quinta-feira, 3 de março de 2016

Populismo e desfaçatez

A propósito da entrevista de Mariana Mortágua ao Público:

Um exemplo de populismo:

"Enquanto os orçamentos continuarem a repor salários e pensões, enquanto travar a austeridade e o empobrecimento, há condições políticas para apoiar este orçamento e os próximos, se eles forem no mesmo sentido. Essa é a única linha que nos pode orientar. Tudo o resto seriam critérios arbitrários que mudariam consoante o interesse."

Despesas com pessoal e prestações sociais são 65% da despesa total do Estado. Só vão poder aumentar se a economia voltar a crescer - lembro que salários e pensões pararam de crescer precisamente quando a economia parou de crescer, em 2001 (situação apenas alterada em anos de eleições). Dado que não vejo medidas, da parte do Estado, que mudem as condições que nos levaram à estagnação nos últimos 15 anos, esta entrevista da Mariana Mortágua é quase um anúncio de uma crise política para breve (sem qualquer responsabilidade do BE, como é evidente). 

Um exemplo de desfaçatez:

"Este Governo permitiu oxigenar a nossa democracia."

Dado que Maria Mortágua estuda economia, comparar as condições de governação no período da troika com as condições actuais é de uma enorme desfaçatez. 


Pragmatismo

"Google searches for "how to move to Canada" spiked on Super Tuesday as Americans unhappy with the results seemed to be weighing their future options.

It's unclear whether the results were triggered by Donald Trump taking seven states or Hillary Clinton also winning seven. Of course, it's also a possibility a percentage of those searching are charmed by Canada's new prime minister, Justin Trudeau."

Google data editor Simon Rogers first pointed out the trend, noting the searches spiked more than 350 percent Tuesday night. That number surged as high as 1,150 percent before settling around the 500 percent mark at the end of the day, according to Mashable.

Fonte: ABC News

Que pena o Primeiro Ministro de Portugal não ser tão encantador como o do Canadá...

O que é o poder? Quando a mentira salva vidas

Oskar Schindler tornou-se célebre graças a um filme de Steven Spielberg de 1993. Schindler é um membro influente do partido nazi. Ao mesmo tempo, é apresentado com as cores de um homem que, por humanidade, salva da morte, durante a guerra, perto de duas mil pessoas que estavam condenadas por serem judias. Há uma cena interessante com o SS Amon Goeth, um psicopata (a guerra é o paraíso para esta gente) que mata arbitrariamente prisioneiros, com uma espingarda com mira do alto da varanda da sua vivenda.
Schindler aproveita um momento em que o psicopata está bêbado para o tentar convencer a deixar de matar arbitrariamente os deportados. Obviamente, não podia usar argumentos humanistas para o efeito. Estes não teriam qualquer hipótese de convencer este SS brutal (por sinal, a melhor interpretação de Ralph Fiennes até ao momento). Além disso, poriam em perigo Schindler que revelaria a sua verdadeira natureza.
Schindler utiliza outra táctica. Recorre a argumentos compreensíveis e acessíveis para o SS. O que é o verdadeiro poder? Essa linguagem o SS entende.
O verdadeiro poder não é matar. Matar um homem que cometeu um crime não é poder, é justiça. O verdadeiro poder é termos todas as razões para matar e, mesmo assim, não o fazermos. Schindler invoca um imperador. Um homem é levado à presença do imperador, deita-se aos seus pés e implora piedade. Tem a certeza que vai morrer. E o imperador perdoa-lhe. Goeth diz que Schindler está bêbado. Schindler deixa de se inclinar para Goeth, abre os braços e diz “É o poder, Amon, isto é o poder.”  
Schindler usou um estratagema. Justificou aquilo que ele próprio reprovava: a brutalidade assassina dos SS, a que chama “justiça”, e o poder absoluto do chefe do campo. Como é evidente, Schindler não desejava reforçar ou legitimar o valor do poder total. E, no entanto, por este preço, o preço da mentira e da dissimulação, obteve um resultado: salvou mais algumas vidas. Deve ser por estas e por outras que nunca nenhuma religião se atreveu até hoje a considerar a mentira um pecado mortal.


quarta-feira, 2 de março de 2016

Centeno na Bloomberg

"Euro-area finance ministers on Feb. 11 told Portugal to make plans for additional budget measures in case it runs into trouble meeting its targets. Centeno reiterated on Tuesday that Portugal won’t need to adopt those measures. If necessary, the government’s “preferred course” is to make a shift from direct to indirect taxes, he said."

Fonte: Bloomberg

O contribuinte português deve ter os bolsos muito cheios ou sem fundo. Diz o nosso ilustre Ministro das Finanças, Mário Centeno, à Bloomberg que se a coisa der para o torto, os impostos indirectos aumentam, mas os directos serão reduzidos. Percebem? A solução em Portugal é sempre aumentar impostos, mesmo quando se reduzem outros. Nunca há uma alma que se lembre de reduzir a despesa ou a dívida para não se ter de pagar tantos juros. Parece que o truque do crescimento é mesmo redistribuição de rendimentos num país onde se ganha mal ou aumentar a dívida pública. A propósito, aquele negócio do Banif foi deveras genial -- o estado pediu €1,8 mil milhões emprestado ao Santander para recapitalizar o Banif para assim o poder vender ao Santander. Que retorno é que esse empréstimo terá para o contribuinte português? Nenhum, só aumentará a dívida pública.

Acho que os nossos ilustres governantes ainda não perceberam que podem mudar o posicionamento das cadeiras do convés do navio, até podem consultar um especialista de Feng Shui para assegurar que só energia positiva invade o Titanic que é a República Portuguesa, mas o problema não é a falta de energia positiva; o problema é que o iceberg da dívida pública afunda o país através de juros que crescem a taxas mais altas do que a economia, numa economia onde a dívida está bem acima dos 100% do PIB. E num mundo onde o dinheiro está a fugir da Europa a sete pés e a entrar nos EUA a torto e direito brincamos com o fogo, ou seja, é natural que a coisa expluda outra vez daqui a dois ou três anos e Portugal não estará posicionado para absorver outro choque. (Afinal foi assim que se alimentou a bolha imobiliária de 2008: as poupanças do mundo à procura dos retornos e da segurança da economia americana.)

Talvez seja esse o desejo de Mário Centeno: uma economia mundial à beira de depressões de 10 em 10 anos não aguenta grandes juros e, eventualmente, os países terão de renegociar um corte nas dívidas públicas ou uma mutualização da dívida pública europeia.

"Portugal won’t call for a debt renegotiation process, Centeno said. “This needs to be arranged at the European level, with a European framework, and not specifically targeting our case or other special cases.”"

Fonte: Bloomberg

Je suis Charlie Hebdo, mais pas Henri Renard

Eu não sei se o livro do Henrique Raposo nos ensina alguma coisa sobre o Alentejo e os alentejanos, mas parece-me que nos deu uma lição sobre os portugueses: cultura democrática e pluralismo é coisa que escasseia em Portugal. E, com esta frase, começo também eu a sentir o vilipêndio, mas prossigo, explicando-me. Em causa, não está o conteúdo. Eu não li o livro, não sei o que diz, não sei em que tom o faz. Também não vi o vídeo do programa do Boucherie. Mas nada disso interessa porque eu sou pela liberdade de expressão. E ser pela liberdade de expressão significa que reconheço o direito à existência de todas as opiniões, mesmo as que considero abjectas. E, com coerência, também reconheço o direito à indignação provocada por tais opiniões. Apelar ao boicote ao livro? Muito bem. Querer que a venda do livro seja proibida? Muito mal e péssimo sintoma. Curiosamente, aposto que muitos dos signatários da petição para impedir a publicação de Alentejo Prometido tiveram fotografias de perfil facebookiano a dizer que eram o Charlie Hebdo. Tiros e petições são meios diferentes, mas partilham o fim, que é o de silenciar as opiniões que desagradam.

Em Portugal, ter uma opinião contrária a alguém facilmente se confunde com dizer mal dessa pessoa, estar contra ela. Dizer "o roxo é a cor mais bonita" torna-se sinónimo de afirmar que "quem prefere o vermelho é uma besta". A discussão é sempre pessoalizada [entendam o meu "sempre" como uma generalização hiperbolizada, por favor] e as ideias perdem o seu lugar. Mas mais. Parece haver uma confusão entre o que é uma opinião expressa e o que pretende ser factual. Se o roxo ser a cor mais bonita é coisa subjectiva - mas nem por isso impossível de discutir, apesar do que diz o ditado -, já o poder tranquilizante do verde tília remete para explicações neurológicas e evidência empírica. Sempre com a noção de que até os factos podem ser contestados (ou ainda andaríamos com o Sol a girar à nossa volta).

Neste Portugal que eu retrato, as escolhas ideológicas desapareceram e só sobraram as opções técnicas. E há as opções técnicas certas e as opções técnicas erradas. As opções técnicas certas são defendidas pelas pessoas que estão certas. As opções técnicas erradas são defendidas pelas pessoas que estão erradas. E as pessoas que estão erradas devem calar-se.

menino ou menina



(fotos tiradas de um post sobre "rapazes e bonecas" - em alemão)


A ver se entendo: por causa de um artigo de jornal, o McDonald's vai deixar de classificar os brinquedos em "para meninas" e "para meninos", para os chamar pelo nome: pequenos póneis e transformer, ou lá o que é.
A empresa fez esta mudança sem dramas, mas algumas pessoas ficaram chocadas. Se bem entendi os comentários nos jornais online (também, quem me mandou ler?!), teme-se que os miúdos dêem todos em homossexuais, por terem liberdade de escolher entre um pequeno pónei e um transformer.
Nestas discussões fico sempre muito impressionada com a falta de confiança na Natureza. Até parece que a homossexualidade tem um tal poder de sedução que nos obriga a orientar e vigiar permanentemente as nossas crias, para que elas não cedam à "tentação dos maus caminhos".

Podia continuar a brincar com esta história, mas o caso é sério. Deixando de lado a questão do condicionamento para corresponder a determinados papéis predefinidos, quero chamar a atenção para a vida emocional dos nossos rapazinhos. Para os proteger, era importante evitar ao máximo a classificação "para meninas". Na nossa sociedade, infelizmente, um rapaz que se interesse por coisas de meninas é cruelmente ridicularizado. Um miúdo tem de pensar duas vezes antes de pedir "um brinquedo de meninas" na caixa do McDonald's. Uma miúda pode usar jeans à vontade, um rapaz não pode usar vestidos. A miúda pode jogar à bola (agora já nem é maria rapaz, é apenas desportiva), o rapaz não pode brincar com bonecas. Não quero dizer com isto que os rapazes devam ser obrigados a brincar com bonecas, mas que, simplesmente, não deviam ser obrigados a preferir determinado tipo de brinquedos só porque é isso que se espera deles e não têm coragem de assumir que gostam de outros. Qual é o problema de um rapaz experimentar saias, maquilhagem, pintar as unhas? Se quiser fazer isso, qual é o problema? O caminho para a maturidade passa pela escuta de si próprio, e não pelo acomodamento a formas predefinidas.

Como se dizia antes: menino ou menina? Não interessa! O importante é que tenha saúde.

E por falar em saúde: tanta conversa sobre os brinquedos do McDonald's, e ninguém informa que aquilo não é alimentação decente para ninguém, e muito menos para as nossas crianças?!

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A propósito de rapazes e bonecas: conheço um miúdo a quem a mãe deu um boneco de pano quando tinha três anos. Era o "Peterle", e ficaram grandes amigos. Ora, um boneco de pano que acompanha um rapazinho para todo o lado, acaba por se estragar. Ao fim de uns anos o Peterle já estava todos remendado e meio careca. Quando o infantário organizou uma pajamas party para os miúdos que passavam para a escola primária, o rapazinho quis levar o seu Peterle. Temendo que ele fosse gozado por levar uma boneca, para mais naquele desgraçado estado de conservação, a mãe perguntou-lhe:
- Achas mesmo boa ideia levar o Peterle?
- Tens razão - respondeu ele, depois de pensar um bocadinho. Os outros meninos podiam ficar com inveja.


Leitura obrigatória

Há três peças que, neste momento, deveriam ser de leitura obrigatória para qualquer pessoa que se interessa por economia. Nelas estão as pistas para o que irá acontecer até 2020. São estas:

Abramowicz, Lisa. "Scaling a $9.5 Trillion Debt Wall", Bloomberg, 28/2/2016.

Companies still have a little time before they must pay down the bulk of $9.5 trillion of debt maturing in the next five years. That’s the good news.DEBT MATURING IN NEXT FIVE YEARS$9.5 TrillionBut it’s not getting any easier for these corporations to borrow, at least not in the U.S. In fact, many of these obligations are becoming harder and more expensive to repay at a time when companies face a historic pile of bonds and loans coming due.This wave of debt coming due through 2020 is bigger than previous five-year schedules of debt maturities in 2013, 2014 and 2015, according to Standard & Poor’s data. It includes about $2.3 trillion of junk-rated debt, with about $418 billion of that rated B- or lower. And it peaks in 2020, with $2.1 trillion of debt coming due, which is greater than the peaks of the most recent previous maturity walls.

The Economist. "The biggest loophole of all", 20/2/2016.

No one knows how much undeclared money is stashed offshore. Estimates range from a couple of trillion dollars to $30 trillion. What is clear is that America’s share is growing. Already the largest location for managing foreign wealth, it has picked up business as regulators have increased information-exchange and scrutiny of banks and trust companies in Europe and the Caribbean. Money is said to be flowing in from the Bahamas and Bermuda, as well as from Switzerland.

Micklethwait, John. "Jamie Dimon on Finance: ‘Who Owns the Future?’", Bloomberg Markets, 1/3/2016.

Jamie Dimon: We make money, too, so I’m not that upset. I expect them to do that; that’s what they do. Banks don’t want certain asset classes, and that’s created opportunities for private equity, hedge funds, Silicon Valley. In this case I think he [Blackstone’s Steve Schwarzman] was referring to some of the European banks shedding assets, and the big buyers are probably not going to be big American banks. Someone like Blackstone may have a very good chance to buy those assets, leverage them, borrow up a little bit, and do something good there.

America wants you!

Caros leitores,
Chegou a hora de tratar da vida. Ontem abriram as candidaturas paras as bolsas de estágio da PAPS Summer 2016, que são patrocinadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, Azores Airlines e WeDo Technologies, e fecharão no final de Março. Ver mais informação aqui.

Vício

Para ouvir, sem parar...

Geografia da alma

Só depois de vir para os EUA é que interiorizei o efeito que a geografia tem sobre mim. Sabia que havia algo em Coimbra que me oprimia, talvez as colinas, talvez a densidade das casas, tantas pessoas em meu redor... Quando fui para Oklahoma, a imensidade do horizonte, o nada dos outros, o tudo de mim conquistaram-me e protegeram-me, e a minha alma sentiu-se em paz. Agora preciso da proximidade da imensidão azul: a proximidade do mar. A minha sobrevivência depende disso.

Tenho sorte por agora estar em Houston, perto do mar e sob um céu nocturno que me cativa. Quando preciso, saio à rua à noite e encontro-me. Entro no Império da Luz de Magritte e encontro-me. E hoje preciso que a noite me tome e guarde até recuperar forças para o dia. Estou no sítio certo, na altura certa.

terça-feira, 1 de março de 2016

Drumpfinem-se!

Já foram buscar o vosso Drumpfinator? Está aqui...

Tópico do momento

ARR que votou...

A Rita Reaccionária (ARR) que votou esta manhã nas primárias aqui da terrinha decidiu votar nas primárias democratas em vez de nas republicanas. As democratas eram no Centro Cívico; as republicanas eram numa igreja. Lá se vai o estado laico, mas acho que ele já se foi há muito tempo: "In God we trust! All others must pay cash..." ARR votou na Hillary e a favor de todas as causas dos democratas. Go America, the Beautiful!!!

P.S. O cognome de Rita Reaccionária foi-me carinhosamente dado pelo Luís Gaspar. Só tenho pena de não ter pensado nele antes porque é muito bom. "A Rita do Texas", que me foi dado pela Fernanda Câncio, também é genial--e tem tudo a ver comigo: ART... 

já perdeu

(foto)

Por trás de um guichet de caixa dos museus do Vaticano (pelo menos era onde estava, da última vez que lá fui) (nos museus do Vaticano estão sempre a mudar o lugar às coisas, um dia destes ainda dou com a Capela Sistina num centro de refugiados) (ou vice-versa, que com este Papa já nada me admira) (isto não é uma crítica) como ia dizendo há nem sei quantos parêntesis, por trás de um guichet de caixa dos museus do Vaticano há uma cópia da estátua falsa do grupo de Laocoonte. Na escultura verdadeira, encontrada em 1506, faltava o braço direito do herói. Em vez de exporem o homem assim maneta como saíra da terra, resolveram dar-lhe um braço. Um braço corajoso, a lutar contra a serpente, senhor da situação. Quatrocentos anos mais tarde descobriram o braço verdadeiro, e o Vaticano precisou de mais cinquenta anos para se render à evidência: o braço está torcido para trás, a serpente já ganhou, Laocoonte e os seus filhos, de olhar angustiado e horrorizado, estão perdidos.
(Isto vem tudo na wikipedia - caso seja invenção, não é minha)

Lembrei-me do Laocoonte esta manhã no duche, ao cantar "Ne me quitte pas". Quando canta "laisse-moi devenir l'ombre de ton ombre, l'ombre de ta main, l'ombre de ton chien", Jacques Brel já perdeu. Ele não sabe ainda, e ergue o poema como o braço direito da escultura errada, perante o nosso olhar incrédulo, angustiado e horrorizado: já perdeu.





Terça-feira

Iupi! É Terça-feira, dia de eleições primárias no Texas e eu adoro votar. Vou votar e não votar em branco porque não acredito em votos em branco. 

Aqui está o meu cartão de eleitor antigo -- não se preocupem, já tenho um novo, azulinho, para votar. Veio pelo correio. Não é completamente parvinho o cartão de eleitor destas bandas? É, mas "If it works, don't break it" é o lema destas bandas...