domingo, 14 de janeiro de 2018

Óptimos

"How do you drive to Memphis?!?" perguntou a J. Respondi-lhe "Drive to Texarkana, then Little Rock, AR, turn east and go until you hit Memphis." Fazia-lhe confusão que eu fizesse um percurso tão longo de carro, quando ela, com 92 anos nunca tinha sequer tomado uma refeição num restaurante sozinha -- a culpa era do marido, diz-me ela frequentemente, que a tinha mimado demasiado e, mesmo após ele morrer, há mais de 10 anos, ela apenas come fora acompanhada.

São quase 950 Km pela rota mais curta; mas nos EUA distâncias assim são normalmente medidas em termos de horas. Se não há trânsito em Houston e em Memphis e não há muitas obras na auto-estrada, consigo fazer o percurso em cerca de pouco mais de 10 horas, incluindo paragens para meter gasolina e comer, mas só posso comer fast food. Se comer uma refeição completa, e eu gosto sempre de parar pelo menos uma vez no Cacker Barrel durante as minhas roadtrips, demoro mais uma meia-hora, pelo menos.

No Domingo passado, quando regressei a Houston, completei o percurso em 9 horas e 53 minutos, o meu melhor tempo. Saí de Memphis depois das 13 horas e parei para verificar a pressão dos pneus. Pensei em almoçar dentro da cidade, mas como já era tarde e ainda estava cheia do pequeno-almoço tardio que tomei em casa de uma amiga, achei melhor fazer-me à estrada. Não resisti, no entanto, a descer a Poplar Av. até à baixa, em vez de adoptar uma das circulares. Demora mais, mas é uma das minhas ruas preferidas porque atravessa a cidade.

Talvez tenha sido um erro não ter almoçado porque, entre Memphis e Little Rock, não há quase nenhum sítio de jeito onde parar. Enquanto ruminava a sensatez da minha decisão, vi a saída para Palestine, AR, população 681, no census de 2010, e decidi parar, encher o depósito do carro e comer. Dentro do Love's -- a bomba de gasolina --, havia pouca escolha, mas resignei-me em comer no Chester's Chicken, cujo menu estudei durante vários minutos.

Há quem escolha comida pelo preço, mas eu costumo escolher pelas calorias e, como no Natal comi doces a mais e fiquei bastante doente, também tentei escolher algo que não tivesse muito trigo. Decidi que dois panados de frango, cole slaw, e uma taça de fruta seriam um bom almoço. Cole slaw é uma salada de couve branca crua cortada em julienne, cenoura, e um molho (normalmente vinaigrette ou maionese).

Quando chegou a minha vez, fiz o pedido: "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl", ao que o rapaz, que era magro e desenvolto, falando com um sotaque do sul pronunciado, respondeu "three-piece meal or six-piece?" Repeti "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl" e ele repete a mesma coisa "three-piece meal or six-piece?" e diz que não vou poder comprar "two chicken tenders". Olho outra vez para o menu e está lá o preço individual dos itens: volto a pedir e ele volta a recusar-se.

Desisto e digo "three-piece meal" -- pronto, lá se vão as calorias para o galheiro e ainda por cima a refeição traz um "biscuit", que é um pão de buttermilk, com 400 calorias, apenas um terço das minhas calorias diárias... O empregado explica-se "I'm not trying to be difficult, but you can get everything you want in a meal and it's cheaper. I'm just trying to save you money." O homem que está atrás de mim na fila comenta o empregado ser obstinado. Digo-lhe que o dinheiro é meu e tenho o direito de gastar como me apetecer, mas de nada vale. Pago a refeição, agarro na comida e vou sentar-me numa mesa.

Na TV, falam do ritual do chá no Reino Unido; no alti-falante anunciam quando os duches estão livres para os camionistas. Não comi tudo; guardei parte para o jantar e foi por isso que demorei menos de 10 horas a conduzir de Memphis a Houston. Nem sempre o cliente tem razão. De vez em quando, há um puto esperto que acha que sabe optimizar o consumo dos outros e acaba poupando-lhes tempo...

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