domingo, 17 de maio de 2020

Amanhã: “a teimosia de haver exames” …


Na mais recente entrevista do Primeiro Ministro, este confessou que a decisão mais difícil que teve de tomar face à pandemia foi quando, no dia 12 de Março, anunciou o encerramento das escolas. Na véspera, o Conselho Nacional de Saúde Pública não se pronunciara favoravelmente pelo encerramento generalizado de escolas, esclarecendo que apenas naquelas zonas onde os serviços de saúde o recomendassem se devia fazê-lo. Recordo que a Universidade do Minho encerrara, por deliberação do Reitor, no dia  8, e também estavam fechadas as escolas dos concelhos de Felgueiras e Lousada e algumas da Amadora e Portimão. Existia no entanto uma forte pressão das associações representativas de pais e de escolas, para o encerramento, e começava a falar-se num “alarme social” latente.


António Costa acabou por decidir a cessação das actividades lectivas presenciais, mas deixou em aberto portas para gerir o futuro, que começou de imediato a ser pensado pelo Ministério da Educação.

Num post anterior, defendi a ideia de que perante a situação de crise sanitária provocada pelo Covid-19, seria aceitável que as escolas permanecessem encerradas até final do ano lectivo, com a ressalva de se encontrar uma solução para os alunos do 12º ano, por causa do acesso ao ensino superior, porventura incentivando formas de ensino a distância, o qual, se as circunstâncias permitissem, poderia ser complementado com alguma assistência presencial.

Muitos comentadores (não à minha prosa, mas noutros contextos) defenderam posição diversa e alguns consideraram mesmo que as escolas não deveriam ter fechado. Entretanto, o Governo definiu um sistema (arriscado) em que o ensino a distância foi privilegiado, incluindo a utilização da televisão, lembrando a Telescola. Mas foi sempre considerada a possibilidade de uma excepção para o ensino secundário, estimando como possíveis aulas presenciais numa fase avançada do período escolar. Depois dos períodos do estado de emergência e de calamidade e face ao desconfinamento, concretizou-se o que estava pensado, alterando não só o calendário de exames mas a forma de considerar os resultados, tendo em vista a admissão ao ensino superior, e acabando por fixar a data de recomeço dessas aulas, o dia 18 de Maio.

Amanhã.

Acontece que existem muitas vozes preocupadas e críticas por este recomeço. Vêm de todo o lado: directores, conselhos gerais de agrupamentos, professores, alunos, pais – estão contra. E uma estrutura representativa (Conselho das Escolas Médicas Portuguesas), veio, pela voz do seu presidente, dizer que a abertura das escolas representa “um risco desnecessário”. Há medo de que o regresso às aulas, ainda que com todas as precauções definidas pelas autoridades sanitárias, não seja suficiente. E em jeito de conclusão, como disse um director de uma escola de Lisboa, tudo isto “pela teimosia de haver exames”. A pergunta necessária é: não deveriam ser feitos os exames, prejudicando centenas de alunos na sua legítima expectativa de prosseguir estudos no ensino superior?

A minha posição é hoje a mesma que defendia há tempos: as escolas deveriam manter.se encerradas, as aulas a distância continuariam, e os exames teriam sempre lugar (não referi na altura, mas admito que com algumas alterações, como a data de realização). Tenho desde há muito assumido uma posição crítica para com os exames, mas clarificando sempre que considero que devem existir na transição do ensino secundário para o superior. Seria gravoso para os alunos em situação de poderem ingressar num curso superior serem impedidos de o fazer, perdendo um ano da sua vida escolar. “Inventar” uma qualquer outra forma de acesso para este ano seria impensável.

Quero acrescentar que tenho as maiores reservas quanto ao actual sistema de acesso e desejaria que ele fosse alterado. Às escolas competiria a selecção dos alunos que a elas se candidatassem, ainda que inicialmente devesse existir uma prova comum, do tipo dos Graduate Records Examinations (GRE) nos Estados Unidos da América, que permite avaliar as capacidades dos alunos no raciocínio verbal e quantitativo e no pensamento crítico. Sei como é complicado pensar numa mudança como essa (ainda me lembro do que se passou com a PGA, no início dos anos 90), mas algo tem de ser feito para tornar o sistema mais confiável.

E agora? Agora, é esperar que não existam problemas em relação à saúde de todos os que vão estar nas escolas, e que não surjam situações geradoras de controvérsia. Goste-se ou não da maneira como se decidiu a conclusão deste ano lectivo, temos de aceitar o que foi decidido.

É necessário ser muito rigoroso na avaliação de tudo o que foi e vai continuar a ser feito, não procurando esconder insuficiências nem empolar pequenas vitórias. É necessário ter já quem esteja a planear o que vai acontecer no próximo ano. Não é tarefa fácil, porque não há certezas: o distanciamento social vai manter-se? Se vai, como lidar com o problema em escolas pensadas para salas de aula para 30 alunos? Continuando com ensino a distância, como se vai organizar o ensino? Este ano, remendou-se; no futuro não serão toleráveis remendos. A ideia é continuar a usar a televisão? Se for – e não tenho objecções – o modelo apressado deste ano, por muito razoável que tenha sido, não pode continuar assim.

Finalmente, é preciso coerência: há que conciliar o modelo a definir para o ensino a distância com a importância concedida por este governo à autonomia e flexibilidade curricular. Pode parecer difícil, mas nunca será impossível, continuar a dar a escolas e professores liberdade para, face ao quadro real em que actuem, gerirem o currículo que melhor sirva os interesses dos seus alunos.

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