terça-feira, 10 de outubro de 2017

Frases famosas 93

O senhor não se amofine. Então não, quem não ficaria amofinado. Mas pense melhor, não há razão para amofinação. Não se trata de pensar, caro senhor, esta amofinação foi-me directamente às tripas, e as tripas não pensam.
Tem o senhor razão, mas não pode dizer-se também que se amofinem. Pois não tem razão o senhor, que se amofinam e bem as sente amofinadas quem tenha sido amofinado. Mas pode desamofiná-las conversando, como tento agora fazer consigo. Isso seria bom, só que, como lhe disse acima, as tripas não pensam. Pois já me tinha dito isso, sim, que fazer então para que se desamofinem. Que fazer, realmente. É que enquanto não se lhe desamofinarem as tripas, também o senhor não ficará desamofinado, e juro-lhe que tudo isto não é razão para que se amofine. Pode até ser, mas são as tripas. Pode tentar um arroz de marisco, assim já ficam entretidas. Tenho medo que, amofinadas, se recusem a fazer o seu trabalho, e lá se ia o arroz de marisco, que está caro. Tem o senhor razão, está caro, e ora aí está uma boa razão para que nos amofinemos. Nós e as tripas que, não estando amofinadas antes, bem poderiam apreciá-lo sem que se amofinassem. Mas não é este o caso. Infelizmente, não. Que fazer, portanto, o problema persiste, talvez seja uma questão de tempo. Pode ser. O tempo cura tudo. Isso aí é que já não sei. Tem o senhor razões para desconfiar da veracidade deste lema. Fique sabendo que sim. Interessar-me-ia mais ainda saber porquê. Pois já lhe conto. Que não seja uma pessegada à Walter Scott, com fantasmas em castelos e filhos pródigos que se revelam. Uma pessegada. Sim, é uma expressão que usava a minha tia-avó quando não gostava de alguma coisa, como dos filmes do Fellini. A sua tia-avó não gostava dos filmes do Fellini. Talvez seja um exagero dizer isto desta maneira, acho que ela só viu um, mas passou o filme todo a dizer que pessegada. Tem o senhor a certeza que não disse marmelada. Tenho, pois. É que o meu tio-avô dizia marmelada. Não me diga. Sim, quando não gostava de alguma coisa, como dos filmes do Pasolini. Não me diga que o seu tio-avô não gostava dos filmes do Pasolini. Pois não. Que tristeza. Concordo. Isso sim, deixa qualquer um amofinado, nem o Visconti, nem o Rosselini. Esses ele não viu. Pois, em boa verdade a minha tia-avó também não. Pode, portanto, acontecer que não lhes falhasse totalmente o gosto pelas glórias do cinema italiano. É da mais elementar justiça reconhecer essa possibilidade. Que não envolvessem conservas de fruta em todos os seus juízos cinematográficos. Já eu acho que vou comer uma torrada com geleia, pode ser que assim se me desamofinem as tripas. Eu se fosse a si, experimentava antes um Antonioni. 

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