segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Húbris outra vez

Se não me falha, já vamos na terceira vez em que deitamos foguetes antes do tempo: primeiro, a pandemia não chegava a Portugal porque os portugueses eram geneticamente superiores; segundo, Portugal não ia ter muitos casos porque os portugueses eram pessoas que sabiam o que tinha de ser feito; terceiro, vencemos a guerra contra o vírus porque Portugal é o melhor do mundo a vacinar. Caminhamos para outro embate com a realidade porque ainda não aprendemos a lição.

Em primeiro lugar, há a qualidade dos dados. As vacinas são uma contagem efectiva, enquanto que os números da população são estimativas, logo estimativas têm erros. O erro mais óbvio é que os dados preliminares do censo da população de 2021 indicam que a população portuguesa é de 10.347.892, mas a estimativa oficial da população é de 10.297.081 em 2020, de acordo com o INE; mas se forem ver o que o Worldometers usa, por exemplo, encontram 10.160.514. Ou seja, no cálculo da percentagem da população vacinada, parece que o denominador usado é inferior ao real, logo a percentagem da população vacinada é superior ao real--não se espantem se começarem a ver percentagens superiores a 100%.

Mesmo a contagem das vacinas é problemática: o processo de vacinação já se arrasta há nove meses, logo nesse período, é natural que pessoas vacinadas tivessem morrido de outras causas, mas não tenham sido retiradas da contagem. Na proporção de vacinados por faixa etária, também haverá pessoas que agora estão numa faixa etária alta, mas que foram vacinadas numa faixa etária inferior -- é que em 9 meses, alguns que tinham 64 anos, passam a ter 65, por exemplo. Como eu dizia, não se espantem se começarem a ver percentagens superiores a 100%.

O esforço de vacinação não é apenas português porque houve residentes que se foram vacinar ao estrangeiro -- até vieram aos EUA, imaginem -- porque Portugal estava atrasado nas vacinas. Depois chegaram a Portugal e inscreveram a sua vacinação no respectivo centro de saúde. Parte dos emigrantes que viajaram a Portugal durante este verão fizeram isto porque mostrar o certificado de vacina é mais prático do que andar a fazer testes Covid para poder ir de um lado para o outro.

Um outro problema é que numa população envelhecida, a vacina não é tão eficaz e a população portuguesa é das mais envelhecidas do mundo. Depois combina-se isto com o facto de Portugal ter casas mal-preparadas para o Inverno, logo as pessoas passam frio, vivem com humidade, bolores, carunchos, etc., o que enfraquece o sistema imunitário.

Os preços da energia também contribuem para a falta de conforto das casas, dado que Portugal tem energia das mais caras da Europa, o que é agravado pelo fraco poder de compra dos portugueses. Há menos de duas semanas, João Galamba afirmou que o governo não descartava preços mais altos de electricidade para 2022. Na semana passada e em resposta à subida do preço do gás natural, a Espanha anunciou medidas de emergência para reduzir os custos de energia para os consumidores espanhóis.

Finalmente, temos de considerar que a pobreza aumentou com a pandemia, logo vai haver gente a passar fome para além de frio; ser vacinado não vai adiantar grande coisa quando não se tem energia para lutar contra uma infecção.

3 comentários:

  1. Fazendo aqui de advogada do diabo, há ainda a menor eficácia da AstraZeneca e da Johnson&Johnson, e de os valores da eficácia serem mais baixos para a variante delta (https://scitechdaily.com/covid-19-vaccines-effective-against-delta-variant-how-pfizer-moderna-and-jj-compare/).

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  2. Quanto ao exercício sobre os dados, o que conta é que, ao contrário de outros que foram mostrados pelos spinners como perfeitinhos, não foram martelados.

    Ajuda analógica:
    Quando uma base de dados não contém um historial dos erros e há dados que foram introduzidos por digitação, os auditores profissionais sabem logo que foram martelados, porque há coisas impossíveis. Sobre o que está no primeiro parágrafo, é o mesmo. Só captou os "spins", porque só tem acesso a isso.

    Agora, a razão que me trouxe aqui.

    A pobreza infantil nos EUA começou mesmo a diminuir em 2020?

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