Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
sexta-feira, 18 de março de 2022
Contra dicção, da má e dita dura
terça-feira, 15 de março de 2022
Impasse moral
Depois de quase três semanas de guerra, a Rússia não consegue dominar a Ucrânia, mas também não sai em retirada. Há duas teorias acerca de como proceder. Uma é que tem de haver uma forma de Putin sair disto sem ser humilhado perante os russos de forma a continuar no poder. Se ele suspeitar que pode perder tudo, então pode muito bem causar ainda mais estragos. A outra é que o ocidente devia juntar forças e dominar os russos até que fosse claro quem saía vitorioso e não seria a Rússia e muito menos Putin -- aliás, convinha que ele fosse despachado porque sabe-se lá o que poderá fazer na sua próxima incursão megalomaníaca.
Tudo isto é muito bem argumentado, mas a realidade tem sempre muito mais nuance do que a estratégia. Os EUA são uma potência militar, só que a história recente demonstra que ter dominância militar não só não é suficiente para dominar o adversário, como o apoio do público americano é caprichoso -- note-se que o apoio dos europeus também não é muito melhor. Ficamos então reduzidos à eterna contradição moral de que não há melhor forma de conseguir solidariedade do que imagens de destruição, feridos, e mortos: os ucranianos precisam de continuar a sofrer para que o ocidente apoie a sua causa.
segunda-feira, 7 de março de 2022
Podia ser pior
Até agora, a única surpresa no conflito Russa-Ucrânia foi a rapidez com que a opinião pública internacional se mobilizou para apoiar a Ucrânia, não só em termos de apoio moral, mas também através de transferências criativas de fundos. Nas redes sociais, as pessoas organizaram-se para acolher os refugiados russos, ultrapassando os limites burocráticos normais. No Airbnb, pessoas de todo o mundo fazem reservas de casas na Ucrânia como forma de transferir dinheiro rapidamente para os ucranianos. As organizações não-lucrativas também mobilizaram esforços rapidamente. Por exemplo, demorou um dia para a World Central Kitchen activar os esforços na Ucrânia para alimentar refugiados. Este é, sem dúvida, o maior valor das redes sociais e da Internet e já tinha sido evidenciado aquando da retirada desastrosa dos americanos do Afeganistão.
Talvez a maior arma que existe contra Putin seja a da informação, pois o apoio do povo russo depende do enquadramento dos factos e por isso Putin não só bane as redes sociais que não controla, como o Parlamento russo modificou a legislação para contemplar penas de prisão para quem disseminar informação que contradiz a versão oficial. Esse é o seu ponto fraco e quanto mais o conflito se arrastar, mais difícil será justificar o número de mortos russos, mais a versão que os militares russos em campo dão às suas famílias directamente como a conversa de um soldado russo com a sua mãe momentos antes de morrer ou ucranianos a recolher soldados russos e a facilitarem o seu contacto com a família. Os telemóveis são uma das armas mais poderosas que existe hoje em dia.
De acordo com um relatório de fontes europeias e americanas noticiado pelo NYT, o governo chinês pediu à Rússia que adiasse a operação na Ucrânia para depois dos Jogos Olímpicos de Inverno, mas como em 2008, a Rússia invadiu a Geórgia durante os Jogos Olímpicos de Verão, que se realizaram em Beijing, o que não agradou aos oficiais chineses, talvez nem fosse preciso um acordo explícito. A China tem mantido uma postura neutra neste conflito, mas nos últimos anos tinha havido uma aproximação entre a Rússia e a China. A economia russa é mais pequena do que a economia do Texas, logo não há grande vantagem para os chineses sacrificarem as suas relações com o ocidente para ficar ao lado da Rússia.
Até agora os EUA seguiram uma estratégia que evitasse o conflito directo com os russos, retirando antecipadamente forças armadas americanas da Ucrânia e avisando o resto do mundo dos riscos. Se Putin quisesse humilhar os EUA, a forma mais fácil teria sido não invadir e assim os americanos teriam sido caracterizados como uns exagerados -- o tal exagero que levou a que invadissem o Iraque sob George W. Bush. Ao não entrar em conflito directo com os russos, os americanos também limitam a máquina da propaganda de Putin, pois não há fotos de americanos a atacar russos.
Os erros passados dos americanos serviram de guia para o actual conflito: para além da invasão do Iraque, queria evitar-se uma situação parecida com a da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, um falhanço estratégico de JFK em 1961 que levou a que a Rússia ganhasse mais influência em Cuba e tivesse mísseis nucleares apontados directamente aos EUA em 1962. Em vez disso, há décadas que a Europa e os EUA não estavam tão alinhados em termos de política internacional.
sábado, 5 de março de 2022
Mudem de grafia
Kyiv é a capital da Ucrânia em ucraniano. Kiev é a capital da Ucrânia em russo.
Por razões óbvias, temos de eliminar a grafia do agressor.
sexta-feira, 4 de março de 2022
Em parafuso...
O mundo, neste momento, divide-se entre os que cultivam a esperança e os que se entregam à loucura. Pragmatismo e cabeça fria valem ouro, dada a sua raridade.
Fui completamente apanhada de surpresa, ontem, quando um amigo meu me disse que tinha estado a falar com a família em Portugal a despedir-se por causa do ataque à central nuclear. Talvez a memória seja curta, mas quando tivemos a explosão em Fukushima (2011), aprendemos que os efeitos, apesar de maus, não seriam tão gravosos quanto se pensava.
Mas e Chernobyl (1986), perguntam vocês, que até foi na Ucrânia? Esse sim, foi muito mau, mas aconteceu antes da queda do muro de Berlim, quando o que se passava na USSR ainda estava envolto em nevoeiro. Depois, por ter sido tão mau e por quem ter sofrido mais terem sido os ucranianos, sabemos que estes tomaram medidas de segurança para que a história não se voltasse a repetir. Os ucranianos têm memória longa, já aqui falei sobre isso em 2016. Mesmo assim, o resto do mundo -- que inclui Portugal -- tem obrigação de ajudar os ucranianos com coisas mais concretas do que posts esperançosos no Instagram e Facebook.
Há um completo vazio de liderança política em Portugal, apesar de termos tido eleições um mês antes do início da invasão e da clara predilecção dos portugueses por bazucas. António Costa está MIA, como é normal sempre que as coisas vão para o torto. Marcelo preocupa-se em oferecer telefonemas de afecto ao presidente russo, o que lhe garante cobertura de primeira página. Rui Rio, que teoricamente é o líder do maior partido da oposição costuma deferir para António Costa porque, por admissão própria, é incapaz de oferecer melhor.
Nos partidos minoritários da Esquerda portuguesa, o PCP acusa os EUA de serem a causa do problema -- quem lê o que os comunistas escrevem pensaria que foram os americanos que anexaram a Crimeia em 2014. O Bloco de Esquerda, que normalmente é a cúspide do humanismo em Portugal, absteve-se da votação ao empréstimo à Ucrânia no Parlamento Europeu. Com amigos destes, ninguém precisa de inimigos.
Portugal que tem uma posição geográfica privilegiada entre os EUA e a Europa comporta-se como se fosse completamente irrelevante no plano estratégico mundial. Povo desnaturado, que nem em situações da maior gravidade se sabe erguer e lutar por uma causa nobre.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022
Assistência
~ Kahlil Gibran, “The Prophet”
Ontem assisti a uma morte. Não sei bem o que sinto, não é tristeza, nem propriamente um vazio, apenas que estive presente até ao fim. Já esperávamos que a mãe da minha vizinha viesse a falecer, mas não sendo da família, não contava acompanhar o processo tão de perto. Só que não é propriamente verdade que não seja da família porque logo no início, quando conheci a senhora, ela perguntou-me acerca da minha família. Quando lhe disse que não tinha família nos EUA (pelo menos não de sangue), imediatamente me respondeu, mal me conhecendo, que daí para a frente a família dela seria a minha família. E foi assim que fui adoptada por mais uma família americana.
Durante quase dois anos, acompanhei-a de perto e tentei estar presente. No que me foi possível, prestei a minha ajuda: fiz-lhe companhia, conversei com ela, joguei jogos, tentei fazê-la sorrir usando humor, que ela apreciava muito, cozinhei para ela, etc. Ontei, segurei-lhe a mão, fiz-lhe festas no braço, e assisti à sua etapa final. A minha vizinha, que é a sua filha mais nova, estava do outro lado, ajudando-a. A filha mais velha, do mesmo lado que eu, tentava comfortá-la, segurando-lhe a cabeça, beijando-lhe a testa, e conversando com ela, dizendo-lhe que a amávamos.
Antes da minha visita, levei o Julian a passear e comecei a ouvir o álbum Aun, de Christian Fennesz, cuja música me tinha acompanhado noutras perdas. Durante o passeio telefonei à minha vizinha para ver como estavam as coisas. Não muito bem, disse-me, e dirigi-me a casa dela assim que terminei. A mãe estava com os olhos abertos, respirando com dificuldade. Tentei fazer-lhe festas e conversar com ela: estava muito frio na rua e as minhas mãos estavam frias, só lhe podia tocar sobre o cobertor, expliquei. Sentei-me numa cadeira ao lado dela e conversei com as filhas e até foi animado.
Há dias, noutro passeio com o Julian, encontrámos um porco preto enorme no jardim de um vizinho: estava deitado nuns cobertores e até tinha uma taça de comida. Era tão grande que pensei que aquilo era muito bacon, contava eu à irmã da minha vizinha, que não acreditava porque não é legal ter animais agrícolas dentro da cidade. Mas estava lá, eu até tinha tirado duas fotografias, afirmei. Então mostra-me, dizia ela, e eu apresentei as minhas provas e ela continuou admirada, mas convencida. Depois falámos de viagens que eu tinha planeadas e de outros assuntos que já se remeteram ao esquecimento.
A irmã da minha vizinha entrava e saía do quarto, e houve alguns momentos de silêncio. No ar, senti um odor estranho, que me era desconhecido. Já há muito que não cheirava algo que me incomodasse tanto; quando era miúda era extremamente sensível a odores, mesmo perfumes agradáveis, mas fortes, causavam-me vómitos. Aquilo que cheirei ontem era quase desse calibre; era a úlcera de Kennedy: a pele, que é um órgão, começava a falhar.
Enquanto eu e a minha vizinha estávamos sozinhas no quarto, a mãe deu dois suspiros repentinos e levantámo-nos para a assistir. O coração quase que não se ouvia e apenas respirou mais umas três vezes, já a filha mais velha tinha regressado. Nós apenas assistimos e tentámos dar todo o conforto possível. Assistir à morte de alguém deve ser um dos primeiros sinais de civilização. Decerto que, nos nossos primórdios, poucos sobreviviam até à velhice e quase todos acabavam por ser comidos por predadores.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022
O conquistador
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Fact-checking Putin
— U.S. Embassy Kyiv (@USEmbassyKyiv) February 22, 2022
Coincidências
A Rússia é o maior fornecedor de gás natural líquido da União Europeia; mas, em 2018, durante a administração Trump, os EUA assinaram um acordo com a UE exactamente para facilitar o acesso de gás americano ao mercado europeu. Desde então, as exportações americanas para a Europa aumentaram e, em Dezembro de 2021, metade das exportações dos EUA foram mesmo para a UE, o que constituiu um recorde. O Sr. Putin decerto que não está muito satisfeito com os americanos e europeus.
Parece-me que o objectivo dos EUA é fazer à Rússia o que fez ao Médio Oriente: reduzir o seu poder de mercado. Dado que os americanos agora são exportadores de gás natural, quando a Rússia causa problemas que aumentam o preço, fica mais atractivo para os americanos exportarem. Tal como eu escrevi em 2015 sobre a Arábia Saudita, esta estratégia de manter preços de energia altos favorece os americanos.
Nos EUA, os preços domésticos de gás natural também aumentaram e muitos dos meus vizinhos andam no NextDoor a queixar-se da alta conta de gás natural que receberam no último mês (a minha conta de gás cá em casa foi de $377 referente ao período de 8 de Janeiro a 8 de Fevereiro, mas eu acendo a lareira muito frequentemente). Só que os americanos têm dinheiro para pagar a conta: queixam-se que são pobrezinhos, mas até estão bastante bem dadas as circunstâncias: a mediana dos activos líquidos de uma família americana é de mais de $121 mil. E mesmo os mais pobres têm acesso a programas que os ajudam a pagar a conta de energia.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
Feels like you're dying
sábado, 12 de fevereiro de 2022
Deduz-se então!
No outro dia, num comentário, um dos leitores mostrou-se preocupado com a questão de os arrendatários nos EUA não terem direito a deduzir a renda de casa. A dedução mínima nos EUA é de $12550 para uma pessoa individual e $25100 para um casal, ou seja, para parte da renda ser dedutível, teria de ser superior a $1046/mês para um indivíduo e $2092/mês para um casal. Estas rendas encontram-se facilmente nas cidades maiores, mas são consideradas altas fora das zonas urbanas. Depois, no caso de um casal, quem tem $2092/mês para uma renda é capaz de conseguir comprar uma casa e o governo federal tem várias formas de apoiar a compra de casa.
Deduz-se então que ao ter uma dedução mínima, mas não permitir deduções de rendas, enquanto permite deduções de juros da compra de casa, o sistema americano distorce o mercado em pelo menos três formas: (1) torna as zonas não-urbanas mais atractivas para arrendamento do que as grandes cidades; (2) incentiva a compra de casa em vez do arrendamento, o que promove a acumulação de riqueza a longo prazo; (3) promove os estados com custo de vida mais barato e penaliza os estados mais caros.
Por vezes, estas distorções até são agravadas pelos governos dos próprios estados: por exemplo, a Califórnia limita a construção de novas casas e muitas cidades têm zoneamento bastante restritivo, logo o mercado imobiliário aprecia bastante, o que força as empresas a ter de pagar salários mais altos para atrair mão-de-obra. O efeito destas políticas é que muitas empresas têm vindo a mudar-se para estados com custo de vida mais em conta, como o Texas ou o Tennessee.
Mesmo indivíduos reformados escolhem sair de Nova Iorque ou da Califórnia para ir viver noutros sítios onde possam esticar o seu pé de meia. Ainda por cima, ao vender a casa, não se paga imposto sobre a mais-valia porque o governo federal presume que a valorização da casa se deveu em parte ao esforço dos donos que a mantiveram.
E os pobres, como é que ficam? Imagine-se alguém que tem um emprego em que ganha o salário mínimo -- o salário mínimo federal é de $7.25/hora ou cerca de $14500/ano (multiplica-se o salário por hora por 2000 horas para chegar ao anual). Do ponto de vista dos americanos, não é desejável que haja muita gente a ganhar o salário mínimo, mas há empregos que pagam o salário mínimo em todo o lado, logo não é necessário a pessoa viver num sítio onde o custo de vida seja caro.
Para além disso, os pobres têm direito a vários programas de apoio por via dos governos federal e dos estados. Se a pessoa escolhe viver num sítio mais caro, é uma escolha pessoal que o governo federal não acha que tem de subsidiar. Aliás, é esse mesmo o problema: enquanto que os portugueses têm um enorme afecto pela palavra subsídio e são indiferentes a impostos; os americanos detestam subsídios e impostos.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
Tecnicalidades
Enquanto eu tratava da comida porque o meu fogão é a gás, o vizinho do lado apareceu e começou a avaliar a situação. Descansou logo a vizinha dizendo-lhe que a mãe não iria morrer por causa de uma tecnicalidade e trouxe o gerador para ligarmos a máquina de oxigénio e um aquecedor. Eu forneci o aquecedor portátil que tem controle de temperatura. Quando o ligámos acusava 12 graus centígrados no quarto, mas no espaço de minutos a temperatura aumentou uns cinco graus. Depois de ter almoçado e o quarto estar quente, a mãe da minha vizinha adormeceu e assim esteve o dia todo. Que suspiro de alívio, mesmo assim tínhamos medo que o apagão demorasse muito tempo e não conseguíssemos manter o nível de conforto.
A minha hipótese, que depois se confirmou, era que tinha sido uma sorte termos sido dos primeiros a ter perdido electricidade. Depois também vivemos numa vizinhança em que os cabos de electricidade estão sob a terra, mas claro que os cabos principais que fornecem electricidade à vizinhança não estão enterrados. Um amigo meu português em Houston aguardava a tempestade, que chegou lá horas mais tarde, e queixava-se que a infraestrutura dos EUA era uma porcaria. Um país tão rico em que falta electricidade e que usa madeira em vez de betão para os postes -- não bate a bota com a perdigota. Sabem o que eu digo? É pena os americanos não fazerem parte da UE e não serem subsidiados a fundo perdido para modernizar a infraestrutura...
A Europa não costuma ter os desastres naturais que existem nos EUA, para além de que a densidade populacional na Europa é muito maior. Depois também há o facto de a Europa ter sido reconstruída por causa da guerra, logo houve um esforço de modernização que até foi patrocinado pelos americanos. Aliás, é fantástico que os americanos se interessem mais por tentar criar melhor infraestrutura noutros países e não sintam que a do seu próprio país seja uma prioridade. É um povo meio maluco, mas quando há desgraças é bom ter um americano ao lado porque as coisas acontecem.
Há uns anos, ainda eu não vivia aqui, a electricidade faltou e a esposa do vizinho do gerador ficou muito frustrada, pois achava ridículo não ter electricidade, logo disse que ia comprar um gerador (funcionam a gasolina). O marido tentou explicar-lhe, sem resultado, que um gerador não fazia o que ela pensava; por exemplo, não ia poder ligar o secador de cabelo e as outras geringonças ao gerador. Ela ignorou-o e foi assim que eles acabaram por comprar um gerador, disse ele para concluir a história. E agora com gerador, a única coisa que lhe ligaram foram os carregadores dos telemóveis porque deram prioridade a manter a mãe da minha vizinha viva. Bendita obsessão por esticar o cabelo.
Enquanto eu andei nestas vidas até às 21h30m, os meus amigos portugueses -- os únicos que tenho aqui em Memphis, logo para mim valem o seu peso em ouro -- ficaram sem electricidade em Midtown cerca de duas horas depois de nós. A primeira noite passaram em casa, mas de manhã decidiram vir para minha casa. Assim, estivemos uns dois dias a cavaquear em português, a falar de cultura, história, etc. A filhota deles, que gosta muito da minha casa e anda a tentar convencê-los a comprarem uma casa igual, fazia video-conferência pelo telemóvel com a melhor amiguinha dela e conversavam e brincavam juntas durante horas. A infraestrutura dos telemóveis é uma outra coisa que é uma lástima por aqui, até porque é bastante caro. Quer dizer, depende muito do que se compra porque, entretanto, já há planos mais económicos que apareceram e que são populares com os imigrantes ilegais.
Por falar em imigrantes ilegais, na Terça-feira passada, vieram cá as senhoras da limpeza que também gostam muito da minha casa. A mais velha é da Colômbia e pediu-me conselhos acerca de que revista de decoração devia assinar. Sugeri que visitasse o Barnes & Noble para ver as que lhe agradavam, mas tenho-lhe dado imensas revistas antigas que tinha por aí. Ela, que me trata por tu, disse-me logo que eu estava convidada para ir visitar a Colômbia e ficava em casa dela, que tem vista para o rio e fica à beira da floresta tropical. Os macacos até costumam andar pelo jardim.
A senhora tem menos de 50 anos, um curso superior, e já está reformada no país dela, tem uma casa novinha giríssima que mandou construir e que está completamente paga, ou seja, tem melhor vida do que eu e é ela que alegremente me limpa a casa. Só fica na América até a filha terminar o curso da universidade, mas a filha já disse que não quer regressar à Colômbia. No meio de toda a conversa, informou-me que na América só não trabalha quem não quer. Afinal, ela chegou aos EUA sem papéis, nem saber falar inglês, e conseguiu arranjar emprego e organizar a vida muito depressa. Os americanos não se orientam porque não querem: as mesmas tecnicalidades que afectam a infraestrutura.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Quentinhos
A ironia de ter estado sem electricidade é que no ano passado, quando tivemos o super-nevão, os pássaros ficaram sem água porque congelou tudo, logo assim que as coisas normalizaram comprei um bebedouro aquecido para a passarada. Só que, sem electricidade, não adianta grande coisa. Mas não me estou a queixar, estamos todos bem.
De manhã, a vizinhança e o meu jardim estavam assim:
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
Uma salgalhada
Todas as comissões que são cobradas aos compradores são divulgadas antes de se realizar a compra de casa; mas, em alguns estados, é comum o comprador pedir a quem vende a casa para pagar os custos de fechar o contrato (closing costs). Depois há também o facto de a maior parte dos empréstimos para compra de casa nos EUA ser a taxa de juro fixa, logo se houvesse um spread, este seria variável.
Recentemente, a Reserva Federal anunciou que provavelmente começaria a aumentar a taxa de referência em Março e conta fazê-lo várias vezes antes do final do ano. Quando isso acontecer, a maior parte das hipotecas existentes ficará na mesma porque têm taxas de juro fixas. Quem será afectado serão as pessoas que estão a comprar casa, pois terão de pagar uma taxa de juro mais alta. No entanto, o normal é os preços das casas diminuirem um pouco para que o pagamento mensal não fique muito diferente. Com os juros mais altos, os americanos têm uma maior dedução nos impostos, pois as despesas com juros de hipoteca são 100% dedutíveis no rendimento colectável, para hipotecas até $750 mil.
Há outros detalhes interessantes. Quase metade das hipotecas americanas são compradas pela Fannie Mae e pelo Freddie Mac, que são empresas cotadas na bolsa, mas com fins sociais (servem para ampliar o mercado de hipotecas, ou seja, garantem as hipotecas de pessoas que têm menos possibilidade de obter crédito) e garantidas pelo governo americano.
Muitas poupanças de americanos estão aplicadas em intrumentos financeiros compostos por hipotecas e também em acções da Fannie Mae e do Freddie Mac, logo parte da receita dos juros das hipotecas reverte para os próprios americanos ou para investidores internacionais que comprem estes instrumentos.
Isto é tudo uma grande salgalhada. Tenho de ter outra conversa com o meu amigo porque ele anda à procura de casa e vai ser a sua primeira compra.
Estamos todos de parabéns!
Velho é a palavra de ordem: o povo português está muito envelhecido e vive na sombra do passado: acha que o PS de agora é o PS que saiu da derrota da ditadura -- aqui estamos a ser muito generosos porque a ditadura já estava ela própria envelhecida e mal se segurava. Com a população que temos é impossível retirar o PS do poder, logo pode continuar o processo de empobrecimento do país e agora mais celeremente, afinal a maioria absoluta tem de servir para alguma coisa.
Há também que felicitar a pseudo-oposição que temos: Rui Rio devia levar o prémio de pior líder da história do PSD porque o homem não desiste. Ventura, o nosso Chico-esperto de estimação, devia fazer uma auto-avaliação de quanta areia cabe dentro da sua cabeça. Ao BE e ao PCP, temos pena, mas é bem feita. Aos restantes, better luck next time.
Aos pseudo-intelectuais, comentadores, jornalistas, etc.: força na auto-censura, há uma página num futuro livro de história de Portugal dedicada a vós.