terça-feira, 9 de julho de 2019

Risco pessoal

Ontem, o Twitter decidiu sugerir para minha apreciação um monte de tuítes xenófobos e racistas. Suponho que tenho de agradecer ao Público por ter inspirado tanta generosidade. Perguntava alguém no Twitter se gostaríamos de ter ciganos como vizinhos porque parece que ter ciganos vizinhos é mau. Não é; aliás, eu cresci numa vizinhança em que havia uma família cigana composta de uma senhora viúva e doente crónica que tinha dois filhos. A minha mãe dizia-me que era muito boa pessoa e como a senhora cigana vendia roupa na feira, de vez em quando comprávamos algumas peças. Mesmo quando a família se mudou para outra vizinhança continuámos a ir visitá-la para comprar roupa.

Se é disto que têm medo, podem ficar descansados porque nada nos aconteceu apesar da proximidade. No entanto, há males bem piores no mundo e também havia na vizinhança onde cresci. Por exemplo, tive um vizinho pedófilo, que já tinha estado preso por ter violado alguém, mas que entretanto se exibia em público ou quando apanhava alguma criança só aproveitava a ocasião. Depois havia um polícia que se embebedava e batia na mulher, mas não era o único homem que o fazia. Homens que batiam em mulheres em Portugal era o pão nosso de cada dia e, infelizmente, não é uma espécie em vias de extinção. E até aposto que não sou a única pessoa que cresceu numa vizinhança com pessoas deste calibre, que nem eram ciganas.

Eu percebo que há ciganos maus, mas também percebo que há não-ciganos piores -- não, isto não é um caso de "whataboutistmo", é mesmo um caso de avaliação de risco pessoal -- e cada indivíduo deve responder pelos actos que comete, em vez de culparem toda uma etnia. Por falar em pessoas más, no ano passado, a ONU publicou um estudo em que concluía que o lar é o sítio mais perigoso para uma mulher: em todo o mundo, das 87 mil mulheres vítimas de homicídio, cerca de 50 mil morreram por causa do seu parceiro ou de um familiar, ou seja, quase seis mulheres por hora, em média. Acham mesmo que era de ciganos que estas vítimas deviam ter medo?




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