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quinta-feira, 30 de março de 2017

O Vito Gaspar

Ontem, enquanto passeava o Choppinho ao final da tarde, e me entretinha a observar os estragos da tempestade que tivemos de manhã (Aviso de tornado, pessoal! A coisa ficou mesmo preta -- literalmente! Entre as 10:30 e as 11 da manhã ficou escuro como breu. Chuva, trovoada, vento...), ouvi o podcast mais recente do Bloomberg Surveillance. Surpreendentemente foi curto, mas o Willem Buiter, de quem gosto bastante, foi entrevistado e um tal de Vito Gaspar também -- o Tom Keene não sabe dizer Vítor.

Pois é, era o Vítor Gaspar, que foi falar de um relatório em que foi um dos autores e que analisa a relação entre dívida e política. Percebe-se que o nosso antigo Ministro das Finanças é um grande fã de Alexander Hamilton. Será que ele tem a banda sonora de Hamilton, o musical da Broadway, que tem sido usada para ensinar economia e história?

quarta-feira, 2 de março de 2016

Centeno na Bloomberg

"Euro-area finance ministers on Feb. 11 told Portugal to make plans for additional budget measures in case it runs into trouble meeting its targets. Centeno reiterated on Tuesday that Portugal won’t need to adopt those measures. If necessary, the government’s “preferred course” is to make a shift from direct to indirect taxes, he said."

Fonte: Bloomberg

O contribuinte português deve ter os bolsos muito cheios ou sem fundo. Diz o nosso ilustre Ministro das Finanças, Mário Centeno, à Bloomberg que se a coisa der para o torto, os impostos indirectos aumentam, mas os directos serão reduzidos. Percebem? A solução em Portugal é sempre aumentar impostos, mesmo quando se reduzem outros. Nunca há uma alma que se lembre de reduzir a despesa ou a dívida para não se ter de pagar tantos juros. Parece que o truque do crescimento é mesmo redistribuição de rendimentos num país onde se ganha mal ou aumentar a dívida pública. A propósito, aquele negócio do Banif foi deveras genial -- o estado pediu €1,8 mil milhões emprestado ao Santander para recapitalizar o Banif para assim o poder vender ao Santander. Que retorno é que esse empréstimo terá para o contribuinte português? Nenhum, só aumentará a dívida pública.

Acho que os nossos ilustres governantes ainda não perceberam que podem mudar o posicionamento das cadeiras do convés do navio, até podem consultar um especialista de Feng Shui para assegurar que só energia positiva invade o Titanic que é a República Portuguesa, mas o problema não é a falta de energia positiva; o problema é que o iceberg da dívida pública afunda o país através de juros que crescem a taxas mais altas do que a economia, numa economia onde a dívida está bem acima dos 100% do PIB. E num mundo onde o dinheiro está a fugir da Europa a sete pés e a entrar nos EUA a torto e direito brincamos com o fogo, ou seja, é natural que a coisa expluda outra vez daqui a dois ou três anos e Portugal não estará posicionado para absorver outro choque. (Afinal foi assim que se alimentou a bolha imobiliária de 2008: as poupanças do mundo à procura dos retornos e da segurança da economia americana.)

Talvez seja esse o desejo de Mário Centeno: uma economia mundial à beira de depressões de 10 em 10 anos não aguenta grandes juros e, eventualmente, os países terão de renegociar um corte nas dívidas públicas ou uma mutualização da dívida pública europeia.

"Portugal won’t call for a debt renegotiation process, Centeno said. “This needs to be arranged at the European level, with a European framework, and not specifically targeting our case or other special cases.”"

Fonte: Bloomberg

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Juntemo-nos aos maus...

Recentemente, na Bloomberg, apareceram duas peças de opinião, acerca da dívida da Argentina. Como o nosso governo é proponente de confrontos com os credores e até já há ameaças de credores, julgo que vale a pena estarmos ao corrente dos problemas dos outros para ver se não os repetimos. (Uma curta sinopse sobre a dívida argentina também está disponível na Bloomberg.) Mas se o objectivo é mesmo ser famoso, como parece ser o do nosso PM António Costa, então vale a pena aprender a reconhecer os instrumentos que conseguem tornar governantes famosos.

Da peça do Matt Levine, que mais parece o princípio de um romance:

We've talked a lot about Argentina's sovereign-debt saga, but now that it is perhaps drawing to a close I'd like to tell the story again, from a slightly different perspective. (If you want it from the regular perspective, you know where to go.) This version of the story starts in 1998, when Argentina issued some bonds called floating rate accrual notes. The FRANs were due in 2005, and their floating interest rate was based on the market yields of other, fixed-rate Argentine debt. The idea was that if Argentina's credit deteriorated, holders of these bonds would be compensated in the form of a higher interest rate. This sounds like a sensible enough idea. It was a terrible, terrible idea.

Fonte: Matt Levine, Bloomberg, 8/2/2016

Do editorial de ontem:

Before Argentina’s debt crisis is resolved -- and prospects have been looking better lately -- it’s worth pausing to ask why the stalemate has lasted so long. (More than a decade, but who’s counting?) Preventing these kinds of fiascos will require changing what happens when a government is unable to pay its debts.

The protracted impasse in Argentina shows what’s at stake. Increasingly frustrated by Argentina’s refusal to heed court rulings, a U.S. federal judge told its government not to pay creditors who’d agreed to settle unless it also paid the holdouts. He also forced intermediaries to help enforce his ruling.

Fonte: The Editorial Board, Bloomberg, 16/2/2016

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Não é assim tão mau...

"Every cloud has a silver lining"

O contorno das nuvens não é prateado, mas é um bocado laranja: graças ao governo actual, que não reduziu a dívida tão rapidamente quanto podia, Portugal tem vários meses de dinheiro em caixa e tem margem de manobra para não precisar de ir aos mercados no futuro próximo. Ou seja, a gestão de risco dos últimos quatro anos comprou folga para absorvermos parte do risco das manobras de António Costa. Ele que não se habitue--não irá durar para sempre.

Ah, se não prestaram atenção, os juros da dívida portuguesa aumentaram hoje, mas não nos custou nada e quem vendeu perdeu dinheiro--é para aprenderem a não ser especuladores. Engraçado, a dívida alemã ficou com juros mais baixos. É tão bom ser alemão...


Um pôr-do-sol de Houston para vós...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

UE vs. EUA

Sir Winston Churchill, a propósito da participação dos EUA na Segunda Grande Guerra Mundial, disse "You can always count on Americans to do the right thing--after they have tried everything else". Em 2011, os EUA passaram uma lei que continha um plano de sequestro da despesa: se houvesse um impasse no Congresso, a despesa americana seria cortada num valor pré-determinado doesse a quem doer. O início dessa lei foi adiado em 2012 pelo Congresso, mas à medida que a animosidade entre os partidos crescia houve menos vontade de evitar os efeitos da lei. Em Outubro de 2013, os membros do Tea Party paralisaram o Congresso e o governo americano "fechou" as portas durante alguns dias. Frequentemente me deparo com as consequências disso, pois no meu emprego eu tenho de usar dados mensais e, para esse mês, não tenho dados.

Todo o mundo se riu e apontou dedos aos EUA. Este artigo no Huffington Post descreve as reacções de muitos países à figura triste dos americanos. Algumas das críticas mais ferozes vieram das autoridades dos países da União Europeia, que acusaram os EUA de imporem custos ao resto do mundo e, especialmente, de sacrificarem a retoma de uma economia mundial fragilizada. O fecho do governo americano não adiantou nada em termos de se conseguir um compromisso; o sequestro da despesa finalmente aconteceu em Março de 2013. Como era uma coisa para o qual o país já se tinha mentalizado, durante os meses antecedentes, o governo já se tinha preparado para os eventuais cortes, em especial os militares cujo orçamento seria cortado em cerca de 10%. Os efeitos dos cortes não foram grandemente sentidos por causa do planeamento, mas poderão ter adiado os sinais de retoma da economia americana.

Amanhã saberemos, talvez, o que a Grécia decidirá e a resposta da UE. O mais provável é que a situação seja adiada por mais seis meses, isto é, o mais provável é que a União Europeia continue com a faca ao pescoço durante pelo menos mais seis meses. O prolongamento da incerteza neutraliza grande parte da política monetária seguida pelo BCE e desincentiva o investimento e o consumo, o que é extremamente negativo para Portugal. Os bancos gregos estão a ficar descapitalizados com a fuga de capitais, piorando a situação da economia grega e aumentando a probabilidade que esta chegue ao colapso total, o que também é negativo para Portugal.

Ao contrário dos EUA, com o sequestro da despesa e do orçamento, a UE não está a ser preparada para um colapso eventual da Grécia, mas talvez a Alemanha já esteja preparada. No entanto, a força de um sistema não é medida pela resiliência do mais forte; é medida pela resiliência do mais fraco. O que se tem visto é que não há grande coordenação entre os países, nem há vontade de eliminar o problema ou diminuir o seu risco, apenas se adia o problema indefinidamente, como se o custo de oportunidade desta crise fosse zero. Os mercados de dívida soberana dos outros países estão calmos, não esperam grandes resultados destas negociações. Ninguém nos EUA goza abertamente com os europeus; todos dizem que a UE deve esforçar-se ao máximo para resolver a situação e reduzir a incerteza que os europeus enfrentam.

O euro está fraco, as taxas de juro europeias também, e não se vislumbra grande crescimento num futuro próximo. Quem beneficia são as empresas americanas, como a Apple e a Verizon, que estão a financiar-se em euros, neutralizando ainda mais a política monetária do BCE e contribuindo para o crescimento da economia americana. A probabilidade de se insuflarem bolhas nos EUA aumenta e, quando estoirarem, os europeus irão culpar os americanos.

Também me queria parecer...

Um estudo de 2013 do BCE indica que os discursos negativos dos políticos são maus para os custos da dívida pública. O BCE está sempre a enviar mensagens aos políticos a ver se estes se erguem à altura das exigências da crise actual.

Eu gosto do BCE de Mário Draghi, aliás acho Draghi um homem fenomenal, muito melhor do que Trichet. É pena que do lado da política fiscal europeia não haja ninguém que lhe chegue aos calcanhares.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Eu vejo-me grega com os portugueses

Anda tudo excitado com o Syriza, mas eu raramente me excito com políticos sobre os quais eu ainda não sei praticamente nada. Há muita gente que vê os gregos como coitadinhos; pela minha parte, eu acho que foram mal tratados e acho que deviam ter sido ajudados de maneira diferente, mas os gregos não são coitadinhos.

Quando eu trabalhava na Universidade do Arkansas, conheci um estudante de mestrado da Grécia que estava a fazer um estágio lá, juntamente com uma estudante de doutoramento da Itália e uma post-doc de Espanha. Como eu tinha carro e eles não, frequentemente eu os levava pela cidade e era comum irmos jantar fora. Uma noite, o grego e a italiana entraram numa grande discussão. Ela achava que a Itália devia ser um país decente e as pessoas deviam exigir que o Sr. Berlusconi se portasse à altura. O grego achava que tanto a Itália como a Grécia eram corruptos e não tinha conserto. E disse ele que, na Grécia, era completamente normal e aceitável, um funcionário público chegar ao trabalho, pendurar o casaco, sair para fumar cigarros, depois regressava para apanhar o casaco para sair para o almoço, tirava um almoço prolongado e depois lá aparecia, quase a horas de ir para casa. Era normal, o funcionário fazer pouco ou nada e ninguém dizia nada. Um comportamento destes não é normal em Portugal.

Durante a crise financeira e as várias intervenções na Grécia, ouvi muitas vezes na rádio americana relatarem a maneira como o serviço de saúde grego funcionava. Vocês podem ler a descrição das práticas corruptas utilizadas, como exigir que um paciente pague um suborno para ter consulta, dar subornos para ver certos médicos ou para ter consulta mais depressa, etc. Por exemplo, custava €50 de suborno para ir a um hospital e €3.000 para ter uma cirurgia. Os subornos faziam parte da compensação da classe médica. Eu não conheço casos destes em Portugal; já sei que os médicos recebem prendas das farmacêuticas, etc., mas nenhum médico estende a mão como condição para ver o paciente.

E depois há forma como os políticos gregos se comportaram. A Grécia recebeu intervenção formal em Maio de 2010, depois de muitos meses de incerteza--eles já estavam na corda bamba antes do colapso financeiro de 2008,--em que o país podia ter iniciado uma mudança de comportamento. Escolheu não o fazer antes e também não o fez durante algum tempo depois da intervenção. Em vez disso mudou de governo praticamente de seis em seis meses, procurando criar o máximo de instabilidade política pois pensavam que a UE estava a fazer bluff. Não nos esqueçamos que a Grécia não só aldrabou todas as estatísticas para entrar no euro, ou seja, não fez esforço nenhum de ajustamento da economia, como contratou a Goldman-Sachs para os ajudar na fraude. (A UE sabia da situação e, mesmo assim, deixou entrar a Grécia no euro criando uma situação de profundo risco moral. Depois de adoptar o euro, a Grécia devia ter sido acompanhada cuidadosamente pela UE. Obviamente, que o grande problema nessa altura era que o polícia de serviço, a Alemanha, tinha perdido a autoridade moral para dar lições aos outros, pois foi um dos primeiros países a quebrar o acordo de Maastricht--mesmo hoje, a Alemanha está em violação do acordo.)

Só em 2012, é que a Grécia viu que as coisas eram mesmo sérias e iniciou "reformas", como oficialmente reduzir em metade o salário do Presidente da Grécia de $462.504 (recebia €23.122 de salário mais €6.240 de despesas por mês, mas note-se que o Presidente grego da altura teve o bom senso de prescindir do salário voluntariamente); como comparação, o Presidente dos EUA ganhava $400.000 por ano.

Hoje coloquei essa notícia antiga, cujo link incluí acima, no meu grupo de discussão de economia no Facebook. E, de repente, muitos membros dizem que Portugal é exactamente a mesma coisa, é tudo igual à Grécia!!! Em 2011, o vencimento do Presidente da República de Portugal era de €6.523, depois de já ter sido cortado em 2010 e, outra vez, nesse mesmo ano de 2011, e nós tivemos intervenção depois da Grécia. Como é que isto é "exactamente igual" à Grécia?

Nós não somos tão maus quanto a Grécia. Não sei a razão desta predilecção nacional pelo masoquismo. Penso que o masoquismo é bom nos livros das "Cinquenta Sombras de Grey", mas eu prefiro ler os Trópicos de Henry Miller.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Dúvidas de dívida

No Domingo, estava a ouvir a rádio quando um analista, que comentava acerca da Grécia e do programa de QE do BCE, comparou os bonds portugueses com os bonds alemães. Ele disse que a dívida portuguesa era muito má porque a economia portuguesa era muito fraca e a economia alemã era tão melhor. Não sei se é por eu ser portuguesa, mas eu não acho a economia alemã grande coisa. Aliás, na minha cabeça, a economia alemã é um grande puzzle, pois cresce muito lentamente, tão lentamente que me faz lembrar o Japão. E depois, para um investidor, a dívida portuguesa é óptima: boa rentabilidade e Portugal, apesar de tudo, lá encontra maneira de pagar as contas.

Esta semana decidi ir ver a dívida alemã, mais propriamente a dívida das famílias--quando eu estou aborrecida, consulto estatísticas. Encontrei a página de estatísticas da zona euro, que tem uma ferramenta de gráficos muito gira onde construí o seguinte gráfico:

Em 2013, o rácio da dívida das famílias alemãs era de 83,3%, das irlandesas de 191,8%, das portuguesas de 117,5%, e das francesas de 84,5%. Depois comecei a pensar onde é gasto este dinheiro. A maior parte da dívida das famílias está relacionada com a habitação e o carro. Portugal tem tradicionalmente uma alta taxa de habitação própria, mas na Alemanha arrenda-se mais. Fui ao Eurostat, que indica que, em 2013, 74.2% da população vivia em habitação própria em Portugal; 52,2% na Alemanha; 64,3% na Franca; e 69,6% na Irlanda (isto em 2012, pois os números para a Irlanda não estão disponíveis para 2013). Concluo que, ou as casas alemãs são muito caras, ou os alemães gastam muito dinheiro a comprar carros, ou os alemães financiam muito do seu consumo a crédito, ou uma combinação destes três factores--para um povo com a reputação de "poupadinho", parece-me um comportamento estranho.

Note-se também que, em termos de dívida privada (empresas e famílias), a Irlanda está em muito pior estado do que Portugal, o que é muito surpreendente, pois os salários aumentaram muito mais lá do que em Portugal durante a época de boom e a Irlanda tinha taxas de crescimento invejáveis. O efeito da crise financeira é claramente visível na dívida das empresas irlandesas, mas a dívida das famílias irlandesas estava mais alta do que a portuguesa antes de 2008. Ou seja, para mim, nós temos pior reputação do que merecemos, mas também não somos muito bons a projectar uma imagem de confiança em nós próprios.