terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O limite do que sabemos

Diz o NYT a propósito de Omicron que "Researchers in South Africa, where the variant is spreading quickly, say it may cause less serious Covid cases than other forms of the virus, but it is unclear whether that will hold true."

É muito difícil comparar a severidade desta variante com as anteriores porque os testes são ubíquos agora, logo é mais fácil encontrar casos, especialmente os não-sintomáticos. Antes, testava-se quem exibia certos sintomas, agora vai tudo a eito.

No que diz respeito à severidade, é relevante considerar que a população actual está truncada porque os mais susceptiveis já morreram com variantes anteriores, logo, temos uma população mais resistente. Dadas as taxas de vacinação e o número de recuperados, também podemos considerar um possível efeito de censura dos dados.

Ou seja, temos uma população com características muito diferentes do que tínhamos há um ano, logo temos de ter bastante cuidado com as conclusões que retiramos dos dados.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Literalmente, um rabo gordo

A "literalidade" é capaz de ser um dos meus maiores defeitos, mas não acho que seja mesmo defeito, é apenas uma característica do meu cérebro, e muitas vezes quando ouço alguém falar, ou até quando leio, não percebo o que é dito. Depois há ainda outra dificuldade porque, à medida que o mundo se torna global, mesmo global, no sentido em que conhecemos e convivemos com pessoas de sítios muito diferentes, com quem podemos ter uma língua em comum, mas significados diferentes, a possibilidade de falhas na compreensão aumenta. Ruído é tudo o que impede a compreensão, dizia o meu livro de português do quinto ano de escolaridade.

Estava numa amena cavaqueira com uma amiga brasileira e deparei comigo muito encalhada na conversa. O tópico era homens e sexo, logo reconheço que estou em desvantagem -- claramente -- porque desde que mudei de Portugal, decerto que a língua mudou nestas conversas e depois há o detalhe de sermos de dois países diferentes. Ela falava em namorar e eu imaginava os idílios amorosos da minha juventude, se calhar mais inspirados pelo Camões, em que os elementos do casal olhavam um para o outro e o mundo estendia-se a seus pés. ã medida que a conversa fluía, salvo seja, percebi que o namorar dela era o que eu chamava de foder porque, lá está, sou literal.

Hoje de manhã, acordei a pensar que havia muito ruído na conversa. Se calhar, mal apanhei o fio à meada, o que inspirou aquele suspiro de resignação como se vê nos filmes. Há mais de 20 anos, suspirei assim porque a bagageira do meu carro estava cheia de tralha, o que confessei ao meu namorado:

Eu: "I have so much junk in my trunk!"
Ele: "Don't ever say that again."
Eu: "Why not? It's the truth."
Ele: "It means you have a fat ass."
Eu: "Oh..."

Nariz com mostarda

O plano para daqui a oito dias era ir a Nova Orleães. Era porque já não é. Por um lado, com a situação da minha vizinha não tenho andado com muita cabeça para pensar na viagem; por outro, porque fiquei chateada. Uma das minhas amigas que vai telefonou-me a perguntar se eu tinha ido levar o reforço da vacina ao que respondi negativamente. A minha intenção é esperar até Março porque isso maximiza a resposta do meu sistema imunitário segundo li na Bloomberg (era a opinião de um médico que citavam). Nesse caso, informou-me ela, não se sentia confortável em partilhar o quarto de hotel comigo. Mas eu nem tinha pedido para partilharmos o quarto de hotel.

Ela é mais velha do que eu, logo apanhou a vacina antes de mim -- eu fui das últimas pessoas do meu círculo de amigos mais próximos a levar a vacina por causa da minha idade e porque não estava em situação de risco, dado que trabalhava de casa e não ia a quase lado nenhum. Agora sou discriminada porque não quero tomar o reforço da vacina nesta altura. E nem sequer tem lógica que ela tenha medo de mim, dado que ela pode muito bem apanhar o vírus e dar-mo a mim. Depois também há o pormenor não insignificante que Nova Orleães no Natal fica com bastante gente, logo se não está confortável ao pé de mim que sou extremamente cuidadosa, como é que está confortável em ir para o meio dos malucos de NOLA?

Subiu-me a mostarda ao nariz e não estou em condições de ser boa companhia, então vou ficar em casa. Se me apetecer viajar, posso sempre ir sozinha, até porque eu gosto de hoteis mais giros do que aquele para onde vão.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Coisas misteriosas

Há dois dias acho que recebi uma notificação da minha médica a dizer que tinha de ir fazer a revisão anual. Digo "acho" porque li aquilo quando recebi, mas depois não consegui encontrar de onde vinha a notificação e até tinha desaparecido do rol das mesmas. Lá fui obediente nem sei a quem ou quê, se aos serviços automatizados, se à minha imaginação, e ontem telefonei a fazer a marcação não só da revisão, mas também da vacina da gripe, que ainda não tinha tomado e bem sei que já estou com uns dois meses de atraso.

Fiquei um pouco chateada que só houvesse consulta para meados de Janeiro, mas a vacina da gripe pude tomar hoje, dado que havia vaga para as duas da tarde. Agendei ambas e hoje ao almoço, telefonam-me do centro médico para dizer que no dia 13 de Janeiro não podia ter consulta porque a médica ia estar de folga. Olha que chatice, mas disse à senhora que o que eu queria mesmo era ter consulta em Dezembro. Era capaz de dar agora, disse-me, porque tinham andado a modificar os horários. Então e que tal dia 15, às 9 da manhã? Excelente, lá estarei.

Saí de casa às 13:25 para ir tomar a vacina, a contar com o tempo de lá chegar e depois preencher a papelada. Como é muito perto em coisa de cinco minutos estava lá e chamaram-me para entrar às 13:32. Apanhei uma enfermeira pouco conversadora, mas despachada. Às 13:38, entrei no carro para me ir embora e cheguei a casa às 13:43 porque estive parada num sinal STOP o que pareceu uma eternidade -- era hora de ponta naquele cruzamento.

Misteriosamente, tudo encaixou bem.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Terceira noite

Estamos na terceira noite de Hanukkah e estou à espera que as velas da chanukiah se apaguem para ir visitar a minha vizinha e acender as velas lá. Todas as noites o contraste entre o corpo e a mente da mãe dela é maior: o corpo está cada vez mais mirrado, apesar de ela estar a comer melhor e a tomar mais líquidos; a mente está mais bem disposta, reage a piadas e a comentários bem dispostos, fala mais alto. Nunca vi ninguém agarrar-se tanto à vida, como se estivesse a espremer tudo o que pudesse dar.

Mas este fim lento da mãe da minha vizinha por vezes enche-me de dúvidas. Eu não gostaria de estar assim e sei que ela não gosta deste limbo, por vezes com dores, mal-disposta... Ontem disse-me "I feel awful!" Depois, no fim, ao despedir-me estava animada quando lhe disse "You behave and don't do anything crazy. I love you and will see you tomorrow..." Respondeu "I love you, too" e sorriu muito.

Temos mais cinco noites de Hanukkah, talvez consigamos um milagre.

domingo, 28 de novembro de 2021

Talvez amanhã ou depois

Morrer faz tão parte da vida como nascer, mas enquanto o nascimento é uma coisa feliz, a morte é uma fonte de infelicidade. A última pessoa fisicamente próxima que me morreu foi o meu avô em 1983. Morreu à mesa, durante o almoço. Naquela altura, eu vomitava por tudo e por nada: se havia um cheiro intenso, se via algo com mau aspecto, etc. Por ser assim, o meu avô comia na sala de jantar e o resto da família na cozinha. Foi por isso que não vimos o meu avô morrer, apenas ouvimos um barulho e quando fomos ver, ele já não estava em si. Ainda me recordo de ouvir o meu pai a dizer "Ó pai!" quando o encontrámos e de ele o carregar ao colo para o carro. Quando chegou ao hospital, uns 10 minutos mais tarde, nem foi admitido porque já não havia nada a fazer.

Depois disso senti culpa de não estarmos com o meu avô. Talvez se estivessemos todos juntos ele não tivesse morrido. E vergonha, senti muita vergonha. Deixei de conseguir tocar nas coisas do meu avô, mas só nas dele. A minha avó tinha morrido no ano anterior, mas os seus objectos nunca me inspiraram medo. Quando a minha mãe morreu, há 15 anos, tiveram de esperar que eu chegasse a Portugal para fazer o enterro. Quando estávamos na morgue, perguntaram-me se a queria ver, mas recusei.

Viver longe da família é um bocado refugiar-nos da morte. Há pessoas que conheci aqui que morreram, mas foi sempre longe de mim. Até agora. Há menos de dois anos, a mãe da minha vizinha "adoptou-me". Uma vez, na cozinha lá de casa, ela dizia-me que não a deixavam partir -- morrer -- e eu respondi-lhe que não podia morrer. Se morresse, eu ficaria sozinha no país, não teria ninguém para cuidar de mim. E ela, apesar do início da sua demência, respodeu que isso não, ela ia cuidar de mim.

No último ano, tenho ajudado a cuidar dela. Estranhamente, ela fica calma ao pé de mim; sente-se bem disposta, tenta fazer piadas quando conversamos. Só que todos os momentos que passa comigo são ligeiros: não lhe peço para comer, nem lhe dou banho, medicamentos, etc. Nestes últimos dias nota-se que há um desajuste maior entre a cabeça e o corpo. O coração já está muito fraco, tão fraco que, há duas semanas, teve uma pneumonia da qual conseguiu recuperar. No entanto, cada dia está a ficar menos flexível, como se a cabeça estivesse a ficar aprisionada no corpo. Tem dificuldade em falar, não consegue mover-se, o sangue acumula-se nas mãos, doi-lhe tudo.

Quase todos os dias a vou visitar. No raro dia em que tinha as mãos frias e as minhas estavam quentes, tentei aquecer as dela. Tento reparar nestes detalhes para ver se adivinho o fim. Quando me despeço, passo a minha a mão pela testa dela e digo-lhe para se portar bem que a amo. Ela responde "I love you, too." Talvez amanhã ou depois seja a última vez.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Happy Thanksgiving!

Mais um dia do perú, acho que foi o meu vigésimo-sexto que passei nos EUA. O meu primeiro foi em 1995 e passei-o em Dallas, TX; o segundo, dois anos depois foi em Ponca City, OK, que é uma cidadezinha bastante pobre na altura. É engraçado pensar no contraste dos dois locais agora, mas quando visitei era tudo novo e interessante, logo ambas as experiências foram igualmente boas. A comida é sempre o tradicional perú com o recheio, mais uma combinação de outros pratos da época: doce de arandos, puré de batata, batatas doces assadas, feijão verde com sopa de cogumelos, pudim de milho, salada, pãezinhos, pão de milho. Depois há variações, por exemplo, hoje no meu jantar o feijão verde era fresco (o tradicional é de lata) e tinha sido cozido e depois aromatizado com especiarias.

O Dia de Acção de Graças e toda a sua tradição é capaz de ser uma das minhas coisas preferidas de viver aqui. É uma altura do ano em que toda a gente está preocupada com os outros. Todas as pessoas que nos encontram perguntam que planos temos para o Dia de Acção de Graças e os americanos não gostam de ver ninguém a passar este dia sozinho. Mesmo quem escapa à pesca do convite acaba por frequentemente receber um prato de comida.

É paradoxal que um povo que tem a reputação de comer mal passe vários feriados em redor de comida e a organizar eventos para comer em comunhão com os outros. O dia da Independência dos EUA é piqueniques e cachorros quentes, a final do campeonato de futebol americano é uma tarde de petiscos, o 17 de Março -- dia da S. Patrício na Irlanda -- é comida irlandesa, o 5 de Maio, que nem é importante no México, é comida mexicana. E depois há os tradicionais potlucks nos escritórios, nas igrejas, nas universidades, etc. só para promover a camaradagem. Portugal devia pensar em criar uma coisa tipo o dia do pastel de nata; era capaz de ter sucesso na terra do Tio Sam.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Dois em três

Soubemos hoje que os três homens que perseguiram Amauhd Arbery e o mataram, em 23 de Fevereiro de 2020, foram todos condenados. É justa a sentença, mas isso não invalida o sabor amargo que sentimos por estes crimes acontecerem. A vítima tinha 25 anos e saiu à rua para correr, quando os três acusados decidiram que, se ele estava a correr, era porque tinha feito algo de mal e daí decidiram persegui-lo até que o mataram a tiro.

Os meus vizinhos a norte, na terceira casa depois da minha, têm uma placa à frente de casa a pedir justiça para as vítimas de crimes raciais. As placas foram uma iniciativa de duas famílias de Memphis. O nome do Amauhd está na lista, assim como o de George Floyd e o de Breonna Taylor. Em Abril, o polícia que matou George Floyd foi condenado a 22,5 anos de prisão. Dos três, apenas Breonna Taylor não verá justiça, pois ninguém foi acusado da sua morte.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A democracia vibrante

É meu costume, ou talvez interesse, ler textos sobre Portugal escritos antes da Revolução de Abril. Acho que tenho alguma curiosidade em saber se as pessoas tinham alguma noção do regime em que viviam; mas parece que não porque era tudo muito respeitável. Como hoje, em que a democracia portuguesa também é muito respetável.

Uma das características que os portugueses associam a respeitabilidade é o consenso: toda a gente tem de pensar da mesma forma, não faz sentido haver discórdia porque verdade há só uma, ou não fosse a vida todo um destino fatídico pré-definido por forças divinas. Isso é que é uma democracia vibrante: uma sociedade em que todos puxam para o mesmo lado.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Wisconsin

Depois de termos passado umas semanitas a ouvir falar do Wisonsin por causa do julgamento do Kyle Rittenhouse, que foi absolvido há dias, eis que hoje alguém atropelou uma multidão no cortejo que celebrava os 125 anos da cidade de Waukesha, precisamente no Wisconsin. Ainda não foi publicitado nada acerca do motivo por detrás do incidente de hoje, mas é estranha a coincidência.

Nunca me cruzo muito com este estado, a não ser quando vou comprar queijo, dado que tem uma indústria de lacticínios bastante grande; isto para dizer que, a maior parte do tempo, nem me lembro que existe, e nem me recordo de conhecer alguém de lá, apesar do meu portefólio de amigos ser bastante variado e alargado. Também há aquela cena do Love Actually, em que o Colin visita o Wisconsin, que é um filme que costumo ver uma vez por ano.

Aguardo com curiosidade o que dirão as autoridades acerca de hoje.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Os pessimistas

Estava a falar com um amigo meu e calhou mencionarmos o refinanciamento de hipotecas. Quase toda a gente que conheço e que tem uma hipoteca já refinanciou. O meu vizinho do lado que comprou a casa quase um ano depois de mim refinanciou primeiro do que eu e até me disse que tinha aumentado o valor financiado porque um contabilista amigo dele lhe tinha dito que era a estratégia ideal.

Acho uma estratégia arriscada, mas como consigo poupar bastante dinheiro, não faz sentido para mim tirar dinheiro da casa para estar parado numa conta à ordem ou para usar em consumo. Quanto a investir o dinheiro na bolsa, também não acho que faça sentido no meu caso, dado que as minhas contas poupança-reforma estão bastante investidas na bolsa (80% de exposição à bolsa, 20% a bonds), logo preciso de diversificação e ter capital amortizado na hipoteca mais dinheiro em caixa complementa bem as minhas contas de poupança-reforma. O meu objectivo era acelerar o pagamento da hipoteca refinanciando a 15 anos e até comprei alguns pontos para baixar a taxa de juro, que ficou em 2.25%. Tive bastante dificuldade em explicar ao senhor que tratou do refinanciamento que não queria que me dessem dinheiro em troca de uma hipoteca mais alta. Enfim, parece que leram todos o Rich Dad, Poor Dad, mas eu não sou pai de ninguém.

Dadas as taxas de juro mais baixas, os preços das casas a apreciar, e a política fiscal expansionista, o certo é que os americanos estão bem de poupanças e acesso a capital--o governo é que ficou um bocado mais endividado. Não é de admirar que, em Agosto, muita malta tenha desistido do emprego e também há os que se reformam antecipadamente. Todo este dinheiro permite a muita gente viver sem trabalhar durante alguns meses. Depois temos também as inovações em termos de trabalho, em que é muito fácil arranjar um emprego part-time em que as pessoas decidem quando querem trabalhar ou até monetizar a casa através do Airbnb, logo os trabalhadores têm muito mais opções do que o normal.

Veremos quanto tempo irá durar esta folia. Isto tem tudo para ser um castelo de cartas, mas também pode correr bem. Nós imigrantes (o meu amigo e eu) é que ficamos um bocado assustados com tanto optimismo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Quase, quase

O número de casos e mortes por causa de Covid-19 está a aumentar nos EUA e na Europa, apesar das vacinas. Mesmo Portugal com a sua alta taxa de vacinação não escapa à tendência. O pior é que há bastantes vacinados a ir parar ao hospital, o que não é surpreendente--é a lei dos grandes números. No entanto, estou animada acerca disto. Este inverno deve ser ou vai ou racha e depois disto já haverá comprimidos anti-virais que parece serem bastante eficazes. Estamos quase a ver-nos livres disto.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Lusocentrismo

Não aprecio a cobertura de Portugal que aparece no NYT porque resume-se a propaganda. Não sei se a culpa é do governo português ou da equipa editorial do NYT. Um dos artigos mais recentes é sobre a lei que impede os patrões de contactar os empregados fora de horas, ou seja, uma lei que introduz mais rigidez no mercado de trabalho.

Desde há quase dois anos que andamos nisto do trabalho remoto e algumas das coisas que ouço dos meus colegas é que apreciam a flexibilidade, gostam de poder passar mais tempo com os filhos, e as poupanças de tempo de gasolina também ajudam. Já aconteceu em conferências por telefone alguns (homens!) estarem a lavar a louça ou a preparar uma refeição, também têm a possibilidade de ir levar e buscar os filhos à escola, etc. Ou seja, em vez de se trabalhar as oito horas quase seguidas com intervalo de almoço, a gestão de tempo é mais fluída e os empregados ganharam alguma independencia de como organizar o seu dia. Desde que apresentem o serviço a tempo e horas, não parece que seja um problema ter um horário mais felixível.

Em empresas multinacionais, há também um outro aspecto a considerar, dado que parte da equipa pode estar espalhada por outros países. Recordo-me de uma vez ter uma reunião às 6 da manhã porque um colega estava na China, mas o mais frequente é os colegas dos outros países terem horários não-convencionais para poderem contactar com quem está nos EUA. Por exemplo, há um colega que está na Índia de quem nós dizemos, a brincar, não dormir porque está sempre a responder aos nossos emails. É no que dá ter pessoas na Índia, China, Europa, EUA, Brasil, Àfrica ocidental na mesma equipa.

Tudo isto para perguntar quem é que na sua supra-sapiência acha que vai atrair trabalhadores estrangeiros, como sugere o artigo, para ir trabalhar para Portugal, quando é proibido contactar a pessoa fora das horas de trabalho portuguesas? Uma empresa americana, que está pelo menos 5 horas atrasada relativamente a Portugal vai incentivar alguém a trabalhar de Portugal dada esta legislação?

E como é que a legislação vai ser aplicada? Quem vai fiscalizar? Como é que vão cobrar as multas? Suponhamos que havia realmente empresas estrangeiras que deixassem os empregados trabalhar de Portugal, que jurisdição teria Portugal sobre estas empresas para lhes aplicar multas?

Percebe-se esta tendência populista para ganhar votos perto das eleições, mas uma pessoa fica envergonhada com esta mania que o mundo gira em torno de Portugal.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Interrupção

Um dos meus Instagrams preferido -- talvez mesmo o meu preferido -- é o Paleio da Ana Rodrigues. Não tenho dúvida que é um dos melhores de Portugal. Já o acompanho há bastantes anos, tantos que numa das minhas visitas a Portugal até cheguei a passar uma tarde com a Ana no Porto. Acho-a uma mulher incrível e das pessoas mais criativas que conheço. Todos os anos, faz um ou vários projectos artísticos, um deles costuma ser enviar um postal por semana a uma pessoa. Recolhe a morada de pessoas que estejam interessadas, pessoas que ela não conhece, mas que pelo milagre da Internet seguem o seu trabalho e querem participar. Os postais são em si obras de arte, que ela dispersa pelo mundo, como se fossem sementes.

Também implementa projectos anuais publicados no Instagram, em que todos os dias há uma publicação. Já houve fotos a preto e branco, outro projecto era em filme fotográfico, há uns anos as fotos foram tiradas com a Fuji Instamax Mini, etc. O deste ano é fazer 10 segundos de filme por dia e é simplesmente magnífico, vale mesmo a pena ir espreitar. Só que tudo está em suspenso porque a Ana anunciou que vai fazer uma interrumpção para poder lidar com alguns problemas de saúde. Estou triste, mas também feliz por ela ter decidido cuidar de si. As melhoras a ela.

domingo, 14 de novembro de 2021

Segunda lição

Na Quinta-feira, foi a segunda lição do Julian, leia-se minha. A professora chegou e eu disse logo que ainda não tinha tido oportunidade de aplicar muitos dos conselhos, mas tínhamos andado a praticar o nosso sit-stay-come. Ele estava mais calmo, mas ainda com necessidades afectivas: de vez em quando, o Julian olha para as nossas mãos e acha que deviam estar a dar-lhe uma massagem, então enfia a cabeça mesmo a jeito. Não é muito humilde, o rapaz. Acha que o mundo se deve subjugar à sua vontade. Mostrei o nosso sit-stay-come e estava mais ou menos. Também pratiquei meter-lhe a coleira de sair e a trela e sentarmo-nos no sofá para ele calibrar o seu nível de entusiasmo associado à coleira e trela.

Para o final, praticámos eu passeá-lo com a professora atrás de mim. Normalmente, o Julian fica muito agitado quando alguém nos acompanha, mas desta vez estava relativamente mais calmo, apesar das muitas distrações como a presença da professora, o jardineiro do vizinho a fazer barulho com o aparador de relva, carros a passar, etc. Achei engraçado que, durante a aula, sempre que o Julian se porta bem, a professora olha para ele com bastante admiração e afecto. Acho que nuna tinha visto ninguém olhar para os meus animais assim, mas nota-se que ela gosta mesmo do meu pirralho.

Um dos nossos trabalhos de casa tem sido o praticar as minhas saídas e, por sorte, as portas que dão para o jardim são de vidro, logo ele pode ver-me afastar-me da casa. Peço para ele se sentar e ficar, saio pela porta, escondo-me por uns segundos, e depois apareço, abro a porta, e dou-lhe um biscoito. Ele fica sempre à minha espera muito atento, quase que com a respiração em suspenso e não tem ficado ansioso, o que é mesmo o objectivo. Mas, de vez em quando, faz uma coisa engraçada porque sai de casa para ir ver se a porta da garagem da minha vizinha está aberta. Ele adora ir a casa da vizinha. É mesmo um pateta...