem os refugiados, as mulheres, etc. É tudo muito previsível e demasiado triste, mas esta precipitação marca o final da lua de mel do Biden. A partir de agora, não julgo que ele conte com grande apreciaço dos americanos, mesmo dos que votaram nele.

Talvez seja defeito da idade, mas já não acredito em boas intenções e cooperação entre os povos. Não é possível impôr valores chamados ocidentais em países como o Afeganistão. É uma sociedade completamente diferente: os valores são diferentes, não há poder central, pelo contrário, é muito difuso. Não dá para mudar o país, se os cidadãos não querem mudar. Isso é uma lição que os portugueses sabem de cor. Os americanos são demaisado optimistas e acham que o modo de vida americano é superior ao de outras culturas. O certo é que muita gente quer vir para a América, mas esquecem-se que há outros tantos que não querem que a América vá para a terra deles. Excesso de "hubris", diagnosticam alguns americanos.

Mesmo assim, com o benefício de se poder olhar pelo retrovisor, uma intervenção no Afeganistão poderia ter tido sucesso se tivesse sido alicerçada em relações comerciais, em vez de poder militar. Foi assim que se desenvolveu a China que, apesar de não ser perfeita, podia ter sido pior. As intervenções na Alemanha e no Japão tiveram sucesso porque os americanos intervieram depois de os alemães e os japoneses serem humilhados por derrotas. O Talibã nunca foi humilhado; pelo contrário, a intervenção americana foi uma reação à humilhação dos EUA nos ataques de 11 de Setembero de 2001.

Correndo o risco de me iludir, talvez não esteja tudo perdido. A sociedade americana não aprova este desenlace e muitos cidadãos afegãos parecem não estar dispostos a abdicar do que tiveram, logo talvez haja alguma possibilidade de compromomisso. Não será nada perfeito, mas nesta altura do campeonato, a perfeição é inimiga da acção: preccisamos de algo melhor, não do melhor.