segunda-feira, 9 de junho de 2014

Cartas dos Açores

O RESPLENDOR DAS GUERRAS DO ALECRIM E DA MANJERONA


Cristóvão de Aguiar


Tivesse António José da Silva, o Judeu, por um toque de magia, tido conhecimento da nova e carnavalesca batalha de flores que deflagrou, nas últimas semanas, na Avenida Marginal de Ponta Delgada, por ter sido despoletada uma granada defensiva, cujos estilhaços quase atingiram o resplendor da imagem do Ecce Homo, e teria acrescentado mais uma parte, a 3.ª, à sua ópera joco-séria, Guerras do Alecrim e da Manjerona, a fim de lhe dar um final apoteótico e de maior comicidade.

Nesta jihad islâmica ou, traduzindo para português de lei: nesta guerra santa de uma nova cruzada, ou guerrilha idólatra, têm entrado na liça padres de duas nature­zas: os néscios ultramontanos e os que sabem o que fazem e o que dizem. Um deles, pertencente à hoste fundamen­talista e ultramontana, brindou, num jornal, o Bispo de Angra e demais Ilhas dos Açores com um epíteto digno de quem veio: uma besta-quadrada... Têm também dado a sua achega ilumi­nados sociólogos, alguns ele­mentos do Povo, mas sobretudo certa fidal­garia (os lídimos carregadores açorianos do andor e donos consu­etudinários do resplendor) que des­cende, em linha recta, da família da Senhora Dona Joana Tomásia da Câmara Albuquer­que, herdeira, por não ter havido filho varão, do Condado da Ribeira Grande.

Talvez fosse útil, neste momento, refrescar a memória dos que, bea­tificamente, falam em dessacralização do resplendo­r da imagem milagrosa, acaso seja exposto no Museu de Arte Antiga, e reler a parte da Bíblia que reza assim: […] “Não faças para ti ídolos, nenhuma repre­sentação daquilo que existe no céu e na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra; não te prostres diante des­ses deuses, nem os sirvas…] ”; o Bezerro de ouro que Moisés, na descida do Monte Sinai, pôs em cacos…

Nesse longínquo con­dado vigorou e acho que vigora ainda o chamado alqueire de vara pequena, para que os ricaços do tempo aumentassem as suas terras e ficassem mais ricos, assim podiam ascender ou aceder ao posto de morgado. As sacra­mentais aldrabices contabilísticas ainda muito em voga no nosso tempo, sobretudo nos orçamentos do Estado e outros cambalachos, dando razão ao Eclesiastes: Não há nada de novo debaixo da rosa do Sol!
Esta 2.ª Condessa da Ribeira Grande casada com um tio, Guido Augusto da Câmara e Ataíde, foi quem ofereceu o valiosíssimo resplendor à imagem do Santo Cristo, decerto para pagar alguma promessa e receber em troca benefícios espirituais, que essa gente nobre nunca deu almoços grátis…

Causas próximas desta guerrilha ou batalha de limas carnavalesca, que terá o seu armistício em breve: a ida temporária do referido resplendor para Lisboa, a fim de figurar numa exposição no Museu de Arte Antiga, onde já estiveram peças ainda mais valiosas, quer do País, quer do estrangeiro, Oriente incluído, e, que se saiba, ninguém desses países fez cenas próprias de uma barbárie elitista... Do mesmo modo, também lá esteve, em exposição, a Custódia de Belém, e ela não se dessacralizou pelo facto de terem caído olhos profanos, atónitos, sobre a maravilha que Mestre Gil Vicente concebeu. Trata-se de uma singular obra de arte, que, como todas, deve ser fruída com emoção estética, independentemente das crenças religiosas de quem as aprecia.

São Miguel, porém, cioso de que lhe roubem a preciosidade, como freirinha egoísta que esconde a receita de um doce conventual, bate o pé, diz que não, faz cordões sanitários, humanos e desumanos, abaixo-assinados ridículos, porta-se como menino birrento que se recusa a que lhe mudem as fraldas borradas do espírito e da mente, enfim, representa, no Campo de São Fran­cisco, um triste espectáculo que o Santo Cristo, o verda­deiro, não o feito de madeira e recamado de ouro, não aprovaria: primeiro, porque é inteligente; segundo, porque aborrece burridades e brutezas pseudo-intelectuais de certas cria­turas que se dizem cultas e crentes fervorosas, mas são tão-só fanáticas e pesporrentes elevadas à quinta casa…

O mais avisado será arranjar um Bispo novo, doméstico, domesticado, dócil, que feche os olhos ao que qualquer bicho-careta apeteça fazer, destituir o actual pre­lado (sugiro que seja substituído pelo sacerdote que desfei­teou o actual Bispo de Angra), transferir a diocese para Ponta Delgada, como já houve ameaços em tempos recuados, tornar a Ilha independente, mesmo que os Americanos não estejam pelos ajustes, como há pouco foi escrito por um ex-reitor, e deixem lá o resplendor da ima­gem ir a Lisboa, ao Museu de Arte Antiga. Garanto-vo-lo que será muito bem tra­tado e o Santo Cristo genuíno não se importa, até agradece, e a imagem também, sem­pre fica mais aliviadi­nha por uns tempos do peso sobre a cabeça, ima­gem de madeira fina, que pode criar caruncho, ofere­cida pelo Papa Paulo III ou Clemente IV a umas freirinhas da Caloura que viajaram até Roma com a finalidade de pedir autorização ao Papa para edifi­car um Convento na terra onde se cultiva o melhor vinho de cheiro da Ilha...


Ilha do Pico, 8 de Junho de 2014

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