O Pedro Nogueira Ramos foi meu professor de Macroeconomia na FEUC e é um dos professores de cujas aulas me recordo mais nitidamente. No final do semestre, ensinou-nos a Life-Cycle Hypothesis, mas não me recordo bem se tinha tradução para português, que suponho seria qualquer coisa como a hipótese do ciclo da vida. É uma ideia desenvolvida pelo Franco Modigliani e pelo Richard Brumberg no início dos anos 50.
De acordo com esta teoria, as pessoas gerem o seu consumo não numa perspectiva de curto prazo, mas tendo em conta a duração da sua vida, de forma a que esse consumo não sofra variações tão grandes como as variações do seu rendimento. Sendo assim, endividam-se enquanto jovens, pois contam ter um rendimento mais alto que não só permita pagar essa dívida, como também poupar e investir para quando forem mais velhos e deixarem de trabalhar.
Que ideia extraordinária!, pensei eu naquela altura. E quero ser assim, decidi, quando devia ter uns 19 ou 20 anos. Só que Portugal não funcionava assim. Ninguém emprestava a jovens a não ser que houvesse um fiador. Investir e poupar com salários baixos, ou tendo emprego precário, também não parecia provável e eu nem tinha a certeza que alguém me desse emprego, dado que não tinha cunhas, nem estava filiada num partido.
Tive uma ideia: o que eu precisava era de me diferenciar no mercado de trabalho e pensei que fazendo um mestrado nos EUA me desse uma vantagem comparativa quando regressasse a Portugal. Porquê os EUA? Três razões: primeira, já conhecia o sistema dado que fiz um programa de intercâmbio lá durante a licenciatura; segunda, as minhas notas eram demasiado baixas para fazer mestrado na Europa em Portugal, e, talvez a razão mais importante, os americanos financiavam mestrados.
O meu plano não correu como o imaginei porque os americanos decidiram que eu não era material só para mestrado; devia era fazer um doutoramento e até me pagavam para isso. As teoria que o Pedro Nogueira Ramos me ensinou bateu certinho nos EUA. Assim que cá cheguei, deram-me um cartão de crédito e eu fui muito responsável no seu uso: gastei sempre o que podia pagar no mês seguinte, excepto perto do final do doutoramento. No semestre antes de terminar o curso devia uns 4 mil dólares no cartão de crédito, o que excedia a minha bolsa de estudo.
Na altura, o meu então marido já tinha emprego a tempo inteiro, logo não arrisquei muito. Para além disso, não eram gastos supérfluos: metade da dívida do cartão de crédito foi para comprar um computador portátil para me forçar a escrever a tese (um ThinkPad da IBM), o resto era as propinas do curso. Arranjei emprego uns quatro meses depois de comprar o computador e meio ano antes de terminar o curso. Não só paguei a dívida do cartão de crédito em poucos meses, como assim que cheguei ao emprego, comecei e poupar e a investir na conta 403b para a reforma.
Segui e sigo religiosamente o que o Pedro Nogueira Ramos me ensinou. Dos professores que tive na licenciatura, sem dúvida que ele foi o mais influente na minha vida. Lamento imenso o seu falecimento em Julho passado. A FEUC faz bem em o homenagear com este prémio.
Alguns professores fazem a diferença, sim. Todavia, nunca, mas nunca tive algum que fizesse a unanimidade. E sobre um dos mais especiais que tive, alguns limitavam-se a dizer que era parvo, porque tinha posto a turma a fazer uma experiência do tipo "Helicopter Money". E também tive um que, ao contrário de muitos, eu achei que era bem fraco - só muito mais tarde percebi como tinha sido formado o meu erro de percepção e como continuava a ser valiosíssimo o que com ele aprendera.
ResponderEliminarAgora, lendo o postal de Rita Carreira descobri, finalmente, de onde vinha mesmo algo que um professor recomendou durante a sua última aula.
Adenda:
Para que Cristiano Ronaldo fizesse o que a Rita sugeriu no postal anterior, Ronaldo teria de ter sido capaz de entender profundamente o que Jordan Peterson disse dele, em público, depois de, por convite daquele, terem falado durante um dia na sua casa em Manchester.
Parece-me que o Jordan Peterson se sai mal dessa história. Ele devia ser mais discreto com os "clientes".
EliminarSeja bem reaparecida.
ResponderEliminarMuito obrigada.
EliminarFoi dos melhores professores que tive na FEUC. Ainda hoje me custa um pouco aceitar o que aconteceu. Creio que o professor estava a escrever (ou a pensar em escrever?) outro livro mas não faço ideia do tema ou da fase de desenvolvimento em que o livro estava... Por acaso gostava de saber.
ResponderEliminarFoi dos melhores professores que tive na FEUC. É uma tristeza o que aconteceu...
ResponderEliminarSei que o professor estava a escrever ou a pensar escrever outro livro... Nunca soube mais nada sobre isso.