sábado, 28 de abril de 2018

Desconforto

Ando um bocado chateada com a imobiliária da qual arrendo a casa. Pedi para que me limpassem o jardim antes de eu me mudar e não o fizeram, pedi outra vez depois de me mudar e nada. As folhas do outono já estão a apodrecer e aquilo parece-me uma grande confusão. Na cozinha, as tomadas não funcionavam. Mandaram um rapaz da manutenção muito simpático que não conseguiu arranjar e disse que tinham de chamar um electricista-mestre. Veio o mestre, arranjou a cozinha e agora não funciona a tomada da máquina de lavar roupa, que funcionava perfeitamente antes.

Telefonei ao electricista-mestre a dizer que tinham feito qualquer coisa que tinha afectado a tomada da lavandaria, a secretária disse que ia ver o que podia fazer. O que fez foi telefonar à imobiliária, depois telefonou-me uma Nancy, que trata os pedidos de reparação da imobiliária, e que, depois de pedir para falar com a Rita, abriu a conversa com "Não é assim que se fazem pedidos de manutenção!", com uma voz irritada, como se eu lhe tivesse estragado o dia. Eu expliquei que o problema surgiu depois da primeira visita, logo acho que ainda pertence ao primeiro problema, e a imobiliária não deveria ter de pagar uma segunda visita.

Continuou com a má-educação, dizendo-me que o problema devia ser a minha máquina. Não, não era porque eu fui ao super-mercado, comprei um cabo de extensão (como é que se diz isso em português?), e liguei a outra tomada e funcionou. E lá veio a resposta dela, falando-me como se eu tivesse 10 anos, a dizer que eu não tinha nada que telefonar para o electricista-mestre, telefonava para ela e pedia.

Ó meus amigos, subiu-me a mostarda ao nariz e disse-lhe umas verdades: não atendem o telefone na imobiliária, já fiz muitos pedidos que não foram atendidos, e, na verdade, só me ligam quando vou à página de Internet e faço o pedido pelo serviço central que é em Atlanta, na Geórgia. Quando lhe levantava a voz, ela dizia-me "Acalma-te que eu estou a tentar ajudar-te" e eu respondia "Ajudar-me agora? Mas eu já estou a pedir ajuda há mais de um mês."

Perguntei-lhe do jardim e ela responde-me que agora é muito tarde para eles o limparem porque já vivo na casa desde 6 de Março. Olha-me a grande piada! Essa foi a data em que eu paguei o depósito para me guardarem a casa durante um máximo de 15 dias até eu assinar o contrato e, nessa altura pedi que tirassem as folhas e os galhos partidos do jardim. Eu só tinha recebido a chave a 22 de Março, quando assinei o contrato, e disse outra vez à rapariga que queria o jardim limpo. Disse em pessoa e mandei um SMS.

Diz-me ela que aquela rapariga não faz nada senão entregar chaves e não informou ninguém dos meus pedidos. Ora, ora, perguntei-lhe que culpa tinha eu que eles contratassem gente incompetente. Ela nem me entregou as chaves em pessoa, nem sequer me mostrou a casa. Se ela quisesse, eu ia à página de Internet e fazia o pedido ao serviço central. Ah não, não, não era preciso que ela ia enviar o rapaz da manutenção outra vez.

Telefona o rapaz da manutenção, muito bem falado. Se há coisa que se nota aqui, é que os negros são muito bem falados, com "Yes, M'am", "No, M'am" a torto e a direito. Os brancos, como era o caso da Nancy, não têm esses requintes. Ao telefone com o rapaz, perguntei-lhe porque é que ele estava trabalhar para este pessoal. Tinha de arranjar outro emprego porque estas pessoas trabalhavam mal e eram mal-educadas.

Durante a visita, o Brian, o rapaz da manutenção, perguntou-me o que eu queria que ele arranjasse. Eu disse que precisava do jardim limpo, a tomada arranjada, e a máquina de lavar louça estava solta. A tomada, concluiu ele, precisava dos serviços de um electricista-mestre porque não tinha corrente suficiente. O jardim não limpava porque ele fazia manutenção, mas não fazia jardinagem. Da máquina de lavar louça podia tratar.

Conversámos e ele fala muito bem, melhor do que alguns dos meus alunos universitários, mas nunca terminou a universidade. Começou, mas interrompeu porque preferia ganhar dinheiro e não tinha ninguém que o apoiasse. Não ter ninguém não é impedimento para nada. Eu dei-lhe o meu exemplo: vim para os EUA sozinha e só tinha dinheiro para estudar 6 meses, ou seja, durante esse tempo mexi-me e encontrei um projecto em que trabalhar e que me pagava parte dos estudos, mas era um desperdício ele estar naquele emprego.

Ele tem um curso de técnico de ar-condicionado e refrigeração. Dei-lhe o nome de uma companhia que fabrica ar-condicionados e mandei-o ir à página de Internet ver se tinham empregos. Depois pensei, o que ele devia fazer era arranjar um emprego na área de manutenção numa universidade e depois tirava o curso aos poucos porque as universidades dão desconto nas propinas aos empregados. Expliquei-lhe o meu plano para o resto da vida dele e dei-lhe uma "pep-talk": uma conversa de encorajamento.

Ele sentiu-se mais inspirado para mudar a vida e disse-me, pela segunda vez, que um amigo dele lhe tinha dito que não há crescimento no conforto, era preciso estar disposto a sentir desconforto para se melhorar a vida. Ora, bela verdade...

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