sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Os países às vezes bloqueiam: uma pequena, breve e abreviada história da Argentina das últimas décadas

Nos anos 1930, a Argentina estava entre os cinco países mais ricos do mundo em termos de rendimento per capita. No final da II Guerra Mundial, continuava dentro do clube dos 10 mais ricos.
A economia expandiu-se a um bom ritmo até 1940, mas depois entrou num processo de desaceleração, com desempenhos medíocres: entre 1950-1983 o rendimento per capita cresceu somente 1%. Em 1983, a Argentina já não registava um rendimento comparável ao dos países mais desenvolvidos: era somente um terço do italiano e um sexto do canadiano e ligeiramente superior ao do Brasil, Chile e México.
A transformação política foi total. Depois de 1930, a Argentina flutuou entre ditaduras militares, regimes populistas e democracias restritivas. De 1930 até ao restabelecimento da democracia liberal em 1983, sofreu seis golpes militares: 1930, 1943, 1955, 1962, 1966 e 1976. Neste período, houve 25 presidentes, apesar da administração de Péron ter durado quase 10 anos (1946-1955). Entre 1955 e 1983, a instabilidade política atingiu níveis críticos. Houve 18 presidentes e somente um não foi apeado do poder – Perón, que morreu em 1974, antes de terminar o mandato.
A chegada de Juan Perón ao poder em 1946 (após uma vitória eleitoral) é o ponto de viragem da história contemporânea Argentina. Perón foi o homem providencial, o chefe carismático ou o ditador que ocupou o novo espaço político aberto pela insatisfação das classes médias e trabalhadoras nascidas com a recente industrialização da Argentina e, ao mesmo tempo, foi o homem que surgiu aos olhos de uma parte das elites como a melhor garantia de apartar qualquer (injustificada, diga-se) ameaça revolucionária comunista. A essência do peronismo foi a tentativa, e o fracasso, de incorporar estas forças através de um Estado corporativo.
O governo peronista caiu em Setembro de 1955, mas o peronismo manter-se-ia muito activo na vida política argentina. O peronismo sobreviveu à queda do seu governo e tornou-se o eixo de um vigoroso movimento opositor.
O golpe militar que derrubou Perón dividiu a sociedade argentina ao meio, sem que nenhuma das partes tivesse força suficiente para impor o seu projecto à outra, mas cada uma tinha a força suficiente para bloquear os projectos da outra. Tanto os governos civis como os militares que se sucederam ao longo deste período estiveram marcados pelo fracasso na consecução dos seus principais objectivos.
Em suma, a Argentina tornou-se um país ingovernável. Estava presa num impasse, que se tornaria sangrento nos anos 1970, com a guerrilha, e o terrorismo de Estado da ditadura militar (1976-1983).
A ditadura militar terminaria ingloriamente, na sequência da humilhante derrota militar com o Reino Unido nas ilhas Malvinas (Falkland Islands). A Junta militar viu-se forçada a marcar eleições, que seriam ganhas em Dezembro de 1983 por Raúl Alfonsin do Partido Radical.
A democracia era restabelecida em tempos muito difíceis. Décadas de populismo e ingovernabilidade tinham deixado um legado de pesado endividamento externo e inflação, incompatível com os ventos do liberalismo em voga.
Verdade que a Argentina susteve a mudança enquanto foi possível, mas a mudança acabaria por ser brutalmente imposta de fora.
Timidamente, Alfonsin deu os primeiros passos. Seria Carlos Menen (1989-1999) – curiosamente, membro do Partido Justicialista, fundado nos anos 1940 por Perón – que, com entusiasmo, implantou, nos anos 1990, as reformas de liberalização, privatização e desregulação. Já sabemos que estas políticas desembocariam na bancarrota de 2001. A boa notícia é que a partir de 2004 a Argentina começou a crescer a um bom ritmo. Até hoje.

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