quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Um ano sangrento

Com o novo ano, as actividades do ICE intendificaram-se significativamente. Tenho saído pouco de casa, e tenho evitado a zona da Baixa de Memphis, logo não vi ainda ninguém do ICE, mas este fim-de-semana calhou ir ao Lowe's (uma loja tipo Leroy Merlin) comprar uns sacos de solo para vasos e umas lâmpadas e vi uma patrulha da National Guard a andar pela loja. Fiquei estupefacta porque não estava mesmo à espera de encontrar meia-dúzia de jovens fardados. Pelo menos, estes são treinados e devem ter o mínimo de bom senso, dado que muitos são alunos universitários que se inscrevem para servir em troca de financiamento para pagar os estudos. Já os do ICE contratam qualquer idiota que respira, aliás se calhar nem é preciso respirar porque não fazem background check, fazem um teste de drogas, mas não ligam ao resultado, e mesmo que a pessoa não preencha os formulários contratam na mesma--este foi o relato de uma jornalista que se candidatou, não fez seguimento do processo, falhou o teste de droga porque tinha consumido marijuana legal menos de uma semana antes, e, mesmo assim, foi contratada. Disseram-lhe que ia passar uns meses a processar papelada, mas depois vão meter toda a gente a patrulhar as ruas americanas com armas. "Patrulhar" é eufemismo para ameaçar e torturar.

O projecto piloto de todo este teatro está a acontecer no Minnesota, especialmente em Minneapolis. Se cresceram em Portugal nos anos 90, decerto se recordam do Beverly Hills 90210, no qual a Brenda e o Brandon, os gémeos que protagonizam a série, são oriundos do Minnesota e têm grandes preocupações sociais e morais. E é mais ou menos assim que é o pessoal do Minnesota, mas devo acrescentar que têm um sentido de humor meio estranho ou inexistente. Quando alguém diz uma piada, não se riem e quando alguém faz uma pergunta, ninguém responde. Depois passam grande parte do tempo num frio horroroso, e no verão têm de aturar melgas quase do tamanho de uma laranja.

Não é portanto de admirar que, depois da Renée Nicole Good ter sido assassinada em Minneapolis, o pessoal tenha saído à rua em protesto; com o ICE a intensificar a violência, ainda mais pessoas erguem a voz e cada vez se vê mais homens brancos heterossexuais a juntarem-se ao movimento--imagine-se que até o podcaster Josh Rogan já comparou o ICE à GESTAPO. Mas há um aspecto lúdico: não deixa de ter piada que os que defendem os métodos autoritários de Trump sejam os mesmos que estejam preocupados com o Irão, a Venezuela, etc., como se dissessem "A minha ditadura é melhor do que a tua..."

Todos os dias aprendemos coisas novas acerca das acções do ICE, que agora até prende cidadãos americanos e não devolvem os pertences pessoais que confiscam às pessoas quando as prendem--os documentos, as jóias, a carteira, o telemóvel, as chaves do carro, etc. Não interessa se a pessoa fez alguma coisa de mal, se está em casa ou no carro, se é americana, se é deficiente, homem, mulher, criança, etc. Até os índios nativos americanos prendem e tentam deportar porque têm um tom de pele mais moreno. Vivemos num estado de completa ilicitude e isto só tem tendência a piorar.

A 30 de Janeiro, acaba o financiamento do Department of Homeland Security que controla o ICE. É certo que o Congresso não irá aprovar uma lei de financiamento, logo teoricamente o ICE deveria parar de trabalhar quando o governo fechar, mas o mais provável é Trump desviar dinheiro de outros departamentos para financiar o ICE. Depois em Maio, quando o Jerome Powell sair da Reserva Federal e o Trump nomear um maluco incompetente, a política monetária irá ser super-expansionista e o dólar deve cair a pique. Entretanto, estão a ser publicados os relatórios trimestrais de resultados financeiros das empresas cotadas na bolsa e não me parece que as coisas sejam famosas, a não ser que a companhia esteja envolvida em construção de centros de AI, prisões, ou equipamento de guerra.