A Destreza das Dúvidas
Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Boas notícias
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Preciso da vossa ajuda
Para ajudar a financiar a viagem, a Dra. Joana Ruas, que é a fundadora e directora da ABL e que é uma pessoa pela qual tenho muita estima (e também estudou na FEUC), está a fazer uma campanha de angariação de fundos na Go Fund Me e é aqui que vocês entram. Se tiverem disponibilidade, por favor façam uma doação, mesmo que seja pequena. Se trabalham numa empresa que patrocina entidades sem fins lucrativos, talvez possam pedir para que a vossa empresa apoie esta causa. Se não conseguirem ajudar monetariamente, ajudem a partilhar a campanha nas redes sociais, na vossa família, no vosso grupo de amigos, etc. para tentar maximizar o apoio a esta causa.
A ABL é uma entidade que é reconhecida pela Câmara Municipal da Lousã pelos serviços que tem prestado à comunidade, e não é só às crianças. Por exemplo, no dia 26 de Abril, irá haver um espectáculo gratuito da ABL para pessoas com mais de 65 anos. Penso que esta é uma excelente causa e, para além disso, estes pequeninos vão representar Portugal, logo merecem todo o nosso apoio.
Muito obrigada!
segunda-feira, 23 de março de 2026
Cocktail da semana para nos distrairmos
Ultimamente, Trump não tem ligado muito a Putin, o que me leva a crer que arranjou maneira de fazer dinheiro sem ter de construir hoteis em Moscovo. Por outro lado, se Putin tinha algo que comprometesse Trump, os ficheiros do Epstein devem empatar com tal coisa. Ainda por cima porque andam aqui a brincar com os emails, mas o verdadeiro tesourso está nos vídeos pois o Epstein tinha a casa toda sob vigilância de video, até os quartos de banho.
Depois há os detalhes de que a guerra no Irão não está a correr muito bem para os EUA, e certos aeroportos estão uma confusão porque o pessoal da TSA não está a ser pago devido ao fecho parcial do governo, e alguns não aparecem no trabalho, logo Trump precisa de coisas para distrair o pessoal--aliás, o ataque ao Irão foi isso mesmo, uma distração dos ficheiros do Epstein, que correu tão mal que até publicaram mais ficheiros para tentar distrair do fracasso do ataque ao Irão.
É necessário arranjar uma distração nova, o que, se Rahm Emanuel esta correcto, irá ser uma intervenção em Cuba. Nesse caso, sugiro o cocktail Cuba Libre, que é apenas rum branco, sumo de lima, coca-cola, gelo, e uma fatia de lima. Usem Coca-Cola adoçada com açúcar e não xarope de milho. Pela minha parte, tenho mesmo de ir à loja comprar uma garrafa de Veuve Clicquot, a ver se o One Beautiful Big Obituary sai mais depressa...
P.S. Trump também sugeriu que vai mandar pessoal do ICE para os aeroportos fazer o trabalho da TSA. Também é uma boa distração, especialmente se os malucos do ICE começarem aos tiros no aeroporto.
quarta-feira, 4 de março de 2026
Eu, boa pessoa? Não.
Na semana passada, a minha empregada veio a minha casa e acabei a dar-lhe um sermão no meu portunhol aldrabado. Quando Trump foi eleito, ela postou no Instagram uma foto em frente à Trump Tower em Chicago, eu disse-lhe que era um dia triste para os EUA, ela disse-me que Deus mete e tira reis. Eu fui aos arames e passei longas semanas a imaginar que a despedia, mas contive-me, apesar de ter ficado desgostosa. Então na semana passada lembrei-a da foto que tinha postado e do que eu lhe tinha dito e ela, que imigrou ilegalmente para os EUA, disse-me que ele era a melhor alternativa porque era contra os gays e transsexuais e que os outros iam transformar os jovens em gays e transexuais.
Eu dei a minha opinião: sempre houve gays e ninguém é transformado em gay ou transsexual, as pessoas nascem assim e não é saudável viver numa sociedade em que pessoas gays e transsexuais são perseguidas. Claro que não a convenci. Eu devia era ter-lhe perguntado se ela era Deus ou Jesus para andar a julgar os outros, mas não me lembrei na altura. Ou devia ter lido a Bíblia para ter competência para citar um evangelho qualquer, mas não tenho interesse, talvez um dia lá chegue porque li recentemente a Ilíada e a Odisseia e há histórias semelhantes nos três textos. No final, aconselhei-a, como sempre faço, a ter cuidado porque se o ICE a apanha, é deportada, apesar de ela já estar regularizada. Mas cá dentro penso que, se a apanharem, ela continua a ser apoiante dele (ou será adepta) e, se fosse cidadã e pudesse votar até continuaria a votar nele. Se acontecer, em Portugal, dir-se-ia bem feita, nos EUA dir-se-ia "It couldn't have happened to a better person".
Mas eu, boa pessoa? Definitivamente, não.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Carta a uma centenária em 25 de Janeiro de 2026
I hope you are doing well, or at least as best as can be considering our common political nightmare. More than a foot of snow has fallen outside and I have spent two days at home with a roaring fire and a flock of birds outside eating from the feeders. Now, just like almost six years ago, as we entered the pandemic, I look at the birds and feel that they are safer and have more freedom than we do. I am so saddened and sickened every time I read the news.
In your last email, you asked if I had gone to any of the demonstrations and I have not. I have been volunteering with the Master Gardeners, and donating food to food banks. I have also started to exclude Trump voters from my life. I continue to listen to Martin Luther King, James Baldwin, and Toni Morrison, as I find them the most comforting as we push through these most disturbing times. You have also lived through many dire times before and they somehow ended in one way or another, but always at great cost to many involved, either through suffering or through loss of life.
This shameful time will also reach an end, although I struggle to see a way in which I will be able to trust and feel compassion for the folks that have voted to support this level of violence. Somewhere in my mind I think that people like me and you are owed some sort of contrition from the GOP voters, but it is useless. No amount of contrition will right this wrong and I cannot find in me any kindness to extend to these voters. In fact, I actually feel epicaricacy when I hear that people that I know voted for this President have lost their jobs or have suffered any ill event.
Since yesterday, when I heard the details of the death of Alex Pretti, I have been contemplating that the Universe or God, or whatever it is that unites everything in this world, has a peculiar sense of humor. White people are being hunted down much like minorities have been for centuries; although this is not new. Less than two centuries ago, many people did not have rights, so it was an illusion that we thought that condition had been overcome.
However, this reality not only feels like an experiment, but it is also a way for Americans to look at themselves in the mirror. So many times, the U.S. has supported this type of action in other countries, and even in the U.S., a century ago, Mexicans were hunted down by the Texas Rangers, and then there are the Blacks and how much they have had to endure. We finally have gone through all the minorities and so now it is the turn of the whites to be the victims.
For the last 10 weeks, I have been reading the Odyssey, and before that I read the Iliad. The amount of violence in these two foundational books of our civilization feels disturbingly like the present, even though I wish we were much further removed from that way of being. However, I am happy that I have found some nice people in the online classes. The next book that I may take a class on is Ovid’s Metamorphoses, but I have not enrolled yet.
A few days ago, I found some inspiration to start going through my many stacks of papers and things that I need to donate. I have not made much progress, but I am happy to have started. The reason that I had been procrastinating was because, in Houston, as soon as I had my house organized and comfortable, I ended up having to move, so I have been afraid that that may happen again with this house.
How has this storm worked out for you? I hope you haven’t spent too much time watching the news. I am so sorry that I am not in very good spirits today. The narcissus and daffodils have started to sprout and soon we will have flowers. I also planted more than 100 tulips, so I look forward to being able to show you photos of their blooms. By the way, the Dixon Gallery and Gardens (a local museum) is celebrating 50 years today and they planted 650 thousand tulips this year. It should be amazing to visit in 5-6 weeks, so get ready to be bombarded with photos of tulips.
I love you dearly and send my best to S.,
Rita
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Um ano sangrento
O projecto piloto de todo este teatro está a acontecer no Minnesota, especialmente em Minneapolis. Se cresceram em Portugal nos anos 90, decerto se recordam do Beverly Hills 90210, no qual a Brenda e o Brandon, os gémeos que protagonizam a série, são oriundos do Minnesota e têm grandes preocupações sociais e morais. E é mais ou menos assim que é o pessoal do Minnesota, mas devo acrescentar que têm um sentido de humor meio estranho ou inexistente. Quando alguém diz uma piada, não se riem e quando alguém faz uma pergunta, ninguém responde. Depois passam grande parte do tempo num frio horroroso, e no verão têm de aturar melgas quase do tamanho de uma laranja.
Não é portanto de admirar que, depois da Renée Nicole Good ter sido assassinada em Minneapolis, o pessoal tenha saído à rua em protesto; com o ICE a intensificar a violência, ainda mais pessoas erguem a voz e cada vez se vê mais homens brancos heterossexuais a juntarem-se ao movimento--imagine-se que até o podcaster Josh Rogan já comparou o ICE à GESTAPO. Mas há um aspecto lúdico: não deixa de ter piada que os que defendem os métodos autoritários de Trump sejam os mesmos que estejam preocupados com o Irão, a Venezuela, etc., como se dissessem "A minha ditadura é melhor do que a tua..."
Todos os dias aprendemos coisas novas acerca das acções do ICE, que agora até prende cidadãos americanos e não devolvem os pertences pessoais que confiscam às pessoas quando as prendem--os documentos, as jóias, a carteira, o telemóvel, as chaves do carro, etc. Não interessa se a pessoa fez alguma coisa de mal, se está em casa ou no carro, se é americana, se é deficiente, homem, mulher, criança, etc. Até os índios nativos americanos prendem e tentam deportar porque têm um tom de pele mais moreno. Vivemos num estado de completa ilicitude e isto só tem tendência a piorar.
A 30 de Janeiro, acaba o financiamento do Department of Homeland Security que controla o ICE. É certo que o Congresso não irá aprovar uma lei de financiamento, logo teoricamente o ICE deveria parar de trabalhar quando o governo fechar, mas o mais provável é Trump desviar dinheiro de outros departamentos para financiar o ICE. Depois em Maio, quando o Jerome Powell sair da Reserva Federal e o Trump nomear um maluco incompetente, a política monetária irá ser super-expansionista e o dólar deve cair a pique. Entretanto, estão a ser publicados os relatórios trimestrais de resultados financeiros das empresas cotadas na bolsa e não me parece que as coisas sejam famosas, a não ser que a companhia esteja envolvida em construção de centros de AI, prisões, ou equipamento de guerra.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Nem de propósito
Estou duplamente chocada, não só pela perda do Nuno Loureiro, mas também que um antigo estudante internacional português tivesse feito tal coisa. E receio a eventual reacção de Trump.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
Até o lava-loiças
No meio de todo o sentimento anti-imigrante acontecem coisinhas surreais. Nnas redes sociais, num dos grupos de portugueses nos EUA, alternam-se posts anti-imigração em Portugal, posts pró-Trump, e até um post a dizer que Newark já não é tão portuguesa como antes. Em Portugal, uma amiga minha (portuguesa), envia-me mensagens para eu não me preocupar, que já acendeu um velinha à santa dela para me proteger, mas que não há problema, pois sou da "Europa", não sou "da imigração sem interesse, a dos que sabemos." É um conceito subjectivo.
Uma vez, estava numa reunião de trabalho e um (antigo) colega meu francês falou dos portugueses que tinham emigrado para França e que eram porteiros de prédios, pessoas mesmo de baixa condição, sugeria ele. Eu fiquei calada. Na equipa, eu sou a que tenho mais formação académica, falo melhor inglês do que o resto da malta, mesmo os americanos (eles estão sempre a dizer-me isso); não quer isto dizer que eu seja melhor do que os portugueses de outrora, aliás, eles são eu porque tenho familiares que foram para França nas condições que ele descreveu, mas parece que o ser português não é exactamente um imigrante com interesse para toda a gente.
Convenhamos que isto de haver pessoas de primeira e o resto é um tipo de pensamento que é transversal a muita gente em muitos países neste momento. Talvez tal tenha sempre acontecido desde que o Napoleão inventou o conceito de nacionalismo ou, se calhar, vem mais de trás, da altura do Império Romano, mas o que distingue a actualidade do que havia há uns 15 ou 20 anos é o à-vontade com que se exprimem estas ideias. Por um lado, é saudável que haja liberdade de expressão; por outro lado, estas ideias são tão sujas e nojentas que até o lava-loiças foge disto.
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
A Resistência ergue-se
Sempre que há alguma situação que deixa a Administração ficar mal-vista, a Administração manufactura uma crise. No seguimento da Marcha "No Kings", a ala leste da Casa Branca foi demolida, logo o preço das eleições de ontem vai ser o caos no transito aéreo, pelo menos, porque as coisas estão a intensificar. As redes sociais estão cheias de vídeos e de casos de pessoas que foram detidas por ICE, que descrevem situações aberrantes de violação de direitos humanos, para já não falar dos constitucionais. Um cidadão irlandês residente nos EUA foi detido porque se parecia com alguém latino. Durante a sua estadia, viu um homem que também estava detido queixar-se de dores no peito, não lhe foi dada a devida atenção médica e alguns dias depois a pessoa teve um ataque cardíaco e caiu no chão. O irlandês acabou por ser deportado, apesar de nunca ter estado ilegal.
Na Califórnia, Gavin Newsom, o governador, enviou um vídeo a um jornalista de uma intervenção da ICE que deteu um homen num parque de estacionamento e deixaram o seu filho bebé no banco de trás do carro. Depois os agentes da ICE levaram o carro com o bebé; horas mais tarde o homem foi libertado porque era americano e o bebé foi reunido com a família. O Newsom estava a tremer a falar do caso com o jornalista. Em Chicago, grupos de mulheres americanas andam com apitos a alertar as vizinhanças sempre que encontram agentes da ICE, algumas perseguem os carros da ICE nos seus próprios carros, outras oferecem as suas lojas como sítio seguro para quem precise de abrigo dos agentes. Há advogados a relatar o que se passa nos tribunais e dar o seu testemunho das violações da administração. Há padres de diversas denominações a dar sermões a criticar a Administração, etc.
Apesar de tudo, não está a correr mal. Nota-se que o Trump é a figura pública, mas o esforço de "purificação da sociedade" é do Stephen Miller, enquanto que o Russell Vought está encarregado de destruir o funcionamento do governo federal. Estes são metódicos e competentes, mas a maior parte do resto da Administração é trapalhona, mas quer apresentar resultados rápidos e depressa e bem há poucos quem. Se fossem mais pacientes e metódicos, estaríamos em pior situação.
Há várias ideias que são bastante queridas aos americanos: o final feliz, o preferir o "underdog" a quem tem poder, a ideia de que qualquer pessoa pode ser chamada a ser um herói, o triunfo do bem sobre o mal, etc. Se tinha de acontecer, não é mau de todo que este ressurgimento das ideias fascistas esteja a ter maior expressão primeiro nos EUA porque os americanos são um povo que está disposto a resistir. A angariação de fundos para apoiar causas, o insistir que a sociedade civil se empenhe em financiar a educação, a cultura, e a saúde, e dedique parte do seu tempo livre a voluntariado, uma sociedade civil afluente e que não dependa totalmente do estado, e mais recentemente a invenção das redes sociais, a ideia do cidadão jornalista, etc.--tudo isso são armas de resistência, caso o governo se vire contra o povo e é o que nos vale agora. É mesmo "We the people".
domingo, 26 de outubro de 2025
Há sempre os jacarés
A Administração indica que 400 mil imigrantes ilegais já foram deportados este ano. O que é ser imigrante ilegal? Há pessoas que estão legais nos EUA, que nunca estiveram ilegais, mas a quem a Administração retira o visto, logo passam a ilegais e são deportados. É normal, "agentes" da ICE irem a centros comerciais e prédios de apartamentos e apanharem pessoas, colocarem-nas num camião, por vezes um camião de mudanças alugado, sem atender à segurança durante o transporte de quem apreendem, e levarem-nas para prisões privadas, onde são mal alimentadas e não têm acesso a cuidados de saúde (um dos meus amigos em Houston foi deportado recentemente, e soube pela família que era acordado às 5h30 da manhã para tomar o pequeno almoço e depois tinha outra refeição às 15h, a comida era de má qualidade, e não davam água suficiente para o manter hidratado; apesar de ele ser diabético, não tinha acesso a insulina). Também ouvi relatos de que nem sempre são agentes da ICE, porque supostamente há um programa em que a administração paga $1.500 por pessoa apreendida que for entregue. O meu amigo, apesar de ilegal, pagava impostos, tinha comprado uma casa recentemente, e tinha iniciado o processo para se legalizar há anos.
O objectivo é deportar um milhão de pessoas até ao final do ano, logo o Presidente está prestes a substituir os reponsáveis pela ICE para acelerar o processo. Uma das pessoas próximas do Presidente (infelizmente chama-se Laura) até já sugeriu que há 6,6 milhões de jacarés com fome. (Ironicamente, sempre achei que o crime perfeito era ir à Louisiana ou à Florida e dar a vítima de comer ao jacarés--é no que dá ver documentários sobre gangs violentos).
Em algumas cidades, a Guarda Nacional foi acionada (já chegou a Memphis), supostamente para combater crime. A Guarda Nacional é uma força de reserva, muitos jovens inscrevem-se porque lhes pagam as propinas e taxas de frequentar a universidade; em troca esses jovem oferecem um fim-de semana por mês para se treinarem e, em caso de emergência, são activados. Normalmente, as emergências que os activam são prosaicas--um pós-furacão, tornado, ou inundação, mas também podem ser despoletadas para "manter a ordem". Depois há as forças militares propriamente ditas. O Secretário à frente do Departamento da Guerra, é o Pete do WhatsApp, aconselhou o topo das forças militares a tratarem o território nacional como treino para intervenções militares, ou seja, usarem força bruta.
Obviamente, parte da população está horrorizada e outra parte encantada com tal exibição de força. A marcha "Não há Reis" foi um sucesso, com 7 a 8 milhões de pessoas a participarem por todo o país. Foi este o tópico da conversa durante alguns dias até que o Presidente decidiu destruir a ala leste da Casa Branca e deixou-se de falar da marcha.
É imperativo que a Europa emita um alerta aos seus cidadãos: os EUA neste momento não são um país seguro onde viajar. As coisas estão a deteriorar-se muito rapidamente e os países europeus vão ter de decidir qual a melhor maneira de confrontar os EUA quando os seus cidadãos começarem a ser apreendidos. Notem que ser deportado pelos EUA não é trivial, o Supremo Tribunal autorizou que os EUA deportem pessoas para terceiros países e há acordos entre os americanos e alguns dos países mais inseguros do mundo (por exemplo, o Sudão do Sul) que permitem deportar pessoas para lá, independentemente de os países de origem destas pessoas se disponibilizares para os receber de volta--os americanos nem contactam os países de origem dos deportados. E há sempre os jacarés.
domingo, 12 de outubro de 2025
É a economia agrária, estúpido!
Com o apagão governamental, os americanos deixaram de ter acesso a muitos dos serviços que o governo oferece, especialmente em gestão de risco. A maior parte das entidades governamentais deixou de publicar dados da economia americana e também não estão a recolher todos os dados do costume, logo vai ser difícil ter ideia de como as coisas estão na realidade, mas mesmo que os dados estivessem a ser recolhidos, toda a análise está calibrada para um funcionamento da economia que já não existe porque Trump destruiu parte dos estabilizadores automáticos da economia. O exemplo mais flagrante é o da agricultura.
Os EUA são um dos principais produtores de commodities do mundo (em agricultura, que é a área que conheço melhor, produzem carne de frango, porco, e vaca, trigo, milho, soja, óleo de soja, farelo de soja, arroz, algodão, etc.), mas recentemente foram ultrapassados pelo Brasil em bastantes áreas. A China é o maior importador de commodities do mundo e o maior comprador de commodities americanas, menos este ano porque o Trump impôs-lhes tarifas outra vez e a China deixou de comprar. A primeira vez foi em 2018, o que fez com que os preços das commodities afundasse, mas esse episódio foi interrompido pela pandemia e Trump conseguiu negociar um acordo com a China que requeria que a China comprasse um certo montante de commodities agrícolas, o que fez com que os preços recuperassem. Nessa altura, a China não tinha grande opção por causa da pandemia, mas também porque quando o resto do mundo estava em lockdown, a China estava aberta, logo necessitava de matéria prima para abastecer o resto do mundo (caso do algodão).
Apesar de Biden continuar a mesma política comercial com a China, o acordo comercial de Trump tinha um prazo limitado e expirou sem que outro fosse negociado. Então a ideia de Trump neste segundo mandato era que ao "implicar" com a China, iria acontecer o mesmo que no primeiro e a China iria capitular e acabar por comprar as commodities americanas. Só que nos últimos cinco anos, a China aproximou-se a América do Sul, especialmente do Brasil, e também reactivou relações comerciais com a Austrália, que também produz algumas commodities, e com isto os EUA perderam algum poder de negociação, logo desde Abril deste ano, os preços das commodities têm estado em queda. Por sua vez o Brasil continuou a aumentar a sua produção de commodities e o custo de produção do Brasil é inferior ao dos EUA, logo o Brasil tem margem para fazer face a descidas de preço.
Quando os preços ficam muito baixos, os agricultores americanos têm a opção de emprestar o produto ao governo federal em troca de financiamento e quando os preços recuperam, os agricultores saldam o empréstimo e vendem o produto a preços de mercado que já estão mais favoráveis. A existência destes empréstimos faz com que os preços das commodities dificilmente desçam abaixo do pagamentos do empréstimo. Acontece que o governo federal está fechado (por coincidêcia, até estamos na altura em que os produtores começam a colher o produto), logo não dá para emprestar ao governo, o que faz pressão nos preços e limita o acesso dos agricultores a capital para fazer face às suas despesas.
A China pode esperar porque as colheitas australiana, brasileira e argentina surgem no mercado antes da americana, já os agricultores americanos não e as falências já começaram. Também já começaram os telefonemas ao membros do Congresso a reclamar e Trump já disse que vai haver um pacote de apoio aos agricultores, mas não tão generoso como o do primeiro mandato. Claro que, no primeiro mandato, Trump não despediu os empregados do governo federal como está a fazer agora. Mesmo que ele queira dar dinheiro aos agricultores, é provável que quando chegar altura de fazer os pagamentos não tenha ninguém para os processar.
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Nove meses
Depois em Abril tivemos o exame que foi outra fonte de stress, mas correu bem. Faltava depois terminar as horas de voluntariado: 20 horas de serviço comunitário, mais 20 de voluntariado para o serviço de Extensão da Universidade do Tennessee, e depois mais 8 horas de educação continuada (palestras, seminários, aulas online), que tinham de ser terminadas antes do início de Agosto para podermos participar na cerimónia de graduação a 21 de Agosto. Ainda dei mais um pulo a Portugal em Junho/Julho para ver o meu pai e ir a um casamento.
Consegui completar todos os requisitos e terminar a certificação de jardinagem, mesmo a tempo de ir ao Texas em visita de trabalho para avaliar a colheita de algodão. Cheguei ao hotel, fiz o check-in, e fui dar uma volta a pé para andar 10,000 passos. Estava quase a regressar ao hotel quando vejo que a minha irmã tinha enviado várias mensagens. O meu pai tinha acabado de falecer. "Quando vens?" perguntou ela, "Não vou" respondi.
Não queria ir ao funeral, não valia a pena, tudo o que podia fazer pelo meu pai estava feito, e tanto eu como ele não gostamos de funerais. Depois a logística do regresso ia ser um pesadelo: tinha de regressar a Memphis para pegar o passaporte e poder sair do país, depois arranjar um voo de emergência para ir a Portugal, fazer as malas, e passar uns três dias a andar às voltas com viagens não era o que eu queria fazer naquela altura. Para além disso, quando o vi em Junho sabia que era a última vez que estava com ele. E quando falei com ele alguns dias antes de ele morrer, pedi-lhe para ele morrer. Já não podíamos fazer nada por ele, o corpo estava demasiado gasto e ele não estava numa situação confortável. Disse-lhe que estavamos bem, que ele não precisava de se preocupar connosco, mas que estávamos preocupados com ele porque sabíamos que estava a sofrer.
Apesar do alívio que senti ao receber a notícia, era-me difícil pensar nele e não chorar, e não disse a quase ninguém. Passei três dias a medir o algodão com um colega que não sabia do que se passava comigo; no carro, de vez em quando começava a chorar, mas não o suficiente que ele se apercebesse. No último dia, perguntou-me se eu queria ir jantar. Não queria, tinha de terminar de preparar o relatório da visita para a reunião do dia seguinte. Apresentei os resultados e desculpei-me porque tinha de sair para ir para o aeroporto. Depois à noite, peguei o meu sobrinho no aeroporto que vinha passar quase três semanas comigo e finalmente disse no trabalho o que tinha acontecido. Deram-me três dias de folga e fomos a Nova Orleães, que é um sítio em que a fronteira entre a vida e a morte é bem esbatida--e tem boa comida.
Concumitantemente, o reino de terror do Trump adensa-se. Para além da incerteza que ele criou em termos de funcionamento da economia com as tarifas que são, mas não são, o governo federal deixou de cumprir leis e faz o que lhe dá na telha. Daqui a uns dias, irá haver um intervenção militar em Memphis, supostamente para reduzir o crime, mas é óbvio que é uma desculpa para caçar pessoas que eles não gostam e as meter na prisão. Mesmo cidadões americanos têm sido presos por engano, mas nem sei, e tirando as aventuras com o meu sobrinho e as viagens de trabalho, tenho passado bastante tempo em casa. Quando saio à rua levo o meu passaporte americano.
No trabalho esta semana, dizia aos meus colegas que receava ser presa, e eles acham que estou a exagerar. Só pessoas más estão a ser presas, asseguravam. Por enquanto, a maioria das pessoas presas são imigrantes ilegais ou pessoas que eles não querem que fiquem nos EUA, mas ainda a procissão vai no adro. Conheço algumas pessoas que estão ilegalmente nos EUA, e um deles foi preso. Tive alguma esperança que com o tempo fosse libertado, mas depois de ouvir um dos episódios mais recentes do This American Life, acho que o mais provável é a pessoa morrer na prisão porque é diabético e não lhe estão a dar comida adequada, nem medicamentos, ou deportarem-no. Se tivermos sorte, vai para o país de origem, senão, ainda acaba num país africano dos mais pobres.
É difícil acreditar que isto é a realidade porque há uma certa aura de normalidade nos dias: o sol brilha, os vizinhos cumprimentam-se, o pássaros cantam. Por coincidência, em 1995 ou 1996, li um livro de Arthur Miller chamado Focus, que é sobre um homem que não é judeu, mas acha que se parece judeu e então tem imenso medo de ser identificado como judeu. É adequado para os tempos que correm na América. A Heather Cox Richardson, uma historiadora americana, diz que as circunstâncias actuais não são únicas na história e que os EUA já ultrapassaram crises semelhantes antes e penso que sim, esta loucura irá ser ultrapassada.
Num discurso recente, o primeiro ministro do Canadá, Mark Carney, citou Leonard Cohen na canção Anthem: "There is a crack, a crack in everything | That's how the light gets in". E há alguns raios de luz, como o episódio do Kimmel; os americanos têm poder de compra e houve um número suficiente que cancelou a subscrição dos canais da Disney para a companhia voltar a trás. Estou convenciada que o desmoronamento desta loucura vai ser despoletado por motivos económicos. Quando começa a doer no bolso, os americanos entram nos eixos.
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
Nem tudo está perdido, especialmente na rua
Claro que estou a ser injusta porque há coisas bastante importantes que tem tratado, como a preocupação do executivo em limitar o tempo que as mães têm acesso a um horário laboral reduzido para que possam amamentar os filhos. Não basta Portugal ter pouquíssimas grávidas, ainda tem a infelicidade de haver umas que têm o hábito de abusar dos seus direitos pós-parto. A Ministra do Trabalho, Solidariedade, e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho, acha que se deve mudar a lei para que não haja abusos porque "acha" difícil de conceber que uma criança seja amamentada depois dos dois anos porque deve comer sopa e outras coisas e não viver só de leite materno. Normalmente, há um processo de fiscalização para encontrar abusos, em vez de se mudar leis para os evitar, mas agora sabemos que não há fiscalização, logo abusem à vontade dos vossos direitos em todas as leis e não se acanhem.
Agora, vocês que me lêem se calhar pensam, espera lá, o governo não tem acesso aos dados de desenvolvimento das crianças e não podia fazer um estudo a ver se realmente vale a pena amamentar depois dos dois anos? Ou podiam arranjar um investigador que fizesse uma revisão de literatura médica ou um estudo de práticas noutros países e depois, mediante os resultados, propunha uma modificação da lei, se necessária? E até podia fazer um estudo a ver se o ter um horário reduzido de trabalho tem efeitos na carreira das mulheres, na sua satisfação laboral, etc.?
Não, a Ministra "acha" que há abuso, não tem provas de que haja abuso, nem tem uma contagem dos casos de abuso--apenas acha. Ora, eu também acho que pelo seu discurso há provas suficientes que esta senhora não tem capacidade intelectual para ser ministra de coisa alguma. Ela nem do meu cão tomava conta. Por mim, na rua é que estava bem, como as grávidas.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Quase a encerrar
segunda-feira, 28 de julho de 2025
Ideologias e cidadanias
Se a Eneida era violenta (recordo-me em particular da descrição da morte de Priam), a Ilíada é brutal, verdadeiramente animalesca, em que se aceita com normalidade matar pessoas, violar mulheres, matar crianças, maltratar corpos, etc. Grande parte dos acontecimentos da Ilíada são relatados na Eneida, mas com menos violência gráfica. Os dois relatos referem acontecimentos que ocorreram por volta do séculos XIII a XII A.C.: a Ilíada talvez tenha sido composta por volta de 750 a 700 A.C., ou seja quase meio milénio depois, e a Eneida foi publicada no ano de 19 A.C. Supõe-se que Homero, que compôs a Ilíada, tenha sido uma amalgama de pessoas em vez de apenas um poeta, enquanto que a Eneida foi composta por Virgílio, o poeta romano, que a escreveu para elogiar e talvez criticar ou influenciar o Imperador Augusto.
Sendo a Ilíada supostamente o produto de vários homens, é impressionante a consistência de violência gráfica, mas isso está mais na mimha cabeça do que na cabeça deles, se calhar. Nessa altura, a vida era assim e a Europa era um sítio violento e não é preciso recuar muito para encontrar níveis absurdos de violência durante a nossa vida. Talvez o que distinga um período de paz de um período de guerra seja para além do número de vítimas, o facto de homens em idade activa serem alvo de violência porque as mulheres, as crianças, os idosos, enfim as minorias são sempre alvo de violência, haja paz ou guerra. Mas já Virgílio foi mais contido talvez porque não tivesse experiência de combater numa guerra, ou talvez nestes quase sete séculos entre os dois relatos tivesse havido progresso em termos do que era aceitável, uma mudança de ideologia, portanto.
O facto de tanta da história da humanidade ser dominada por conflitos e guerras devia pôr-nos de pé atrás: não devíamos achar que a paz é o estado natural da nossa existência; pelo contrário, a paz deve ser encarada como um alvo em constante movimento e o ideal é formar cidadãos que tenham apreço e um sentido de responsabilidade pelo esforço necessário para trabalhar para a paz.
Posto isto, quando penso em cidadania, não me vem à cabeça educação sexual, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, gestão de ansiedade, etc., mas faz sentido falar de coisas como o movimento gay e LGBTQ, o feminismo, o racismo, etc. porque são casos concretos em que podemos observar como se molda a sociedade no sentido de haver mais dignidade humana, tanto a nível da participação individual, como da função e funcionamento das instituições. A dignidade da pessoa humana é um valor fundamental na sociedade portuguesa, dado que é a base da República Portuguesa.
Agora, isto não implica que não seja importante discutir temas de cariz sexual nas escolas. Aliás, é um tema extremamente crítico hoje em dia por causa da forma como os jovens têm acesso à informação e também de como são alvo de predadores sexuais ou de como iniciam a sua actividade sexual: pornografia online, apps como o Tinder, redes de tráfico humano, etc. Depois, como a política de saúde pública mundial dos EUA mudou, devemos também preparar-nos para poder haver um aumento das doenças sexualmente transmissíveis a nível mundial e como Portugal está com maior abertura a pessoas internacionais, decerto que há potencial para a situação piorar.
Por isso surpreendem-me duas coisas: uma que o governo, meta estes assuntos na gaveta da ideologia; outra que a oposição insista que a única forma é exigir que estes assuntos sejam inseridos na aula de "cidadania". Países como a Suécia, Países Baixos, Reino Unido, e Canadá oferecem aulas de educação sexual nas escolas, porque é que Portugal não oferece também?