quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Leis do não

Em 2015, no dia do meu aniversário, conheci uma senhora que tinha o mesmo aniversário que eu, mas que nasceu 43 anos antes de mim. A ocasião era mesmo o seu jantar de aniversário, que por também ser o meu, levou a que eu fosse convidada. Ela e eu temos várias coisas em comum para além da baixa altura: ambas vivemos em cidades chamadas Fayetteville e eu vivi numa rua de nome Sweetwater, enquanto que ela viveu numa cidade com esse nome. Ontem fomos almoçar juntas porque ela tornou-se parte do meu grupo de amigos de Houston.

Conversar com pessoas mais velhas nos EUA é muito engraçado porque elas ouvem-nos e tratam-nos como se fossemos iguais. Mesmo o meu ex-sogro, que agora tem 82 anos, conversa comigo e faz-me perguntas, genuinamente interessado na minha opinião. Aquela ideia que os mais velhos devem ser colocados num pedestal em que têm a última palavra em tudo é aqui bastante estranha. A minha vizinha que tem 96 anos, esta senhora que tem 92, e o meu ex-sogro todos andaram na universidade -- ele até chegou a fazer um doutoramento, apesar de serem todos de origens humildes e até de regiões rurais.

Nessa altura, quando estas pessoas se formaram, os EUA não eram considerados a potência que são hoje e até se pode dizer que a infância destas pessoas foi bastante marcada pelo período pós-Grande Depressão e depois a Segunda Grande Guerra Mundial, alturas em que a comida escasseava e os recursos eram desviados para o esforço de guerra. Mesmo assim, a educação desta geração não foi sacrificada. No entanto, não nos podemos esquecer que estas pessoas minhas amigas são uma minoria: a maioria dos americanos apenas frequentava o ensino secundário, que foi bastante promovido entre 1910 e 1940.

Ontem na nossa conversa de almoço falámos de várias coisas, inclusive sexo e a forma como as mulheres encaram relações amorosas. Dizia a minha amiga que conhecia várias mulheres que tinham parceiros apenas para satisfazerem as suas necessidades sexuais e algumas até tinham mais do que um, o que me fez recordar alguns dos artigos que saem na revista The Atlantic sobre a sociedade e o sexo. Muitos desses artigos argumentam que as mudanças sociais de atitude relativamente a relações e sexo são iniciadas pelas mulheres: elas é que mudam o "contrato social" quando lhes convém. Mesmo assim, há certas coisas que se mantêm: muitos homens, independentemente da idade, preferem mulheres na casa dos 20 anos, já as mulheres preferem homens que têm idade mais próxima às delas, de acordo com os dados recolhidos por páginas de Internet de encontros amorosos.

Talvez fosse mais fácil contrariar estas predisposições dos homens e das mulheres quando as pessoas se encontravam pessoalmente e se criava alguma atracção física, mas agora, que muitas pessoas se conhecem online e as preferências são declaradas antecipadamente, parece que entrámos num período em que é mais difícil chegar a um compromisso. Em vez de leis da atração, receio que o que prevalecerá será potencialmente as "leis do não".

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Construção

Uma das primeiras coisas que vi ao entrar em Houston foi o que me pareceu um cão vadio. Deu-me imensa pena ver o animal ao lado da estrada, mas parecia estar bem alimentado. Já não me recordo se estava na parte da US-59 ou da I-69, dado que se sobrepõem. Depois o telemóvel mandou-me por umas ruas secundárias perto do Bush Internationa Airport porque a I-69 estava em obras. Era tudo meio feinho e senti exactamente o mesmo da primeira vez que cá vi: esta cidade é muito feia. Nem todas as partes são feias, mas as que são sobre-compensam. É difícil imaginar o futuro quando estou perto de coisas feias. Mesmo assim, adoro Houston. Cresci imenso aqui, tive experiências incríveis, nem todas boas ou más, e tenho bastantes amigos ligados ao tempo que passei aqui.

Na Sexta-feira, passei a tarde com a minha vizinha que tem 96 anos. O plano da família é que ela chegue aos 100, mas ela ainda não se convenceu. Por causa da pandemia, deixou de jogar golfe e agora perde o equilíbrio facilmente quando está em terreno mais incerto, como é o caso do relvado lá de casa. Passou a usar uma bengala de apoio que detesta, mas ainda vive sozinha e, recentemente, conduziu o carro pela vizinhança para ver se a bateria não vai abaixo. Uma das filhas que passa lá por casa frequentemente ralha com ela se ela tira a máscara em frente a amigos e também deixou recado para eu não entrar em casa. Como uns senhores estavam a cortar a relva e fazia muito barulho, tive cartão verde para entrar, mas sem o conhecimento da filha.

Conversámos sobre muitas coisas, inclusive de arrependimentos, que eu disse ter pouquíssimos. O facto de eu ser lenta é devido a passar demasiado tempo a analisar as coisas, logo quando decido algo, considero que, dada a informação que tenho, essa era a decisão acertada. Ela que já viu muito mais coisas do que eu, sente o peso de algumas experiências menos conseguidas. Acha que foi má para algumas pessoas, fez coisas que agora acha feias, etc. Pois, mas nós não somos perfeitos e cada momento da nossa vida é definido por tudo o que veio atrás. Sem o passado não existe presente -- para o bem e para o mal.

Ainda não me sinto crescida, não acho que sou adulta, disse-lhe, e ela respondeu-me que ela também não. Toda a nossa vida é uma sucessão de aventuras, de dias cheios de eventos que nos eram desconhecidos momentos antes. Todos os diálogos inventados na hora, os movimentos improvisados como se tivessemos certeza que era assim que deviam ser. Mesmo aos 96, a nossa vida é tão curta.

O meu jantar de hoje foi passado com algumas amigas que conheci através dela, pessoas das relações dela há décadas e que entraram na minha há uns cinco ou seis anos. Tornámo-nos bastante amigas e, apesar da distância e da pandemia, falamos todas as semanas, fazemos viagens juntas, e visitamo-nos frequentemente. Se estou deprimida ou em baixo, telefonam-me para me animar, enviam-me livros de auto-ajuda, máscaras para o Covid-19, autocolantes de bouledogues franceses para o meu carro, etc.

Não somos crescidos, mas é assim que crescemos. Acima de tudo, a nossa vida é um encadeado de amizades: através de umas pessoas conhecemos outras. Constantemente, há quem entre e saia do nosso dia-a-dia, mas é juntos e desta colecção de momentos que construímos esta coisa a que chamamos vida.

domingo, 10 de outubro de 2021

Doce

Passei os últimos dois dias a desenferrujar algum do meu português e tem sido bastante bom. Na Sexta-feira à noite, o convívio durou das 10 das noite até quase às 5 da manhã, noitadas destas eram normais durante a faculdade, mas agora já duvidava que aguentasse até à meia-noite. Parece que sim e bem bom, como cantavam as Doce.

A noite começou com uma digressão pela música portuguesa, com músicas e bandas clássicas, e eu a professar a minha eterna admiração pelos GNR, indiscutivelmente a melhor banda portuguesa. Também houve fado porque nós somos os portugueses a sério, aqueles que saíram e descobriram o mundo. Pelo meio, conversámos de Anna Akhmatova, uma poeta russa que descobri há pouco e que ando a digerir. Surpreendentemente, não foram os meus amigos russos e ucranianos que me falaram dela. Também veio à baila a Arooj Aftab, uma cantora paquistanesa, que tem uma voz de sonho. Estas tertúlias em que se fala de arte, filmes, música, literatura, política, história... são das coisas que mais aprecio. Mas é tão bom ter alguém com quem trocar ideias em português.

Prometeram-me um bacalhau à Brás que aguardo ansiosamente, pois nunca fiz. Recordo-me da minha mãe fazer isso e também bacalhau à Gomes de Sá, mas o único bacalhau que eu costumava cozinhar era o com natas. Sempre achei as outras receitas intimidantes. Os meus amigos portugueses falam frequentemente das comidas e bebidas que trazem de Portugal, mas eu quase que nunca trago coisas para comer. Invisto mais em artesanato e livros, logo rodeio-me de coisas portuguesas não-comestíveis. A maior parte do Portugal comestível que eu consumo é comprado nos EUA. Achei engraçada esta diferença.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Leao

Estou de férias e vim a Houston. Antes de partir, dei um pulo ao cabeleireiro, mas como a minha estilista habitual não está a ver ninguém porque a filha testou positivo para Covid, tive de ir a outro lado. Fiz a reserva online e reparei que o sobrenome da estilista que me ia atender me parecia português: Leao. Era mesmo, é uma senhora que já deve ter mais de 60 anos, que nasceu em Hong Kong, de pai português e mãe chinesa. O pai registou-a como portuguesa, mas ela só descobriu há pouco tempo, quando pediu a uma amiga que falava português para traduzir um papel.

Perguntei-lhe se tinha passaporte, mas não tinha o português, nem se apercebeu que podia tirar, que podia viver em Portugal, que direitos tinha enquanto portuguesa. Também não precisa, dado que também tem nacionalidade americana e britânica. Fiquei curiosa em saber quantas pessoas não estarão em situação semelhante, em que são cidadãos de Portugal, mas não sabem o que isso significa.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Caixa de Pandora

Devíamos ter tido um dia em cheio, agora que os Pandora Papers saíram e, supostaments, são tão mais completos do que os Panama Papers, o que nos garantia que os mauzitos iam cair desta vez. Era, era, mas o Facebook, o Instagram, e o WhatsApp tiveram um treco de mais de 6 horas, qual caixa de Pandora.

Felizmente, parece que nenhum político de alto calibre português tem contas off-shore. *cough, cough* O PS teve mesmo visão quando passou aquela lei em que se pode repatriar dinheiro pagando só 5% de imposto. Isto evitou enormes chatices e até ajudou a equilibrar o erário público.

Imagine-se que os moços do Facebook nem entrar no seu edifício conseguiam porque o leitor de cartões não estava a funcionar e não abria a porta. Uma incompetência tamanha só podia ser produto americano.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Decepcionante

Estava a ler a coluna do Ross Douthat no NYT e caiu-me o queixo. Falava ele da possibilidade de Biden perder contra Trump em 2021. É provável que sim, mas seria extremamente decepcionante que as próximas eleições tivessem estes dois candidatos como escolha. Ambos são medíocres e demasiado velhos para o cargo. A que estaremos nós reduzidos se estes dois são o melhor que os partidos têm para oferecer e os eleitores acharem bem.

O que vale é que ainda há muita água para passar debaixo desta ponte: continuamos com bastantes incertezas relativamente à pandemia, às quais se acresce uma possível crise energética, bancos centrais a normalizarem a poítica monetária, e um mercado laboral muito desequilibrado. Não há como sair disto sem uma crise.

domingo, 3 de outubro de 2021

A arte de dizer mal

Jantei fora com uns amigos americanos e a noite prolongou-se. Acabámos a falar de política--se me dissessem há 30 anos que os meus serões seriam assim passados, acharia que a pessoa realmente não percebia nada de mim. Afinal quem não percebia de mim era eu própria, mas digressiono.

O mais interessante para mim nos EUA é a forma como os americanos se criticam a si próprios, ao seu governo, à sua cultura. Perguntava-me um dos meus amigos o que era ser americano? Não é nada porque a América é tão heterogénea, nada que se compare aos alemães, italianos, polacos, etc. Na Europa é que se encontra uma verdadeira identidade nacional, concluia ele.

Depois é preocupante a forma como os americanos estão endividados, a tal máquina impressora de dólares que só é viável porque os EUA têm a reserva de valor internacional, mas até quando durará isso, perguntava. Não há resposta satisfatória porque tudo tem um fim, mas por enquanto os valores da América não só prevalecem como servem de farol para outros países, logo talvez seja uma questão de crença.

Pode parecer difícil de acreditar que uma sociedade que produz Trump possa criar algo de valor, mas há um enorme enigma: porque é que alguém como Trump pode despoletar mais progresso social do que um Obama? Como é que a sociedade civil se movimentou tanto, definindo caminhos e valores que repudiava versus outros que preferia?

O que para mim é salutar é que os americanos são imbatíveis a dizer mal e a apontar os seu próprios erros e limitações e fazem-no a pessoas de fora, são mais duros consigo próprios do que com os outros. Ninguém diz "está calado para não dar mau aspecto." Pelo contrário, se um diz mata, o outro diz esfola. Enquanto este espírito de auto-crítica durar, os americanos estarão safos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Irresistível

É imperativo gozar com o estado da justiça portuguesa. Afinal o Rendeiro esqueceu-se que, após condenação, teria de se render. O melhor é processá-lo por publicidade enganosa. Entretanto, vale a pena alargar o portfólio de ditados populares:
  • Foge, foge ó Rendeiro -- de Portugal nem leves o cheiro
  • Mais vale um Rendeiro em fuga que Outubro de chuva
  • Rendeiro fora de casa, orelhas do Costa em brasa
  • A justiça lenta o coração do Rendeiro alenta
  • Não adianta chorar sobre o Rendeiro fugido
  • Rendeiro nas Bahamas disfarça-se até com mamas
  • Mais depressa que a 100, Rendeiro vai, mas não vem
  • Rendeiro de charuto nem parece ser corrupto
  • Da melhor democracia, até Rendeiro se extravia
  • Num longe mar vê-se o Rendeiro a nadar

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Finalmente diferente

O Julian foi hoje ao check-up anual e, pela primeira vez desde que começou a pandemia, o veterinário estava com máscara. As auxiliares também estavam, à excepção de uma, mas notava-se que as máscaras não eram usadas com grande rigor. Eu lá estava com a minha máscara, como tenho feito desde o início. Às vezes pergunto-me se estas pessoas já tomaram a vacina. Seria um hipócrita se não tivessem tomado, já que passam a vida a vacinar cães.

Mas a adopção da máscara agora indica que há qualquer coisa a mudar, apesar de ser por ordem do condado. Antes também houve alturas em que era obrigatório e pouco caso faziam. Parece que aos poucos as coisas entram nos eixos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Concordámos em discordar à vezes

Na minha reunião semanal com as minhas amigas de Houston, uma delas perguntou o que achávamos da terceira dose e se iríamos tomar. A questão não é tão pertinente para mim, que sou a mais nova e que não estaria afectada a curto prazo, dado que apenas aconselharam os mais idosos e de maior risco a levar. Mesmo assim, dei a minha opinião e acho imoral estar a dar terceiras doses nos EUA, quando os países mais pobres nem uma dose têm para toda a gente. Por sorte, eu tinha lido uma peça de opinião no NYT em que se falava da forma vergonhosa como os países mais ricos se têm comportado no acesso às vacinas e mencionei algumas das coisas que li.

Instead, as the Duke scientist Gavin Yamey told The Lancet, “rich countries behaved worse than anyone’s worst nightmare.” They bypassed Covax — either completely or by slow-walking their financial contributions — cut multiple deals directly with vaccine manufacturers and bought up many more shots than they would need, long before any had been authorized for use. As a result, not only did Covax never amass the purchasing power at the heart of its plan, but also by the time the initiative secured enough funds to start buying shots, it was at the end of a long queue.

De nada valeram estes argumentos para persuadir a minha amiga, dado que nos EUA não há falta de vacinas, foi a lógica dela. Ela ainda disse que era a favor de se partilhar a receita das vacinas para que os países pobres as pudessem fabricar. Só que os países pobres não só não têm as fábricas, como não têm a mão-de-obra porque uma das coisas que os países ricos fazem bem é captar a mão-de-obra qualificada dos pobres. Foi nessa altura que ela avançou o argumento dos contribuintes americanos pagarem impostos logo têm direito a que o governo lhes forneça vacinas.

Discordo na teoria, mas não subscrevo na prática, dado que na minha vida pessoal não sou apologética da pobreza franciscana, e muito menos vivo assim. Como dizia a minha amiga, sou contribuinte pagante e não pago assim tão pouco, mesmo assim, a não ser que me digam que as doses que já tomei não oferecem protecção nenhuma, irei evitar tomar a terceira dose.

O sabor amargo da terceira dose, que o Biden já foi tomar -- conflito de interesse! -- não me sai da boca porque isto de salvar os ricos e deixar morrer os pobres é digno do século XIX, não do XXI, e é mais um pontinho que marco contra o Biden. Até o Bush se preocupou em ajudar os países de África a combater o vírus do SIDA, logo como é que o Biden tem desculpa para agir assim?

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Preparem-se agora

A frequência de notícias sobre a falta de gás natural na Europa intensifica-se e crê-se que o problema poder-se-á espalhar à América do Sul, Ásia, etc.

Desde a Administração Obama, mais precisamente em Maio de 2011, que os EUA se tornaram exportadores líquidos de gás natural por causa do "fracking" (usando água), uma tecnologia que remonta a 1947 e que começou a ser mais estudada durante a Admininstração Bush I, mas que só com o Obama atingiu o seu potencial. Se calhar, até se recordam de ocasiões esporádicas em que houve preços negativos de gás natural, quando havia excesso de oferta, sem que houvesse como transportar tanto produto. Este ano não deve ser assim.

Como é que os americanos se tornaram exportadores de produtos derivados do petróleo? Por causa das crises do preço do petróleo na década de 1970. O Presidente Jimmy Carter foi o primeiro a contemplar a ideia de os americanos se tornarem independentes em energia. Os presidentes que se seguiram começaram a trabalhar nas políticas de diversificação de produção: fracking, biodiesel e etanol, e energias renováveis. Só demorou uns 35 anos, que é menos de uma ditadura em Portugal.

Há muita gente ainda a celebrar os resultados das autárquicas, mas se o inverno for muito frio, os novos autarcas poderão ter em mãos uma situação catastófica poucos meses após assumirem funções, logo há que precaver-se. Há que fazer um levantamento dos pontos mais fracos de cada autarquia o quanto antes e depois delinear um plano para lidar com os problemas antes que eles apareçam. O governo central tem de coordenar os esforços e fazer triagem de recursos. É mesmo preciso haver plano B porque ainda nem nos livrámos da pandemia.

Não pensem que terão tempo de esperar que a UE acuda Portugal porque a UE vai estar de mãos cheias. Sabemos que a Europa envia dinheiro se morrer muita gente, mas dá mau aspecto deixar morrer as pessoas só para se ter mais uma bazuca.

sábado, 25 de setembro de 2021

Texas vs. Portugal

Continuando com a nossa pequena obsessão com o aborto no Texas, há pelo menos um médico que desobedeceu à lei do Texas e depois escreveu uma peça de opinião no WashPost sobre a sua desobediência. "Desobediência" é o título do filme sobre o Aristides de Sousa Mendes, cuja história tive oportunidade de conhecer precisamente no Texas, no Museu do Holocausto, em Houston. Surpreendentemente, os livros de história portugueses não ma ensinaram, nem sequer os meus professores, provavelmente porque a sociedade portuguesa quer-se bem-comportada, o que dá jeito quando é preciso ir tomar as vacinas. A história do Aristides de Sousa Mendes devia ser conteúdo obrigatório nas escolas. Felizmente, os americanos já são empacotados com o gene da desobediência: speak truth to power e do the right thing, como se diz cá na terra. Sendo assim, há organizações não-lucrativas nos EUA que ajudam as mulheres necessitadas a ter abortos, se assim o quiserem, mas não é o melhor que se pode fazer e temos de continuar a salvaguardar os direitos destas pessoas.

O conhecimento mínimo que se deve ter dos EUA é que são uma imensa manta de retalhos, dado que há competição por poder entre o governo federal, o governo dos estados, e o governo local (cidades e condados). Para além disso, a Comunicação Social, o chamado quarto poder, é muito poderosa e tão eficaz que andam portugueses a fazer campanha contra o Texas nas redes sociais. Finalmente, a sociedade civil americana é muito activa e por isso anda tudo frequentemente à batatada. O próprio Texas é um estado muito heterogéneo: há sítios muito progressivos, bem mais progressivos do que Portugal, por exemplo, e outros bastante conservadores.

Como dizia a Ruth Bader Ginsberg, "Real change, enduring change, happens one step at a time," o que é ainda mais pungente nos EUA onde, para se mudar alguma coisa, é preciso muito esforço dada a fragmentação do poder. A realidade é que as coisas mudam e, quando mudam, já foram sujeitas a tanto escrutínio e a tantos desafios que é difícil desfazer o que já foi feito. Há décadas que se tenta repelir Roe vs. Wade, a decisão do Supremo Tribunal que concede às mulheres o direito ao aborto, e o caso ainda sobrevive, apesar do suspense contínuo.

Decidi fazer uma pesquisa acerca do aborto em Portugal e a situação não é assim tão diferente de muitos sítios na América, inclusive o Texas. Resume-se assim, de acordo com o abstracto de um estudo do Miguel Areosa Feio, publicado em 2021, no Sociologia: Problemas e Práticas:

A despenalização do aborto previu eliminar os abortos clandestinos, embora ainda existam barreiras ao aborto seguro que afetam mais as mulheres desfavorecidas: objeção de consciência, prazos demasiado curtos para o procedimento, períodos de reflexão obrigatórios ou a estigmatização. Foi investigada a relação entre a formulação legislativa e a sua implementação, sendo que eventuais discrepâncias atestam a falência parcial dos seus objetivos. Foram analisados os dados quantitativos da DGS e qualitativos provenientes de entrevistas e focus group com especialistas e profissionais de saúde. As evidências produziram orientações para debates futuros.
No artigo mesmo, esta parte é de salientar:
Em Portugal existem hospitais em que a generalidade dos profissionais de saúde habilitados para a realização de IG declararam objeção de consciência (Chavkin, Leitman e Polin, 2013), aspeto que se concretiza nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Açores, Alentejo e nos distritos de Castelo Branco e Guarda por constrangimentos no funcionamento das consultas (DGS, 2016, 2018, 2019; Stifani, Vilar e Vicente, 2018). Nestes casos, o procedimento passa pelo encaminhamento para serviços privados, o que, na grande maioria das situações acontece para o centro da cidade de Lisboa, independentemente da zona de residência da mulher, numa manifesta iniquidade na garantia plena do direito à saúde em situações de aborto.
Esta é a realidade portuguesa, o que me leva a pensar nas mulheres portuguesas a quem a lei portuguesa falha e que vêem a campanha que se faz em Portugal para mudar o Texas -- ou será para enxovalhar? Como é que estas mulheres se sentem ignoradas em Portugal? Mais vale emigrar para o Texas, ao menos todo mundo civilizado anda a defender os direitos de quem lá está.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Os cães ladram...

E a caravana passa. Comentava a Ana no último post que não fazia sentido emigrar para os EUA porque os americanos chicoteavam os emigrantes do Haiti na fronteira e tinham outras cenas. Ninguém foi chicoteado, mas houve um guarda que lançou uma corda pelo ar num gesto que não é admissível. Os Texanos são efectivamente marados e há que manter a reputação de serem cowboys, mas o certo é que entre ir para o Haiti e para os EUA, as pessoas preferem os EUA--obviamente! E entre Portugal e os EUA, também é EUA: basta ver o número de refugiados que vem para os EUA comparado com o que vai para Portugal, mesmo fazendo o ajuste pelo tamanho da população.

Como dizia a minha empregada que é das Honduras, a qualidade de vida aqui é muito melhor do que nos países de onde estas pessoas vêm, apesar de se suspeitar que muitos destes emigrantes estivessem em outros países da América Latina e aproveitaram a mudança de regime de imigração para os cidadãos do Haiti por causa do terramoto para tentar entrar.

Há um ponto curioso que as pessoas parecem não compreender: quem define os valores da sociedade ocidental hoje em dia são os americanos. O que as pessoas valorizam é o que alguns americanos valorizam. As grandes questões actuais têm todas o marketing americano: o aquecimento global, o movimento MeToo, os direitos da comunidade LGBTQ, o multiculturalismo, o racismo, a violência, etc. Tudo isso é discutido na praça pública porque os media americanos fazem cobertura dessas questões. O facto de ser discutido em praça pública quer dizer que não é consensual, mas é preciso avançar estas causas e os EUA são um bom laboratório de questões sociais para o resto do mundo.

Finalmente, parem de dizer que o aborto é ilegal nos EUA: o aborto é permitido desde 1973, mas com restrições e as restições variam de estado para estado. O que está em causa é as restrições serem demasiado apertadas em alguns sítios, mas isso não significa que a sociedade americana é atrasada. Até 2007, Portugal tinha restrições ao aborto muito mais apertadas do que os americanos, logo os portugueses não estão mais avançados do que os americanos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Vai abrir

Passou um bocado despercebida, mas a administração Biden anunciou na Segunda-feira que vai suspender as restrições de entrada nos EUA a pessoas da UE (e do Reino Unido) que estejam vacinadas. O plano é normalizar as coisas em Novembro, o que, suponho, dá algum tempo para avaliar como a Europa se ajusta à rentrée em termos de pandemia.

Estou bastante curiosa para ver como é que os portugueses vão reagir a isto, dado que no início da pandemia vi muitas pessoas a pedir informações nos grupos do Facebook acerca de como emigrar para os EUA. Perante tanta insistência em obter informação, a minha hipótese é que muitos irão sair -- ou então já saíram para outras paragens.

O desemprego americano recuperou bastante desde o início da pandemia: chegou a estar quase nos 15% e agora encontra-se em 5,2%. Há um enorme desajuste no mercado de trabalho que está a fazer pressionar os salários mais baixos para aumentarem porque não há muitos trabalhadores interessados nos empregos disponíveis, nem os patrões conseguem encontrar empregados com qualificações que desejam, ou seja, os emigrantes terão bastantes oportunidades.

A União Europeia não está a recuperar tão rápido como se deseja. Só para se ter uma ideia, de acordo com uma publicação da União Europeia, em que usaram preços correntes convertidos para euros para calcular a porção do PIB mundial que cabia aos EUA e à UE, e passo a citar o original:

In 2018, the United States accounted for a 24.0 % share of the world’s GDP. Although the United States’ share in 2018 was 0.9 percentage points less than it had been in 2008, it moved ahead of the EU-27 whose share fell from 25.6 % in 2008 to 18.6 % in 2018. Note these relative shares are based on current price series in euro terms, reflecting market exchange rates.

Se usarmos os números do Banco Mundial, com as séries ajustadas pela paridade do poder de compra e a preços constantes em dólares internacionais de 2017, em 2008, a UE detinha 19,12% do PIB mundial; em 2019, estava em 15,25%; e em 2020, estima-se ter estado em 14,8%.

É uma tempestade perfeita.