segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O bem e o mal

Li um livro inteiro a semana passada, o que é bastante surpreendente, dado que leio muito devagar. Era um romance de cordel, ou lá como se chama, e li porque uma amiga minha ficou tão perturbada com o final do livro, que eu fiquei curiosa. De tão entusiasmada que ela ficou, leu-o em cinco horas, de um dia para o outro. Não contabilizei as minhas, mas foram muitas mais. Por várias vezes, pensei em que raio estava a ler. Para quê tantas páginas para dizer tão pouco, um crime do qual também me podem acusar, mas perseverei para ver se acabava aquilo e matava a minha curiosidade. 

Agora constato que os outros que leio em paralelo e levo imensas semanas, até meses e anos, a ler vão lentamente porque não quero que acabem -- é como os sacos de bombons que o meu tio me trazia da Holanda e que eu auto-racionava disciplinàdamente: só podia comer um depois do almoço e outro depois do jantar. Isto durava até a minha irmã comer os dela e prosseguir com os meus, menos de 48 horas, portanto. 

Contrariamente aos bombons, os meus livros são de difícil digestão para os outros e até o meu preferido, uma coisita pequena (A Devil in Paradise de Henry Miller), a minha amiga não consegue ler, apesar de ter tentado. Não tem interesse para ela, confessa, e eu digo-lhe que alguns daqueles parágrafos são tão lindos que uma pessoa fica ali perdida especada a admirá-los. É por isso que eu sou lenta.

Nas mais de 370 páginas deste livro, encontrei apenas um excerto que achei memorável e prossegui a sublinhá-lo:

"I think about how sometimes, no matter how convinced you are that your life will turn out a certain way, all that certainty can be washed away with a simple change in tide."

~ Colleen Hoover, It Ends with Us  

O fim deste livro é, para mim, satisfatório e a história acaba por ser uma espécie de fábula de moralidade sobre pessoas sem-abrigo e violência doméstica. Não, não deixem os vossos preconceitos iludir-vos: o sem-abrigo é na realidade o cavaleiro da história e o príncipe acaba por se tornar em sapo, apesar dos muitos beijos da heroína e parece que até eram beijos bons, daqueles molhados, cheios de emoção. Um desperdício. 

Quando cheguei à página 208, escrevi um SMS à minha amiga a dizer onde estava e o facto de não perceber que coisa estava a ler. Páginas antes, houve um incidente violento entre a princesa e o príncipe, que me pareceu um bocado forçado na história, mas não dava para perceber se tinha sido acidental ou ilustrativo de um comportamento endémico no príncipe. 

Umas páginas mais tarde, o tal príncipe disse à heroína "I'm so excited to be your husband, I could piss my damn pants." e isto, na minha cabeça, é um momento "Foda-se!" Enviei mais outra mensagem: "I could never marry anyone who spoke like that about marrying me. I would not even date them -- too vulgar..." Tenho de inserir uma declaração de interesses aqui: uma vez saí com uma pessoa que a primeira vez que falámos ao telefone atendeu com "Hey, babe!" e digamos que foi o princípio do fim. 

Bem, mas então qual a originalidade de tudo isto? A autora inseriu episódios de violência doméstica na história que tinham acontecido entre a mãe e o pai. O primeiro, o tal que achei forçado, foi um desses. Há uma certa duplicidade, mas a heroína começa logo a suspeitar que, se calhar, são o início de um ciclo, o que se veio a demonstrar. 

O final é o divórcio, decidido após o nascimento da filha, em que há uma conversa entre o casal e a esposa diz ao marido que quer o divórcio. Para justificar esta escolha,  ela pergunta ao marido o que faria se aquilo tivesse acontecido à filha. Ele admite que, um dia, se a filha lhe relatasse que tinha um marido que a tratasse assim, ele a aconselharia a separar-se. E foi esta conversa que incomodou a minha amiga porque ela achava que estes dois se amavam, logo deveriam ter ficado juntos -- o tal final feliz à americana. 

Do meu ponto de vista, o final representa uma reabilitação da imagem do pai da autora, o tal que era violento com a mãe e que chegou a ter conversas com a filha acerca do porquê da violência -- ele era alcoólico. Os episódios foram de tal forma traumáticos que, quando a autora se ia casar, disse ao pai que seria o padrasto a acompanhá-la ao altar, em vez do pai. O pai concordou e disse que achava que era justo, dado que o padrasto tinha verdadeiramente assumido o papel de pai, em todos os aspectos. 

Fica-nos então que estas pessoas que cometem actos maus podem também cometer actos bons e que os actos em si são mais o produto do contexto, do que da natureza das pessoas. Nesse caso, as vítimas têm de ter a coragem de se afastar dos agressores. É uma ideia provocadora, mas nem sempre exequível e nem sequer garantia de que possa haver final feliz. Muitas vítimas que se afastam não sobrevivem.



 

Escolhas diabólicas

Finalmente em campanha eleitoral, onde poderemos mais uma vez observar que, em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Ninguém sabe o que fazer para tirar Portugal do círculo vicioso em que se encontra. Não há ideias novas, nem sequer conhecimento de como o país está. Apenas se reciclam campanhas passadas, em que se defende que votar na Esquerda é preservar o SNS. É o cúmulo da infantilidade recorrer ao medo do papão. Até parece que a Esquerda não tem dominado a governação desde os finais dos anos 90--o último governo de Direita, o do tempo da Troika, governou com um programa negociado pelo PS. 

Continuar com um governo do PS tem uma vantagem: é a forma mais célere do país continuar a empobrecer no contexto internacional, logo este é o governo que induzirá mudanças radicais mais depressa porque este chove no molhado não dura para sempre e, quando acabar, não deve ser bonito. De resto, poderão haver inovações políticas se o Chega ganhar poder e André Ventura fizer parte de um governo, presumindo que André Ventura continue a ter predileção por ser um "attention whore".  

Entre um e outro, venha o diabo e escolha...






quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Incertezas que são certezas

O Ian Bremmer, Presidente do Eurasia Group, decidiu perguntar à malta que acontecimentos eleitorais seriam decisivos em 2022. Obviamente, as eleições legislativas portuguesas são completamente irrelevantes e nem sequer fazem parte da lista de votação, o que não deixa de ser sui generis para um país que se julga o melhor do mundo e que tem tanta cobertura na imprensa internacional porque é, supostamente, tão bem (des)governado e um exemplo a seguir. Ganharam as eleições intercalares americanas, que se realizam no início de Novembro, e nas quais se elegem alguns membros do Congresso, mais posições aos níveis locais (estados, condados, cidades). 

A questão fulcral é o que acontecerá ao equilíbrio de poder entre Democratas e Republicanos no Senado e na Câmara dos Representantes (as entidades que compõem o Congresso americano), dado que ambos têm maioria dos Democratas. É certo que os Democratas irão perder poder, já que não têm grandes maiorias que lhes dêem grandes margens. Ao contrário do que acontece em Portugal, em que o partido que governa costuma consolidar poder nas eleições seguintes, nos EUA, quem tem poder é penalizado, o que tem grande lógica. É impossível alguém preencher todas as expectativas dos eleitores, logo quem está fora do poder tem mais potencial para as preencher do que quem está dentro. Se quem está dentro conseguisse ser melhor, já o seria.

Depois há o detalhe de o Presidente Biden não ser carismático e ter metido o pé na poça quando decidiu sair do Afeganistão às três pancadas. Desde então, perdeu toda a gravitas que tinha acumulado por nos ter safado do Trump. É a vida, ele já devia saber ao que ia. Para além disso, dá jeito os Republicanos serem mauzitos para as próximas eleições presidenciais.


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Não oito, mas trinta-e-um

Quando eu andava no oitavo ano, na aula de história, aprendemos a matéria dos descobrimentos. Como estivemos algum tempo sem professora de história, se calhar não aprendemos tudo o que devíamos, mas do que me recordo era uma lista que tinha para aí umas oito razões pelas quais Portugal se fez à vida, por assim dizer. E lembro-me da questão da inovação e dos portugueses terem desenvolvido instrumentos de navegação que lhes permitia navegar em alto mar, sem terem de ter terra à vista. 

Recordei-me disto por causa do LA-C, no Facebook, que falava na falta de estudo dos dados da pandemia nesta altura do campeonato. Eu já achava que os dados deviam ser analisados há ano e meio e é pena que ainda estejamos tão atrasados -- analisar não é só contar casos, mortes, e testes. Para um país que tem a mania de ter sido um grande descobridor, hoje em dia podem chamar-lhe um cobertor, daqueles de papo, que são muito pesados e ásperos e quase que não nos deixam mexer. 

Ainda por cima, não é só na pandemia que andamos à deriva. O tuíte do Galamba do outro dia também nos demonstrou que ele, na posição que ocupa, estando o país a atravessar uma das maiores crises económicas, e na véspera de eleições, ou não tem acesso aos dados da economia portuguesa ou então não os estuda, preferindo invocar matemática que claramente desconhece. Até escrever português lhe é estranho, pois numa frase invoca o pressuposto "tudo o resto constante" para chegar a uma conclusão e na conclusão diz que tudo o resto não ficou constante. Quer dizer, se há coisa que foi constante foi a sua estupidez ao longo do tuíte. Talvez fosse isso que necessitava de ser demonstrado.

Não me conformo como é que estamos reduzidos a tanta idiotice. Que merda de 31 em que nos enfiámos...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Competitividade

Após mais de dois anos do início da pandemia, parece ser evidente que os problemas de logística criaram uma nova matriz de competitividade, o que afecta preços e mesmo inflação. A última vez que tivemos forte crescimento nos preços de activos (imobiliário e bolsa) foi antes da crise subprime. Nessa altura, o efeito nos preços de bens e serviços da forte procura dos EUA era contrariada pela China que, para além de controlar as taxas de câmbio,  também usufruía de salários baixos. Ou seja, os americanos criavam inflação enquanto que os chineses exportavam deflação, aliviando a pressão na inflação. 

Nos últimos anos, à medida que os salários da China aumentaram e as taxas de câmbio foram liberalizadas, as fontes de competição salarial passaram a ser países como o Bangladesh, Vietnam, Paquistão, India. Ajuda também que estrutura de competitividade assenta numa optimização dos transportes e da cadeia de distribuição, especialmente por via marítima. 

A pandemia interrompeu este processo. Os americanos começaram a fazer mais compras pela Internet o que alterou a cadeia logística--a IHS Markit estima que o crescimento no comércio digital que ocorreu no último ano teria levado quatro a seis anos sem a pandemia. Depois houve modificações no tipo de compras, pois o dinheiro que era gasto em experiências (viajar, comer fora, hoteis, etc.) ficou temporariamente livre para ser gasto em bens físicos. A rapidez com que tudo está a ocorrer afecta os preços e essa é uma das fontes de inflação.

Obviamente que os estímulos por via das políticas fiscal e monetária não só não resolvem o problema da cadeia de distribuição, como mantêm níveis de procura elevados que a oferta não consegue estancar, logo os preços aumentam como mecanismo de racionamento. Nesta altura, a cenário mais provável é que em breve as políticas fiscal e monetária tenham de aliviar a pressão na procura, em vez de a incentivar.

Há outra perspectiva a considerar: no último meio ano, vislumbram-se inovações nas rotas de comércio internacional. Em vez de as empresas se focarem em preços baixos, estão a valorizar mais a previsibilidade nas entregas de produto, logo a América Latina está a ganhar encomendas que podem ser entregues aos EUA sem ser necessário o recurso a comércio marítimo. Na Europa, muito do negócio que ia para a Ásia está a ir para países como a Turquia. Portugal também terá vantagem em fornecer a Europa dada a sua proximidade física e o acesso por via terrestre.  

É uma pena que os políticos portugueses não se interessem pelo mundo, nem tenham políticas adequadas aos actuais desafios que são verdadeiramente oportunidades. Ainda mais deprimente é a sua falta de preparação em época de campanha para as legislativas.

 


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Tem que Chega

Talvez por influência de Trump e Bolsonaro, anda muita gente assustada com a perspectiva de André Ventura ter sucesso nas próximas eleições. Não acho que tenha grande probabilidade de ganhar, mas pode ficar mais importante e, nesse caso, atraente para coligações. A meu ver, é tão provável uma coligação PSD-Chega como PS-Chega, pois António Costa dá deu mais do que provas suficientes de que está disposto a tudo para chegar ao poder. Nesta altura, é completamente trivial.

O que acho bastante interessante é o papel do Presidente da República, que tem o poder de não dar posse a um governo que não preencha os requisitos da Constituição. Como a Constituição dá para tudo, num Portugal em que houvesse imaginação, o Presidente da República  agiria de forma a velar pelos interesses do país. Infelizmente, tirando a inovação dos afectos, Marcelo não tem imaginação nenhuma. Já António Costa tem que Chega...


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

É cálculo diferencial, estúpido!


Alguém sabe onde andava João Galamba durante as aulas de Cálculo Diferencial? Posso-lhe emprestar o livro...




 
 

Peneiras

Durante estas férias de Natal, passei algum tempo com portugueses e recebi assim notícias em directo do que se passa em Portugal. Segundo o relato de familiares dos meus amigos, há localidades em Portugal em que as pessoas estão forçadas a permanecer em casa e, se saírem à rua, a GNR passa-lhes multas. Ou seja, depois de as autoridades andarem cheias de peneiras a anunciar aos sete ventos que Portugal era o país mais vacinado do mundo, logo a pandemia estava praticamente resolvida, passam a fechar as pessoas em casa e encerram o comércio como se ninguém estivesse vacinado, nem soubessemos nada de como nos comportar durante a pandemia.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Talvez perto do fim

Depois de uma semana em Houston, a cidade está tão activa como sempre. Talvez por ser a época entre o Natal e o Ano Novo, os museus estão bastante cheios e, mesmo na Baixa, vê-se muita gente a passear à noite para ver as luzes de Natal e tirar fotos. O tempo tem estado bastante quente para Dezembro, acima dos 26° C, mas a temperatura está prestes a descer.

Entre testes para fazer em casa, que estão praticamente esgotados nas lojas, filas em farmácias ou centros públicos de testes, alguns com esperas de horas, e idas às urgências, é normal que os números de casos estejam altos, dado que muitos dos testado nem têm sintomas. A média de 14-dias do índice de positivos está em 20%. Nas notícias, as mensagens de roda-pé pedem às pessoas para não irem às urgências só para serem testadas.

Os próximos dias vão ser reveladores da verdadeira dimensão do problema em Houston e noutros sítios. Durante uma conversa com a minha vizinha de Memphis, soube que o parceiro do meu vizinho que estava infectado também ficou doente. Calhou que fui almoçar com ele no Domingo antes de vir para Houston, mas por sorte nada me aconteceu, pois não tive nenhuns dos sintomas que eles tiveram e o parceiro testou negativo a seguir ao nosso almoço.

Sinto-me como se andasse numa corda bamba, mas um pouco por todo o mundo as coisas repetem-se e cada vez há menos gente que tenha escapado a ter sido infectada. Parece-me que estamos perto do fim.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Wish you were here

Sexta-feira, 24 de Dezembro, não foi dia de trabalho. Quando os feriados calham ao Sábado nos EUA, tira-se a Sexta-feira. Talvez por isso não houvesse grande trânsito na auto-estrada e consegui fazer a viagem de Memphis a Houston em pouco mais de 9 horas de carro, com apenas duas paragens. Entre Memphis e Little Rock havia muito poucos camiões, o que é bastante anormal -- este curto percurso faz-se em duas horas, mas é dos mais desagradáveis que conheço.

Não fiz nada de produtivo durante a viagem; às vezes, falo ao telefone ou ouço livros em audio; desta vez, apenas ouvi música e apreciei a paisagem. As árvores estão nuas e, apesar da claridade do dia, parece que o manto de escuridão da noite as cobre. O azul do céu salpicado de núvens recorda-me sempre de "O Império da Luz," um dos meus quadros preferidos.

Durante as minhas paragens em bombas de gasolina, vi muito poucas pessoas de máscara, o que me pareceu um presságio do que estava para vir. A ideia original de passar o Natal com uma das minhas amigas portuguesas foi da mãe dela, que a sugeriu em Outubro. Para mim tinha um significado especial porque a última vez que estive com portugueses pelo Natal foi em 1998, quando visitei os meus pais.

Ah, a discriminação. Falo tanto dos meus amigos e das minhas coisas portuguesas aos meus amigos americanos, que na semana passada calhou a minha vizinha usar-me como exemplo de discriminação, logo não é de estranhar que os brancos procurem outros brancos, se a Rita de Portugal procura outros portugueses, apesar de estar longe de Portugal.

O nosso vizinho, que estava de visita, deu uma perspectiva romântica do que eu procuro, dado que o meu Portugal é uma coisa agradável, a comida é muito boa, os meus amigos portugueses são pessoas que eu adoro e que me adoram, ou seja, o meu estilo de vida é desejável. Quem cresce nos ghettos não deseja lá regressar, dizia ele, em vez do familiar, essas pessoas procuram o que lhes é estranho.

A minha procura do conforto nacionalista não correu como previsto porque um dos nossos amigos portugueses que ia passar o Natal connosco testou positivo e depois dele--mais um das minhas relações próximas que ficou infectado,-- que é uma pessoa extremamente cuidadosa e que não faz ideia de como tenha apanhado, pareceu-me que estava tudo perdido. Vamos apanhar todos, sei lá se já tenho ou tive.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Maldita fome

Ontem fez uma semana que magoei um dos meus dedos. Não reparei que uma caneca que se partiu tinha espalhado alguns pedaços de vidrado pela borda do lava-louça e, quando estava a arrumar a cozinha, um pedaço alojou-se no dedo do meio da mão direita. E ainda cá está. Calhou que isto aconteceu na véspera do meu exame médico anual, mas a médica não quiz fazer nada porque não conseguia ver onde estava o "objecto estranho" e dizia-me que a ponta de um dedo tem muitos nervos e é um sítio muito doloroso, logo tinha receio de me magoar. Mandou-me aguardar uns dias a ver se a coisa saía sozinha; senão, recebi instruções de lhe enviar um email a pedir para me marcar uma consulta para um especialista de mãos. Acho que não vai ser preciso porque já vejo a ponta do vidrado perto da pele, logo penso que está a sair.

Durante a consulta, viu o meu ficheiro e ficou satisfeita que as minhas vacinas estavam todas em dia. Disse-lhe que só ia tomar o reforço anti-Covid em Março e ela achou bem. Perguntou-me acerca da minha dieta, o que foi novidade, e relatei o que comia e o que não comia -- abdiquei de quase todos os cereais porque me sinto melhor assim. Há um ano, tinha-me dado indicação para modificar a dieta porque o colesterol estava muito alto e, por acaso, naquela altura andava a comer bastantes ovos, o que não é normal para mim.

Quanto ao teste do Papanicolau, como fiz no ano passado, não preciso de repetir por uns anos. Restou apenas o mamograma, mas como tenho uma fibroide no peito esquerdo, as instruções dos técnicos é que tenho de fazer uma ecografia para acompanhar o mamograma. Aquiesci, apesar de custar $900 a ecografia, mas eu coloco $3500 ($750 é contribuição do meu patrão) por ano numa conta poupança-saúde (esse dinheiro não paga impostos) para estas eventualidades. Detesto gastar dinheiro em médicos.

No fim, mandou-me para o laboratório para fazer análises. Estava eu sentada na sala de espera quando do outro lado do corredor chega um homem branco 11 anos mais velho do que eu. Calhou eu ficar com a técnica de raça branca e ele com a técnica de raça negra. Sentei-me, dei o meu nome e a minha data de nascimento, virei a cara para o outro lado, e tentei ignorar a picada. Do outro lado da sala, o meu companheiro de tortura começou a refilar que ia ficar com uma nódoa negra porque a técnica tinha feito asneira com a seringa.

Fiquei duplamente chateada: primeiro por ter de o aturar, apesar de ele não estar a falar para mim; depois porque eu não disse nada para a defender. Eu já apanhei aquela técnica e ela nunca me deu uma nódoa negra, nem nunca achei que tivesse sido mal-atendida. Concluo que não estava no meu melhor: é no que dá ir em jejum para estas coisas. Para a próxima não posso ficar calada, mesmo se estiver com fome.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Empobrecimento generalizado

Finalmente, ao fim de 13 anos de políticas monetárias muito acomodativas a nível mundial, temos inflação. Ou seja, a política monetária tem muito pouco a ver com a coisa. A política fiscal de resposta à pandemia foi bastante generosa e pode ter ajudado a recuperar os níveis da procura, mas a grande causa da inflação que sentimos deve-se ao ajustamento da cadeia de distribuição.

O facto de a economia mundial ter praticamente parado em 2020, o uso de encomendas via Internet ter disparado, os sucessivos confinamentos, inclusive em países asiáticos que há décadas exportavam deflação, e a flexibilização do mercado de trabalho -- a economia dos biscates -- levaram a que os preços aumentassem para que os recursos fossem racionados e também para sinalizar aos consumidores e produtores qual a melhor alocação de recursos.

Infelizmente para Portugal, isto são péssimas notícias pois acelera o processo de empobrecimento do país ainda mais. Não basta os preços aumentarem, o que encarece as importações, mas a pressão para aumento dos salários no estrangeiro irá atrair mão-de-obra portuguesa. Ainda hoje falei com uma senhora que recruta pessoas na área de IT que me dizia que as empresas com quem ela trabalhava nos EUA estão muito mais abertas a procurar empregados noutros países.

Perante o aceleramento da mudança nas economias mais desenvolvidas, em Portugal persiste a ideia generalizada de que a solução para os problemas do país é continuar as políticas falhadas que o levaram a um estado lamentável. Nem a aproximação de eleições inspira novas ideias, nem sequer há gente a sério. Nunca Portugal teve políticos com CVs tão pobres.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Rancho ou Feijoada

Na semana passada, calhou fazer um estufado de grão de bico com frango que, não sei porque carga de água, me recordou de rancho. Já não pensava em rancho há mais de 25 anos. Não era uma comida que fosse frequente no repertório lá de casa e também não é das coisas em que pense e deseje, mas o inesperado aconteceu finalmente. Comecei a investigar as receitas de rancho nos meus livros de culinária e tirou-me o apetite: grão de bico, batatas, e macarrão. Este último não posso comer e não confio que as versões de massa feitas à base de tubérculos tenham a consistência necessária para aguentar o prato. Um outro inconveniente é que andar a comer grão de bico duas semanas seguidas parece-me enjoativo. Optei então por feijoada.

Durante o fim-de-semana recolhi os ingredientes necessários em dois supermercados (o primeiro não tinha toucinho) e lá fiz a minha feijoada no Domingo à tarde. Como fiz dose industrial, comprometi-me a fornecer o jantar à família da minha vizinha, que é a minha família de apoio durante a pandemia. Atrasei-me um bocado e só ficou pronto às 18:10, logo a mãe dela já tinha comido. Também estava com receio que a mãe comesse feijoada ao jantar porque é um prato pesado e ela está tão fraca e mais para lá do que para cá. Achei mais aconselhável que o prato fosse consumido durante o almoço de hoje.

Foi um sucesso: ao almoço comeu duas doses (feijoada com arroz branco, à boa maneira portuguesa) e ao jantar voltou a comer dado o sucesso do meio-dia e apesar das minhas reticências. Achei engraçado que um prato tão tipicamente potuguês lhe agradasse tanto, especialmente numa altura em que já tem tanta dificuldade em comer e beber. Não só acaba com fluídos nos pulmões, como muitas vezes recusa comida. Comprometi-me a fazer uma sopa para amanhã: vou meter carne de vaca, toucinho, batata, cenoura, nabo, e couve. Bem sei que é uma sopa inventada, mas é um bom veículo para ela consumir proteína e líquidos. E por lá gostam muito das minhas sopas.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Masoquismo nacionalista

Contactei o Consulado em Washington, DC, para renovar o meu passaporte e cartão de cidadão. Responderam-me que tem de ser presencial e com marcação prévia. Falei então com um amigo meu português que vive lá para as bandas da capital americana, que me disse que só há uma funcionária e demora meses a tratarem das coisas.

Não faz sentido nenhum o governo português continuar com políticas que promovem tanta burocracia e atrasam os cidadãos. O mais patético é que andam a gastar dinheiro em campanhas nas redes sociais para investir em Portugal, o que é um perfeito disparate dado tudo o resto. Sem acesso a serviços consulares, as pessoas não podem fazer negócios em Portugal.

Quem já investiu pode continuar a pagar impostos em Portugal porque as obrigações nunca estão fora de prazo, apenas os direitos, como por exemplo o direito de eleger um governo. Não recebo emails a avisar-me de como exercer os meus direitos, mas todos os seis meses, sem falha, lá recebo a notificação do Portal das Finanças a dizer para não me esquecer de pagar o IMI.

Marcelo Rebelo de Sousa, na última campanha para as presidenciais, comprometeu-se a melhorar a situação do voto dos emigrantes. Até agora não fez absolutamente nada. A comunicação social também não lhe exigiu prestação de contas acerca do que (não) tem feito. É inconstitucional suspender os direitos de cidadania. Ele é que é o guardião da Constituição, logo cabe a ele exigir que os governos respeitem os direitos dos cidadãos.

E, ironia das ironias, vejo mais gente em Portugal preocupada com os direitos de voto dos americanos do que com os seus próprios direitos. A meu ver, no que diz respeito a conseguir exercer o direito de voto, Portugal é muito pior do que os EUA. Os americanos saem para a rua e manifestam-se na comunicação social para proteger quem tem os seus direitos atacados; os portugueses não só não saem, como atacam os concidadãos que se queixam. Que raio de masoquismo nacionalista nos aflige?

domingo, 12 de dezembro de 2021

Um dia estranho

Ontem de manhã, as janelas cá de casa estavam todas embaciadas. Achei estranho, mas não pensei mais no assunto e, como o dia ia estar ameno, decidi dedicar-me à jardinagem, dado que havia bastante para limpar e algumas plantas para transplantar. De vez em quando passava uma aragem forte e quente que dava vontade de abrir os braços e a sentir percorrer pelo corpo -- ovento do sul é o meu preferido. Já era quando eu vivia em Portugal.

A minha permanência no jardim impediu que os pássaros aparecessem para comer, até que já escurecia e uma fêmea cardinal voou pelo jardim fora apavorada, sendo perseguida por um gavião de Cooper. A coitada passou a vedação e deu meia-volta, mas foi contra uma janela e ficou meia-atordoada; não sei o que se passou a seguir, mas receio o pior. Quando abri a porta, nem a vi, nem o vi, apenas alguns pássaros voavam alto, como que em fuga. Quando ficou escuro, enquanto jantava, vi pássaros no jardim a comer sementes do chão, que caem dos comedouros.

Fui passear o Julian e no meu telefone davam indicação de estarmos sob alerta de tornado. Olhei para o céu e efectivamente, as nuvens indicavam que algo se passava. Não me recordo de ver algo assim em Memphis e nem é normal estas tempestades aparecerem em Dezembro, mas a temperatura alta -- chegaram a estar mais de 25,5° C -- e a humidade não deixavam dúvida que uma camada de ar quente do Golfo do México estava presa sob ar mais frio. Tirei uma foto da nuvem mais pituresca, regressámos a casa, e fui visitar a minha vizinha, onde estive cerca de uma hora.

À saída, havia trovoada para oeste e norte, mas só víamos os relâmpagos suficientemente longe para não se ouvir o trovão. As nuvens movimentavam-se rapidamente e havia vento forte. Quando cheguei ao meu pátio, a cadeira de madeira de dois lugares, que tinha uma cobertura impermeável, estava derrubada. Levantei-a e arranjei a mobília exterior de forma a que ficasse mais resistente ao vento.

Entretanto, os ramos abanavam nas árvores e o vento uivava. No jardim estava muito escuro para tirar vídeo, logo saí à rua para aproveitar a luz pública. Calhou que, enquanto filmava, a base do poste da bandeira que decora a casa dobrou-se com a força do vento e a bandeira ficou pendurada com o poste a bater na varanda. Como a minha casa tem imensas janelas, apressei-me a ir tirar a bandeira antes que fosse projectada por uma janela adentro. Pareceu-me mau sinal aquilo ter acontecido.

No telemóvel, as notificações indicavam que, no Arkansas, um lar de idosos tinha sido atingido por um tornado e havia fatalidades. Em Memphis e Shelby County, depois da meia-noite, o alerta de tornado foi modificado para aviso. Aconteceu que não acordei com as sirenes, trovoada, chuva torrencial, vento, alertas do telemóvel, etc., Passava das quatro da manhã quando regressei ao mundo dos vivos e vi que a noite tinha-se confirmado sido bastante perigosa. A minha vizinha tinha mandado um SMS a saber se eu estava bem. Ela e a irmã tinham colocado almofadas sobre a mãe e esconderam-se debaixo da cama de metal. Respondi que sim e aproveitei para meter um post no Facebook a avisar que estava tudo bem em minha casa. O pior da tempestade tinha passado a oeste de mim. Continuámos sob alerta de tornado e eu voltei a adormecer.

Felizmente correu tudo bem por aqui, mas muitos não tiveram tal sorte. Uma fábrica de velas no Kentucky parece ter tido mais de 100 fatalidades. Os governos locais já accionaram o governo do estado e o governador do Kentucky já disse que tinha pedido ajuda ao governo federal e tudo estava encaminhado. A Cruz Vermelha, a United Way, World Central Kitchen, e outras organizações de fins não-lucrativos também já iniciaram esforços para apoiar as pessoas afectadas.