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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Males menores

A Nancy Pelosi, porta-voz da Câmara dos Representantes, está na Ilha Formosa, apesar de a China ter avisado os EUA de que uma visita oficial de alguém com um cargo tão alto seria considerado uma agressão à soberania chinesa. É difícil de saber quais as reais intenções dos americanos, mas há várias teorias. Primeiro, diga-se o óbvio: Depois de a China dizer aquilo, ela quase que tinha de ir porque a política internacional dos EUA é decidida pelos EUA. 

Por um lado, a visita pode servir de aviso à China para não invadir a Ilha Formosa. Por outro, cultivar animosidade contra a China era a política da última administração e Biden não se desviou grandemente dela. Não é claro que a visita de Pelosi tenha sido planeada com a Administração Biden e ele tem andado a tentar meter água na fervura, até disse que o Pentágono não achava que a visita fosse boa ideia. Por sorte, como se fosse, foi anunciado que os americanos assassinaram um dos arquitectos dos atentados de 11 de Setembro de 2001 e Biden já fez o seu inevitável discurso, apesar de ainda testar positivo ao vírus Corona. 

Há quem diga que Pelosi tem interesses pessoais na visita, mas isso parece-me mais teorias à moda de QAnon. Parte do eleitorado americano não nutre simpatia pela China, logo isto pode servir de golpe eleitoral dos Democratas meses antes das eleições intercalares, nas quais estão em causa as lideranças democratas na Câmara dos Representantes e no Senado. 

De qualquer dos modos, se a guerra entre a Ucrânia e a Rússia era má, uma invasão da Ilha Formosa pela China é quase um anúncio do fim do mundo que conhecemos. É que os processadores para os computadores vêm da Ilha Formosa e sabe-se lá mais o quê. E depois há também as coisas que são produzidas na China. Isolar a Rússia é fácil; isolar a China é quase impossível a curto prazo. A não ser que se queira uma enorme crise mundial com outra guerra à mistura. Mal por mal, já nos basta a da Rússia.

Na Quinta-feira há eleições no Condado de Shelby, no Tennessee. Hoje telefonaram-me a perguntar se eu ia votar nas eleições e tentaram convencer-me em votar em dois candidatos democratas, um para juiz e outro para District Attorney. Perguntei porque é que ambos os candidatos eram homens e qual a razão de Biden não apoiar mais mulheres. A resposta é que eu devia votar nos Democratas porque tinha de escolher o mal menor. Parece que é o mote do século XXI.



quarta-feira, 9 de junho de 2021

Números

É francamente misterioso que a China tenha tão poucas infecções e nem sequer tenha tido uma segunda vaga. Bem sei que, na primeira vaga, fecharam as pessoas em casa, pregando tábuas em janelas e portas. Mesmo assim, um país tão grande devia ser mais difícil de controlar uma pandemia.

Hoje no trabalho, um colega inglês perguntou o que é que eu achava de os ingleses terem retirado Portugal da "lista verde". Respondi que achava bem. Não sabemos como as coisas se irão desenrolar no Outono, logo é necessário exercer cautela. O que acho mal é a falta de orientação dos governos, que deixaram as pessoas gastar dinheiro e depois tiram-lhes o tapete debaixo dos pés. 

Quem achava que limitar o comércio internacional ia criar emprego e crescimento tem agora um excelente caso para estudar. É desta que a Economia consegue dados para ser uma ciência a sério...

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Crescimento "robusto"

Quem estuda economia sabe que medir a economia é uma grande chatice. O PIB, uma medida que já vem de 1937, foi proposto por Simon Kuznets e inicialmente foi importante para medir o progresso que se fazia na luta contra a Grande Depressão. O mérito do PIB mais apreciado naquela altura é que descia quando as coisas ficavam más e subia quando elas melhoravam. Hoje em dia a lógica é a inversa, pois nós sabemos que as coisas estão más quando o PIB desce e melhoram quando ele cresce--ou será que melhoram? Medir uma economia através do PIB tem muitos defeitos, mas é a métrica mais popular e mais fácil de compreender.

A semana passada saiu a revisão da estimativa para o crescimento da economia americana no segundo trimestre: o crescimento homólogo do PIB foi revisto de 2,3% para 3,7%. A Bloomberg teve logo uma peça em que se aconselhava cuidado com o número do PIB porque o Rendimento Doméstico Bruto apenas aumentou 0,6%. A verdade deve estar entre um número e o outro. Entretanto, em Agosto, os americanos estão um bocadinho deprimidos, pois onível de confiança dos consumidores caiu.

Talvez se recordem que a economia alemã expandiu a 0,4% no segundo semestre, depois de ter expandido a 0,3% no primeiro. A The Economist denota o desempenho robusto da Alemanha, que contribuiu para o maior crescimento da Zona Euro. O governo alemão também está feliz com o resultado. Deus abençoe a Alemanha, que eu não tenho uma bênção aqui à mão. Depois de ler a Bloomberg, fiquei confusa com a definição de "robusto". Das componentes do PIB da Alemanha, as exportações cresceram 2,2%, mas o terceiro parceiro comercial mais importante para a Alemanha é a China. Hmmm, será isto robusto?

Já sei que, de acordo com algumas pessoas, os problemas da China têm a ver com o mercado bolsista, não são reais. Na realidade, construir cidades vazias é uma óptima alocação de recursos. Ter terras agrícolas tão poluídas que os agricultores e os seus filhos têm cancro, mas continuam a comer o arroz porque arroz poluído, que eles sabem que os mata, é melhor do que morrer de fome também é óptimo. Construir escolas que "obedecem" a leis de qualidade de construção civil tão más que elas caem com crianças lá dentro também é bom. E que dizer de usar imobiliário para garantir empréstimos para se "investir" na bolsa? A realidade é aquela coisa que nos morde de vez em quando, não é?

Os gregos continuam a desapontar: não bastava terem sido chamados de uma oddity pelo The Economist, quando se anunciou o seu crescimento de 0,8% no segundo trimestre, como agora o seu crescimento foi revisto em alta para 0,9%. A maior causa deste desempenho foi a descida das importações, que contraíram 4,9%. A Bloomberg diz que os economistas ficaram chocados com estes números e estão a contar com más notícias no terceiro trimestre para o tradicional "I told you so..." No entanto, os números foram cozinhados pela própria Grécia, logo sabe Deus se são confiáveis ou não.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Olhos em bico!

Não sei o que pensar sobre os motivos da China para intervir no mercado bolsista chinês. Diz a Bloomberg hoje:
Authorities want to stabilize equities before a Sept. 3 military parade celebrating the 70th anniversary of the World War II victory over Japan, said two of the people, who asked not to be identified because the move wasn’t publicly announced. Treasury sales allow policy makers to raise dollars needed to bolster the yuan after a shock devaluation two weeks ago, according to different people familiar with the matter.

Este pessoal que controla a vida de milhões -- OK, mais de mil milhões -- de almas parece-me muito criativo. Que fazer senão um short no mercado chinês para 4 de Setembro?

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Mundo endividado...

Hoje, no programa da Diane Rehm está a realizar-se uma discussão engraçada sobre a actual crise da China e o seu impacto nos EUA. No programa alguém disse que o nível de dívida mundial é de $300 mil biliões de dólares (nos EUA dir-se-ia $300 triliões porque os americanos usam a escala curta), enquanto que o PIB mundial é de apenas $75 mil biliões. Para algumas pessoas, isto parece assustador, mas não é necessariamente, pois o mundo, ao contrário de países individuais, é um sistema fechado e as dívidas de uns são os créditos de outros--a dívida mundial é cancelada exactamente pelos créditos de quem emprestou.

A dívida ao nível mundial não tem um efeito negativo no mundo como pode ter a dívida nacional para um país. O que tem é um efeito redistributivo de riqueza, pois parte do rendimento futuro dos países devedores vai ser usado para pagar o custo de contrair a dívida, i.e., os juros. Esses juros serão contabilizados como rendimentos dos países credores. Para o mundo, saiu de um bolso e entrou no outro, logo do ponto de vista contabilístico fica-se na mesma.

Como se observou no programa, é mais relevante saber o que essa dívida compra e eu acrescentaria a saúde financeira de quem a contrai. O que a dívida compra informa-nos acerca da criação de riqueza na economia. Por exemplo, na China há dívida que é contraída para construir edifícios que ninguém usa, logo esse investimento não gera um retorno para a economia (em Portugal também há esta ideia que autoestradas e edifícios vazios geram riqueza ao ser construídos). O que é gerado é uma antecipação de rendimento futuro--isto é, tira-se rendimento do futuro para ser gasto no presente. No futuro teremos menos dinheiro porque parte do nosso rendimento é usado para saldar a dívida.

Outra forma de endividamento chinês é contrair dívida para comprar acções no mercado bolsista. Note-se que as empresas que estão cotadas na bolsa chinesa não têm o hábito de dizer a verdade nos relatórios de desempenho (a avaliar pelo BES, em Portugal também há esse problema). Muitas das empresas chinesas valem menos do que elas dizem. Há ainda a agravante de alguns dos empréstimos chineses que foram usados para insuflar o mercado bolseiro terem como garantias activos de imobiliário chinês, cujo valor é duvidoso.

Nós sabemos que o mercado imobiliário chinês é uma bolha, só não sabemos o seu tamanho nem quando irá estalar. Há quem diga que é desta que a coisa rebenta, mas um dos comentadores no Diane Rehm Show disse uma coisa que faz muito sentido: a China controla a saída de dinheiro, logo a maior parte das pessoas não consegue tirar o dinheiro da China, logo tem de o investir nacionalmente: ou investe na bolsa ou em imobiliário. Se o mercado bolsista está em sarilhos, as pessoas provavelmente irão tirar dinheiro da bolsa e metê-lo noutro sítio, i.e., em imobiliário.

A crise actual tem o potencial de insuflar o mercado imobiliário chinês ainda mais no curto prazo, fazendo com que o estalo da bolha imobiliária chinesa seja muito maior no longo prazo.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Será coincidência?

Hoje de manhã, a United Airlines adiou voos por causa de um problema com os computadores. Os voos já foram retomados.

Neste momento, a New York Stock Exchange tem a actividade cancelada por causa de um problema com os computadores.

O mercado accionista chinês está a cair a pique. Muitas das companhias suspenderam a comercialização das suas acções, correspondendo a 40% do valor do mercado chinês.

E depois, no background, há a batalha Grécia vs. UE em Bruxelas.