quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Aportuguesamento

Na Segunda-feira, o Supremo Tribunal americano recusou-se a ouvir um caso sobre o direito dos estados de recusarem acesso a financiamento por via do programa Medicaid, que é federal, a entidades que facilitam o acesso a abortos. Como se recordam, o SCOTUS tem agora uma maioria conservadora, logo este caso teria sido óptimo para tentar enfraquecer o acesso ao aborto.


E quem foram os juízes conservadores que deram a maioria à recusa, quem foram? O Juiz Roberts, que é o Chefe do SCOTUS, e o nosso juiz preferido, o Kavanaugh. Ora o Kavanaugh tinha sido confirmado exactamente para este propósito, logo deveria ter sido bastante polémico o seu voto, mas ninguém ligou. Aliás, as estroinices da confirmação de Kavanaugh parecem ter acontecido há anos, mas passaram-se apenas uns dois meses. Desde então, tanta coisa aconteceu.

Aconteceram as eleições intercalares que ainda não terminaram porque se descobriram umas irregularidades na Carolina do Norte e o caso está a ser investigado. Parece que tanto Republicanos como Democratas estão a convergir para que se repita a eleição.

Na semana passada estivemos a gozar a calma do funeral de George H. W. Bush e a reabilitar a sua reputação. Actualmente, pensa-se que foi um excelente Presidente, que trabalhou no sentido de criar maior consenso, algo que hoje em dia é completamente fantasioso. Mesmo quando interveio no Kuwait, fê-lo apenas depois de ter conseguido forte apoio da comunidade internacional e não foi além do necessário. E depois toda a gente dizia que era um homem muito bem preparado para o cargo, talvez a pessoa mais bem preparada de sempre e ajudou o GOP a ultrapassar a crise em que ficou depois do Watergate. Não me recordo de terem sido tão elogiosos para com Reagan quando este morreu em 2004. Vocês acreditam que eu cheguei a chorar por causa de todas as homenagens ao Bush?

Por falar nas minhas emoções, o momento em que me caiu o queixo foi o tweet de Donald Trump de Sexta-feira a dizer mal de Rex Tillerson -- o lobby do petróleo não deve ter ficado muito feliz:


Eu sei que ele está sempre a escrever coisas malucas no Twitter, mas holy cow!

A investigação de Muller tem feito bastantes revelações importantes ultimamente e parece que Trump receia o impeachment; aliás o Presidente disse que as pessoas se revoltariam se tal acontecesse. Acho que irá depender muito do mercado accionista -- se houver um crash e o país entrar em recessão, os Republicanos terão de se livrar de Trump ASAP. Note-se que o mercado accionista tem andado mais para cá do que para lá...

Hoje o Michael Cohen, o advogado de Dionald Trump, foi condenado a três anos de cadeia -- imagine-se o número de condenações em menos de dois anos e compare-se com o caso de José Sócrates e companhia.

Também soubemos esta semana que John Kelly, o Chief of Staff de Trump vai sair do cargo no final do ano e o Presidente está com dificuldade em arranjar alguém que queira ser publicamente enxovalhado, perdão, alguém para o cargo (este cargo era um dos mais cobiçado no país, agora ninguém está interessado).

Ontem estávamos fascinados com a discussão que Trump teve com Nancy Pelosi e Chuck Schumer em que o Presidente disse que não via problema algum em fechar o governo por uns dias caso o Congresso não lhe desse o muro com o México. O Vice-Presidente Pence não deu um piu..

Mas para vocês nada disto é anormal; aliás, costumo dizer que os EUA se "aportuguesaram" com a eleição de Trump. Por exemplo, em Portugal é normal os Juízes do STJ fazerem comentários políticos. O Kavanaugh também o fez durante o seu processo de confirmação. E basta ver uma ida de António Costa ao Parlamento para constatar as semelhanças. Quase que me esquecia: o Vara também diz que está inocente.

Sem comentários:

Publicar um comentário

Não são permitidos comentários anónimos.