terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Dias 31-35

Dia 31
Estou a cair de sono, que é como quem diz lá se vai o brio, mas foi um dia produtivo. Acordei às seis da manhã, saí do trabalho pouco depois das cinco, passeei o cão, tive uma sessão com o personal trainer, jantei, fui à casa anterior buscar umas coisas e certificar-me que tudo estava bem, e agora estou aqui, com sono.

...

Dia 35
O último mês tem sido um bocado intenso para mim: trabalho, mudanças, passear o cão, fazer exercício com o personal trainer. Ao final do dia, estou de rastos, mas durmo sempre muito bem. No Sábado, mudámos finalmente a mobília para a nova casa e restam apenas alguns itens na casa anterior: o aspirador, uns vasos de pot pourri, o triturador de papel, frascos para fazer compota, e uns produtos de limpeza doméstica.

Depois de me mudar tantas vezes, já devia estar habituada a ser confrontada com a quantidade de coisas que acumulei, mas ainda sinto um certo pavor ao ver o camião cheio. Ainda por cima, desta vez, não conseguiram enfiar tudo na primeira viagem e os meus três ajudantes já se sentiam bastante frustrados. A um dei a minha TV, com o equipamento de som. Que bom que finalmente me vi livre daquele mamarracho de 2005 e o moço, coitado, não tinha TV. E sinto uma vontade imensa de não comprar mais nada, a tal vontade que eu queria que fosse mais permanente do que é.

Quando cheguei à casa nova para abrir a porta aos rapazes da mudança, a minha agente imobiliária, que é também a minha melhor amiga em Memphis, estava à minha espera muito aflita porque me tinha tentado telefonar quatro vezes e eu não tinha atendido. Tinha-me esquecido do telemóvel na casa nova enquanto fui para a velha. Ela estava com uma amiga, que eu supostamente já tinha conhecido, mas de quem não me recordo. E vinha armada com uma prenda, a chamada "house warming gift": um prato de cerâmica para assar queijo brie no forno.

Nesta altura, convinha que algum de vós me perguntasse quantas vezes é que eu assei queijo brie na vida. A resposta é zero, mas ela achava que eu tinha interesse em o fazer. Ora eu tive interesse em investigar como se assava queijo brie porque há umas semanas, quando estávamos a fazer os preparativos para passar o Natal em casa dela, ela falou em assar queijo brie e eu perguntei-lhe se ela queria que eu lhe assasse um. Se ela me tivesse falado em migar couves, eu teria tido interesse em fazer caldo verde.

Ainda por cima o prato, que até é girito, vá, é feito na China. Eu sou uma snob da cerâmica e não costumo comprar coisas feitas na China -- tenho algumas porque mas dão. Prova de snobismo: para a festa de Natal levei fruta acompanhada com um molho de cannoli e como pensei que houvesse pouco espaço na mesa dela, fui comprar um prato alto de servir bolos feito na Itália.

Mas voltando ao assunto de assar brie, também não quero que fiquem com a impressão de que sou uma azelha completa na cozinha; sei perfeitamente que há massa folhada congelada na loja e a Joana Roque deve ter pelos menos uma receita de como se assa enterrada nos arquivos do blogue dela. E depois há o Google. Também havia os livros de receitas cá de casa, que na altura estavam mais ou menos disponíveis, mas que agora estão muito provavelmente enfiados numa caixa.

Sabem onde os rapazes da mudança meteram as minhas caixas de livros? No quarto Trump! Ah, não sabem o que é o quarto Trump. É o quarto cá de casa que servia de escritório para o senhor que cá vivia, um senhor que na parede norte tinha uma foto de Ronald Reagan e na parede este uma de Donald Trump com uma nota de dólar assinada pelo dito cujo, carcará sanguinolento... Ai espera, isso era da novela!

A primeira vez que entrei no escritório, a minha agente que ia à minha frente deu um suspiro de horror e disse "You're not gonna like this!" Pois... Mas eu não disse que eles aqui são todos pró-Trump? Até ela, que é um anjo de pessoa, votou nele. Sabem por que razão se inventou a palavra "whatever"? Para se sobreviver no Tennessee.

Na segunda vez que entrei no escritório, qua do fiz outra visita à casa, o Trump tinha desaparecido porque ela telefonou à agente dos donos da casa a aconselhar retirar a foto: não se deixa nada que possa afujentar compradores, explica ela. Ou seja, as revistas e os livros que se usam para decorar a casa para a mostrar não têm pessoas nas capas para não ofender nenhuma etnia, os artefactos religiosos são retirados para não ofender crentes, etc. A minha agente conta-me que, uma vez, teve uma cliente que tinha 33 cruzes espalhadas pela casa e que, com jeitinho, conseguiu que o número fosse reduzido para três: uma enorme vitória em Memphis.







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