sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Reportagem 17

Aos gritos de solerte, velhaco, finório, manhoso, A. da P., funcionário público à beira da reforma, foi escoltado para fora da sala do tribunal de 1ª instância da comarca de l. por dois agentes das forças da ordem em traje civil, vulgo à paisana, ou assim pareciam. Pareciam agentes das forças da ordem, que envergavam traje civil era evidente.
Esperar-se-ia de quem enverga traje civil que fizesse jus ao adjectivo e à sugestão de civilidade que este acarreta, mas a escolta foi abrupta e é isso que faz suspeitar da pertença dos dois indivíduos a um qualquer ramo do corpo, braço do corpo, que executa a autoridade de um estado, detentor do monopólio da força legítima. A necessidade de um tal ramo ou braço que faça cumprir aquelas determinações que o estado entende indispensáveis para a ordem pública, daí o epíteto parafrásico forças da ordem, decorre da tendência infantil dos membros da comunidade política para a recalcitrância e mesmo para a contumácia. Ou seja, porque a ordem tem que se garantir à força, uma força que podemos dizer centrípeta e que contraria a força que podemos dizer centrífuga do indivíduo renitente. Não se pense que há um anarquista em cada cidadão e que cada cidadão preferiria a desordem, o caos, a balbúrdia. Antes cada cidadão é uma república em si mesmo, como ensinou Platão, e quer obedecer apenas àquela lei que dá a si próprio, como ensinou Kant. Começamos a perceber que falar neste caso de uma tendência infantil é uma forma de condicionar a percepção do público quanto à conduta do indivíduo autónomo e insubmisso, uma distorção ideológica levada a cabo através da manipulação da linguagem, como nos ensinou Orwell e antes dele Marx. A imagem do tributário conforme, a quem aborrecem os furtos pequenos mas que se congraça com os grandes, mantém o indivíduo naquele estádio ético de que Kierkegaard nos ensinou a suspeitar por pôr em risco a autenticidade que faz com que a vida valha a pena ser vivida. Às vistas curtas de que Hobbes nos acusa e à reconciliação que Hegel nos promete, antefiramos a vigilância constante sobre os poderes que Locke nos ensinou ser condição de uma sociedade livre. Até à revolta, se for preciso. Como A. da P., funcionário público à beira da reforma, que fez neste dia da sua vociferação um manifesto.

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