domingo, 22 de março de 2020

1918 revisitado

Lentamente, ergue-se um consenso dos epidemiologistas e especialistas, como Larry Brilliant: esta pandemia será algo parecida com o que aconteceu em 1918. A revista The Atlantic também publicou um peça de dois especialistas que são da mesma opinião. Em 1918, quando o mundo tinha 1.8 mil milhões, a chamada gripe pneumónica infectou 500 milhões de pessoas e matou entre 17 a 50 milhões; há quem seja mais pessimista e contabilize o número de fatalidades à volta de 100 milhões.

Portugal também foi atingido e alguns locais perderam 10% da sua população. No Reino Unido, o virus começou a atacar em Janeiro de 1918, com o primeiro surto, que foi o menos grave, acalmou no verão, e regressou num segundo surto, o mais letal de todos, em Outubro de 1918; depois houve um terceiro surto de mortalidade intermédia em Fevereiro de 1919. Leiam a Wikipédia, que é grátis, se faz favor. Eu tive a sorte de, há mais de 10 anos, quando vivia no Arkansas, conhecer um senhora octogenária, cujo pai, que era francês, quase morreu neste surto. A esposa é que se recusou a abandoná-lo numa sala enorme cheia de doentes à espera da morte e cuidou dele.

Não me recordo de ter aprendido sobre a pandemia de 1918 na escola em Portugal; perguntei hoje a uma colega do secundário e faculdade e ela não sabia o que era, o que eu acho estranho dado o período que atravessamos. Talvez tenha a ver com o número de pessoas em Portugal que vão à rádio e televisão e dizem que a situação actual não tem precedente. Quem diz coisas destas não devia ter tempo de antena e muito menos devia aparecer em painéis de discussão da pandemia actual. Convidem médicos e especialistas, mas não convidem burros, que não sabem usar a Internet, nem têm um pingo de curiosidade para ler a imprensa actual.

O mundo não começou quando nascemos e, na escola, apesar de não nos terem ensinado sobre a pandemia de 1918, ensinaram-nos sobre a peste negra, por exemplo. E mais recentemente, tivemos bastantes casos de doenças que podiam ter corrido pior, como o SARS, MERS, Ebola, H1N1, e outras melhor, como o HIV/SIDA, que foi mesmo declarada uma pandemia e que já matou mais de 32 milhões de pessoas. Durante os anos 8o e 90, o período negro do SIDA, nas televisões portuguesas eram convidados especialistas. Uma curiosidade: ainda me recordo de alguém num programa da RTP, onde estavam médicos, acusar o Primeiro-Ministro da altura, Cavaco Silva, de não saber o que era o SIDA, quando a filha dele era investigadora na área. A propósito, já convidaram a Patrícia Cavaco-Silva para comentar a pandemia? Ela é mesmo especialista.

Um outro enviesamento cognitivo dos actuais "pseudo-especialistas" que aparecem na comunicação social portuguesa é acharem que se das outras vezes os especialistas não acertaram, desta também não acertam. Só que a ausência de uma pandemia não é sinal de falhanço, mas sim de sucesso. É por as autoridades se prepararem para o pior, que se podem precaver contra esse risco, e o conseguem controlar para que não atinja grandes proporções. Nos últimos anos, os EUA não viram valor nenhum em preparar-se para riscos deste tipo, aliás o Presidente Trump desmantelou a equipa que estudava os riscos de uma pandemia e actuava assim que aparecia algo que causava alarme; e também cortou a despesa com os Centers for Disease Control. Perante este falhanço dos EUA, a União Europeia, que é a outra super-potência económica, não fez nada para ocupar este vazio. Para além da UE não ter um esforço coordenado entre os países, as políticas que cada um segue para controlar o contágio são nacionais, quando o problema é supra-nacional.

Não se preocupem. Depois deste falhanço colossal, em que, se o pessoal não abrir o olho, se estima que iremos ter mais de uma centena de milhões de mortos, os fracos falecerão, e a próxima epidemia não será tão letal. Um falhanço dos verdadeiros especialistas, portanto.




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