quarta-feira, 28 de julho de 2021

Hã?

Estava a ver as notícias acerca das vacinas do emigrantes em Portugal e nem acredito na maluqueira. Parece que só quatro vacinas é que são reconhecidas e quem não está vacinado pode entrar, mas tem de fazer quarentena, a não ser que apresente um teste negativo. Para sair de Lisboa, pode apresentar vacina, teste negativo, ou certificado de recuperação. E ainda tem de se usar máscara na rua.

Não tenho paciência para tanto paternalismo.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Viagens na minha terra

Agora que estou vacinada e que as coisas estavam a normalizar, eu já tinha um rol de viagens para fazer. Comecei em Maio, com uma semana na costa do Alabama e, no início deste mês, fui passar outra semana a Oklahoma. Em Agosto, o plano é ir visitar Houston. Em Novembro, estava a pensar que podia ir a Itália visitar uns amigos e dar um pulito a Portugal. Finalmente, em Dezembro, era para ir a Nova Orleães ter com umas amigas. Também podia ir a Washington, DC,  lá para o Natal ou pouco depois para renovar o meu passaporte português e o cartão de cidadão, mas isso dependeria do consulado estar aberto e de haver vaga de atendimento.

Só que agora com estes números de casos actuais, não sei se será muito seguro ir a tanto sítio porque se os casos estão a aumentar no Verão, no Outono/Inverno a minha suspeita é que pode ficar bastante mau dado que a variante delta é pior, as pessoas estão fartas de ter a vida em suspenso e já nem máscara querem usar, e ainda há muita gente por vacinar, logo há margem mais do que suficiente para os números piorarem bastante. E depois, há muitas incógnitas se estamos fora de casa, pois sabe-se lá que restrições os governos locais poderão impôr. Tenho de estudar melhor os meus planos de viagem, mas até pode ser que as coisas se resolvam nas próximas semanas. Os picos de casos não duram muito tempo.


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Insularidade

A Indonésia é neste momento o país em que a pandemia está a avançar mais rapidamente apesar de ser um país composto por milhares de ilhas. Mas é também um país populoso, com cidades que têm vários milhões de pessoas. Depois também têm costumes que não são muito apropriados para uma pandemia. Quando eu andava a fazer o doutoramento, tive uma colega de mestrado que era da Indonésia, que nunca tinha ido a um médico em toda a sua vida. Um dia começou a doer-lhe a barriga e, em vez de ir ao médico, reunia-se com os seus amigos para rezar a ver se melhorava. Não melhorou e teve de ser levada às urgências. O médico pensava que ela estava grávida, mas não, o problema é que tinha um tumor benigno do tamanho de um melão. Ela era uma pessoa com um nível alto de educação, logo presumo que ainda é pior com o resto da população.

O mais preocupante é que as notícias indicam que há bastantes crianças a falecer de Covid-19 na Indonésia por causa da variante Delta e a Indonésia já teve várias vagas de casos. Penso que é muito propável que o resto do mundo venha a ter uma evolução semelhante na população não-vacinada. Convinha acelerar o processo de vacinação para atingir pelo menos 75% a nível local. Receio que não se chegue lá, infleizmente...

domingo, 25 de julho de 2021

A bela vida no Tennessee

De Quinta-feira a Sábado, no parque de estacionamento da igreja Baptista ao pé da vizinhança, há um vendedor ambulante de hortaliças e frutas. A mercadoria vem de uns agricultores menonitas aqui do Tennessee, mas não me recordo exactamente de onde, e quem me informou da origem dos produtos foi o rapaz que me veio entregar uns vasos enormes que eu comprei no ano passado. Esse rapaz trabalhava na loja de jardinagem e o filho dos donos da loja de jardinagem é que é o vendedor ambulante de fruta. O rapaz disse-me que também ajudava nessa operação. Os americanos contam a vida toda.

Paguei-lhe $50 pela entrega: os três vasos tinham custado mais de $500 e foi porque estavam com 50% de desconto. Quando o senhor que me corta a relva viu o preço marcado de um ($299) olhou para mim com grande incredulidade; afinal ele só me cobra $30 para cortar a relva, mas costumo ser bastante generosa nos serviços que ele me presta. Correndo o risco de parecer intrometida e crítica das escolhas dos outros, já reparei que ele tende a não trabalhar quando acumula um bocadinho de poupanças.

Os menonitas são um grupo de pessoas parecido com os Amish, só que enquanto que os Amish não usam tecnologia moderna, ou seja, ainda vivem como viviam no século XIX, os menonitas usam algumas modernices, como telemóveis, automóveis, equipamento agrícola... Isto é mesmo uma definição bastante rudimentar porque a origem dos dois grupos é mais complicada. No entanto, foi assim que me explicaram há uns largos anos, quando eu estava num evento agrícola e vi um senhor menonita ao telefone, mas cujas roupas, corte de cabelo, etc. me pareciam estranhos, tipo amish.

Apesar de não haver muita variedade de produtos à venda, tudo o que oferecem ao público é muito saboroso e vistoso. Os tomates, pêssegos, beringelas, melancias, pimentos, etc., parecem tirados de um anúncio de fruta cara. A única coisa que não vendem é verduras. Ontem à tarde passei por lá e levei a irmã da minha vizinha que está de visita por causa da saúde da mãe. Ficou encantada com a aparência dos tomates porque na Califórnia, onde vive, não há tomates assim. A Califórnia especializa-se em tomates para ser enlatados. Estes que nós comprámos pareciam ser os Red Beefsteak e alguns "heirloom"(especies antigas), que são tomates para se consumir frescos, para além de poderem ser cozinhados.

Quando regressámos ao carro, começa a dizer "Now that I am here..." e eu pensei que ela ia elogiar a óptima qualidade de vida que se tem em Memphis, em que até se compra hortaliças perto de casa muito em conta, há muitas árvores, é tudo muito verdejante, não há filas de trânsito, etc. "... you could teach how to cook", termina ela.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Os bicharocos

Por indicação do veterinário, o Julian tem de ir ao quarto de banho mais vezes por causa da medicação que tomou para a laringite, logo visitamos com mais frequência o nosso jardim em progresso, o que até dá jeito para descansar os olhos do écran do computador. Enquanto estávamos nestas vidas, dei uma vista de olhos à bicharada que frequenta o éden caseiro. Há bastantes pássaros e tenho mantido uma lista das espécies que já consegui identificar, mas terei de a deixar para vos contar noutra altura. No entanto, posso-vos dizer que é mais fácil observar os pássaros no inverno e investigar o que são, pois não há folhas nas árvores; o único senão é que o espaço não é tão bonito.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Eu bem dizia...

Em Junho, saiu um paper do NBER em que se discute um novo índice de actividade nos EUA e que é baseado nas estatísticas da formação de novas empresas. O número de candidaturas à criação de novas empresas atingiu valores máximos durante a pandemia e, decerto, irá afectar o desemprego. Se o pessoal anda entretido a criar empresas, então quer dizer que provavelmente não andará à procura de emprego, logo irá criar condições de maior escassez no mercado de trabalho. Quando os EUA começarem a dar vistos de trabalho, é quase certo que a imigração aumente. A única incógnita é se as grandes empresas irão conseguir convencer a Administração Biden a aumentar significativamente o número de vistos.

Mais empresas também significa maior inovação nos EUA (o contrário de Portugal, parece). A única coisa que me faz curiosa é saber se um grande número destas empresas tem a ver com a quantidade de influencers que se encontra hoje em dia. É impressionante ver as coisas a que se dedicam estas pessoas. De vez em quando penso, se é bom para a economia haver tanto influencer, mas depois concluo que devia haver a mesma reticência quando começaram a aparecer revistas e jornalismo de lazer. Parece-me que estamos mesmo a jeito para ter uns loucos anos 20 outra vez.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Já nem é cómico

De há uns anos para cá, tenho receio de ir a Portugal, até antes da pandemia. Estando o país a empobrecer -- esqueçam a ideia de estagnação porque, se houvesse estagnação, não haveria crescimento da dívida -- a ideia de cativações era-me bastante assustadora por duas razões: a primeira porque foram feitas às cegas e a segunda porque toda a gente foi na onda e não havia oposição, nem escrutínio político. Então, imaginava eu que ia aí, tinha um acidente e ia parar a um hospital e não havia equipamento, ou pessoal para cuidar da minha pessoa. É que nos EUA hospital há sempre, até há helicópteros para lá chegar mais depressa. Pode custar uma fortuna, mas entre estar vivo com conta enorme a pagar ou morto sem conta, acho que prefiro a primeira hipótese. 

A notícia do Primeiro Ministro hoje, a dizer que está a contar com "a libertação total da sociedade" no fim do verão só alimenta mais os meus receios. É que ele não faz ideia nenhuma de às quantas anda, não é verdade? Depois de quase ano e meio de pandemia ainda andar a "prender a sociedade" só me diz que vêm aí cativações ao quadrado, sim porque a bazuca não é suficiente para pagar tudo. Quanto mais se adiar o funcionamento normal da sociedade e da economia, maior a conta. Note-se que uso a palavra normal de propósito porque temos um novo normal, logo já tivemos bem mais de um ano para aprender a viver com isto. 

Finalmente, um governo que todos os anos se contorce para celebrar a liberdade do 25 de Abril de 1974 admite que a sociedade que governa não é livre e ninguém sai para a rua. Não é cómico, é apenas prova de que os portugueses não sabem português.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Dois meses

 O NBER anunciou hoje que a recessão da pandemia apenas durou dois meses nos EUA. Decerto que tal resultado se deve ao estímulo enorme que foi dado à economia americana tanto em política fiscal, como em política monetária e do qual não há precedente. Estando decidido que a economia começou a recuperar há mais de um ano, as perspectivas para mais estímulos ficam um bocado em banho Maria. No entanto, a administração Biden lá anda a tentar passar o tal plano de infraestrutura. Não sei se haverá mão-de-obra livre para a implementação do plano, se este passar a lei.

Será interessante ver como é que a economia irá normalizar. 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Os medíocres

O Arkansas aqui ao lado é um dos estados em que a variante Delta de Covid-19 está a fazer mais estragos; também é um dos estados que tem uma taxa de vacinação mais baixa, na ordem dos 44%, o que é 1% a mais do que o Tennessee, onde eu vivo. Aliás, o TN apareceu esta semana nas notícias porque o estado decidiu terminar a campanha de vacinação de menores. O Jimmy Fallon até tem um slogan novo para o turismo do meu actual estado: "Tennessee: Come for the music, stay for the polio." Os americanos são muito bons a publicitar os seus próprios podres e a deixar passar a pior imagem do país.

A média semanal de casos no Arkansas é de 990, enquanto que no Tennessee é de 551. Um factor muito importante é o tamanho da população e o Arkansas tem 2,9 milhões de pessoas, enquanto que o Tennessee tem 6,3 milhões. Estes números são mais baixos do que os que se observam em Portugal nesta altura: média semanal de casos de 3110 pessoas para uma população de 10,2 milhões e 45% da população totalmente vacinada. 

Segundo me contam os meus amigos portugueses emigrantes ou que têm dupla nacionalidade como eu, quem leva a vacina no estrangeiro e entra em Portugal conta para as estatísticas portuguesas de vacinação, logo convém os emigrantes irem a Portugal este verão. Os portugueses são craques em aldrabar estatísticas para demonstrar que estão melhor do que o que realmente estão, mas como em tudo, algum dia iremos saber a verdade. Só que nem todos, porque decerto alguns morrerão pelo caminho. 

domingo, 18 de julho de 2021

Sem título

Como fiquei de molho esta semana, levei o Julian a passar três dias no hotel de cães, de onde o fui buscar hoje. Tem tosse, o que nunca aconteceu com nenhum dos meus cães. Ele tomou as vacinas em Setembro, mas não levou o reforço da Bordetella a meio do ano, logo talvez seja isso. Amanhã vou ver se o vet o vê. Claro que estas coisas só acontecem em véspera de fim-de-semana...

Depois de ontem ver o filme, hoje vi um documentário sobre a produção de O Amante do Jean Jacques Annaud, baseado no livro da Marguerite Duras. Quando fui a Oklahoma fiz o download do audiolivro em francês e ouvi parte no regresso, mas não cheguei a terminar. Até gostei do filme, apesar de ter sido muito criticado pela crítica. Suponho que, hoje em dia, no auge do politicamente correcto, nem o livro seria publicado, nem o filme seria feito. 

P.S. O post de ontem: não sabia que título dar a isto e adormeci a pensar nele.

 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Mais sorte do que amor

Lembrei-me esta semana que o carteiro não me tem entregado a minha Architectural Digest. Há um par de dias, o meu vizinho aqui do lado disse-me que estava lá em casa e que ma traria, mas o certo é que não me disse quando. Durante esta conversa, a esposa que estava ao lado e que é enfermeira explicou-me que tem estado em casa deles a tia dela. É uma senhora que deve estar nos seus 50 anos e que se veste como se tivesse 16. De vez em quando vejo-a a passear o cão e também na varanda a fumar, o que me intrigava bastante, dado que hoje em dia é raríssimo ver-se pessoas a fumar por estas bandas.

A senhora é tóxico-dependente e passou um bom tempo sem abrigo em Atlanta, até que foi recolhida pela sobrinha, i.e., a minha vizinha. Durante a conversa, dizia-me a vizinha o quão orgulhosa estava da tia, pois não fazia drogas há mais de 6 meses. Manifestei o meu apoio à senhora, apesar de ela não estar presente, e comentei que estas coisas têm muito a ver com a sorte. A minha vizinha respondeu que também era o amor: quando as pessoas eram amadas, as coisas endireitavam-se.

Pensei em todas as famílias destroçadas por estes problemas, muitas delas com tanto amor, mas mesmo assim as coisas não se resolveram favoravelmente. Pensei para mim que isto é tudo sorte, até para haver amor é preciso ter sorte.     

quinta-feira, 15 de julho de 2021

É do caraças

Estes últimos dias têm sido muito chatinhos. Antes de sair de Stillwater, encontrei-me com dois amigos, um já conheço desde 1995 e a outra conheci em 1997. São pessoas com quem mantenho contacto esporádico, mas considero-os como família. Ele está bem, se bem que desenvolveu diabetes tipo II. Ela, que é mais nova do que eu, está a lutar contra um cancro da mama muito agressivo e nem sequer me tinha dito nada. Esta coisa da pandemia fez-nos ficar mais introspectos e sem noção do tempo. Não julguei que tivesse passado mais de um ano sem ter notícias dela, mas passou. Ainda me é difícil aceitar ou digerir, sei lá, que isto tivesse acontecido. É como se tivesse entrado num universo paralelo.

Depois quando cheguei a Memphis, dois dias depois, a mãe da minha vizinha caiu e tem sido uma odisseia, mas já está em casa e parece animada. Ontem, antes da minha mini-cirurgia, recebi uma mensagem de outra amiga que está em Fayetteville, no Arkansas, e que teve de ter uma intervenção cirúrgica de emergência porque descobriram uma coisa no pulmão, logo retiraram-lhe parte do pulmão como medida de precaução e porque descobriram muito cedo. Quando regressava de Oklahoma, pensei bastante nela, mas como estava com o meu cão não dava para a ir visitar, dado que ela tem gatos e ainda acrescentava umas horas à minha viagem de 9 horas de regresso. 

Mas não me posso queixar, pois está tudo vivinho da Silva. Por falar em doenças, o senhor em Wimberley, no Texas, que morreu de Covid e que era vizinho de uma amiga minha, estava vacinado. Temos de continuar a ter cuidado e a usar máscara nos nossos afazeres diários.      

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Um querido

Andei de cadeira de rodas outra vez, depois de uma pequena intervenção cirúrgica no periodentista. Há quase um ano, ele tinha feito uns enxertos para reconstruir o osso e alguns dentes tinham sido tirados, apesar de todos saudáveis.  Depois, com um laser, limpou o osso em redor dos meus dentes. Saí de lá com cara de elefante, mas é a tal história de eu ter uma doença autoimune e um dos problemas é mesmo o bioma da minha boca que tem umas bactérias que atacam o osso. 

Dessa vez, sem contar com o seguro, paguei mais de 15 mil dólares (tive um desconto de 5% porque paguei a pronto) e agora paguei quase 4 mil dólares para ele meter quatro parafusos para colocar implantes (e dizia a Maria, no post anterior, que os americanos não gastavam dinheiro na saúde; ainda por cima, já não ofereceu o desconto de 5% porque diz que deixaram de dar). Mas também tive de pagar algum dinheiro no dentista normal para serviços complementares, foi uns 5 mil dólares. Agora para terminar os implantes, ainda vou ter de pagar mais no dentista. O seguro dentário só comparticipa uns 2 mil dólares por ano, logo o tratamento foi feito em dois anos para assim poder ter mais comparticipação.

Não imaginam a odisseia que é limpar os dentes. As enfermeiras e o periodentista insistem que é preciso não me esquecer, no mínimo, do FBI: Floss, Brush, Irrigate. Usar o fio dental, lavar dois minutos com escova de dentes automática, usar uma maquineta para irrigar entre as gengivas e os dentes com uma solução de água e lixívia (90%-10%). Depois também limpar a língua e usar as mini-escovas entre os dentes. É uma seca fenomenal; estou farta de dentes.

Como só levei anestesia local, estive acordada durante a cirurgia e coitadinha da minha pressão arterial que quando me sentei na cadeira estava nos 117/71, quando o normal é 100/70. Também houve o pequeno detalhe de ele me ter receitado um calmante e de eu não ter recebido um na farmácia, logo não tomei. O outro detalhe foi eu não ter lido as instruções dos medicamentos antes da cirurgia, logo não me apercebi que faltava qualquer coisa. Oops...

Bem, mas um dos benefícios de se viver nos sul é que, enquanto ele esburacava a minha boca, dizia: "You're doing great, dear, I'm so happy with how everything looks." E se eu suspirava um bocadito, perguntava logo "Are you OK, sweetie?.." Não faço ideia que coisas dirá aos homens, mas parece-me que as mulheres são beneficiadas. 

Quando cheguei a casa, a construção civil que ocorreu na minha boca começou a doer, logo tomei uns analgésicos e fui dormir. Acordei, umas quatro horas depois, e tinha uma mensagem do médico que me tinha telefonado às 18:30 e me informava que, se eu tivesse algum problema, podia telefonar para o telemóvel dele.      

terça-feira, 13 de julho de 2021

As Mulheres ao Leme

A Christine Lagarde anunciou hoje que a política monetária de apoio à UE vai mudar de formato brevemente, quer dizer, daqui a 10 dias. Será interessante ver o que ela vai cozinhar, mas parece-me ter o diagnóstico correcto: precisa de mudar porque o que está em vigor não funciona, dado o processo contínuo de empobrecimento da UE. 

Também hoje, a Janet Yellen, Treasury Secretary dos EUA, decidiu dar uns conselhos à UE: política monetária expansionista e necessidade de maior apoio da política fiscal. É irónico que os EUA estejam a dizer à Europa que gaste mais dinheiro para acelerar o crescimento; normalmente, os europeus acusam os americanos de ser forretas e de não se importar com o bem-estar dos cidadãos. O certo é que quando é preciso gastar, os americanos gastam. 

O GDPNow é um modelo da Reserva Federal de Atlanta, que tenta estimar o crescimento do PIB americano neste momento, e indica uma taxa de crescimento de 7,86%. Até nem é mauzito...

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Procura-se fim-de-semana

Acordei às 10 da manhã, o que raramente acontece. Raramente para mim quer dizer nem uma vez por ano, mas hoje aconteceu. Às 10:30 já estava preparada para ir com a irmã da minha vizinha tomar o pequeno-almoço e levá-la ao hospital. Estávamos para sair quando recebi uma mensagem dos vizinhos que, enquanto eu estava em Oklahoma, recolheram umas caixas que tinham sido entregues em minha casa. Ofereceram-se para as meter no carro e as virem colocar na minha garagem. Acedi à gentileza e agradeci. Vou ter de pensar numa ideia de como retribuir a atenção. Talvez um bolo...

Os dois sítios onde pensámos ir para o pequeno almoço, o Stak e o The Bagel, tinham esperas de hora e meia e 30-40 minutos. O Stak, que é um restaurante de panquecas, tem um pátio, o que nos interessava mais do que estar dentro do restaurante, mas, surpreendentemente, no pátio só serviam uma mesa de cada vez para não atrapalhar a cozinha, dado que a prioridade era servir as mesas no interior do restaurante. Que parvoíce pegada, deviam era dar prioridade às mesas do pátio e aliviar o interior do restaurante. Acabámos por ir ao Panera Bread, que até estava com muito pouca gente, logo achei mais confortável e seguro.

Quando chegámos ao hospital, a nossa paciente tinha acabado de regressar de uns exames e estava com imensas dores. Mal consegui que sorrisse, apesar de ela me achar imensa piada. As perspectivas de tratamento melhoraram: demorará uns dois meses a sarar a fractura do pélvis e vão colocá-la num centro de reabilitação e vai fazer fisioterapia. Se calhar, ainda sai de lá melhor do que o que estava, mas suspeito que irá ter de usar oxigénio para o resto da vida, o que não lhe agrada muito. Nesta idade de 87 anos não podemos ser muito vaidosos.

O resto do dia acabou por ser muito mais calmo, pois passei-o em casa e deu para fazer sopa antes de ir buscar o Julian ao hotel. Consegui apanhar a reunião de Zoom semanal com as minhas amigas do Texas. Uma delas, que vive em Wimberley: uma pequena vila muito perto de Austin, que tem a notoriedade de ter muitas inundações rápidas (será enxurrada uma tradução melhor?), aliás, fica no que os americanos chamam de Alameda das Inundações Rápidas. 

Dizia a minha amiga que um vizinho já de idade partilhava a casa com um rapaz jovem que não quis ser vacinado. O jovem apanhou Covid e deu-o a um outro vizinho, que vivia com o marido--um dos membros deste casal era filho do senhor de idade. Ao fim de algumas semanas no hospital, o vizinho acabou por falecer de Covid esta semana. Agora o jovem que recusou a vacina arrepende-se de não se ter vacinado.

Após passear o Julian, ainda passei por casa de uma outra vizinha que me deu uma tour do jardim, que eu nunca tinha visto, e me mostrou algumas das peças de arte que colecciona. Por acaso, nunca lhe mostrei a minha casa, mas já a trouxe para ver o meu jardim. Claro que o meu jardim ainda está uma confusão que espero se resolva daqui a uns meses. Quanto à casa, ela segue-me no Instagram, logo já deve ter visto algumas das minhas idiossincrasias.

E pronto, procura-se fim-de-semana que este desapareceu...

domingo, 11 de julho de 2021

Não é doce

É quase 1:25 da manhã e não é nada como as Doce cantavam. A mãe da minha vizinha caiu na sexta-feira de manhã e desde então deteriorou bastante a sua saúde. É impressionante a forma como o nosso corpo com a idade fica descontrolado tão rapidamente. Ao final do dia, quando a visitei achei o caso perdido a não ser que ela fosse às urgências. Só que a senhora recebe cuidados paliativos em casa e se ficasse internada, esse serviço seria descontinuado. Que escolha tão cruel, pensei, mas a realidade é que a saúde dela está de tal forma que apenas há possibilidade de se gerir a situação, mas não há como rodar o relógio para trás.

Por causa da queda doía-lhe a anca, logo ficou de cama. Chamou-se o pessoal dos cuidados paliativos que lhe colocaram uma fralda, mas ela não conseguia fazer nada, mas pedia para ir ao quarto de banho a cada dois minutos. Chamou-se as enfermeiras outra vez que lhe colocaram uma sonda, mas continuou a querer levantar-se porque tinha vontade de ir ao quarto de banho. Era só o que pedia, como se estivesse reduzida àquela necessidade básica. Pouco ou nada dormia, transpirava imenso, tinha a tensão arterial altíssima. 

No Sábado de manhã, ofereci-me para ajudar a cuidar dela e fui colocar o Julian no hotel de cães. No caminho, telefona a minha vizinha a dizer que decidiu que o melhor era levar a mãe às urgências. Era o que eu pensava também e quando regressei já havia uma ambulância à porta. Fomos para o hospital, onde nos mandaram telefonar no espaço de 30 a 45 minutos para saber em que quarto tinha ficado. Nos EUA, quem chega de ambulância a um hospital tem prioridade no atendimento. 

Aproveitámos para dar um pulo ao Starbucks e comemos alguma coisa, dado que já passava do meio dia e regressámos. Recentemente, mudaram as regras e permitem que agora haja duas pessoas com cada paciente nas urgências e nas enfermarias. À entrada, pomo-nos à frente de uma maquineta com câmara, que nos tira a temperatura e administra um questionário. Depois dá-nos um autocolante para indicar que podemos entrar. 

Primeiro, a paciente estava bastante apática, acho que o cérebro já estava com falta de alguma coisa, pois ela já não bebia grande coisa, nem comia quase nada. Quando foi admitida, o nível de oxigénio estava muito baixo. Demorou umas largas horas até que voltasse a ter noção da realidade e, mesmo assim, continuava bastante inquieta. 

Fizeram dois cat scans, um ao peito e outro à anca, e um monte de análises. Encontraram uma pequena fractura e havia fluidos nos pulmões. Também tinha uma infecção urinária e decidiram testar se tinha sépsis. É uma aflição enorme ver alguém que estamos habituados a funcionar quase normalmente num estado tão debilitante. Nestas alturas, fico bastante feliz por não ter filhos; parece-me mais fácil emocionalmente apenas ter estranhos a tomar decisões. Bem sei que é uma porcaria e precisamos alguém que advogue por nós, mas dá algum conforto saber que nunca iremos causar dor a entes queridos, pois estes não existem.

São quase duas da manhã. Vou dormir...


      

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Foi ao banco

Foi publicada no Diário da República, no dia 5, a criação do Grupo de Projecto Património Fotográfico Nacional  que precede a criação de um Museu Nacional da Fotografia. 

Não foi especificado como é que se vai pagar esta obra, mas uma possibilidade é o Primeiro Ministro se ter despachado na sua ida ao banco. Está bem pensado que, no meio de uma pandemia, haja a preocupação de se preservar o espólio fotográfico e o disponibilizar num museu. Decerto que os portugueses desempregados apreciarão terem mais este entretém onde passar o seu tempo. 

O local mais adequado para a localização desta obra seria a localidade com maior taxa de desemprego de Portugal, pois assim criar-se-iam alguns postos de trabalho e promover-se-ia o turismo porque há bastantes portugueses interessados em visitar um museu de fotografia. 

Por exemplo, o Centro Português de Fotografia, no Porto, está sempre bastante vazio porque as pessoas receiam que seja um sítio tão movimentado que nunca lá aparecem. Mesmo os turistas que se interessam por literatura e que não se importam de fazer fila e até pagar para visitar a livraria Lello para comprar um livrito para ler no avião têm tanto receio da popularidade do CPF, que fazem o supremo sacrifício de não visitar a cela onde esteve preso o Camilo Castelo Branco. 




quinta-feira, 8 de julho de 2021

Road trip

 À segunda vez, o Julian já percebe o que é uma road trip e dormiu quase toda a viagem. Tivemos sorte com o trânsito ao entrar em Memphis e, apesar da velocidade reduzida, não chegou a ficar parado, logo completámos o percurso até casa em pouco mais de nove horas e fizemos quatro paragens. 

Por sorte, na viagem de regresso, parei em dois parques de descanso no Arkansas que desconhecia, mas que achei bastante interessantes. Um deles tem uma vista deslumbrante e o outro um pequeno jardim, que, com o calor já estava bastante adiantado, com muitas das plantas a caminho de produzirem semente.

No Arkansas, os parques de descanso têm todos um grelhador de carvão ao pé de casa mesa. Acho que quase ninguém os usa, mas eles lá estão. Não me recordo de os ver em outros estados, mas daqui para a frente irei prestar mais atenção.

Ficam algumas das fotos dos parques de descanso da ida e da volta no Arkansas.


terça-feira, 6 de julho de 2021

685

Hoje terminei de ler The Portrait of a Lady, de Henry James. A versão que li tem 685 páginas e confesso que me assustou imenso começar a ler, pois achei que fosse demasiado maçudo ou que perdesse o interesse a meio. Surpreendentemente, agradou-me bastante. 

Não vou descrever a história, mas há dois pontos que achei muito interessantes e apropriados para os dias de hoje.  O primeiro é uma diatribe de Henrietta Stackpole, uma modernaça americana, acerca do carácter de Lord Walburton, um nobre inglês. Diz ela que o carácter dele é ser dono de metade de Inglaterra, um país que era considerado livre e no entanto ela descreve o contrato social vigente como "ownership of wretched human beings". Para ela, a única coisa de que se deve ser dono são objectos inanimados. 

O livro desenrola-se em finais de 1860 e foi publicado em 1880-81. Note-se que a escravatura foi abolida nos EUA em 1865 (Juneteenth), logo a visão que Henrietta tem dos EUA é muito mais avançada do que a realidade o era. Mas Inglaterra era muito retrógrada, achava ela.

A segunda coisa é mais diáfana e tem a ver com o papel das mulheres na sociedade. A ideia é que uma mulher com dinheiro é livre de fazer o que lhe dá na telha e, no entanto, a personagem principal  que dizia desejar ser livre acaba por fazer escolhas que a limitam cada vez mais, apesar de ter uma situação abastada. O contraste entre o que devia ser e o é é muito interessante.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Agridoce

Stillwater, OK, foi o primeiro sítio que me acolheu nos EUA. No último ano e meio regressei três vezes e talvez desta sinta mais o passar do tempo. O campus da universidade está muito diferente por um lado e, por outro, tem quase todas as coisas que tinham significado para mim. Falta as lojinhas que tinha na Student Union, onde encontrei vários coisas que me agradaram tanto que ainda as tenho. E a última vez que estive na livraria não gostei tanto da nova localização, como gostava da antiga e o recheio da loja estava um pouco mudado.

É muito fácil olhar para a cidade e pensar em todas as vidas que eu podia ter tido e não tive, coisa que não me acontece quando visito Portugal. É para mim extremamente difícil imaginar uma vida profissional em Portugal, dado que é mais estrangeiro para mim do que os EUA. Já não vou a Portugal há três anos, mas tirando os meus amigos, não sinto grande falta.

Parabéns aos EUA, que completam 245 primaveras, e hoje é também o dia da minha cidade em Portugal.



sábado, 3 de julho de 2021

União

O nosso passeio matinal foi em redor do Boomer Lake. Fiz este percurso muitas vezes quando vivia aqui, mas já me tinha esquecido de muitos detalhes como as pontes de madeira que unem certas bermas. Sou feliz ao pé de água. Apesar de fresco para Oklahoma, o Julian teve alguma dificuldade em terminar a volta; para a próxima, teremos de encurtar e virar para trás. 

Em redor do lago, notei que algumas das árvores são recentes e não existiam há 20 anos. Os espaços de habitat para pássaros também não existiam: em vez de plantarem e cortarem a relva, há zonas onde deixam crescer vegetação nativa e ao pé destas foram instaladas casas para os pássaros. Fiquei surpreendida que tantos pássaros aproveitassem a gentileza.

De tarde, fomos jantar a Oklahoma City após o ensaio do casamento.Nunca tinha conhecido o noivo, mas ele já tinha ouvido falar muito de mim. Acho engraçado, mas não faço ideia o que a minha ex-sobrinha lhe disse a meu respeito. Já não via as minhas quatro ex-sobrinhas há uns 10 anos. Estão muito crescidas: a mais velha casa amanhã e a mais nova está a terminar o secundário e vai estudar na mesma universidade onde eu estudei.

Só conheci as duas mais velhas quando elas já tinham uns quatro anos, mas as mais novas acompanhei desde o seu nascimento. Como deixei de as ver ainda as mais novas eram pequenas, não me parece que se recordem de mim. Ou pelo menos são bastante tímidas na minha presença. É qualquer coisa de mágico a velocidade a que as crianças cre,scem ou o tempo passa, sei lá. Estas criaturas, que um dia eram indefesas e que nós tentávamos proteger, já têm vontade própria. 

E é eestes preparos que a mais velha se prepara para se unir.








sexta-feira, 2 de julho de 2021

Oklahoma is OK, Portugal is not

Ora viva. Estou em Oklahoma, depois de quase 10 horas de viagem. Sair de Memphis foi um pesadelo por causa da ponte M estar avariada. O trânsito no acesso à outra ponte estava muito pesado e quase metade era camiões. A zona entre Memphis e Little Rock é sempre penosa, mas assim ainda é mais. E tivemos alguma chuva. Também houve a particularidade de esta ser a primeira longa viagem do meu cão, logo tive de fazer quatro paragens. Acho que ele não ficou com grande apreço por viagens longas.

Contava ouvir alguns livros audio durante o caminho, mas o Audible não fez o download e não deu para ouvir nada. Em vez disso, ouvi alguns podcasts portugueses, que já não ouvia há uns meses. Nada mudou em Portugal: toda a gente continua a ser extremamente competente, mas o país não vai para a frente. A novidade é que os empresários têm escolaridade abaixo da média, grande choque. 

Também falaram das medidas supostamente anti-Covid, mas que eu julgo serem anti-inteligência. Fechar os restaurantes ao jantar de fim-de-semana é completamente ridículo nesta altura da pandemia. Há muitos restaurantes que podem perfeitamente servir refeições ao ar livre, logo não faz sentido estarem fechados. Mesmo os que servem no interior, basta fazerem-no com capacidade reduzida. Se o pessoal ainda não aprendeu a conviver com o vírus ao fim de 15 meses, não vai aprender nunca. Logo, vão ficar doentes com ou sem restaurantes abertos. Idem para circulação entre a zona de Lisboa e o resto do país.

Incomoda-me também a falta de noção: abriram o país a turistas e agora fecham os restaurantes ao jantar do fim-de-semana, logo que sentido faz? Ao fim-de-semana, estas pessoas não podem ir a supermercados, muitos nem têm acesso a frigorífico. É completamente idiota porque é uma péssima publicidade ao país. Diga-se que o governo governa com o consentimento do povo, logo os portugueses têm o que escolhem repetidamente.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Antigénio

Segundo confirmou a NPR, amanhã, Nova Iorque vai acusar a empresa da família Trump de crimes fiscais. Imagine-se que os americanos têm uma justiça pior do que Portugal e parece que levam meses a formalizar a acusação após a saída de Trump do governo. Decerto que alguma coisa foi mal-feita, pois em Portugal leva-se anos e assim assegura-se que a lei e os prazos são seguidos à risca, ou não fosse Portugal a sétima melhor democracia do mundo.

Por falar em ser melhor, diz o Jornal de Negócios que o governo vai comparticipar o custo de testes antigénio. Ó diabo, não dá mesmo para ser melhor do que isto: vai-se testar quatro vezes ao mês os antigénios.





quarta-feira, 30 de junho de 2021

Falhas

Nos últimos dias, ficámos a saber que a queda do prédio de apartamentos em South Beach era perfeitamente evitável. Os riscos estavam documentados e até havia orçamento das obras, só que as pessoas torceram o nariz porque o custo era alto, na ordem dos milhões de dólares, dado o estado avançado da deterioração do edifício. Agora o dinheiro será gasto na operação de recolha dos corpos, destruição do edifício, perda de vidas, etc. Não sei muito bem até que ponto a seguradora será responsável, dado que a decisão de não fazer obras coube aos condóminos. 

Isto é tudo sector privado e quem acha que o sector privado é, por definição, sempre mais eficiente do que o sector público tem aqui um belo exemplo de uma falha de mercado, como é denotado em economês. Depois deste desastre completo, aposto que pelo menos as autoridades locais irão passar legislação para lidar com problemas deste tipo. É para isso que serve o estado.

O factor sorte também tem muito a ver, claro está. A ponte M de Memphis está encerrada desde há algumas semanas porque encontraram uma viga rachada. Vai-se a ver e há uns anos houve alguém que se passeava de canoa no rio Mississippi e notou que estava alguma coisa partida. A pessoa tirou fotos e enviou para um gabinete que enterrou a coisa e nada mais se soube ou fez. 

Este ano houve uma inspecção e lá se descobriu a coisa oficialmente. O inspector ficou tão assustado que telefonou para o 911 para fecharem a ponte. Coitada da telefonista, que nem sabia para onde enviar o telefonema. Mesmo assim, a ponte foi fechada quase de imediato e já estão a trabalhar nas obras. Tivemos sorte que a ponte não tivesse partido antes, mas quando a falha ficou documentada por canais oficiais, o sector público agiu com celeridade. 

 

terça-feira, 29 de junho de 2021

Perdas abençoadas

Na minha reunião matinal, que é vespertina para os meus colegas ingleses, calhou falarmos em futebol e no tal do campeonato, logo a perda de Portugal veio à baila. Eu observei que estava muito feliz com a dita perda e o colega inglês perguntou se eu tinha renunciado à pátria. Respondi que não era bem isso, mas tinha havido uma alma que tinha mandado o pessoal para Sevilha por causa do futebol, o que eu achava mal. Efectivamente também em Inglaterra, por causa do futebol, tinham relaxado o número de pessoas que podem ir a um jogo. Vão ser 60 mil, dizia-me ele.

Lamentável, mas cada um sabe de si e Deus sabe de todos, como diz o povo.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Para a calar

Hoje no NYT vem uma peça de opinião de dois virologistas que argumentam que o comportamento das pessoas é mais importante do que novas variantes. Penso o mesmo. Nesta altura do campeonato, todos nós temos informação suficiente para sermos mais cuidadosos e num país livre temos de nos responsabilizar pelas nossas escolhas, se nos foi fornecida informação suficiente para gerir o risco do que escolhemos. 

É mais ou menos como quando éramos miúdos e fazíamos coisas que os amigos também faziam. Depois a nossa mãe ralhava connosco e nós dizíamos que Fulano também tinha feito, ao que nos era dito: se Fulano se atirasse a um poço também te atiravas? "Não", respondíamos, porque senão a nossa mãe nunca mais de calava... 

domingo, 27 de junho de 2021

Golpe final

Este inverno que está a caminho irá ser o golpe final do coronavirus. Neste momento, muitos dos países com mais casos estão no hemisfério sul, onde é inverno, para eles o segundo inverno desde o início da pandemia. Como a pandemia começou já no final do inverno na Europa e estava pouco espalhada, ainda só sentimos o efeito de um inverno. A adoçar a pílula, em Israel, que está batante avançado no processo de vacinas, algumas pessoas vacinadas estão a ser infectadas. A minha percepção é que no próximo inverno ou vai ou racha. Isto é mesmo uma maratona, não é um sprint.

sábado, 26 de junho de 2021

A dormir

Passei um dia muito chato. Ontem à noite tomei o anti-histamínico por causa das minhas picadas, só que o efeito deve durar umas 20 horas porque tive tanto sono durante todo o dia. Foi horroroso não só sentir-me prestes a dormir, mas também as tonturas. Ao fim do dia, quando comecei a sentir comichão na perna é que clareou o cérebro. Se calhar, tenho de cortar a dose dos comprimidos em metade porque eu sou pequenita e tal.

O dia inteiro recebemos notificações acerca das pessoas desaparecidas no colapso do edifício em Miami. Parece que regressámos à normalidade pré-Trump, em que as tragédias demoravam mais do que um tuíte. Também importante foi que a sentença de Derek Chauvin, o polícia que matou o George Floyd, saiu hoje e ele apanhou 22,5 anos. Não me surpreende, pois parece que as coisas estão a mudar; lentamente, mas mudam.



sexta-feira, 25 de junho de 2021

Talvez emocionante

 Quando acordei, tinha a notícia do desmoronamento parcial do edifício em Miami Beach. Na altura ainda só davam seis pessoas desaparecidas, mas o último número que vi indicava 99. Muito triste...

Ao fim da manhã, depois de uma reunião de trabalho, enviei uma mensagem à minha médica por causa das mordidelas nas pernas. Telefonaram minutos depois para me marcarem uma consulta para as duas da tarde. Não sabemos que bichinho foi, mas a médica acha que tomar um anti-histamínico ajuda a não dar comichão, logo talvez eu não infecte a coisa a coçar. E receitou um creme de esteróides com indicações muito precisas de eu não espalhar creme por todo o lado. O certo é que as minhas mordidelas estão mal encaradas.

Ao final da tarde, veio cá um notário a casa para eu assinar o re-financiamento da minha hipoteca. Era um rapaz jovem que disse ter ficado deslumbrado com a vizinhança e que gostou muito da minha casa porque tinha muita arte. Mas parece-me que correu bem. Em Agosto é o primeiro pagamento. Escolhi uma hipoteca de 15 anos e a taxa de juro é de 2,25% porque comprei alguns pontos. Não me parece mau de todo. O que me dei conta é que a pandemia acabou por me beneficiar, pois contribuiu para o aceleramento dos preços e a queda da taxa de juro, o que coloca quem está a comprar casa em melhor posição.     

 

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Bichos

Nos últimos dois ou três dias, fui mordida por um ou vários bichos. Normalmente, as mordidelas de insectos não me incomodam muito, mas isto devem ser mordidelas de aranha, o que me assusta um bocado porque tenho muito medo das fiddleback spiders. Algumas das aranhas que existem nos EUA são venenosas e podem causar problemas; é o caso das fiddleback. Não percebo como é que fui mordida, dado que não fui a nenhum sítio especial e as aranhas, se foi isso, costumam estar em sítios com muito sossego, como os sótãos. Para além disso, ando quase sempre de calças, logo como é que a aranha atacou ambas as pernas? Parece-me improvável, mas tem a aparência de ser a mesma mordidela e é ainda mais improvável que duas aranhas diferentes mordessem na mesma altura. Se amanhã ainda doer, vou marcar uma consulta para o médico. Entretanto, tomei dois comprimidos de Benadryl e acho que vou meter uns pacotes de gelo. Que chatinho...

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Nada

Ia para dizer que não se passou nada interessante hoje que eu pudesse contar, mas quando passeava o Julian, encontrei uma cadeira no lixo. Não era uma cadeira qualquer, era a cadeira que estava na marquise do Sr. Alexander e que eu vi muitas vezes e sempre a achei muito interessante. Até cheguei a pensar que, se visse a família do Sr. Alexander, perguntaria se podia comprar a cadeira. Só que ainda não vi ninguém para perguntar nada. Também não foi preciso porque hoje a cadeira estava numa pilha de pertences do Sr. Alexander que vão para o lixo e eu tirei-a de lá e trouxe-a para casa.

Os meus vizinhos, de vez em quando, brincam comigo por eu salvar coisas que vão a caminho do lixo, mas há certas coisas que merecem ser salvas. Por exemplo, no ano passado, os vizinhos do lado estavam a renovar o jardim e iam deitar fora todas as hostas. Como eu gosto muito de hostas, perguntei se mas podiam dar. A intenção era boa, mas a realidade é que eu não tinha sítio para aquelas plantas todas e fiquei de olhinho esbugalhado a olhar para a montanha de plantas a pensar o que fazer.

Tive de enviar uma mensagem à minha outra vizinha a pedir socorro para ver se ela ficava com alguma das plantas. Calhou bem porque ela também estava a renovar o jardim -- eu tinha-a inspirado -- e precisava de plantas. Como aquelas hostas eram plantas já maduras, ficou logo com um jardim que parecia ter anos, quando tinha semanas.

Estou feliz com a cadeira, mas não é só pela cadeira em si. Dá-me um certo consolo saber que pelo menos uma coisa do Sr. Alexander não vai parar no lixo. Também me apetecia salvar as plantas dele, mas isso vai ser muito mais difícil...

terça-feira, 22 de junho de 2021

Homens outra vez

Quando vivi no Texas, cheguei a conhecer o Beto O'Rourke porque fui com uma amiga a um comício dele. Uma evento pequeno, o homem era porreiro, mas nada de extraordinário. Este fim-de-semana, na conversa semanal do Zoom, uma amiga ia a caminho de uma manifestação em Austin, em frente ao Capitólio. Era organizada pelo pessoal do Beto O'Rourke. 

Chateia-me um bocado que mulheres progressivas apoiem homens. Já sei que me vão dizer que o que vale é a competência, só que estou fartinha de ver homens incompetentes e quando esses aparecem ninguém fala no quão incompetentes são. Aliás, até os homens incompetentes têm direito de ser candidatos, avançar na carreira, independentemente da sua competência ou falta dela. E quantas vezes se ouve o pessoal elogiar autênticos trastes masculinos? Quando há mulheres temos de dar primacia à competência. 

Sabem o que vos digo? I want to break free...


segunda-feira, 21 de junho de 2021

Cardinais

São três os ovos de cardinal que estão no ninho do jardim. A mãe cardinal passa muito tempo à espera que a natureza faça o seu serviço e tem sido tudo muito tranquilo. O único problema é que não tenho as sementes preferidas dos cardinais porque já comeram quase tudo ou deitaram para o chão. Achei muita falta de educação que estas criaturas fizessem tanto lixo, só que ninguém me pediu a opinião. Não tenho visto o pai cardinal ultimamente, mas se calhar está a tratar do outro ninho.




domingo, 20 de junho de 2021

Palhaço

 A cidade de Serrana, no Brasil, fez uma experiência com uma das vacinas contra Covid-19, mais concretamente a vacina chinesa. Depois de 95% da população vacinada, conseguiram reduzir o número de mortos e a incidência de casos. Para esta vacina também identificaram a limite de 75% da população vacinada como sendo o suficiente para controlar a pandemia.

Gostaria de ter visto Portugal a fazer um estudo deste tipo. Sendo um país pequeno era mais do que viável desde o início tentar recolher informação acerca de muitos aspectos do vírus e das vacinas. Educavam-se e protegiam-se as pessoas; mas, pronto, é mais importante deixar o pessoal morrer ou confinado porque depois pode-se ir ao banco levantar o dinheiro do PRR. Palhaço...


sábado, 19 de junho de 2021

Contas de envelope

Estive a ver dos dados do PIB de Portugal e parece que desceu 15,7 mil milhões de euros (base 2016, a preços constantes) em 2020 e isso nem tem em consideração a desgraça que foi o início de 2021. Depois também temos de pensar que, mesmo com esta perda, houve endividamento da economia para se chegar onde se chegou (em princípio vão dizer-nos em Julho quanto aumentou a dívida), logo o custo total da pandemia será a perda do PIB, o endividamento adicional, e, claro, o valor da perda de vida humana e sofrimento, que penso ninguém irá quantificar porque em Portugal ninguém liga a essas coisas. 

Sejamos conservadores e ignoremos esta coisa de deflatores na perda do PIB acima, e pensemos no tamanho do tal Plano de Recuperação e Resiliência: 16,6 mil milhões de euros até 2026, parte a fundo perdido e parte como empréstimo a juros baixo. Quer dizer, isto ajuda mas não recupera Portugal de todo. E esqueçam a palavra resiliência, pois isso é uma palavra chique introduzida recentemente para disfarçar a corrupção que é inerente à República.

Eu não sei, mas acho o país completamente à deriva e o Primeiro Ministro nem de aritmética percebe. Convenhamos que, se percebesse, dificilmente chegaria a PM.  

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Um feriado novo

O Presidente Biden assinou hoje a lei que declara 19 de Junho (Juneteenth) feriado federal. Foi a 19 de Junho de 1865 que o Texas acabou com a escravatura e, no ano seguinte, em Galveston, TX, as pessoas começaram a comemorar. Como 19 de Junho calha a um Sábado, o feriado é antecipado para Sexta-feira; se calhasse a Domingo, seria Segunda-feira. Alguém já foi à Wikipédia actualizar a página do Juneteenth. Para mim não faz diferença, dado que nem todos os feriados federais são observados pelo sector privado. Mesmo assim, fiquei contente.

Ah, quase que me esquecia: dei um pulo a Saddle Creek, um centro comercial daqui e encontrei uns produtos portugueses que nunca tinha visto: umas colónias, creme de corpo, e umas saquetas perfumadas para o guarda-roupa. Comprei uma bolsa com os cremes e sabonete e a minha vizinha ficou encantada com o cheiro das saquetas perfumadas e vai oferecer ao marido (era aroma masculino). 

Vocês não imaginam o trabalho que dá manter a economia portuguesa viável quando se está do outro lado do mundo -- bem, tecnicamente só estou 25% separada de Portugal, mas mesmo assim. 


 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Primeiro dia

Tirando a parte de ter de conduzir meia-hora para cada lado e ir estacionar no sexto andar da garagem, o meu dia foi muito agradável. O escritório novo tem uma vista fabulosa e a minha secretária é mesmo ao pé da janela. É muito relaxante olhar para o rio Mississippi e para as barcas que o navegam. 

Para o almoço, fui com um colega ao restaurante Flying Fish, que acho que nunca tinha visitado. Foi uma experiência diferente. Agora estou super-cansada. Já não estava habituada a estas andanças. 

Enquanto trabalhava, o Jerome Powell anunciou que talvez lá para 2023 haja dois aumentos das taxas de juro. Ora estava mesmo de se ver que esta recuperação pode ser bem rápida, dado que tanto a política monetária como a fiscal são bastante acomodativas. Agora é ver que países recuperam mais rápido.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

WFO

O meu plano para amanhã é ir trabalhar ao escritório. Ainda não visitei o edifício para onde nos mudámos quase há um ano. Agora estamos na Baixa de Memphis, que fica um pouco longe de minha casa, mas antes da pandemia estava entusiasmada com a perspectiva de investigar melhor a zona. Talvez encontrar restaurantes novos escondidos, ruas engraçadas, etc. 

Não é muito grande, a Baixa de Memphis, mas há partes perigosas e há muitos pedintes. Não são pedintes daqueles que estão na esquina à espera que lhes dêem dinheiro; estes vivem perto e, muitas vezes, vêm ter connosco para nos dizer que não devíamos andar por aquela rua, mas que podem fazer o favor de nos acompanhar para estarmos em segurança. Depois, quando se despedem, pedem dinheiro.

Já fiz marcação para levar o Julian ao campo de actividades para cães. Ele vai ficar eufórico de sair de carro logo de manhã: estou a criar um monstrinho mimado, que não tem noção que é cão.

WFO: Working from Office

terça-feira, 15 de junho de 2021

Progresso

Há uns anos, notava-se que, no mundo de negócios, para se meter conversa, tinha de se falar de desporto ou saber jogar golfe. Agora, tudo se tornou mais zen. Fala-se de meditação, yoga, do respeito pela diversidade, globalidade, etc. De temas muito masculinos passou-se para coisas que são bastante associadas ao lado feminino. Acho um progresso interessante, mas decerto que não irá parar aqui. O que poderá vir a seguir a isto?

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Arrependimento

Amanhã é dia da bandeira, que é um feriado menor, logo hoje ao anoitecer decorámos as zonas centrais da vizinhança com bandeiras. Também colocámos algumas em frente da casa do Sr. Alexander. Era frequente, quando passava em frente de casa dele, pensar que devia oferecer-me para ir ao jardim arrancar ervas daninhas, mas nunca o fiz. Agora arrependo-me de não ter tido coragem ou vontade, sei lá. 

O jardim tinha sido plantado pela esposa dele, a Dottie, e decerto que ele teria gostado de ver tudo arranjado como quando ela cuidava dele. Agora já não há nada a fazer. Pensei perguntar ao filho se vai mandar arrancar as plantas.  Eu podia adoptar algumas, em vez de irem para o lixo. Nada é permanente, tudo é efémero, mas gostaria que as plantas não morressem com o Sr. Alexander.

domingo, 13 de junho de 2021

Problemas do primeiro mundo

Regressando à minha vidinha aborrecida, hoje esteve um calor daqueles que mata. Fomos brindados de manhã com um alerta a indicar que já não tínhamos um índice de calor de 105 desde o ano passado. As instruções eram para não sair à rua para fazer tarefas, beber muita água, e fazer bastantes intervalos.  E depois os mosquitos cá do burgo não perdoam; nem costumo ser muito incomodada por picadelas, mas tenho várias.

Apesar de ter chovido recentemente, achei por bem regar o jardim e até comecei a organizar a garagem que não estava com muito bom aspecto. Isto de comprar coisas pela Internet e depois receber montes de caixas não promove a organização. Também tenho a mania de guardar as caixas dos pequenos electródomésticos, o que não abona muito a favor do minimalismo. 

Quando vim para dentro, o Julian tinha tido um acidente (leia-se fez xixi). Ultimamente, se me ausento por uns minutos, ele tem sempre. Durante a pandemia estivemos quase sempre juntos, mesmo quando fui fazer certas compras, se a loja permite cães, ele vai e anda muito sossegado dentro do carrinho. As pessoas que o vêem gabam-lhe o bom comportamento. Acho que esta coisa do xixi é ansiedade, mas até aposto que os cães vadios não sofrem de ansiedade. Calhou-me na rifa um francesinho cheio de delicadezas.

Por exemplo, ontem parámos num parque e ele só fez cocó quando encontrou relvinha verde. No passeio alcatroado não faz, e numa parte que tinha terra molhada também se recusou. A propósito, quando estava na Pousada em Gulf State Park, os meus vizinhos de varanda levaram um cãozito. E não é que o bicharoco fez caca na passagem entre os edifícios, que passa rente à zona da piscina. O meu pequenito pode ser muito ansioso e ter acidentes quando me ausento, mas nunca faria caca num sítio daqueles, nem eu deixaria.  

   

sábado, 12 de junho de 2021

Pior a cura

Fiz um pequeno inquérito aos meus amigos acerca da razão de apenas agora, com seis meses de atraso, o Expresso noticiar a conduta repreensível da CML e o consenso é que isto é um fait-divers para deixarmos de falar do tal de Pedro Adão e Silva que foi nomeado para estar à frente das comemorações dos 50 anos  do 25 de Abril de 74. 

Se tal é o caso, somos governados por imbecis ao quadrado. Agora, em vez de um escândalo nacional caricato, mas nada de transcendental, deparamo-nos com um internacional que até tem potencial de ser discutido no Parlamento Europeu e de ter violado normas europeias. Proponho que Marcelo condecore o tal de Pedro Adão e Silva por nos ter proporcionado tal espectáculo e por ter permitido que a verdade viesse à tona. 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Quanto mais baixo melhor

No dia de Portugal, Camões, e das Comunidades, soubemos que a CML forneceu informações de activistas políticos a regimes autoritários: Rússia, China, Venezuela... Isto de uma Câmara liderada pelo partido que anda tão entusiasmado em comemorar os 50 anos da Revolução de Abril, a tal que derrubou um regime autoritário, e cujo Presidente pode muito bem vir a ser Primeiro Ministro.  

Ultimamente, tenho-me dedicado a ler coisas do final da ditadura portuguesa. Não a história tradicional, mas apontamentos e pensamentos da sociedade: o que é que escreviam as pessoas que viviam aquele regime. Falam muito em podridão, imoralidade,  mediocridade, cobardia do que se sujeitavam àquela governação. Muito do que leio sobre esse tempo também encontro hoje acerca de como é governado o Portugal actual. 

A ditadura terminou um dia; este actual regime também sucumbirá. Para mim, há um certo consolo em ver notícias do quão baixo descem porque quanto mais baixo, mais perto do fim. 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Uma perda

Enquanto fazia sala com a minha vizinha, recebemos a notícia que o Sr. Alexander, um dos nossos vizinhos, tinha sido encontrado morto em casa, tendo falecido já há vários dias. Era um senhor calado e já de idade, que tinha perdido a esposa há anos. Não me recordo de alguma vez lhe ter falado, mas de vez em quando trocávamos acenos, se passava de carro à minha frente.  Houve uma manhã, em que passeava o Julian, que, quando olhei para casa dele, o vi na marquise a tomar o pequeno almoço. Frequentemente o via a essa hora, quando ele estava de saída para o McDonald's para ir buscar comida.

O jardim da casa do Sr. Alexander era pequeno e contornava a casa. Quase sempre estava cheio de ervas daninhas e a relva precisava de ser cortada. Por entre a confusão, há flores espectaculares: peónias, lírios, hortênsias, narcisos, e hibiscus gigantes, que tinham sido plantadas pela esposa.

Bem sei que era inevitável, mas mesmo assim é triste... 





quarta-feira, 9 de junho de 2021

Números

É francamente misterioso que a China tenha tão poucas infecções e nem sequer tenha tido uma segunda vaga. Bem sei que, na primeira vaga, fecharam as pessoas em casa, pregando tábuas em janelas e portas. Mesmo assim, um país tão grande devia ser mais difícil de controlar uma pandemia.

Hoje no trabalho, um colega inglês perguntou o que é que eu achava de os ingleses terem retirado Portugal da "lista verde". Respondi que achava bem. Não sabemos como as coisas se irão desenrolar no Outono, logo é necessário exercer cautela. O que acho mal é a falta de orientação dos governos, que deixaram as pessoas gastar dinheiro e depois tiram-lhes o tapete debaixo dos pés. 

Quem achava que limitar o comércio internacional ia criar emprego e crescimento tem agora um excelente caso para estudar. É desta que a Economia consegue dados para ser uma ciência a sério...

terça-feira, 8 de junho de 2021

Doado e expurgado

A anterior dona desta casa tinha criado um jardim bastante interessante e moderno. A relva era de plástico e tinha sido instalada às três pancadas, no entanto era muito cara, informou-me, e tinha-a ido comprar à Georgia. A segurar a relva havia umas lajes de dois tipos, algumas espalhadas por umas saliências no chão, e, contra a parede do vizinho, tinham sido construídos canteiros, onde flores que requerem muito sol tinham sido plantadas em semi-sombra. Por uns tempos aguentei, mas começou a dar-me urticária e escavaquei o jardim todo. O solo tinha barro em excesso e pedi ao senhor que me corta a relva para tirar e trazer solo novo.

Vários vizinhos informaram-me que o jardim era o "pride and joy" da dona anterior e eu respondia na brincadeira que, se ela visse o que eu andava a fazer, era natural que me desse um tiro ou dois ou três, dado que quando cá vivia tinha mais de 30 armas cá em casa, nem quero pensar onde.

Desde o Outono do ano passado que ando a modificar o jardim, mas um dos problemas que tive foi os materiais extra que não usei: as tais lages, as bermas dos canteiros, etc. Hoje, finalmente, resolvi ver-me livre disso tudo e meti um anúncio num grupo do Facebook que é só para residentes desta zona, onde se colocam coisas que precisam de dono, mas tem de ser tudo grátis. Meti duas fotos com os materiais e, em menos de meia-hora, já me tinham contactado. Uma senhora pediu para ficar com aquela tralha e mandou os filhos vir buscar hoje à tarde. Que descanso não ter de olhar mais para aquelas coisas. 


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Na cozinha

Tenho andado mais entretida com os livros de culinária, até comprei um da Georgeanne Brennan, de quem sou fã. Não há dúvida que os livros sobre culinária francesa são muito bem feitos, sempre com histórias e fotografias, cenários deslumbrantes. De vez em quando apetecia-me livros assim sobre culinária portuguesa, mas são difíceis de encontrar. E agora o que é tradicional já não é tão interessante como a culinária de fusão. 

Passei o dia nas lides gastronómicas porque me tinha voluntariado para fazer o jantar para os vizinhos. De manhã andei a folhear e ler livros para decidir o que fazer; depois fui às compras ao Kroger e ao Walmart (já se vêem pessoas sem máscara dentro das mercearias, mas não me incluo no grupo). Tive imensa dificuldade em encontrar carne de porco picada para misturar com a carne de vaca para fazer o molho à bolonhesa e acabei por comprar "italian sausage", que é carne de porco picada com algumas especiarias. Para sobremesa, tinha pensado em fazer tarte de ruibarbo, mas não encontrei, logo fiquei-me por pêssego e alperce.   

Fiquei surpreendida que as coisas tenham saído tão bem e os vizinhos tenham gostado, mas a melhor parte é que fiquei com algumas sobras para amanhã. 

domingo, 6 de junho de 2021

A suposta fúria

O Stephen L. Carter escreveu uma opinião na Bloomberg a dizer que se o vírus Covid-19 foi realmente desenvolvido num laboratório chinês, a comunidade internacional irá ficar furiosa com a China. Acho uma ideia completamente ridícula. 

Em primeiro lugar, se esse foi realmente o caso, a China poderá ter outros vírus que poderá deixar escapar, mas de propósito, logo convém agir com cautela. Em segundo lugar, ninguém quer saber. Os europeus não estão interessados em investigar e essas ideias e descobrir a verdade é coisa da administração Biden, que tem de fazer de conta que é forte, mas que não tem nada a ganhar em continuar a alienar a China. Não funcionou bem para o Trump, logo dificilmente funciona para o Biden. Em terceiro lugar, já andamos nisto da pandemia há mais de um ano, o que desgasta a nossa capacidade para nos chocarmos ou até enfurecermo-nos. Finalmente, se a coisa escapou involuntariamente, então os chineses não fizeram de propósito, logo são um vilão meio fraquinho.

Apesar de tudo isto, é óbvio que a ordem mundial irá ficar mudada depois da pandemia. A Europa está a perder prestígio diplomático a olhos vistos e as pessoas já se esqueceram que a Europa não é um continente pacífico. À medida que empobrece, o espírito quezilento dos europeus irá regressar e seja o que Deus quiser e o Diabo deixar...

 

sábado, 5 de junho de 2021

Constipação

Hoje falei com um amigo que foi ao Connecticut ajudar a mãe a mudar de casa. Fez algumas excursões ao Walmart e sentiu que, como tinha a vacina e as indicações eram que quem estava vacinado podia entrar sem máscara, seria seguro fazer isso mesmo, até porque via algumas pessoas ainda com máscara. Não sabemos se quem tinha máscara estava vacinado ou era do grupo dos não-vacinados, mas o certo é que devia haver por lá alguém menos sádio, pois ele apanhou uma enorme constipação e estava meio-zonzo, quase que nem dava conta do que dizia. Já não se recordava de estar assim tão doente, confidenciou. 

Continuamos a nossa grande experiência e vai ser interessante ver que patologias regressam em força. O que vale é que, no final disto tudo, teremos tantos dados que irá haver um enorme progresso no entendimento de como ficamos doentes. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Comédia

Hoje recebi uma notícia muito engraçada que veio no Expresso. Parece que o governo português está interessado nos portugueses que estão nos EUA e quer que eles regressem. Por um lado, a comunidade portuguesa, diz a notícia, está muito bem inserida nos EUA e tem rendimento acima da média; por outro lado, a comunidade portuguesa está a sofrer nos EUA porque muitos estão no país ilegalmente e não têm acesso a cuidados básicos.

Que o cidadão comum tenha esta ideia dos EUA é perfeitamente compreensível; que o governo português a tenha demonstra o quão idiota são as pessoas que governam Portugal. É claro que não havia dúvidas que os governantes portugueses eram idiotas porque manter um país da UE a empobrecer há vinte anos mais do que o demonstra. E se o povo português desejasse algo mais do que idiotas, já teria feito alguma coisa nesse sentido, afinal o governo governa com o consentimento do povo.

Mas vamos por partes, pois não sei muito bem o que pensar de portugueses que vêm para os EUA e não se sabem virar. Reparem que há imensos imigrantes ilegais de países bastante mais pobres do que Portugal, com escolaridade mínima inferior a Portugal, e que se sabem orientar: sabem que há sítios em que se pode obter seguro de saúde independentemente do estatuto de imigração, sabem que se estão em apuros e precisam de ser repatriados, basta entregarem-se às autoridades americanas, etc. 

Se os americanos se interessassem por gente com este nível de cultura geral, não poriam restrições no acesso à imigração e esta gente poderia facilmente vir legal para os EUA. Se Portugal quer esta gente de volta, bem haja a quem os queira. A mim não me convém nada ter conterrâneos ignorantes e sem desenvoltura a trabalhar nos EUA, pois diminui o meu potencial salarial. Repatriem o pessoal, se faz favor.

Finalmente, há algo que não compreendo: isto de Portugal querer repatriar os imigrantes ilegais que estão nos EUA é rapto, não é? Ninguém obrigou esta gente a vir para a América e, se quisessem voltar, podiam fazê-lo voluntariamente, logo como é que se pode justificar a intervenção do governo português?

 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Tempo

A minha ex-sobrinha mais velha vai casar-se no início de Julho e convidou-me para a cerimónia, em Oklahoma City. Conheci-a em 2000, no funeral do bisavô, durante o qual me disponibilizei a ajudar a tomar conta dela e da prima, mas ela fez uma birra qualquer e disse algo desagradável à mãe. Subiu-me a mostarda ao nariz e disse à criança, que devia ter uns 4 anos, que não se falava assim para a mãe. De repente, toda a gente levantou a cabeça e olhou para mim--bela impressão que dei quando conheci a família do meu futuro marido. 

É difícil imaginar, que houve uma altura em que passei tardes a fio a brincar com a sobrinhada, a ir a jogos de basketball, softball, festas de anos, Natal, fizemos bonecos de neve, pintámos livros de colorir, etc. Numa dessas tardes, a minha ex-sobrinha perguntou-me "Tu és muito boa a colorir livros, onde é que aprendeste?" Respondi-lhe: "Na universidade." Quando terminou o curso deixei-lhe uma mensagem a dizer que agora ela também era era exímia a colorir livros. 

Tudo isto parece uma outra vida tão distante da minha e, no entanto, eu estava lá. No ano passado, a minha ex-sogra disse-me que todos os Natais, tem de fazer scones de canela porque esta ex-sobrinha pede. Lembro-me bem de ir com o meu então-namorado tomar café à Aspen, que tinha uns scones de canela maravilhosos. Eu gostava tanto que, nos primórdios da Internet, numa altura em que os blogues de culinária ainda estavam para acontecer, decidi fazer uma busca e encontrei uma receita catita que dizia ser o segredo para dominar o mundo. Era quase Natal e, por sorte, encontrámos pepitas de canela para fazer doces, o que permitiu fazer os scones de canela para comer no dia de Natal. E assim começou uma tradição que já tem mais de 20 anos. 

   

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Talvez paranóia

Depois do jantar, encontrei-me com um conhecido para ir tomar um chá ao Starbucks. Quer dizer, eu tomei chá, ele tomou uma água com gás aromatizada. Conversámos sobre muita coisa, mas acho que muito da conversa era sobre política e actualidade, que é capaz de ser um dos meus tópicos preferidos. Não faço ideia como é que uma Rita completamente obcecada com música e cinema durante a juventude progride para alguém que se entretém com política, mas assim foi.

A certa altura da conversa, bebi um gole de chá mas entrou para o lado errado, o que me levou a tossir. Passado uns segundos pergunta-me ele o que se passava comigo: eu tinha as vacinas, não tinha? Aquela tosse não indicava doença ou possível contacto com o vírus, pois não? Não, apenas indicava que me tinha engasgado, respondi.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Feriado

Quase no final do feriado de hoje, lembrei-me de ir à Williams Sonoma a ver se tinham facas de descascar, mas estava à procura de umas muito específicas, por sinal portuguesas, para oferecer à minha vizinha que ontem descascava um pedaço de gengibre com uma faca de chefe. Dir-me-ão vocês, que a melhor maneira de descascar gengibre é com uma colher, que até foi o que eu demonstrei, mas tal não é incompatível com o facto de ela precisar de facas de descascar. 

O facto de as facas serem portuguesas é muito simples: há um conjunto de três facas de descascar que são feitas em Portugal que fica muito em conta, custa menos de $40 e as facas são de muito boa qualidade e assentam muito bem na mão -- tenho umas que ainda estão em perfeita condição e que me foram oferecidas há mais de 15 anos. Aquilo é imbatível em termos de preço/qualidade. Mas não havia na loja, o que até não me incomoda, dado que a loja daqui é um outlet.

Aproveitei para dar um salto à Pottery Barn, a loja do lado, que também é um outlet, a ver se tinha lençóis de cama de casal em algodão. Estavam cheios de coberturas de duvet, que não é coisa que me agrade, mas encontrei um conjunto em branco feito em algodão, que era mais ou menos o que eu queria. Antigamente, facilmente encontrava lençóis feitos em Portugal, mas estes eram feitos na Índia, o que também é muito bom. Frequentemente, o algodão da Índia é biológico, mas a Índia também importa algum algodão para usar em têxteis, logo pode ter sido o caso.  

Não encontrei muita gente às compras, apesar de ser feriado; nem sequer houve aquela emoção das grandes promoções de feriado que é costume haver. Se calhar, fui a má hora ou então o pessoal ficou em casa e comprou online, que é o que vai acontecer às facas que vou comprar.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Não fazia ideia

Há duas semanas, estava prestes a partir para o Alabama. Quando cheguei à pousada, fui muito bem recebida por um jovem que me parecia fora de sítio: extremamente simpático, mas quase que acanhado, e a quem não esperaríamos encontrar num contexto de atendimento ao público, como é a recepção de um hotel. Perguntei se me podiam ajudar a levar as malas para o quarto e respondeu-me que o valet o faria e podia deixar o carro estacionado à frente da pousada até 15 minutos. E quinze minutos é tempo suficiente para ir e regressar do quarto, indaguei. Ele sorriu e garantiu que era.

O valet era um tipo muito solícito a dar informações e conselhos, que parecia muito contente de ali estar, apesar de só ter começado a trabalhar há dois meses. Antes geria restaurantes; como hobby, brincava na bolsa de valores, mas tinha predileção por instrumentos mais esotéricos, que não me entusiasmam. A caminho do quarto, disse-me que eu estava à vontade: havia quatro restaurantes e cafés onde comer na pousada, logo não havia razão nenhuma que me impedisse de ficar ali durante toda a minha estadia.

Na Terça-feira, senti-me algo mal, mas nada de debilitante. Ao final do dia percebi que o meu desconforto se devia ao período, o que me surpreendeu, dado que estava vários dias adiantado. Tão adiantado, que eu tinha marcado as férias de forma a que o evitasse e, como estava tão confiante dos meus cálculos, nem levei tampões, apenas pensos porque tenho sempre alguns espalhados por sacos, malas, etc.

Como a pousada tinha uma lojinha ao pé da recepção com uma secção de produtos de primeira necessidade, lá fui eu à caça de tampões. Estavam ao canto, em pacotes de dois, muito, mas muito imperceptíveis. Peguei em dois pacotes e fui à recepção para pagar, onde encontrei o moço acanhado. Tanto eu como ele estávamos de máscara, o que dificulta a compreensão do diálogo, mas como achei que era só pagar e andar, até dava jeito. Não deu porque ele murmurou qualquer inquirição que não percebi. 

A frustração que senti por errar nos cálculos e agora ainda tinha de conversar, em vez de apenas pagar e ir para cima e tomar um duche. Ele tentou outra vez: "I think I have some complimentary ones in the back that I can give you, would you like those?" e acrescenta "I'll go check." Vira-me as costas e entra por uma porta de onde, em menos de um minuto, regressa triunfante com quatro tampões grátis que me dá. Agradeci, fui à minha vida e fiquei a pensar em todos os hotéis onde estive e se teriam ou não tampões grátis. 

De regresso a Memphis, contei o episódio a uma amiga e perguntei se ela tinha experiência de os hotéis terem tampões grátis para os hóspedes. Não fazia ideia, respondeu-me. Nem ela, nem eu. 

domingo, 30 de maio de 2021

O caminho verde

Sempre que conduzia no Humphrey's Blvd, fazia uma nota mental de ir investigar uma outra parte do trilho ao longo do Wolf River. Parecia bonito, com pelo menos um lago e o passeio serpenteia por entre as árvores e por vezes vem até quase à berma da estrada. No Inverno, quando as árvores estão despidas, é difícil de imaginar a riqueza de tons de verde e variedade de folhas que despontam na Primavera. 

sábado, 29 de maio de 2021

Quase normalidade

 Levei o Julian ao hotel para passar o dia, enquanto visitei umas lojas. De manhã, não havia vaga no recreio de cães, logo ele teve de ficar numa jaula até à tarde, altura em que pode ir brincar com os outros cães. Para ele, é o ideal porque fica muito excitado se está no recreio muito tempo, mas fiquei surpreendida que o recreio estivesse cheio. No hotel de cães, todos os empregados usam máscara, mas alguns dos clientes não usam. Por recomendação do CDC, se estivermos vacinados, podemos deixar de usar máscara; só que isto pressupõe que quem não está vacinado usa máscara, o que não se verifica. Nota-se que cada vez menos pessoas estão a usar máscara dentro de recintos fechados, mas eu continuo na minha: usar máscara é um cuidado relativamente fácil de implementar, logo não vale a pena arriscar.  

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Contos

Enola Gay, a canção dos Orchestral Manoeuvres in the Dark, foi lançada em 1980 e, nesse ano, passei parte do verão em Lisboa e na Costa da Caparica, junto da minha tia, que se casou. Uma das amigas preparou rissóis e recordo-me de estar na cozinha da senhora e ver o vídeo na TV. Sempre achei que a canção era espectacular, mas na altura não fazia ideia que era sobre a bomba atómica de Hiroshima. Parecia-me feliz, mas não é.

O que foi feliz foi esse verão, em que a minha tia mandou fazer um vestido para mim e outro para a minha irmã, comi caracóis na Costa, e íamos à praia. Numa dessas tardes de praia, havia uma senhora já de idade, vestida de preto, que quando chegámos estava a contar uma história a várias crianças. Era um conto do qual já não me recordo, mas lembro-me de ter gostado e de querer ouvir mais. No dia seguinte, quando chegámos à praia pedi que me contassem uma história, mas ninguém me ligou e nesse dia fiquei sem uma história, o que deixou um certo sentimento de frustração que penso que dura até hoje. 

Talvez uma forma em que essa desilusão se tenha manifestado é o meu interesse pelo género literário "short stories", os tais contos em português. Numa das minhas últimas idas à livraria Burke's, a tal que é uma das mais antigas dos EUA, tendo sido fundada em 1875, e que vende livros novos e usados, encontrei uma preciosidade: uma selecção de "short stories" do Egipto, editada em 1982, pela secção de relações culturais internacionais do Ministério da Cultura do Egipto.

Durante as minhas férias comecei a lê-lo e, na introdução enquadra-se a importância de histórias, contos, fábulas, etc. na tradição árabe. O livro mais famoso de contos é talvez As Mil e Uma Noites, em que uma colecção de histórias é urdida numa história envelope, em que Shaherazade começa a contar uma história nova cada noite que deixa inacabada até à noite seguinte, para cativar o interesse do rei Shariar e assim evitar que ele tome uma noiva nova cada noite, que manda matar de manhã. É desta forma que Shaherazade salva as outras mulheres.

Uma das ideias fulcrais da cultura árabe era a crença de que as mulheres eram mais astutas do que os homens. O Jardim Perfumado, escrito como um manual de sexo e erotismo no século XV, incluía várias advertências e pequenas histórias acerca de como várias mulheres tinham enganado homens e, por isso, convinha aos homens aprender a satisfazer as mulheres, para que elas não sentissem necessidade de os trair. Parece-me bem.  


  

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Estimativas

Hoje estive a trabalhar com as previsões de crescimento do mundo e também da zona euro e dos EUA, de acordo com o trabalho feito pelo FMI, é tudo muito pouco optimista. Estou curiosa para saber como é que vão mudar as previsões da evolução da população, que a Divisão de estudos da população irá publicar em Agosto. Vivemos um dos períodos mais interessantes da economia mundial a ainda não está claro se os próximos anos irão ser de prosperidade ou de conflito.

Veremos como é que descalçamos esta bota.

 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Aforro

Há dois meses que não pago às minhas empregadas. Não por escolha minha, nem falta de tentar entregar o dinheiro, mas porque uma delas, a que recebe o dinheiro e acerta as contas com a outra, diz sempre que pago para a próxima. No início, pensei que ela estivesse com pressa para sair e não quisesse esperar que eu fosse buscar o dinheiro e contá-lo. Duas semanas depois aconteceu o mesmo e quatro semanas também. Estas coisas incomodam-me imenso porque penso logo que fiz alguma coisa mal, como dizia a minha mãe, sou tão lenta que dava para ir buscar a morte.

Finalmente, na sexta semana, a empregada confidenciou-me o plano: está a "aforrar" e eu sou o banco dela. A filha vai fazer uma viagem em Junho e ela precisava de guardar dinheiro, logo deixou ficar comigo para não o gastar. Depois ria-se toda feliz do seu plano. Então e o dinheiro da outra empregada, quem pagava? Disse-me que pagava ela.

De todas as pessoas para quem trabalha, não faço ideia o ter-me escolhido. O mais engraçado é que antes de ir de férias, pensei logo que me podia acontecer alguma coisa e ela ficava sem o dinheiro. Até pensei em deixar em casa da vizinha, com instruções para dar à empregada, caso eu não voltasse, mas depois achei que estava a ser muito exagerada.  Hoje disse-me que na Quinta-feira vou deixar de ser banco aforrador. Até que enfim.


terça-feira, 25 de maio de 2021

Um dia blah

Não aconteceu nada de especial hoje. Apenas regressei ao trabalho e há bastante que fazer, mas vou tirar folga na Sexta-feira e na Quarta e Quinta à tarde para completar os meus 35 dias de folga antes do final do ano fiscal. Mesmo assim, transferi 5 dias para o ano que começa em Junho, logo terei mais 35 dias para tirar, em vez dos 30 normais. Na Segunda-feira é o Memorial Day, que inaugura a época oficial para tirar férias nos EUA, logo terei um fim-de-semana prolongado. 

Tenho visto nas redes sociais, que se discute se a Mariana Mortágua deve ir para Ministra das Finanças. Acho que deve por várias razões, mas especialmente porque é incompetente e como já tivemos tantos homens maus, temos de tentar equilibrar a coisa para o lado das mulheres. A minha razão principal é que precisamos de mudar: como em Portugal só se muda quando as coisas correm muito mal e mesmo assim, esperneiam muito para deixar tudo na mesma, convém propiciar oportunidades de crise. Venha a próxima.