terça-feira, 28 de junho de 2022

SCOTUS ataca de novo

A decisão de hoje do SCOTUS tem a ver com o caso de um treinador de futebol americano numa escola secundária que queria rezar no campo depois dos jogos da sua equipa. Este SCOTUS acha que sim, ele tem direito, o que contradiz decisões anteriores, condiciona o ensino do papel da religião nos EUA, e até a ideia da separação de religião e estado. Bem sei que pouco ou nenhuma separação existe quando no próprio dinheiro americano está inscrito "In God we trust", mas façamos de conta. 

Os americanos não seriam americanos sem uma enorme dose de espírito cómico pelo meio. O Samuel L. Jackson, no Twitter, perguntou se o Tio Clarence (o Juiz Clarence Thomas do SCOTUS) tinha intenção de repelir Loving vs. Virginia, a decisão que legalizou o casamento inter-racial. É que a esposa do Clarence Thomas é branca e ele é negro. O suspense...

Um dos meus amigos mais antigos aqui nos EUA é professor de estudos religiosos numa universidade estatal e lamentava-se no Facebook que, com a decisão de hoje, o currículo teria de ser alterado e as instruções do Departamento de Educação às escolas teriam de ser actualizadas. Um outro meu amigo respondeu-lhe que isto dura até aparecer alguém muçulmano que queira efectuar uma cerimónia religiosa ou um seguidor de Satanás que queira rezar ao diabo em público usando esta nova proteção do SCOTUS.

Efectivamente, há um movimento religioso nos EUA que se chama The Satanic Temple, fundado por Lucien Greaves, e que serve mesmo para usar comédia e sátira para promover igualdade, justiça social, e separação de estado e religião--é uma organização de lóbi. Em relação a Roe v. Wade, o Satanic Temple diz que, de acordo com a sua "religião", o aborto é um ritual religioso que tem o fim de promover a auto-determinação e a autonomia do próprio corpo, logo a sua proibição é uma violação da liberdade religiosa. Esta organização está a processar o estado do Texas por causa da proibição do aborto e a FDA para permitir o acesso a medicamentos que induzam o aborto. Siga para bingo.


sábado, 25 de junho de 2022

Nojo

Numa semana, uma pessoa está aqui a receber fotos de PR Marcelo a beijar a barriga de uma grávida; na semana seguinte, notícias que uma menina de três anos, até há pouco ao cuidado dos tribunais portugueses, é morta violentamente. E note-se que violência contra crianças e mulheres em Portugal não é novidade. Depois há serviços de obstetrícia fechados em Portugal porque, como bem disse PR Marcelo, os portugueses, que inclui as portuguesas, sabem de antemão quando podem e não podem ficar doentes. 

Diz o José Manuel Pureza, no Facebook, que os direitos das mulheres são o primeiro alvo da extrema direita nos EUA, como em todo o mundo, porque os EUA não fazem parte de todo o mundo. Portugal faz e deduzi que PM Costa se tinha filiado no Chega, pois só assim se compreende que as mulheres nem possam andar grávidas sem que o Presidente da República lhes venha beijar a barriga, como se o seu corpo estivesse ao bel-prazer das instituições portuguesas. E que mulheres e crianças continuem a ser alvo de violência sem que o estado português sequer se interesse em contabilizar oficialmente o tamanho da tragédia ou a Justiça vele pelos direitos das vítimas que estão consagrados na lei. Pelo contrário, há nos Tribunais portugueses juízes tão sofisticados como os americanos.

Obviamente que o mais chocante é a reversão de Roe vs. Wade nos EUA, que acaba por criminalizar o aborto em alguns estados. Pior ainda, quem nos vale nesta confusão são as grandes empresas, que se disponibilizam a pagar os custos das empregadas terem um aborto--o capitalismo a vir ao auxílio das mulheres, mas só das capazes porque quem tem empregos precários está por conta própria.  Vale-nos que os americanos passem o tempo todo a contabilizar e a publicitar as suas próprias desgraças para o resto do mundo poder respirar de alívio porque, ao menos, não são americanos.

Estou enojada com ambos os meus países. 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O enredo adensa-se

A semana passada foi dominada pela histeria que acompanhou o aumento das taxas de juro por parte da Reserva Federal nos EUA: o maior aumento desde 1994. Dizer que era previsível é completamente desnecessário, mas como já há décadas que não havia inflação a sério, a maior parte das pessoas já se esqueceu do que era inflação. Esta inflação é o preço que pagamos pela recuperação da pandemia ter sido tão célere, mas é melhor do que ter a economia mundial numa nova Grande Recessão ou Depressão, até porque ambos os termos já não estão disponíveis. 

No que diz respeito a experiências de economia estamos a meio de uma bem interessante, dado que, ao contrário do que aconteceu durante a Grande Recessão, a política fiscal reagiu muito rápido à pandemia, o que, combinado com uma política monetária generosa, permitiu que os consumidores saíssem da pandemia bastante animados e investidos em gastar, continuando a pressionar a cadeia de distribuição. Depois a invasão da Ucrânia pela Rússia apenas intensificou o que já de si era bastante intenso.

Há, no entanto, razões para sermos optimistas, pois a pandemia permitiu bastantes inovações na recolha de dados e no diagnóstico, quase em tempo real, do que se passa na economia americana. Combater a inflação para os americanos também não é difícil, dado que já o fizeram uma vez, logo basta aumentar as taxas de juro para níveis ainda baixíssimos e entra tudo em parafuso, ou seja, a Reserva Federal tem bastante credibilidade, logo facilita a tarefa. 

Talvez até facilite um bocado demais porque o Presidente Biden ainda acha que tem de passar um estímulo, o tal do Build Back Better, o que é uma completa tolice e reflecte mais teimosia política do que necessidade fiscal. É melhor guardar o programa para depois da inflação estar mais controlada e a economia entrar na próxima recessão porque há sempre uma a seguir. 

Neste momento, o que é mais premente é a necessidade de reorganizar o mercado energético. A Ásia, especialmente a Índia, começaram a comprar bastante petróleo russo; a África do Sul está a considerar fazer o mesmo. O Biden já fala em se comprar energia à Rússia se o preço for abaixo de um certo nível, mas essa ideia demonstra cima de tudo um desespero político porque está com os níveis de aprovação muito baixos e é esperado que os Democratas percam a(s) maioria(s) no Congresso em Novembro.  

Um desenvolvimento bastante mais interessante é a visita de Biden à Arábia Saudita, no próximo mês, em que um dos motivos é tentar que aumentem a produção de petróleo. Temos de engolir o enorme sapo da morte de Khashoggi, mas só assim dá para tentar normalizar a circulação de energia a curto prazo e antes do Outono/Inverno. Biden não está mal de todo em termos de trunfos porque se a Arábia Saudita não coopera, apenas dá um incentivo aos EUA e agora à Europa para continuarem a investir em energias/tecnologias alternativas o que irá encurtar a dependência de petróleo. 

É um bocado como a luta contra a inflação: os americanos já conseguiram enfraquecer o poder da Arábia Saudita no mercado de energia uma vez.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Terça-Feira em NOLA

O resto da semana do Memorial Day tive de trabalhar durante o dia e só deu para sair ao final da tarde--vantagens dos empregos remotos. Ao investigar restaurantes interessantes em NOLA, encontrei o Lola's, que serve cozinha espanhola com influência crioula e a minha amiga acedeu a jantarmos lá na Terça-feira. Ultimamente, tenho andado com a pancada dos espanhóis por culpa do Goya e acho que até desenvolvi uma pequena obsessão pelas suas gravuras. Já pensei que devia fazer um teste de ADN para ver quanto de mim vem de Espanha, mas ainda não me convenci que quero dar o meu ADN ao sector privado, apesar de estar farta de dar o ADN ao sector privado quando vou ao médico. Contradições completamente ilógicas.

Para o jantar no Lola's, fizemos uma reserva pela aplicação da OpenTable à qual tivemos de dar o número do cartão de crédito porque, se a pessoa tem reserva e não aparece dentro de 15 minutos da hora combinada, cobram $25. É raro os restaurantes fazerem isto, mas a vantagem deste sistema é que só pessoas mesmo interessadas em ir lá fazem reserva, logo o Lola's não estava muito cheio e, se calhar, até nem teria sido preciso reserva. Por falar em estabelecimentos cheios, houve vários sítios onde queríamos ir, mas não havia disponibilidade, o que não é completamente mau, pois assim descobrimos este.

Chamámos um Lyft do nosso hotel e apareceu um rapariga muito simpática, super-educada, que conduzia um Mini-Cooper dos maiores, o que nos surpreendeu, dado que é um carro caro. Inquirimos acerca da escolha e a condutora disse-nos que era uma prenda a si própria e apenas trabalhava para a Lyft nos tempos livres porque estava a juntar dinheiro para pagar as férias de verão da filha.

Poucos minutos depois do início da viagem e enquanto estávamos entretidas a dizer mal do Lyft, o telefone da condutora foi abaixo e a viagem foi cancelada. Peguei no meu telemóvel e procurei as direcções para dar à condutora. Continuámos o paleio. Informava-nos ela que o  problema de trabalhar para o Lyft é que a empresa castiga os condutores que não aceitam viagens ou recusam certos clientes. No caso da nossa condutora, que tinha recusado duas viagens, uma porque o cliente estava embriagado e outra porque eram vários homens numa zona perigosa da cidade, tinha sido informada que se continuasse a recusar viagens ia ser suspensa. (Não julguem que isto do medo é uma característica das mulheres porque já conversei com homens que também me dizem ter medo de certas zonas e pessoas.)

A nossa condutora viu o telefone ter morrido como sinal de que o universo lhe estava a dizer que devia ter ficado em casa. Quando chegámos ao restaurante, dei-lhe $20 em dinheiro, que era mais do que teria recebido se a viagem tivesse corrido normalmente--para nós devia ter ficado nuns $17, se tudo tivesse corrido normalmente. Ela não queria aceitar, mas eu disse-lhe que não podia recusar porque o universo estava a tentar corrigir erros passados. Espero bem que ela não tenha sido prejudicada por o telefone ter ido abaixo, mas se calhar a Lyft pô-la de castigo. A minha amiga disponibilizou-se a enviar uma mensagem à Lyft para a defender, mas depois pensámos que se eles soubessem que ela tinha feito a viagem com o telefone desligado ainda ia ser pior.

O menu do Lola's pareceu-me bastante bom, mas como tenho de evitar arroz e trigo, limitou-me um bocado as escolhas--a paella, da qual gosto tanto, não dava, a não ser que eu quisesse passar o resto da semana com o queixo cheio de borbulhas. Comi uma costeleta de porco com puré de batata, espargos, e micro-verduras, que acompanhei com um vinho tinto Tempranillo. A costeleta estava um bocado seca, mas talvez fosse de eu a ter pedido demasiado passada. O puré de batata foi dos melhores, senão o melhor, que já comi. No final, não pude resistir ao pudim flan, apesar de eu também evitar lacticínios e açúcar. O meu jantar ficou em $63,62, depois da gorjeta.  

O regresso ao hotel foi também com uma condutora do Lyft, mas desta vez uma rapariga muito opinada, que não usava máscara, mas tinha a janela aberta e era vacinada. Quando nos viu de máscara, ofereceu-se a usar, mas nós prescindimos. A meu ver, o carro é o local de trabalho dela, logo é dever dos clientes mantê-lo seguro e velar pelo bem-estar dela, dado que ela tem de contactar com tantas pessoas. É verdade que ela também podia usar máscara, mas que os outros ajam de certa maneira não implica que eu tenha de abdicar dos meus princípios. A meu ver, não me custa nada usar máscara em certas circunstâncias, para além de que também é bom para a minha saúde.

Digamos que foi uma viagem animada e preparou-nos para irmos ao Hot Tin, o bar no topo do Hotel Pontchartrain perto do nosso hotel, para um "night cap". Tomei um Rita Hayworth ($14 antes de imposto e gorjeta) e ficou, no final, por $19.43. Este cocktail não é muito doce e, para além de ser um pouco picante, tem um toque amargo do sumo de lima, mesmo ao meu gosto. Assim terminámos a noite em amena cavaqueira no pátio mais pequeno, onde encontrámos uma família de Los Angeles que estava de visita à filha, que se mudou para NOLA para ser advogada de desporto. Os pais tinham acabado de comprar uma casa em Nova Orleães que contavam renovar, mas queixavam-se que as pessoas eram muito lentas a trabalhar. O sul é sempre mais relaxado.

 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Memorial Day

O terceiro dia que passei em Nova Orleães foi o feriado do Memorial Day, que este ano calhou a 30 de Maio, e é considerado a abertura oficial da época de férias nos EUA. O meu despertar não variou grandemente e acordei antes das sete da manhã, como se fosse para trabalhar. Sou uma daquelas pessoas que, quando acorda, só pensa em comida; também penso muito nas outras refeições, mas o pequeno-almoço é para mim sagrado, logo comecei logo a investigar que cafés estariam abertos antes das 9 da manhã durante o feriado. 

Aqui deste lado, os cafés não são exactamente cafés à portuguesa porque muitos também servem almoço e jantar. Também há o detalhe de eu não poder ir às chamadas "bakeries" tradicionais porque muitas delas não têm nada que eu possa comer: quase tudo tem glúten ou outros cereais que me incomodam. De vez em quando, oferecem aveia que dá para eu comer, mas nem sempre é boa ideia se for servido com açúcar. Pensei ir ao Another Broken Egg, na Magazine St., que também tinha a vantagem de ser uma boa caminhada, só que quando lá cheguei, havia fila.

Durante Maio, no trabalho, fizemos uma competição de caminhadas. Temos várias equipas de cinco pessoas e cada pessoa conta os passos diários (os telemóveis e os relógios inteligentes contam) e incorpora os dados numa folha de cálculo no Microsoft Teams. A equipa que tiver mais passos ganha. Como em Memphis tive alguns percalços de chuva e um cão que não gosta de andar, pensei em meter mais passos durante os últimos dias de Maio, quando estivesse em NOLA. (Mesmo assim, nada que se comparasse a Nova Iorque ou Londres, há uns anos, em que o Luís Gaspar e eu andámos quase 30 mil passos nesses dois dias de cada vez.) 

Por Nova Orleães, a bandeira da Ucrânia estava em todo o lado, especialmente no Garden District, onde eu passeava. Acabei por ir tomar o pequeno-almoço ao Vintage, também na Magazine St. que diziam, num espelho, que tinha sido fundado nos anos 30. No pátio, meti conversa com um rapaz local, muito bem parecido, que fumava os seus cigarros enquanto bebia um café gelado, que me informou que já era o quarto estabelecimento que frequentava naquele edifício. Como dizia aquele reclame antigo: a tradição já não é o que era.

O meu pequeno almoço foi um café americano e o Vintage breakfast, que consiste em papas de milho (grits), um pouco de queijo,  bacon, e um ovo escalfado. Paguei $17.55, incluindo a gorjeta. Depois continuei a minha caminhada na Magazine St., visitando algumas lojas que me pareciam interessantes e que estavam abertas. Andei, andei até chegar ao cruzamento com a Erato St. e decidi virar à esquerda porque tinha aspecto mais pacato. 

Calhou ver uma igreja e decidi ir investigar: era a igreja de Sta. Teresa d'Ávila, de denominação católica. Entrei para apreciar o interior e ver se tinha a Sta. Isabel (não a Rainha Santa, claro está, mas a St. Elizabeth, prima da Jovem Maria que dizem ser virgem). E não é que havia um vitral com ela? Procurei-a porque, na última vez que estive em Houston, andei a pé pela Baixa e também me deu na telha de entrar numa igreja, nesse caso, na Capela Golding, que pertence à Christ Church Cathedral, que é de denominação pentecostal, onde também havia um vitral da St. Elizabeth.

Estava sentada e sossegada no meu silêncio mascarado, quando bate o meio-dia, e noto alguma comoção na igreja de Sta. Teresa d'Ávila. Estavam a preparar-se para a missa das 12h05m. Pensei em sair, mas enquanto debatia sair ou não, o padre dirigiu-se a mim com um papel com as canções que iam cantar na missa--eu cantar só em playback, mas lá fiquei. Depois recordei-me dos meu tempos em Portugal, em que por vezes entrava na Igreja de Sta. Cruz ou na de S. Bartolomeu e assistia à missa das 18h, ou seja, quando era meio-dia na parte dos EUA onde acabei por viver. Pareceu-me profético entrar naquela igreja àquela hora, ou não fosse eu portuguesa; ainda por cima no Memorial Day, ou não fosse eu americana.

Saí da missa e regressei ao hotel para ir ter com a minha companheira de viagem e decidirmos onde iríamos almoçar. Pelo OpenTable, fizemos uma reserva para o pátio do Superior Seafood and Oysters Bar. Enquanto que o interior do restaurante estava repleto, com um zunido de muito boa gente em amena conversa, na rua só estávamos nós. O pátio estava descoberto e duas das três mesas apanhavam sol directo naquele dia de calor, logo não estava muito convidativo. No entanto, na nossa mesa, o sobreiro gigante ao lado oferecia alguma proteção. Almocei uma salada de verduras e atum grelhado, que acompanhei com um copo de vinho branco e que ficou por $34.20, depois da gorjeta, obviamente. 

Depois fomos à Magazine St. porque estávamos curiosas para ver o que tinha para oferecer a Art & Eyes, uma loja de armações para óculos que tem uma seleção super-interessante, se bem que cara. Felizmente, não encontrei nada que me tentasse. Visitámos também uma loja de velharias, onde encontrei um jogo de chá de cerâmica portuguesa que me tentou (custava $65), mas a que resisti--mas olhem que a minha amiga quando o viu, veio logo dizer-me que era a minha cara. (Isto de eu treinar as minhas amigas americanas a apreciarem o que é português é muito problemático.) Acabei por só comprar talheres de servir dourados, uma colher e um garfo, que tinha toda a intenção de comprar se tivesse a oportunidade: paguei, em dinheiro, pouco menos de $11 por ambos.  

Ao final do dia, passámos no Whole Foods para comprar comida para o meu pequeno-almoço e almoço do resto da semana, dado que ia trabalhar de Terça- a Quinta-feira e parte de Sexta. Isto do trabalho remoto dá para ser feito em qualquer sítio com Internet--viva a modernidade. As minhas compras ficaram em $119.12, mas descuidei-me e levei fruta a mais. E também deu jeito ter um hotel que tem kitchenette no quarto. Quando regressámos ao hotel, levámos uma garrafa de vinho para a varanda e terminámos o feriado relaxadamente. No Pontchartrain, uma equipa trabalhava num filme adaptado de um romance da Anne Rice, mas não sei se era para TV ou cinema.    




  

terça-feira, 31 de maio de 2022

Segundo dia

Começámos languidamente o nosso Domingo, com uma viagem de Lyft até ao restaurante Copper Vine, na Poydras St., por volta do meio-dia, para o brunch. A nossa mesa ficou situada na varanda, pois escolhemos restaurantes que oferecem mesas no exterior. Bebi uma mimosa e comi um prato de porco, o "cochon de lait Benny", que tinha a vantagem de não ter glúten, logo dava para eu comer. 

Estava bom, mas as verduras ("greens"), ao estilo do sul dos EUA, não me agradaram. Era kale, a tal couve que ficou famosa por causa do caldo verde, mas que, por estas bandas, tem a má sorte de ser cozida de tal forma que fica bastante amarga. O resto do prato estava bastante bom, apenas um bocado frio quando chegou à mesa. Mas foi uma boa experiência e o restaurante merece ser visitado num dia menos movimentado. Vamos a preços: a mimosa foi $10 e o cochon foi $16 e, depois do imposto e da gorjeta, ficou em quase $34. 

Depois do almoço fomos para o French Quarter, passeámos e visitámos algumas lojas de candeeiros, galerias de arte, joalharias, e fomos também ao museu na Royal St. onde está a Historic New Orleans Collection. Fica num edifício restaurado de forma a se preservar as os traços originais do edifício. No pátio central, havia um café que também servia almoços ligeiros, no qual aproveitei para tomar um café gelado com leite de coco. Paguei também a bebida da minha amiga e tudo ficou por $14,50, depois da gorjeta. Calhou mesmo bem porque estava mesmo cansada e o café ajudou-me a despertar. 

A minha exposição preferida no museu foi sobre a peça do Tennesse Williams, A Street Car Named Desire, que também deu origem a um filme, e decidi que tenho de encontrar uma cópia do livro para ler. Na loja do museu, encontrei a minha perdição: uma sai reversível em seda pintada à mão, que me custou $362, mas é tão bonita. Tive de comprar. 

Após o museu, fomos à Jackson Square, de onde foi retirada a estátua do Andrew Jackson.  Em redor da praça, há um rol de pessoas curiosas, inclusive videntes, cartomantes, pintores, caricaturistas, etc. Já há algum tempo que eu queria consultar uma vidente e como uma me chamou quando passámos, achei que era uma boa altura. Uma das coisas que me disse era que eu gastava muito dinheiro--os óculos escuros Gucci devem ter tido algum peso, mas ter gasto $60 em 10 minutos para me lerem as palmas das mãos e as cartas também deve ter contribuído. E será que acredito? Não faço ideia, mas em Nova Orleães temos de acreditar e eu até comprei salvia branca (cheira tão bem) numa loja de cristais e "New Age"($13,16).

O jantar foi no Sidecar Patio & Oyster Bar ($19,03) e jantei fish tacos (as tortilhas eram de milho). Depois regressámos ao French Quarter, fomos até à beira-rio para ver o Mississippi, passámos pela Bourbon St., que estava super-barulhenta e cheia de "characters", e ficámos tão exaustas que apanhámos um Lyft para voltar ao hotel.

domingo, 29 de maio de 2022

Bons tempos

"Laissez les bons temps rouler! | Let the good times roll!"

Escrevo-vos de Nova Orleães, onde cheguei ontem. Fica a 655 Km de minha casa. São à volta de seis horas de carro, se pararmos uma ou duas vezes para encher o tanque. Quanto custou? Gastei cerca de um tanque e meio de gasolina e custou à volta de $55. Achei que seria engraçado documentar os custos da viagem para compararem com o turismo português.

Deixei Memphis pouco depois das 9 da manhã, depois de levar o meu cão ao hotel de cães;  por volta das 17 horas já cá estava e fui jantar com uma amiga ao The Avenue Pub, que serve comida com inspiração belga. Comi uma salada com camarão ($12.50) e ela o cassoulet ($13.50), que foi servido numa taça de pão (o pão é redondo, ao qual se corta o topo e retira o miolo e o cassoulet é lá enfiado). Partilhámos uma garrafa de vinho Sauvignon Blanc ($27). O total da refeição para as duas depois do imposto foi $58.41 a que se acrescentou a gorjeta de $11. 

Terminámos o jantar às 18 horas, o que é um bocado cedo, mas eu não tinha almoçado, apenas comi um pacote de batatas fritas durante a viagem. Regressámos ao hotel, que fica a três quarteirões, trocámos de carteira e apanhámos o elétrico ($1.25) para ir ao French Quarter. Passeámos bastante e o plano era parar em algum sítio para beber qualquer coisa, mas estava tudo cheio. Havia um bar com uma banda de jazz muito boa, onde pensámos entrar, só que fechava às 23h e já passava das 22h30m, logo optámos por não parar. Não sei se foi da viagem, mas também estava super-cansada.

Durante as deambulações pedonais parámos na livraria Frenchmen Art & Books, que tem coisas muito engraçadas e onde comprei quatro livros por $72.05. Depois também encontrámos os poetas de rua e pedi a uma rapariga para me escrever um poema sobre livros. Paguei $30 pelo poema.

Apanhámos um Lyft quase às 23 horas, o nosso condutor era o George que conduzia um Tesla -- nunca tinha andado num Tesla, mas tirando o écran enorme com as imagens do que se passa em redor do carro, não vejo qual o poder transformativo do veículo. Bem sei que é eléctrico, mas so what? A nossa viagem de Lyft custou $20.99, que incluiu $5 de gorjeta.

Vamos ver como vamos passar o dia de hoje. Estou esganada de fome porque ainda não comi um pequeno-almoço de jeito e já são 10h30m da manhã...


terça-feira, 24 de maio de 2022

Mudança estrutural, será?

Se há coisa que a pandemia nos ensinou é que a economia portuguesa é um bocado lenta a reagir e que as autoridades portuguesas têm uma tendência para achar que Portugal é excepcional quando os choques externos demoram a se revelar. A invasão da Rússia mudou estruturalmente a Europa e, consequentemente, Portugal. Os efeitos ainda não estão solidificados, mas dão para se vislumbrar. 

Até agora, a política de energia servia para atenuar efeitos ambientais dentro da UE, dando-se preferência a energias renováveis e importando-se combustíveis fósseis de países como a Rússia. Esta política é agora impossível, dado que a Europa tem um déficit energético que terá de ser colmatado nos próximos seis meses, antes do próximo inverno. É quase certo que terá de haver um acordo com a Rússia, ou os europeus passarão frio e fome no próximo inverno, o que recordará alguns das dificuldades da República de Weimar, onde notas de banco foram usadas para acender fogões. 

Mas mesmo com acordo e a que preço, a Europa terá de mobilizar o seu investimento de forma a produzir mais energia e se tornar independente da Rússia. A Europa terá de fazer o que os EUA fizeram nos anos 70 e que foi considerar a independência energética como uma política de segurança nacional.

Por outro lado, também terá de ajudar a reconstruir a Ucrânia pela simples razão de os ucranianos estarem dispostos a se sacrificar para impedir a Rússia de avançar Europa a dentro. Depois, há também a necessidade de aumentar os gastos em despesas militares para que a Europa se possa defender de futuros e potenciais ataques.

Qual o papel de Portugal no meio disto? Até aqui, Portugal tem usado o investimento da UE para alimentar a corrupção e a extração de rendas; o mesmo se pode dizer das relações diplomáticas portuguesas. Por exemplo, no contexto actual, se Portugal tivesse usado melhor os investimentos em energias renováveis, estaria em melhor situação para fazer face aos efeitos da invasão. Outro exemplo, se as relações diplomáticas com Angola servissem os interesses de Portugal e da UE, também poderiam ser benéficas na gestão do défice energético da UE.

Viver do turismo, financiamento a taxas de juro negativas, e transferências da UE são estratégias inconsistentes com a situação mundial actual. Ou Portugal muda, ou os portugueses mudam: o aumento da emigração é quase certo. Ou talvez emigrar seja mesmo o fado de Portugal e, nesse caso, não há mesmo mudança estrutural. 

 




sexta-feira, 20 de maio de 2022

Benefícios de ser emigrante

Tenho recebido várias mensagens acerca das peças de opinião sobre Roe vs. Wade, em particular a de um veterinário e a de um estudante de licenciatura. Os autores bem tentaram ir à Wikipédia, mas os resultados não abonam muito a seu favor.

A parte mais divertida foi ler que, depois da decisão de Roe vs. Wade, os estados tinham legitimidade para legislar. Nesta parte, os americanos funcionam como os portugueses: o parlamento (dos estados) tem legitimidade para legislar independentemente das decisões dos tribunais. 

São mesmo precisas aulas de cidadania em Portugal para ensinar noções básicas de como a sociedade está organizada e é governada. 

Quanto aos artigos de opinião, será que não há ninguém em Portugal entendido em Direito americano que possa escrever qualquer coisa minimamente educada? 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Invasão procura-se

Hoje saiu o índice de preços de vendas por atacado para Abril da economia alemã, que cresceu 23.8% comparado com o período homólogo de 2021. Em Março tinha crescido 22.6%. É um máximo desde 1968 e, apesar de não ser tão importante como os preços a retalho, é um número que assusta um bocado. 

Estou preocupada com Portugal porque tem um política que é adequada a tempos fartos na Alemanha. Para além da inflação, há também a necessidade dos europeus gastarem mais dinheiro em defesa e decerto que reconstruir a Ucrânia também irá custar uns trocos. 

Ou seja, o PM Costinha tem de começar a estudar técnicas de marketing para poder sacar mais dinheiro.  Também pode continuar a ser mal-educado e, se conseguir provocar os espanhóis de forma a que eles invadam Portugal, basta copiar as técnicas do Zelensky.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Terramotos

"So you found a girl
Who thinks really deep thoughts
What's so amazing about really deep thoughts?
Boy, you best pray that I bleed real soon
How's that thought for you?"

~ Tori Amos, Silent All These Years

Há, em Portugal, umas almas incomodadas com a Ucrânia ter ganhado a Eurovisão: que não foi por mérito, mas sim por motivo político. Pronto, não vale a pena estarem tristes. Vou-vos dar música a sério, que tem mérito e também mete política, religião, sociologia, filosofia, sexo...

É isso mesmo! O Rick Beato a falar sobre o Little Earthquakes, o álbum da Tori Amos que fez 30 anos em Fevereiro. Foi um dos primeiros CDs que comprei depois de vir para os EUA permanentemente, apesar de, na altura, pensar que a minha estadia ia ser temporária.  

 


quinta-feira, 12 de maio de 2022

Saudosismo

Vi mesmo agora que Portugal foi apurado para a Eurovisão com uma canção chamada "Saudade, saudade." Eu entendo que pessoas como eu, emigrantes e pobres de espírito, cultivem este saudosismo, mas o pessoal do Continente (não do hipermercado), que é tão sofisticado, faria melhor em tratar do futuro e usar o passado apenas como referência, não ponto de chegada. Depois recordo-me, como dizia a um amigo português hoje ao telefone, que os portugueses nem topam que têm um hino que elogia a emigração: heróis do mar, não heróis que ficam em terra.

Por falar em elogios aos portugueses, acabei de ler um livro sobre agricultura no Minho no século XX, chamado "Today There is No Misery". O autor é de antropologia e sociologia rural e apresentou um levantamento do que era viver no Minho rural, especificamente em Pedralva. Pelo caminho, avaliou as receitas propostas por economistas, engenheiros agrários, e governantes, das quais foi crítico. Concordei com bastante do que disse; aliás, os americanos, com o seu pragmatismo e obsessão em validar os argumentos através de dados, são sempre uma boa fonte de argumentos interessantes.

Tenho a felicidade de conhecer e ter bastantes amigos americanos que viveram os tempos da Depressão dos anos 30 e me contam como era a vida naquela altura. Mesmo na minha família americana, a minha ex-sogra, ainda tinha muitos dos hábitos de cozinha que tinha aprendido da mãe. Certas zonas de Portugal, quase até aos anos 70 eram bem pior do que a Depressão americana, o que impressiona bastante. Famílias a ter de dar os filhos para servir em casas mais abastadas porque não tinham como os sustentar, consumo de vinho porque era a única forma de obterem hidratos de carbono e calorias... Quase todo o trabalho em zonas rurais servia para não se morrer de fome. 

Foram tempos duríssimos, mas na altura havia alguma saudade de quando as coisas eram tão más que as pessoas eram forçadas a se ajudarem mutuamente. Esse espírito de entre-ajuda e sobrevivência parece ter ficado no passado, mas restam as canções a elogiar a saudade.

  

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Estás aqui, estás a campar

No seguimento do rascunho da decisão do SCOTUS que poderá repelir Roe vs. Wade, começa-se a ver nas redes sociais um movimento de apoio ao acampamento, traduzido livremente como: Olha, se precisares de acampar noutro estado, levo-te a acampar num estado amigo de acampamentos, não te faço perguntas sobre o teu acampamento, nem conto a ninguém que acampaste.  

Quando eu me portava mal, ou até quando havia o mínimo indício que eu me pudesse portar mal, a minha mãe dizia-me, meio-zangada, meio-divertida ,"estás aqui, estás a campar", que era código para eu desistir da malandragem. Ironia, das ironias, calhou os americanos decidirem que a melhor metáfora para as nossas circunstâncias era o acampamento. 

Desde ontem, já recebi várias mensagens de SMS a pedir para apoiar a causa, que consiste em assinar uma petição, só que para a submeter pedem uma contribuição monetária para a organização. Não é por nada, mas há aqui um enorme risco moral. É que esta gente ganha mais com a questão do aborto no limbo, do que com o caso arrumado, logo é vantajoso manter as mulheres reféns.

Até o Michael Bloomberg já escreveu um editorial a defender que a solução era legislativa e o Senado a devia arrumar de vez. Note-se que, sem as tramóias do Bloomberg nas eleições, o Biden não teria sido o candidato democrata. Um dos argumentos em favor do Biden, era mesmo a sua capacidade de passar legislação no Congresso: quando o Obama precisou de passar o Affordable Care Act, encarregou o Biden de facilitar o processo legislativo.

Para contrariar o marketing negativo, saiu hoje a notícia que vamos ter a primeira mulher negra LGBTQ no cargo de Porta-Voz da Casa Branca. Coincidência que tal aconteça mais de um ano após o Biden ser Presidente e no dia a seguir à fuga de informação do SCOTUS. Até tivemos direito a um abraço entre a futura porta-voz e a actual, apesar de nos andarem sempre a avisar que ainda estamos em tempos pandémicos e há que ter cuidado. 

No que diz respeito à guerra, a Administração informa a imprensa que tem andado a ajudar os ucranianos e o submarino russo foi ao ar, perdão, ao fundo, com a ajuda dos meus queridos governantes. Ontem tínhamos aprendido que os americanos andavam a ajudar os russos a encontrar e alvejar os generais russos. Uma guerra dá sempre jeito para ficarmos mais informados, especialmente antes de irmos campar.


quarta-feira, 4 de maio de 2022

Nós, as idiotas

Anda uma grande confusão, deste lado do Atlântico, porque houve uma fuga de informação no SCOTUS de um rascunho de uma decisão que potencialmente poderá repelir a decisão de Roe vs. Wade,  a tal que permite que as mulheres tenham acesso ao aborto. Ficou tudo muito eriçado com tamanha afronta, especialmente do lados dos Democratas, aquele partido que, neste momento, detém a maioria no Congresso e até tem a Casa Branca.  

Ou seja, se se interessassem tanto pelos direitos das mulheres já teriam legislado em favor do aborto com o Obama ou com o Biden, dado que ambas as administrações tiveram maiorias no Congresso. Se não legislaram, calem-se agora; não nos façam de idiotas.

Biden já decidiu que vai candidatar-se a outro termo e eu já decidi que não só não voto nele, como desejo que seja derrotado. Houve mais transformação social com o Trump do que está a haver com o Biden e, para cúmulo dos cúmulos, ainda tivemos de levar com a saída desastrosa do Afeganistão. Venha o próximo.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Pandemia quê?

Com as notícias focadas 24/7 na Guerra Rússia-Ucrânia e na inflação, a pandemia está cada vez mais marginalizada. Onde estou, ainda há pessoas que usam máscara quando em recintos fechados, mas cada vez se vê menos. Os restaurantes têm ainda menos ou quase nenhuns mascarados, mas nota-se que alguns estabelecimentos têm muito menos movimento do que tinham pré-pandemia. Ainda há muitas pessoas que preferem encomendar e ir buscar ou pedem entrega ao domicílio. 

Esta semana, um tribunal federal repeliu o uso obrigatório de máscara em aviões e outros transportes públicos, mas a Administração Biden já iniciou o processo de apelo da decisão. Há também algum receio que não se consiga monitorizar o desenvolvimento da pandemia, agora que as pessoas têm acesso a testes em casa, logo os resultados dos testes não são reportados. 

Ou seja, entrámos numa de preso por ter cão e preso por não ter, dado que a própria Administração facilitou o acesso a testes no domicílio. Já estamos no terceiro ano de pandemia, as pessoas já deviam saber como se comportar e como gerir o risco do vírus. É um bocado paternalista e redutor achar que somos todos uns incapazes.  


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Uma biologia horrorosa

Nunca uma guerra decorreu tão perto de nós, estando nós tão distantes. O tio de uma amiga minha não consegue parar de ver as imagens destes horrores. Tem 87 anos e nasceu na Polónia. Quando era criança teve de andar de país em país por causa da guerra, até que chegou às mãos dos americanos e veio para os EUA. Imaginamos que as imagens que lhe chegam agora têm algo de familiar, mas ele nunca disse a ninguém o que viu quando era jovem. Se calhar pensava que pertencia a um passado longínquo que jamais se repetiria.

Um dos meus amigos mais próximos desde há 25 anos é da ex-USSR. No Facebook, recorda que, quando tinha 17 anos, viu um tanque soviético atropelar uma ambulância soviética. Pediu explicações ao pai para o que viu, mas o pai não lhe disse nada. O que poderia ele dizer, se o acto falava por si? Este meu amigo evoca este episódio a propósito de uma menina de 9 anos que foi violada na Ucrânia por 11 soldados. russos. Como é que 11 jovens diferentes cometem um acto destes, pergunta-se ele? 

Há uma parte da nossa biologia que é completamente horrorosa. 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Catch-22 histórico

Uma amiga minha russa, que conheci há quatro anos, fala-me sempre do alto nível de educação dos russos, do apreço pela cultura, pela beleza, o estudo da literatura, da arte... É tudo elevado na Rússia e como é que um povo desta suposta sensibilidade se reduz a esta brutalidade passa-me completamente ao lado. 

Há cinco anos, passei a passagem de ano no meio de pessoas da ex-USSR. As senhoras de idade soviéticas, em particular, gostam sempre muito da minha cara e naquela festa não foi diferente; claro, que também são grande defensoras do regime soviético, logo as suas preferências não abonam muito a meu favor, mas adiante. Para além de mim, estavam umas 20 pessoas de três gerações diferentes e de vários países: Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Geórgia... Toda a gente se entendia em russo, menos eu, que me limito a reconhecer palavras como privyet, spaciba, e pajalsta. Pelo menos, sou uma pessoa educada.

Foi uma noite muito pacífica apesar do copioso consumo de vodka: comeram, cantaram, jogaram jogos--eu também consegui jogar porque algumas coisas tinham a ver com reconhecer músicas e, em anos 80 e 90, sou craque. Eles todos olhavam para mim com admiração por eu me conseguir orientar nos jogos e até cantei uma canção em português e, se me lembro correctamente, foi o "O amor" dos Heróis do Mar, porque o tópico era amor. 

Achei que tinha representado bem Portugal junto dos cidadãos da Europa de Leste, mas confesso que de vez em quando olhava para eles e tentava perceber se algum era um espião de Putin. Podia ser uma pequena paranóia minha, depois de crescer a ver filmes como o No Way Out, com o Kevin Costner, mas talvez não fosse exagero meu porque depois viemos a saber que os russos tinham andado a fazer "campanha" pró-Trump. 

Nessa viagem, a amiga com quem eu estava tinha-me levado uma semana antes ao monumento da fome-genocídio da Ucrânia, em Washington, D.C., que marca um evento que eu desconhecia até então, mas ela educou-me: desde então os ucranianos têm uma pequena horta onde cultivam comida, como se se preparassem para um evento semelhante ao que aconteceu há quase 90 anos. E eis que chegámos à inevitabilidade histórica, mas desta vez ter uma pequena horta de pouco ou nada serve. 

Também não servirá daqui a uns anos, quando a Rússia atacar outra vez. Sim, porque a maior parte dos russos, aquele povo tão educado e sensível, não tem ideia do que se passa e estarão prontos para seguir o próximo lunático quando o seu nível de vida piorar com as sanções a que estão a ser sujeitos. Claro que, se não forem castigados, o resultado é o mesmo porque haverá sempre um lunático que achará por bem tentar a sorte de novo porque não aconteceu nada ao primeiro. Se isto não é um Catch-22 histórico...  

sábado, 2 de abril de 2022

A propósito da liberdade

 E também dos tempos que vivemos:

“Yes, that rebirth is in all our hands. It is up to us if the West is to inspire resisters to the new Alexander the Greats who must once more secure the Gordian knot of civilization that has been torn apart by the power of the sword. To accomplish this, we must all run every risk and work to create freedom. It is not a question of knowing whether, while seeking justice, we will manage to preserve freedom. It is a question of knowing that without freedom, we will accomplish nothing, but will lose, simultaneously, future justice and the beauty of the past. Freedom alone can save humankind from isolation, and isolation in its many forms encourages servitude. But art, because of the inherent freedom that is its very essence, as I have tried to explain, unites, wherever tyranny divides. So how could it be surprising that art is the chosen enemy of every kind of oppression?”


Excerpt From

Create Dangerously

Albert Camus & Sandra Smith

https://books.apple.com/us/book/create-dangerously/id1458259955

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sexta-feira, 18 de março de 2022

Contra dicção, da má e dita dura

Tendo vivido no estrangeiro toda a minha vida adulta, mas continuando a assumir as minhas origens lusitanas, acabo por ser uma pseudo-embaixadora de Portugal, que dá o país a conhecer a quem nunca lá pôs os pés e, se calhar, não porá. Nesta minha actividade involuntária, umas das perguntas que me fazem é o porquê de Portugal não ser parte de Espanha. Eu respondo simplòriamente que já foi--entre 1580 e 1640 estava sob a alçada dos Filipes de Espanha, mas depois disso nunca mais porque somos diferentes, resumo eu, dado que há bastante divergência entre uma paella e um arroz à valenciana, ou não fosse Espanha feminino e Portugal masculino.  

Isto veio-me à cabeça quando a Rússia decidiu continuar a sua incursão pela Ucrânia o mês passado porque um amigo meu português perguntou-me logo se os portugueses se empenhariam em se erguer contra um invasor. Não, foi a minha resposta. A forma como nos protegemos de invasores não é pela força. Quando os franceses tentaram invadir, o governo de Portugal foi para o Brasil, que tecnicamente era Portugal, e a defesa do continente ficou ao cuidado dos ingleses. No século seguinte, não é de admirar, então, que a Ditadura tenha durado tanto, que praticamente caiu de podre e, quando já se vislumbrava outra, para se defender contra os excessos do PREC chamaram-se os americanos. Mais tarde, foi a vez de se chamar os europeus: uma das razões invocadas para se aderir à CEE era mesmo proteger o país de si próprio, de forma a se manter em suposta democracia. 

No mês que vem vamos comemorar a virtude do povo lusitano em se auto-determinar contra a Ditadura que durou quase meio-século. Pelo meio, vozes que defenderão a revolução de Abril também se erguerão pela invasão de Fevereiro porque russos e ucranianos é tudo a mesma coisa, comem todos salada russa temperada com maionese e com presunto em vez de atum. Mormente, defender ditadores russos que atacam inimigos políticos em Inglaterra é tão válido como atacar ditadores portugueses que engodam inimigos políticos até Espanha para os matar. Não há contradicão, desde que uma diferente dicção indique a coisa que é má e dita dura, da que é virtuosa e deveras pura.

 

terça-feira, 15 de março de 2022

Impasse moral

Depois de quase três semanas de guerra, a Rússia não consegue dominar a Ucrânia, mas também não sai em retirada. Há duas teorias acerca de como proceder. Uma é que tem de haver uma forma de Putin sair disto sem ser humilhado perante os russos de forma a continuar no poder. Se ele suspeitar que pode perder tudo, então pode muito bem causar ainda mais estragos. A outra é que o ocidente devia juntar forças e dominar os russos até que fosse claro quem saía vitorioso e não seria a Rússia e muito menos Putin -- aliás, convinha que ele fosse despachado porque sabe-se lá o que poderá fazer na sua próxima incursão megalomaníaca.

Tudo isto é muito bem argumentado, mas a realidade tem sempre muito mais nuance do que a estratégia. Os EUA são uma potência militar, só que a história recente demonstra que ter dominância militar não só não é suficiente para dominar o adversário, como o apoio do público americano é caprichoso -- note-se que o apoio dos europeus também não é muito melhor. Ficamos então reduzidos à eterna contradição moral de que não há melhor forma de conseguir solidariedade do que imagens de destruição, feridos, e mortos: os ucranianos precisam de continuar a sofrer para que o ocidente apoie a sua causa. 

segunda-feira, 7 de março de 2022

Podia ser pior

Até agora, a única surpresa no conflito Russa-Ucrânia foi a rapidez com que a opinião pública internacional se mobilizou para apoiar a Ucrânia, não só em termos de apoio moral, mas também através de transferências criativas de fundos. Nas redes sociais, as pessoas organizaram-se para acolher os refugiados russos, ultrapassando os limites burocráticos normais. No Airbnb, pessoas de todo o mundo fazem reservas de casas na Ucrânia como forma de transferir dinheiro rapidamente para os ucranianos. As organizações não-lucrativas também mobilizaram esforços rapidamente. Por exemplo, demorou um dia para a World Central Kitchen activar os esforços na Ucrânia para alimentar refugiados. Este é, sem dúvida, o maior valor das redes sociais e da Internet e já tinha sido evidenciado aquando da retirada desastrosa dos americanos do Afeganistão.

Talvez a maior arma que existe contra Putin seja a da informação, pois o apoio do povo russo depende do enquadramento dos factos e por isso Putin não só bane as redes sociais que não controla, como o Parlamento russo modificou a legislação para contemplar penas de prisão para quem disseminar informação que contradiz a versão oficial. Esse é o seu ponto fraco e quanto mais o conflito se arrastar, mais difícil será justificar o número de mortos russos, mais a versão que os militares russos em campo dão às suas famílias directamente como a conversa de um soldado russo com a sua mãe momentos antes de morrer ou ucranianos a recolher soldados russos e a facilitarem o seu contacto com a família. Os telemóveis são uma das armas mais poderosas que existe hoje em dia.  

De acordo com um relatório de fontes europeias e americanas noticiado pelo NYT, o governo chinês pediu à Rússia que adiasse a operação na Ucrânia para depois dos Jogos Olímpicos de Inverno, mas como em 2008, a Rússia invadiu a Geórgia durante os Jogos Olímpicos de Verão, que se realizaram em Beijing, o que não agradou aos oficiais chineses, talvez nem fosse preciso um acordo explícito. A China tem mantido uma postura neutra neste conflito, mas nos últimos anos tinha havido uma aproximação entre a Rússia e a China. A economia russa é mais pequena do que a economia do Texas, logo não há grande vantagem para os chineses sacrificarem as suas relações com o ocidente para ficar ao lado da Rússia. 

Até agora os EUA seguiram uma estratégia que evitasse o conflito directo com os russos, retirando antecipadamente forças armadas americanas da Ucrânia e avisando o resto do mundo dos riscos. Se Putin quisesse humilhar os EUA, a forma mais fácil teria sido não invadir e assim os americanos teriam sido caracterizados como uns exagerados -- o tal exagero que levou a que invadissem o Iraque sob George W. Bush. Ao não entrar em conflito directo com os russos, os americanos também limitam a máquina da propaganda de Putin, pois não há fotos de americanos a atacar russos. 

Os erros passados dos americanos serviram de guia para o actual conflito: para além da invasão do Iraque, queria evitar-se uma situação parecida com a da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, um falhanço estratégico de JFK em 1961 que levou a que a Rússia ganhasse mais influência em Cuba e tivesse mísseis nucleares apontados directamente aos EUA em 1962. Em vez disso, há décadas que a Europa e os EUA não estavam tão alinhados em termos de política internacional. 

sábado, 5 de março de 2022

Mudem de grafia

Kyiv é a capital da Ucrânia em ucraniano. Kiev é a capital da Ucrânia em russo.

Por razões óbvias, temos de eliminar a grafia do agressor.



sexta-feira, 4 de março de 2022

Em parafuso...

O mundo, neste momento, divide-se entre os que cultivam a esperança e os que se entregam à loucura. Pragmatismo e cabeça fria valem ouro, dada a sua raridade. 

Fui completamente apanhada de surpresa, ontem, quando um amigo meu me disse que tinha estado a falar com a família em Portugal a despedir-se por causa do ataque à central nuclear. Talvez a memória seja curta, mas quando tivemos a explosão em Fukushima (2011), aprendemos que os efeitos, apesar de maus, não seriam tão gravosos quanto se pensava.  

Mas e Chernobyl (1986), perguntam vocês, que até foi na Ucrânia? Esse sim, foi muito mau, mas aconteceu antes da queda do muro de Berlim, quando o que se passava na USSR ainda estava envolto em nevoeiro. Depois, por ter sido tão mau e por quem ter sofrido mais terem sido os ucranianos, sabemos que estes tomaram medidas de segurança para que a história não se voltasse a repetir.  Os ucranianos têm memória longa, já aqui falei sobre isso em 2016. Mesmo assim, o resto do mundo -- que inclui Portugal -- tem obrigação de ajudar os ucranianos com coisas mais concretas do que posts esperançosos no Instagram e Facebook.

Há um completo vazio de liderança política em Portugal, apesar de termos tido eleições um mês antes do início da invasão e da clara predilecção dos portugueses por bazucas. António Costa está MIA, como é normal sempre que as coisas vão para o torto. Marcelo preocupa-se em oferecer telefonemas de afecto ao presidente russo, o que lhe garante cobertura de primeira página. Rui Rio, que teoricamente é o líder do maior partido da oposição costuma deferir para António Costa porque, por admissão própria, é incapaz de oferecer melhor. 

Nos partidos minoritários da Esquerda portuguesa, o PCP acusa os EUA de serem a causa do problema -- quem lê o que os comunistas escrevem pensaria que foram os americanos que anexaram a Crimeia em 2014. O Bloco de Esquerda, que normalmente é a cúspide do humanismo em Portugal, absteve-se da votação ao empréstimo à Ucrânia no Parlamento Europeu. Com amigos destes, ninguém precisa de inimigos. 

Portugal que tem uma posição geográfica privilegiada entre os EUA e a Europa comporta-se como se fosse completamente irrelevante no plano estratégico mundial. Povo desnaturado, que nem em situações da maior gravidade se sabe erguer e lutar por uma causa nobre.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Assistência

  “When you part from your friend, you grieve 
not;
    For what you love most in [her] may be 
clearer in [her] absence, as the mountain to the
climber is clearer from the plain.” 

   ~ Kahlil Gibran, “The Prophet”

Ontem assisti a uma morte. Não sei bem o que sinto, não é tristeza, nem propriamente um vazio, apenas que estive presente até ao fim. Já esperávamos que a mãe da minha vizinha viesse a falecer, mas não sendo da família, não contava acompanhar o processo tão de perto. Só que não é propriamente verdade que não seja da família porque logo no início, quando conheci a senhora, ela perguntou-me acerca da minha família. Quando lhe disse que não tinha família nos EUA (pelo menos não de sangue), imediatamente me respondeu, mal me conhecendo, que daí para a frente a família dela seria a minha família. E foi assim que fui adoptada por mais uma família americana.

Durante quase dois anos, acompanhei-a de perto e tentei estar presente. No que me foi possível, prestei a minha ajuda: fiz-lhe companhia, conversei com ela, joguei jogos, tentei fazê-la sorrir usando humor, que ela apreciava muito, cozinhei para ela, etc. Ontei, segurei-lhe a mão, fiz-lhe festas no braço, e assisti à sua etapa final. A minha vizinha, que é a sua filha mais nova, estava do outro lado, ajudando-a. A filha mais velha, do mesmo lado que eu, tentava comfortá-la, segurando-lhe a cabeça, beijando-lhe a testa, e conversando com ela, dizendo-lhe que a amávamos.

Antes da minha visita, levei o Julian a passear e comecei a ouvir o álbum Aun, de Christian Fennesz, cuja música me tinha acompanhado noutras perdas. Durante o passeio telefonei à minha vizinha para ver como estavam as coisas. Não muito bem, disse-me, e dirigi-me a casa dela assim que terminei. A mãe estava com os olhos abertos, respirando com dificuldade. Tentei fazer-lhe festas e conversar com ela: estava muito frio na rua e as minhas mãos estavam frias, só lhe podia tocar sobre o cobertor, expliquei. Sentei-me numa cadeira ao lado dela e conversei com as filhas e até foi animado.

Há dias, noutro passeio com o Julian, encontrámos um porco preto enorme no jardim de um vizinho: estava deitado nuns cobertores e até tinha uma taça de comida. Era tão grande que pensei que aquilo era muito bacon, contava eu à irmã da minha vizinha, que não acreditava porque não é legal ter animais agrícolas dentro da cidade. Mas estava lá, eu até tinha tirado duas fotografias, afirmei. Então mostra-me, dizia ela, e eu apresentei as minhas provas e ela continuou admirada, mas convencida. Depois falámos de viagens que eu tinha planeadas e de outros assuntos que já se remeteram ao esquecimento. 

A irmã da minha vizinha entrava e saía do quarto, e houve alguns momentos de silêncio. No ar, senti um odor estranho, que me era desconhecido. Já há muito que não cheirava algo que me incomodasse tanto; quando era miúda era extremamente sensível a odores, mesmo perfumes agradáveis, mas fortes, causavam-me vómitos. Aquilo que cheirei ontem era quase desse calibre; era a úlcera de Kennedy: a pele, que é um órgão, começava a falhar.

Enquanto eu e a minha vizinha estávamos sozinhas no quarto, a mãe deu dois suspiros repentinos e levantámo-nos para a assistir. O coração quase que não se ouvia e apenas respirou mais umas três vezes, já a filha mais velha tinha regressado. Nós apenas assistimos e tentámos dar todo o conforto possível. Assistir à morte de alguém deve ser um dos primeiros sinais de civilização. Decerto que, nos nossos primórdios, poucos sobreviviam até à velhice e quase todos acabavam por ser comidos por predadores. 



 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O conquistador

Depois de dizer que queria defender o direito de duas províncias ucranianas se manterem independentes, o Sr. Putin decidiu invadir a Ucrânia. Em 2014, tinha decidido anexar a Crimeia; em 2008, optou por dar cabo da Geórgia. Ou seja, acha-se um grande conquistador, à semelhança de nós portugueses. 

A Europa não fez nada para o impedir, pelo contrário, andou a aliciar a Ucrânia com uma possível entrada para a UE, o que levou à anexação da Crimeia. Concomitantemente, os americanos foram criticados por só saberem usar e abusar do seu poder militar, logo os EUA não têm nenhuma vantagem em interferir nas manobras de Putin, apenas avisam de que a situação não é muito boa. E daqui a nada começam a oferecer vistos aos refugiados.

Com ou sem invasão, Biden só vai durar um termo, logo nada mudou nos EUA. Siga para bingo...


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Fact-checking Putin

Coincidências

A Rússia é o maior fornecedor de gás natural líquido da União Europeia; mas, em 2018, durante a administração Trump, os EUA assinaram um acordo com a UE exactamente para facilitar o acesso de gás americano ao mercado europeu. Desde então, as exportações americanas para a Europa aumentaram e, em Dezembro de 2021, metade das exportações dos EUA foram mesmo para a UE, o que constituiu um recorde. O Sr. Putin decerto que não está muito satisfeito com os americanos e europeus. 

Parece-me que o objectivo dos EUA é fazer à Rússia o que fez ao Médio Oriente: reduzir o seu poder de mercado. Dado que os americanos agora são exportadores de gás natural, quando a Rússia causa problemas que aumentam o preço, fica mais atractivo para os americanos exportarem. Tal como eu escrevi em 2015 sobre a Arábia Saudita, esta estratégia de manter preços de energia altos favorece os americanos.

Nos EUA, os preços domésticos de gás natural também aumentaram e muitos dos meus vizinhos andam no NextDoor a queixar-se da alta conta de gás natural que receberam no último mês (a minha conta de gás cá em casa foi de $377 referente ao período de 8 de Janeiro a 8 de Fevereiro, mas eu acendo a lareira muito frequentemente). Só que os americanos têm dinheiro para pagar a conta: queixam-se que são pobrezinhos, mas até estão bastante bem dadas as circunstâncias: a mediana dos activos líquidos de uma família americana é de mais de $121 mil. E mesmo os mais pobres têm acesso a programas que os ajudam a pagar a conta de energia. 

 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Feels like you're dying

"Are you sure you want to see it? You cannot unsee it once you do." foi este o aviso que a minha vizinha me deu quando estava a falar com a enfermeira da mãe dela, que me tinha perguntado se eu queria ver uma foto de uma paciente do "hospice" alguns dias antes de morrer. Respondi que queria ver, mas senti um enorme vácuo dentro de mim enquanto olhava para a imagem. 

Nunca me tinha ocorrido que alguém sobrevivesse assim, o corpo completamente gasto, a pele e a carne já em estado de decomposição. Não se vêem músculos, apenas a definição dos ossos cobertos por pele solta, drapeada que nem um tecido, intercalada por recortes de negro. Perguntei se tinha deixado de comer, mas não, naquela altura, a senhora continuava a comer três refeições por dia, mas o sistema digestivo já não devia funcionar o suficiente para levar os nutrientes aos órgãos.

Talvez o vácuo que senti antes, durante, e depois seja uma forma de aceitação: aquele corpo gasto também faz parte da nossa vida. Que alguém se agarre tanto a esta existência, que não morra sem levar tudo o que acumulou, que essencialmente é o que tem no corpo, impressiona. Na realidade, tudo o que fazemos ao nosso corpo afasta ou atrai a nossa morte. "Death is a blessing, in these circumstances" -- "a blessing", observava a enfermeira, uma palavra que raramente uso, mas que ouvi pela segunda vez esta semana. A primeira vez, fui eu que a proferi, mas a respeito de acontecimentos da minha vida -- os tais males que vêm por bem. 

Até agora, nunca tinha acompanhado de perto o crepúsculo da vida de ninguém a este nível. Todas as pessoas que me morreram não chegaram a ter um desgaste de vida tão avançado como o daquela senhora, mesmo o corpo da mãe da minha vizinha ainda não chegou a tal estado. É uma dádiva que recebo, este conhecimento que me dão, e sinto uma admiração enorme por pessoas como esta enfermeira que vivem na cúspide entre a vida e a morte, que dedicam a vida à curadoria da morte de alguém.

"My patients tend to live longer", diz-nos: ela constrói um laço emotivo com eles, a forma como fala, como lhes toca... Não trabalha das 8 da manhã às 5 da tarde; em vez disso, disponibiliza o seu número de telefone e acompanha as famílias dos pacientes fora das horas de expediente. Às vezes, quando ouço alguém falar dos direitos dos trabalhadores a não serem incomodados fora do horário de trabalho, sinto um profundo nojo porque sei que há quem não faça essa distinção e continue a trabalhar para benefício dos outros. Essas pessoas merecem reconhecimento, em vez de censura.

Tenho dormido em ciclos, costumo acordar a meio da noite e passo algum tempo acordada até voltar adormecer. Durante o dia, prefiro os dias nublados, acho a claridade demasiado ofensiva e só consigo sentir-me melhor perto do pôr do sol. Contei à minha vizinha os meus problemas de sono, a minha vontade de não fazer nada. Ela diz que decerto que há uma carga emocional que não posso ignorar por estar tão próximo da mãe dela. Talvez. Sinto que dentro de mim, há um misto de paz, aceitação, e rebeldia. 

Há algo que me puxa para seguir em frente, mas penso não quero que ninguém tenha tanto cuidado comigo quando estiver perto de morrer. Quero morrer antes, sem dar trabalho aos outros, apesar de sentir um enorme conforto em poder ajudar de cuidar de alguém. Não consigo resolver esta dicotomia interior.  

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Deduz-se então!

No outro dia, num comentário, um dos leitores mostrou-se preocupado com a questão de os arrendatários nos EUA não terem direito a deduzir a renda de casa. A dedução mínima nos EUA é de $12550 para uma pessoa individual e $25100 para um casal, ou seja, para parte da renda ser dedutível, teria de ser superior a $1046/mês para um indivíduo e $2092/mês para um casal. Estas rendas encontram-se facilmente nas cidades maiores, mas são consideradas altas fora das zonas urbanas. Depois, no caso de um casal, quem tem $2092/mês para uma renda é capaz de conseguir comprar uma casa e o governo federal tem várias formas de apoiar a compra de casa. 

Deduz-se então que ao ter uma dedução mínima, mas não permitir deduções de rendas, enquanto permite deduções de juros da compra de casa, o sistema americano distorce o mercado em pelo menos três formas: (1) torna as zonas não-urbanas mais atractivas para arrendamento do que as grandes cidades; (2) incentiva a compra de casa em vez do arrendamento, o que promove a acumulação de riqueza a longo prazo; (3) promove os estados com custo de vida mais barato e penaliza os estados mais caros.

Por vezes, estas distorções até são agravadas pelos governos dos próprios estados: por exemplo, a Califórnia limita a construção de novas casas e muitas cidades têm zoneamento bastante restritivo, logo o mercado imobiliário aprecia bastante, o que força as empresas a ter de pagar salários mais altos para atrair mão-de-obra. O efeito destas políticas é que muitas empresas têm vindo a mudar-se para estados com custo de vida mais em conta, como o Texas ou o Tennessee. 

Mesmo indivíduos reformados escolhem sair de Nova Iorque ou da Califórnia para ir viver noutros sítios onde possam esticar o seu pé de meia. Ainda por cima, ao vender a casa, não se paga imposto sobre a mais-valia porque o governo federal presume que a valorização da casa se deveu em parte ao esforço dos donos que a mantiveram.

E os pobres, como é que ficam? Imagine-se alguém que tem um emprego em que ganha o salário mínimo -- o salário mínimo federal é de $7.25/hora ou cerca de $14500/ano (multiplica-se o salário por hora por 2000 horas para chegar ao anual). Do ponto de vista dos americanos, não é desejável que haja muita gente a ganhar o salário mínimo, mas há empregos que pagam o salário mínimo em todo o lado, logo não é necessário a pessoa viver num sítio onde o custo de vida seja caro. 

Para além disso, os pobres têm direito a vários programas de apoio por via dos governos federal e dos estados. Se a pessoa escolhe viver num sítio mais caro, é uma escolha pessoal que o governo federal não acha que tem de subsidiar. Aliás, é esse mesmo o problema: enquanto que os portugueses têm um enorme afecto pela palavra subsídio e são indiferentes a impostos; os americanos detestam subsídios e impostos.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Tecnicalidades

Ninguém se pode queixar de ter um vida aborrecida por estas bandas porque, de vez em quando, fica tudo em pantanas. Na quinta-feira, poucos minutos depois de perdermos a electricidade, uma amiga minha enviou-me uma mensagem a propósito da nossa viagem a Dallas: ainda bem que tínhamos ido no fim-de-semana anterior. Mal sabia eu o fim-de-semana que me esperava. Durante mais de nove horas não tivemos electricidade, mas o tempo passou muito rápido. A minha preocupação maior era a mãe da minha vizinha. Uma pessoa debilitada como ela não pode estar exposta a oscilações de temperatura e passar frio pode ser mortal, logo a prioridade era encontrar algum vizinho que tivesse um gerador. Por sorte, o vizinho ao lado tinha.

Enquanto eu tratava da comida porque o meu fogão é a gás, o vizinho do lado apareceu e começou a avaliar a situação. Descansou logo a vizinha dizendo-lhe que a mãe não iria morrer por causa de uma tecnicalidade e trouxe o gerador para ligarmos a máquina de oxigénio e um aquecedor. Eu forneci o aquecedor portátil que tem controle de temperatura. Quando o ligámos acusava 12 graus centígrados no quarto, mas no espaço de minutos a temperatura aumentou uns cinco graus. Depois de ter almoçado e o quarto estar quente, a mãe da minha vizinha adormeceu e assim esteve o dia todo. Que suspiro de alívio, mesmo assim tínhamos medo que o apagão demorasse muito tempo e não conseguíssemos manter o nível de conforto.

A minha hipótese, que depois se confirmou, era que tinha sido uma sorte termos sido dos primeiros a ter perdido electricidade. Depois também vivemos numa vizinhança em que os cabos de electricidade estão sob a terra, mas claro que os cabos principais que fornecem electricidade à vizinhança não estão enterrados. Um amigo meu português em Houston aguardava a tempestade, que chegou lá horas mais tarde, e queixava-se que a infraestrutura dos EUA era uma porcaria. Um país tão rico em que falta electricidade e que usa madeira em vez de betão para os postes -- não bate a bota com a perdigota. Sabem o que eu digo? É pena os americanos não fazerem parte da UE e não serem subsidiados a fundo perdido para modernizar a infraestrutura...

A Europa não costuma ter os desastres naturais que existem nos EUA, para além de que a densidade populacional na Europa é muito maior. Depois também há o facto de a Europa ter sido reconstruída por causa da guerra, logo houve um esforço de modernização que até foi patrocinado pelos americanos. Aliás, é fantástico que os americanos se interessem mais por tentar criar melhor infraestrutura noutros países e não sintam que a do seu próprio país seja uma prioridade. É um povo meio maluco, mas quando há desgraças é bom ter um americano ao lado porque as coisas acontecem.

Há uns anos, ainda eu não vivia aqui, a electricidade faltou e a esposa do vizinho do gerador ficou muito frustrada, pois achava ridículo não ter electricidade, logo disse que ia comprar um gerador (funcionam a gasolina). O marido tentou explicar-lhe, sem resultado, que um gerador não fazia o que ela pensava; por exemplo, não ia poder ligar o secador de cabelo e as outras geringonças ao gerador. Ela ignorou-o e foi assim que eles acabaram por comprar um gerador, disse ele para concluir a história. E agora com gerador, a única coisa que lhe ligaram foram os carregadores dos telemóveis porque deram prioridade a manter a mãe da minha vizinha viva. Bendita obsessão por esticar o cabelo.

Enquanto eu andei nestas vidas até às 21h30m, os meus amigos portugueses -- os únicos que tenho aqui em Memphis, logo para mim valem o seu peso em ouro -- ficaram sem electricidade em Midtown cerca de duas horas depois de nós. A primeira noite passaram em casa, mas de manhã decidiram vir para minha casa. Assim, estivemos uns dois dias a cavaquear em português, a falar de cultura, história, etc. A filhota deles, que gosta muito da minha casa e anda a tentar convencê-los a comprarem uma casa igual, fazia video-conferência pelo telemóvel com a melhor amiguinha dela e conversavam e brincavam juntas durante horas. A infraestrutura dos telemóveis é uma outra coisa que é uma lástima por aqui, até porque é bastante caro. Quer dizer, depende muito do que se compra porque, entretanto, já há planos mais económicos que apareceram e que são populares com os imigrantes ilegais.

Por falar em imigrantes ilegais, na Terça-feira passada, vieram cá as senhoras da limpeza que também gostam muito da minha casa. A mais velha é da Colômbia e pediu-me conselhos acerca de que revista de decoração devia assinar. Sugeri que visitasse o Barnes & Noble para ver as que lhe agradavam, mas tenho-lhe dado imensas revistas antigas que tinha por aí. Ela, que me trata por tu, disse-me logo que eu estava convidada para ir visitar a Colômbia e ficava em casa dela, que tem vista para o rio e fica à beira da floresta tropical. Os macacos até costumam andar pelo jardim. 

A senhora tem menos de 50 anos, um curso superior, e já está reformada no país dela, tem uma casa novinha giríssima que mandou construir e que está completamente paga, ou seja, tem melhor vida do que eu e é ela que alegremente me limpa a casa. Só fica na América até a filha terminar o curso da universidade, mas a filha já disse que não quer regressar à Colômbia. No meio de toda a conversa, informou-me que na América só não trabalha quem não quer. Afinal, ela chegou aos EUA sem papéis, nem saber falar inglês, e conseguiu arranjar emprego e organizar a vida muito depressa. Os americanos não se orientam porque não querem: as mesmas tecnicalidades que afectam a infraestrutura.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Quentinhos

Estamos a meio da tal tempestade de gelo: choveu bastante e depois congelou. Em princípio irá nevar depois da meia-noite. À volta de 131 mil pessoas ficaram sem electricidade em Memphis, inclusive cá em casa, onde falhou por volta do meio-dia e apenas conseguiram reparar perto das nove horas da noite. Por sorte, tenho lareira e fogão a gás, logo a vida não é muito desconfortável quando podemos cozinhar e sentarmo-nos em frente à lareira.

A ironia de ter estado sem electricidade é que no ano passado, quando tivemos o super-nevão, os pássaros ficaram sem água porque congelou tudo, logo assim que as coisas normalizaram comprei um bebedouro aquecido para a passarada. Só que, sem electricidade, não adianta grande coisa. Mas não me estou a queixar, estamos todos bem.

De manhã, a vizinhança e o meu jardim estavam assim:

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Uma salgalhada

Por volta do Natal, fui jantar a casa de uns amigos portugueses e calhou falarmos em compra de casa e spreads bancários. Um dos meus amigos portugueses mencionou que nos EUA não divulgam a spread e na altura não respondi, mas fiquei a pensar naquilo. Na verdade, nos EUA não há spreads porque as hipotecas são agregadas em instrumentos financeiros que são vendidos a investidores em tranches. A entidade que cria o empréstimo não fica com ele, apenas cobra uma comissão por originar o empréstimo. Quem compra as tranches presume que terá uma certa rentabilidade, mas esta inclui a possibilidade de parte das hipotecas falharem, logo a rentabilidade depende do conjunto das hipotecas agregadas e não de uma em particular.

Todas as comissões que são cobradas aos compradores são divulgadas antes de se realizar a compra de casa; mas, em alguns estados, é comum o comprador pedir a quem vende a casa para pagar os custos de fechar o contrato (closing costs). Depois há também o facto de a maior parte dos empréstimos para compra de casa nos EUA ser a taxa de juro fixa, logo se houvesse um spread, este seria variável.

Recentemente, a Reserva Federal anunciou que provavelmente começaria a aumentar a taxa de referência em Março e conta fazê-lo várias vezes antes do final do ano. Quando isso acontecer, a maior parte das hipotecas existentes ficará na mesma porque têm taxas de juro fixas. Quem será afectado serão as pessoas que estão a comprar casa, pois terão de pagar uma taxa de juro mais alta. No entanto, o normal é os preços das casas diminuirem um pouco para que o pagamento mensal não fique muito diferente. Com os juros mais altos, os americanos têm uma maior dedução nos impostos, pois as despesas com juros de hipoteca são 100% dedutíveis no rendimento colectável, para hipotecas até $750 mil.

Há outros detalhes interessantes. Quase metade das hipotecas americanas são compradas pela Fannie Mae e pelo Freddie Mac, que são empresas cotadas na bolsa, mas com fins sociais (servem para ampliar o mercado de hipotecas, ou seja, garantem as hipotecas de pessoas que têm menos possibilidade de obter crédito) e garantidas pelo governo americano.

Muitas poupanças de americanos estão aplicadas em intrumentos financeiros compostos por hipotecas e também em acções da Fannie Mae e do Freddie Mac, logo parte da receita dos juros das hipotecas reverte para os próprios americanos ou para investidores internacionais que comprem estes instrumentos.

Isto é tudo uma grande salgalhada. Tenho de ter outra conversa com o meu amigo porque ele anda à procura de casa e vai ser a sua primeira compra.

Estamos todos de parabéns!

Portugueses e portuguesas, como dizia o General Eanes quando era Presidente da República Portuguesa, estamos todos de parabéns por mais uma vitória da democracia lusa. A abstenção continua com maioria absoluta, mas como quem cala consente, defere para o PS o exercício do seu mandato. Antes das eleições, Marcelo Rebelo de Sousa aconselhou a que o novo governo passasse uma nova lei eleitoral, logo devia exigir que tal lei fosse passada na AR no espaço de três meses como condição da tomada de posse do novo, quer dizer velho, governo.

Velho é a palavra de ordem: o povo português está muito envelhecido e vive na sombra do passado: acha que o PS de agora é o PS que saiu da derrota da ditadura -- aqui estamos a ser muito generosos porque a ditadura já estava ela própria envelhecida e mal se segurava. Com a população que temos é impossível retirar o PS do poder, logo pode continuar o processo de empobrecimento do país e agora mais celeremente, afinal a maioria absoluta tem de servir para alguma coisa.

Há também que felicitar a pseudo-oposição que temos: Rui Rio devia levar o prémio de pior líder da história do PSD porque o homem não desiste. Ventura, o nosso Chico-esperto de estimação, devia fazer uma auto-avaliação de quanta areia cabe dentro da sua cabeça. Ao BE e ao PCP, temos pena, mas é bem feita. Aos restantes, better luck next time.

Aos pseudo-intelectuais, comentadores, jornalistas, etc.: força na auto-censura, há uma página num futuro livro de história de Portugal dedicada a vós.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Dallas, baby!

Estou em Dallas, TX, para ir ver a exposição do Van Gogh no Dallas Museum of Art. Na quarta-feira, uma amiga minha de Houston perguntou-me se me queria encontrar com ela este fim-de-semana para lá ir e aqui estou. O normal é ser uma viagem de 7 horas de carro desde Memphis, mas demorei um pouco mais do que isso por causa do trânsito.

As pessoas no Texas são uma simpatia -- tem de ser, senão há tiroteio. A rapariga na recepção do hotel perguntou-me se eu tinha preferência pelo quarto e pedi um que tivesse vista da Baixa. Quando ia para o quarto, fiquei um bocado perdida para encontrar o elevador e a senhora da loja de recordações viu-me passar e ficou muito preocupada comigo: de trás do balcão tentava perguntar-me se eu precisava de ajuda -- às vezes deambulo um bocado, mas também gosto de apreciar o sítio onde estou. Para não a ofender, entrei na loja e pedi-lhe ajuda e ela prontamente me disse onde encontrar o elevador, que estava exactamente no sítio onde a moça da recepção disse que ia estar.

Ao pé do bar, estava um moço a tocar e a cantar ao vivo. No exacto momento em que cheguei, cantava Always on My Mind que é a minha canção preferida de Elvis -- olhem que coincidência eu a chegar de Memphis, terra de Elvis, e ele a cantá-lo. Fiquei tão feliz que lhe dei $20 de gorjeta. Depois entrei no elevador e esqueci-me de passar o cartão do quarto para ir para o sétimo andar; sem cartão, o elevador só ia até ao quarto andar, que é público. Procurava o cartão na minha mala e eis que entra um rapaz girissimo que se oferece a passar o cartão dele. Tão prestável e bem-parecido, só no Texas, claro...

Entretanto, meti no Facebook que estava em Dallas e já tenho uma amiga que também está aqui e que nunca conheci pessoalmente a sugerir encontrarmo-nos. Vamos ver se vai dar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Banda Sonora Eleitoral: Parte III

O Bloco de Esquerda, em especial Catarina Martins, preparam-se para lidar com Costinha e exigir o respeito que merecem -- é preciso que as mulheres sejam assertivas e revelem o poder do afrodisíaco feminino, como diria Natália Correia, para poderem inverter a cópula. Sabem, é como quando os homens estão com dificuldades e pedem "Faz-me vir..." e elas fazem o obséquio; é fácil quando eles deixam a teimosia de parte. 

 Resta então aprender os ensinamentos de Ri-ri (não, não é a Catarina, é mesmo a Rihanna) e exigir que Costa se submeta ao poder feminino para ele sentir o homem que é.

Engole, Costinha... o teu orgulho, claro.


Only girl in the World -- Rihanna

I want you to love me
Like I'm a hot ride (uh, yeah)
Be thinkin' of me (uh)
Doin' what you like
So, boy, forget about the world
'Cause it's gon' be me and you tonight (yeah)
I wanna make you beg for it
Then I'ma make you swallow your pride, oh (uh, uh)
Want you to make me feel like I'm the only girl in the world
Like I'm the only one that you'll ever love
Like I'm the only one who knows your heart
Only girl in the world
Like I'm the only one that's in command
'Cause I'm the only one who understands
How to make you feel like a man, yeah
Want you to make me feel like I'm the only girl in the world
Like I'm the only one that you'll ever love
Like I'm the only one who knows your heart
Only one


quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Banda Sonora Eleitoral: Parte II

Rui Rio, o líder do segundo partido mais importante da democracia portuguesa, que peca por falta de originalidade, também irá recorrer a Bruno Mars, mas com o tal optimismo irritante e chorrilho patético. Para Rio, é certo que Costinha e sua obsessão de dominância, tão anti-Soares que pelo menos partilhava o poder com Cavaquito, deixam Rio e PSD fora do poder celestial, onde os meninos e meninas laranjinhas se poderiam espremer à vontade. Responde Rio a Costa que este último o bloqueia de entrar no céu. 

Sejamos realistas (e Freudianos), toda esta luta de galos tem algo a ver com frustrações sexuais...

Locked Out of Heaven -- Bruno Mars

Never had much faith in love or miracles
Ooh!
Never wanna put my heart on the line
Ooh!
But swimming in your water is something spiritual
Ooh!
I'm born again every time you spend the night
Ooh!

'Cause your sex takes me to paradise
Yeah, your sex takes me to paradise
And it shows, yeah, yeah, yeah

'Cause you make me feel like I've been locked out of heaven
For too long, for too long
Yeah, you make me feel like I've been locked out of heaven
For too long, for too long

Oh, yeah, yeah, yeah, yeah,
Ooh!
Oh, yeah, yeah,
Oh, yeah, yeah, yeah, yeah,
Ooh!

You bring me to my knees, you make me testify
You can make a sinner change his ways
Open up your gates 'cause I can't wait to see the light
And right there is where I wanna stay

'Cause your sex takes me to paradise
Yeah, your sex takes me to paradise
And it shows, yeah, yeah, yeah

'Cause you make me feel like I've been locked out of heaven
For too long, for too long
Yeah, you make me feel like I've been locked out of heaven
For too long, for too long