sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Três pontos

  1. Como têm acompanhado nas notícias, no dia 14 de Fevereiro passado, dia de S. Valentim, houve um atentado numa escola secundária nos EUA. Não foi muito diferente dos atentados que têm acontecido ao longo dos últimos anos e não julgo que seja o último. Há, no entanto, uma pequena diferença na reacção: os alunos desta escola decidiram organizar um movimento de protesto nacional para exigir que o acesso a armas seja controlado de forma diferente. Para o dia 24 de Março, está a ser planeada uma marcha em Washington, que irá mobilizar os alunos das escolas americanas. Veremos se o momentum deste movimento terá pernas para andar, mas é inspirador ouvir raparigas de 17 anos a discutir este tema.

    Se querem explorar os contornos do direito a porte de armas, sugiro-vos que escutem o segundo acto do podcast "This American Life", de 2 de Fevereiro de 2018. Esse episódio discute o caso de um rapaz que levou uma arma de imitação para uma escola na Louisiana. A imitação era tão boa que, segundo um dos polícias entrevistados -- uma pessoa experiente em armas, portanto --, demora uns três minutos a manusear a peça para nos apercebermos que não é verdadeira. A polícia acha que permitir armas de brincar nas escolas é um risco, pois um polícia pode acidentalmente matar alguém que as leve. A organização NRA (National Rifle Association) é contra legislação que proíba o porte de armas de brincar nas escolas.

  2. Na Quarta-feira, recebi o tal e-mail da Autoridade Tributária a mandar-me limpar a mata. Ora, eu não vivo em Portugal, nem sequer tenho terrenos, logo a única mata que eu poderia limpar não diz respeito à Autoridade Tributária, nem ao governo português. Piadas à parte, este e-mail é capaz de ter sido uma das coisas mais interessantes feitas por este governo porque revela a falta de capacidade governativa. Ficámos a saber que o governo não tem uma lista de pessoas que sejam donas de propriedades, nem sequer tem capacidade para realizar uma campanha adequada a cada região do país. Será que as pessoas que vivem em Lisboa deviam receber as mesmas instruções que quem vive numa zona rural?

    Outra coisa que nos "disseram" é que a Autoridade Tributária é a entidade responsável por comunicar aos cidadãos a política de gestão do território, isto para além da administração regular do passatempo "Factura da Sorte". Para quando a criação de um programa televisivo na RTP? Sugiro algo estilo um talk show com passatempos e sorteios em directo.

    Note-se que há quem tenha terrenos e, quando recebeu o e-mail, assobiou para o lado. Diz que é muito caro mandar limpar os terrenos; se o governo estiver muito incomodado, que fique com os terrenos. Ora, isto parece-se o enviesamento "aversão à perda": não querem gastar o dinheiro a limpar, nem querem vender o terreno e livrarem-se da responsabilidade. Sugiro que alguém do governo contacte a Sandra Maximiano, que agora até reside em Portugal, para estudar uma política de incentivos adequada para tratar deste problema antes que morram mais pessoas queimadas.

  3. Finalmente, o meu último ponto tem a ver com a economia. Instalou-se em Portugal uma atitude de viúva alegre em que se pensa que a situação favorável da economia mundial irá durar indefinidamente. Nesta altura, Portugal já devia ter pelo menos dois anos de margem acumulada para lidar com situações adversas. Note-se que quando a economia entrar em recessão, o governo terá de implementar uma política expansionista para absorver parte da quebra na actividade económica.

    Em vez disso, observamos que durante o pico do ciclo económico, i.e., agora, o governo é incapaz de fazer face às responsabilidades básicas do estado: não tem recursos para lidar com a administração do território; assiste-se a uma deterioração do sistema de saúde; a banca continua com problemas não resolvidos; não há folga para dar aumentos salariais em 2019 mesmo pressupondo um bom desempenho da economia; na educação, é comum o atraso no pagamento de bolsas e o financiamento de projectos depende mais de fundos europeus, etc.

    Alguém acredita que o tempo das recessões acabou?

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