segunda-feira, 23 de março de 2026

Cocktail da semana para nos distrairmos

Há quatro dias, o Rahm Emanuel deu uma entrevista ao Ian Bremmer, do Eurasia Group, em que indicava que há dois navios russos cheio de petróleo a caminho de Cuba e esse vai ser o teste de Trump: será que vai deferir para o Putin, será que não? Os navios chegam amanhã, Segunda-feira, logo falta apenas umas horitas para sabermos.

Ultimamente, Trump não tem ligado muito a Putin, o que me leva a crer que arranjou maneira de fazer dinheiro sem ter de construir hoteis em Moscovo. Por outro lado, se Putin tinha algo que comprometesse Trump, os ficheiros do Epstein devem empatar com tal coisa. Ainda por cima porque andam aqui a brincar com os emails, mas o verdadeiro tesourso está nos vídeos pois o Epstein tinha a casa toda sob vigilância de video, até os quartos de banho.

Depois há os detalhes de que a guerra no Irão não está a correr muito bem para os EUA, e certos aeroportos estão uma confusão porque o pessoal da TSA não está a ser pago devido ao fecho parcial do governo, e alguns não aparecem no trabalho, logo Trump precisa de coisas para distrair o pessoal--aliás, o ataque ao Irão foi isso mesmo, uma distração dos ficheiros do Epstein, que correu tão mal que até publicaram mais ficheiros para tentar distrair do fracasso do ataque ao Irão.

É necessário arranjar uma distração nova, o que, se Rahm Emanuel esta correcto, irá ser uma intervenção em Cuba. Nesse caso, sugiro o cocktail Cuba Libre, que é apenas rum branco, sumo de lima, coca-cola, gelo, e uma fatia de lima. Usem Coca-Cola adoçada com açúcar e não xarope de milho. Pela minha parte, tenho mesmo de ir à loja comprar uma garrafa de Veuve Clicquot, a ver se o One Beautiful Big Obituary sai mais depressa...

P.S. Trump também sugeriu que vai mandar pessoal do ICE para os aeroportos fazer o trabalho da TSA. Também é uma boa distração, especialmente se os malucos do ICE começarem aos tiros no aeroporto.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Eu, boa pessoa? Não.

Então este fim-de-semana os EUA atacaram o Irão e decerto que daqui a uns meses atacam Cuba, pois parece ser essa a ideia de como mudar o foco de atenção dos ficheiros do Epstein. A meu ver, não há nada nos ficheiros que não se suspeite ou até saiba. É óbvio que ele teve sexo com menores e é irrelevante para quem votou nele porque quem votou nele acha que esse voto ainda é justificado. No outro dia falei com uma vizinha minha é psicóloga e que votou nele e que me dizia que as raparigas de 16 anos dos ficheiros do Epstein deviam ter tido alguma culpa. Eu fiquei calada porque nesse exacto momento a única coisa que me passou pela cabeça foi "What a fucking idiot!" A mulher é burra, do mais idiota que existe, e eu já tenho idade suficiente para ter aprendido que não vale a pena falar com quem não tem capacidade intelectual para mais. E dá-me nojo porque é uma mulher madura que não se sente responsável por proteger crianças de 16 anos e até menos de homens maduros e nojentos. Só sinto asco ao quadrado.

Na semana passada, a minha empregada veio a minha casa e acabei a dar-lhe um sermão no meu portunhol aldrabado. Quando Trump foi eleito, ela postou no Instagram uma foto em frente à Trump Tower em Chicago, eu disse-lhe que era um dia triste para os EUA, ela disse-me que Deus mete e tira reis. Eu fui aos arames e passei longas semanas a imaginar que a despedia, mas contive-me, apesar de ter ficado desgostosa. Então na semana passada lembrei-a da foto que tinha postado e do que eu lhe tinha dito e ela, que imigrou ilegalmente para os EUA, disse-me que ele era a melhor alternativa porque era contra os gays e transsexuais e que os outros iam transformar os jovens em gays e transexuais.

Eu dei a minha opinião: sempre houve gays e ninguém é transformado em gay ou transsexual, as pessoas nascem assim e não é saudável viver numa sociedade em que pessoas gays e transsexuais são perseguidas. Claro que não a convenci. Eu devia era ter-lhe perguntado se ela era Deus ou Jesus para andar a julgar os outros, mas não me lembrei na altura. Ou devia ter lido a Bíblia para ter competência para citar um evangelho qualquer, mas não tenho interesse, talvez um dia lá chegue porque li recentemente a Ilíada e a Odisseia e há histórias semelhantes nos três textos. No final, aconselhei-a, como sempre faço, a ter cuidado porque se o ICE a apanha, é deportada, apesar de ela já estar regularizada. Mas cá dentro penso que, se a apanharem, ela continua a ser apoiante dele (ou será adepta) e, se fosse cidadã e pudesse votar até continuaria a votar nele. Se acontecer, em Portugal, dir-se-ia bem feita, nos EUA dir-se-ia "It couldn't have happened to a better person".

Mas eu, boa pessoa? Definitivamente, não.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Carta a uma centenária em 25 de Janeiro de 2026

Dear J.,

I hope you are doing well, or at least as best as can be considering our common political nightmare. More than a foot of snow has fallen outside and I have spent two days at home with a roaring fire and a flock of birds outside eating from the feeders. Now, just like almost six years ago, as we entered the pandemic, I look at the birds and feel that they are safer and have more freedom than we do. I am so saddened and sickened every time I read the news.

In your last email, you asked if I had gone to any of the demonstrations and I have not. I have been volunteering with the Master Gardeners, and donating food to food banks. I have also started to exclude Trump voters from my life. I continue to listen to Martin Luther King, James Baldwin, and Toni Morrison, as I find them the most comforting as we push through these most disturbing times. You have also lived through many dire times before and they somehow ended in one way or another, but always at great cost to many involved, either through suffering or through loss of life.

This shameful time will also reach an end, although I struggle to see a way in which I will be able to trust and feel compassion for the folks that have voted to support this level of violence. Somewhere in my mind I think that people like me and you are owed some sort of contrition from the GOP voters, but it is useless. No amount of contrition will right this wrong and I cannot find in me any kindness to extend to these voters. In fact, I actually feel epicaricacy when I hear that people that I know voted for this President have lost their jobs or have suffered any ill event.

Since yesterday, when I heard the details of the death of Alex Pretti, I have been contemplating that the Universe or God, or whatever it is that unites everything in this world, has a peculiar sense of humor. White people are being hunted down much like minorities have been for centuries; although this is not new. Less than two centuries ago, many people did not have rights, so it was an illusion that we thought that condition had been overcome.

However, this reality not only feels like an experiment, but it is also a way for Americans to look at themselves in the mirror. So many times, the U.S. has supported this type of action in other countries, and even in the U.S., a century ago, Mexicans were hunted down by the Texas Rangers, and then there are the Blacks and how much they have had to endure. We finally have gone through all the minorities and so now it is the turn of the whites to be the victims.

For the last 10 weeks, I have been reading the Odyssey, and before that I read the Iliad. The amount of violence in these two foundational books of our civilization feels disturbingly like the present, even though I wish we were much further removed from that way of being. However, I am happy that I have found some nice people in the online classes. The next book that I may take a class on is Ovid’s Metamorphoses, but I have not enrolled yet.

A few days ago, I found some inspiration to start going through my many stacks of papers and things that I need to donate. I have not made much progress, but I am happy to have started. The reason that I had been procrastinating was because, in Houston, as soon as I had my house organized and comfortable, I ended up having to move, so I have been afraid that that may happen again with this house.

How has this storm worked out for you? I hope you haven’t spent too much time watching the news. I am so sorry that I am not in very good spirits today. The narcissus and daffodils have started to sprout and soon we will have flowers. I also planted more than 100 tulips, so I look forward to being able to show you photos of their blooms. By the way, the Dixon Gallery and Gardens (a local museum) is celebrating 50 years today and they planted 650 thousand tulips this year. It should be amazing to visit in 5-6 weeks, so get ready to be bombarded with photos of tulips.

I love you dearly and send my best to S.,

Rita

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Um ano sangrento

Com o novo ano, as actividades do ICE intendificaram-se significativamente. Tenho saído pouco de casa, e tenho evitado a zona da Baixa de Memphis, logo não vi ainda ninguém do ICE, mas este fim-de-semana calhou ir ao Lowe's (uma loja tipo Leroy Merlin) comprar uns sacos de solo para vasos e umas lâmpadas e vi uma patrulha da National Guard a andar pela loja. Fiquei estupefacta porque não estava mesmo à espera de encontrar meia-dúzia de jovens fardados. Pelo menos, estes são treinados e devem ter o mínimo de bom senso, dado que muitos são alunos universitários que se inscrevem para servir em troca de financiamento para pagar os estudos. Já os do ICE contratam qualquer idiota que respira, aliás se calhar nem é preciso respirar porque não fazem background check, fazem um teste de drogas, mas não ligam ao resultado, e mesmo que a pessoa não preencha os formulários contratam na mesma--este foi o relato de uma jornalista que se candidatou, não fez seguimento do processo, falhou o teste de droga porque tinha consumido marijuana legal menos de uma semana antes, e, mesmo assim, foi contratada. Disseram-lhe que ia passar uns meses a processar papelada, mas depois vão meter toda a gente a patrulhar as ruas americanas com armas. "Patrulhar" é eufemismo para ameaçar e torturar.

O projecto piloto de todo este teatro está a acontecer no Minnesota, especialmente em Minneapolis. Se cresceram em Portugal nos anos 90, decerto se recordam do Beverly Hills 90210, no qual a Brenda e o Brandon, os gémeos que protagonizam a série, são oriundos do Minnesota e têm grandes preocupações sociais e morais. E é mais ou menos assim que é o pessoal do Minnesota, mas devo acrescentar que têm um sentido de humor meio estranho ou inexistente. Quando alguém diz uma piada, não se riem e quando alguém faz uma pergunta, ninguém responde. Depois passam grande parte do tempo num frio horroroso, e no verão têm de aturar melgas quase do tamanho de uma laranja.

Não é portanto de admirar que, depois da Renée Nicole Good ter sido assassinada em Minneapolis, o pessoal tenha saído à rua em protesto; com o ICE a intensificar a violência, ainda mais pessoas erguem a voz e cada vez se vê mais homens brancos heterossexuais a juntarem-se ao movimento--imagine-se que até o podcaster Josh Rogan já comparou o ICE à GESTAPO. Mas há um aspecto lúdico: não deixa de ter piada que os que defendem os métodos autoritários de Trump sejam os mesmos que estejam preocupados com o Irão, a Venezuela, etc., como se dissessem "A minha ditadura é melhor do que a tua..."

Todos os dias aprendemos coisas novas acerca das acções do ICE, que agora até prende cidadãos americanos e não devolvem os pertences pessoais que confiscam às pessoas quando as prendem--os documentos, as jóias, a carteira, o telemóvel, as chaves do carro, etc. Não interessa se a pessoa fez alguma coisa de mal, se está em casa ou no carro, se é americana, se é deficiente, homem, mulher, criança, etc. Até os índios nativos americanos prendem e tentam deportar porque têm um tom de pele mais moreno. Vivemos num estado de completa ilicitude e isto só tem tendência a piorar.

A 30 de Janeiro, acaba o financiamento do Department of Homeland Security que controla o ICE. É certo que o Congresso não irá aprovar uma lei de financiamento, logo teoricamente o ICE deveria parar de trabalhar quando o governo fechar, mas o mais provável é Trump desviar dinheiro de outros departamentos para financiar o ICE. Depois em Maio, quando o Jerome Powell sair da Reserva Federal e o Trump nomear um maluco incompetente, a política monetária irá ser super-expansionista e o dólar deve cair a pique. Entretanto, estão a ser publicados os relatórios trimestrais de resultados financeiros das empresas cotadas na bolsa e não me parece que as coisas sejam famosas, a não ser que a companhia esteja envolvida em construção de centros de AI, prisões, ou equipamento de guerra.