Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Comida má
Com isto não estou a dizer que a comida não seja má, mas é necessário levar a discussão noutra direcção, como, por exemplo, a questão da higiene. Não parece que quem preparou a alface a tenha lavado em condições e, nesse caso, há o risco de as crianças serem expostas a bactérias, como e. coli ou salmonela, que causam envenenamento alimentar. Aliás, seria conveniente que alguém se certificasse que os empregados dos refeitórios em Portugal estão devidamente treinados e sensibilizados para as questões de higiene, até porque o público que servem -- as crianças -- ainda estão em desenvolvimento e estão mais susceptíveis a doenças deste foro.
Já agora, que tal um jornalista investigar se os refeitórios obedecem aos princípios do HACCP? Se não sabem o que é o HACCP, então leiam aqui.
E reparem que mesmo um prato com um aspecto delicioso pode estar contaminado e a comida ser má.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Das ideias parvas que eu tenho...
O meu sogro, agora reformado, fazia investigação em relvas e, quando eu os visitava, passava algum tempo a ver que experiências ele tinha lá por casa: havia relvas que davam para vender cortadas em tapetes (o termo inglês é "sod"), outras que eram melhores para semente, etc. A Oklahoma State Univeristy onde eu me formei e ele trabalhou é uma das universidades líderes no desenvolvimento de relvas. Uma das relvas mais importantes das últimas décadas foi a Riviera, uma espécie de Bermudagrass que é tolerante ao frio, e foi inventada lá. É comercializada exclusivamente pela Johnson Seed Company em Enid, Oklahoma.
Para além de Portugal ter a vantagem dos micro-climas, também é um sítio onde o dinheiro estica porque é bastante eficiente em custo. Isto seria uma boa forma de obter financiamento adicional para instituições de ensino, formar jovens que fariam investigação aplicada e facilmente incorporada no mundo real, e talvez fomentar uma indústria de exportação de espécies agrícolas. Afinal, se a Holanda se especializou em bolbos e é possível comprá-los em qualquer parte do mundo, porque é que Portugal não se especializa em couves, alfaces, etc?
P.S. Não gozem comigo, a não ser que vocês sejam uns grandes pastéis de nata, porque, quando gozaram com o Álvaro, quem riu por último foi ele...
sábado, 24 de outubro de 2015
Cogumelos, piroseira, etc.
Bem, fui às compras ontem, depois do trabalho. Eu não precisava de nada importante, mas estava a apetecer-me dióspiros, pois vi, num panfleto publicitário na semana passada, que o Central Market tinha-os à venda. O Central Market é um supermercado gourmet, que existe em Houston e que era muito famoso sobretudo pelo seu talho. Foi comprado, há uns anos, pela cadeia da HEB, uma cadeia de supermercados com sede no TX, da qual já vos falei anteriormente. Há vários Central Markets em cidades importantes do Texas. O Central Market fica na intersecção das ruas Weslayan e Westheimer, que é dentro da zona de River Oaks--a parte mais rica de Houston. A loja da Apple fica do outro lado da rua, na Westheimer.
Mas se isso não vos dá uma noção do elitismo desta loja, talvez vos interesse saber que havia à venda cogumelos por $59.99/lb, o equivalente a $132.26/Kg, ou €120/Kg. Realmente, os cogumelos tinham muito bom aspecto e eu até faço um excelente arroz de bacon e cogumelos. Quando eu os vi, apareceram duas vozes na minha cabeça que conversavam assim:
Voz 1: Olha que cogumelos tão giros, fariam um arroz tão bom. Tenho tantas saudades do arroz de míscaros da minha avó. Isto podia fazer de conta...
Voz 2: Estás maluca? Os cogumelos custam $59.99/lb!
Voz 1: Bem, os cogumelos até são leves, se calhar 1/4 lb já dava para fazer um bom arroz.
Voz 2: Afasta-te dos cogumelos, Rita! Tu até andas a cortar no consumo de carne, logo não há bacon para ninguém!
E, com muito custo e quase um torcicolo no pescoço, afastei-me dos cogumelos.
Apesar de eu gostar muito de lojas que vendem mercearia, não costumo ir a este supermercado muitas vezes porque não fica a caminho de casa. Há até um HEB gourmet na rua Buffalo Speedway, que fica perto de onde eu trabalho, e que tem muitas das coisas que o Central Market vende, mesmo os produtos de marca branca, só que a loja é mais pequena e não há tantos produtos gourmet. Já o HEB de Bellaire, onde eu vivo, não é gourmet, é mesmo pobrezinho.
Durante as minhas compras, faço sempre questão de estar atenta para ver se há produtos portugueses que me interessem comprar. Quando eu fui ao Central Market a primeira vez, há ano e meio, encontrei vinhos e enlatados portugueses, o que é relativamente fácil de encontrar noutras lojas também. Ontem fui agradavelmente surpreendida, pois encontrei também quatro qualidades de queijos portugueses e duas compotas portuguesas (figo e tomate)--nunca tinha encontrado este tipo de produtos aqui.
Fiquei ainda mais feliz por a loja estar a vender esses produtos a preços altos. Já sabem que a minha opinião é que Portugal tem muitos produtos de qualidade suficientemente alta para competir nos mercados internacionais mais exigentes. Infelizmente, não encontrei nenhum azeite português à venda nesta loja.
Acabei por comprar três garrafas de vinho tinto ($7.98, $8.99, e $9.99), dois nacos de queijo ($7.22 e $7.42), e um frasco de compota de tomate ($9.99), ver primeira foto. Nestas coisas gastei $51.59, e só os vinhos é que pagaram imposto (ver segunda foto). Em Houston, a comida não paga imposto de venda, que é cerca de 8.5%.
Gostei muito da etiqueta que acompanhava o doce de tomate (foto 3) e quando cheguei a casa experimentei-o logo. Doce de tomate não é uma coisa favorita minha, mas até gostei deste. Acho que com a idade devo ter adquirido gosto para a coisa. Lembro-me de a minha mãe fazer doce de tomate e vir chamar-me para eu ir provar. Ela estava completamente entusiasmada com aquilo e eu pensava que ela não batia muito bem da bola porque não me sabia assim tão bem. Até cheguei a dizer-lhe que eu não gostava muito para ver se ela parava de me chatear com os testes de degustação, mas ela não desistia por nada. Era mais fácil e rápido eu provar o doce e concordar que sim, estava bom. Já sabem o porquê de eu ser teimosa e maluca: é o doce de tomate! Agora com dose reforçada, ficam desde já avisados...
Foto 1: As minhas compras de ontem. De notar a piroseira da foto, a Raquel Varela que se cuide. Ele há decoração de outono e, ainda por cima, naperons de crochet feitos pela minha mãe. Infelizmente, eu nunca consegui fazer crochet com a perfeição e a paciência da minha mãe.
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Foto 2: A minha conta da mercearia. Os marmelos (quince) custaram $2.49 cada um, e os dióspiros (persimmon) $1.99 cada um. Pelo menos, gastei 47% do dinheiro em produtos portugueses. Viva eu...
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sexta-feira, 29 de maio de 2015
A cadela da Lady Gaga
“I stole Mommy’s cellphone and will be posting photos all day long. I HAVE A BIG ANNOUNCEMENT! I love to eat while I sketch my ideas for the fashionable puppy line I’m starting! I get hooked up with the finest in puppy products, so I really have a knack for what’s quality. My vision is to find creative & functional ways for pets and their owners to bond! ORGANIC GRAIN-FREE LOCAL FARM INGREDIENTS are the best for our body and brain. That’s what I eat! That’s why I’m inspired to also create A Pet Food Line.”
Talvez vocês ainda não se tenham apercebido, mas a comida de cão gourmet é muito cara e lucrativa. Estamos a falar de margens entre preço e custo dos ingredientes acima de 300% (notem que isto não é o lucro, pois esta margem não inclui os custos de produção, mas os lucros também são extremamente altos, mas eu não tenho um valor concreto para vos dar). Isto não irá durar para sempre, porque lucros anormais não são sustentáveis no longo prazo numa economia de mercado.
Há duas vias pelas quais estes lucros irão diminuir: uma é pela entrada de novos produtores, o que irá baixar o preço da comida gourmet de cão para o consumidor; outra é pelo aumento do custo dos ingredientes. Imaginem que não há ingredientes para fazer face à procura. Basta uma companhia, que produza comida gourmet, decidir aumentar a sua produção e os planos encalham logo por falta de ingredientes--foi isto que aconteceu a um cliente meu quando eu trabalhei em consulting. Nesse projecto, tive de ir à caça de fontes alternativas de ingredientes por todo o mundo e de formas como o cliente podia gerir o risco do custo dos mesmos.
As companhias que produzem comida de cão têm de competir por certos ingredientes no mercado de ingredientes para comida humana, que é muito mais caro. E mesmo assim, até para os humanos não há oferta suficiente e as companhias têm de contratar directamente com produtores que produzem commodities de acordo com critérios de qualidade pré-especificados, como é o caso do Chipotle (está na minha lista escrever um post sobre eles).
Logo, quem quer investir em agricultura e pecuária em Portugal, esta é uma óptima oportunidade de especialização: os ingredientes gourmet e biológicos estão em grande falta no mercado, com tendência para a situação se agravar.
terça-feira, 12 de maio de 2015
Cereal, Psycho, whatever...
RIC: É isso mesmo. Cereal Killer, os Talking Heads cantavam sobre isso. Por isso é que eles diziam "Run, run, run away!" Era para correr num campo de milho.
NAJ: E correr com uma foice na mão. Um cereal killer maoísta.
RIC: Mao Mao Maria...
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Gestão de risco na agricultura...
Já vos disse que, em termos de gestão de risco na agricultura, especialmente na área das commodities, os EUA são dominantes. É extraordinariamente difícil conseguir competir nos mesmos mercados de commodities que os EUA e é um erro caro Portugal pensar que pode desenvolver-se por aí, sem que os nossos produtores tenham o benefício de todas estas ferramentas para exportar o seu produto. Claro que, muitas das coisas que servem para a agricultura, servem depois para a indústria planear melhor a sua actividade e controlar o risco dos custos e da disponibilidade de inputs.
A lição para Portugal é que o nosso governo tem de investir no desenvolvvimento de ferramentas que suportem a actividade produtiva portuguesa. A UE é uma grande ilusão, pois dá a ideia que alguém está à frente da infraestrutura, mas não está, porque a UE é geograficamente dividida: não há uma estratégia global de complementaridade de infraestrutura para os países. O que há é um regime de competição em que os países competem entre si por subsídios. E depois, do lado das ferramentas de decisão, a maior parte da informação que a UE recolhe e disponibiliza não é adequada à microeconomia, é adequada ao estudo da macroeconomia, da sociedade, etc. Não há bases de dados para os produtores, os dados não são disponibilizados com a frequência necessária, etc.
Leiam esta descrição e perceberão a máquina bem oleada que são os EUA. Notem as seguintes ideias: disponibilidade de informação que serve de suporte a decisões, transparência dos mercados, complementaridade das actividades do sector público e do sector privado, integração vertical da cadeia distributiva, infraestrutura pública que serve de suporte ao aparelho produtivo privado, acesso a crédito, mercados de derivativos extremamente líquidos, etc.
The US has the most extended history of agricultural risk management of the six countries studied here. The agricultural supply chain is highly integrated and transparent, with sizable levels of infrastructure development, including efficient barge and rail transportation networks and significant amounts of on and off-farm storage. The ancillary service sector – farm credit, farm advisory, brokering – is a mature and competitive industry, characterized by low margins. Producers, mostly family enterprises operating medium sized farms (average 445 hectares), have a wide array of marketing and pricing tools, including cash forwards, futures and increasingly more common – put and call options. The government (USDA) is a significant collector of farm gate and terminal market prices which it publishes along with other relevant information such as quarterly supply and demand estimates and weekly exports. The level of government intervention is low although generous safety net programs, particularly ones involving crop insurance, have helped supplement US producer income. US futures markets are the most heavily traded in the world and are considered global “benchmarks.” Altogether, the system exhibits a high level of price transmission from benchmark to farm-gate and demonstrates considerable pricing power by the producer.
sábado, 7 de março de 2015
Malandro do mercado...
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Às vezes, as pessoas tentam explicar-me que o mercado é mau. É um estupor este mercado, trata mal as pessoas, não tem pena de ninguém, e tem uma grande predilecção por fazer mal a Portugal. Eu que sou economista sirvo o malandro do mercado. Tudo de mau que o mercado tem, nós economistas também temos. É uma visão um bocado pessimista das pessoas...
Eu gosto do mercado, especialmente do mercado D. Pedro V em Coimbra, onde as senhoras vão vender a fruta e os legumes que produzem. É um mercado que funciona bem, talvez por ser dominado por mulheres--vá lá, não se irritem, isto é uma pequena provocação porque os portugueses precisam de se rir e sorrir. Ultimamente, quando passo por esse mercado fico um bocado triste porque não se vê quase ninguém da minha idade ou mais jovem. Muitas pessoas não gostam destes mercados dos quais eu gosto; gostam dos supermercados e dos hipermercados, que eu acho um bocado estéreis e pouco interessantes. Mas entendo porque gostam dos "mercados" modernos, pois permitem que se compre uma variedade maior de coisas na mesma viagem, logo são muito convenientes.
Só para verem o quanto eu gosto destes mercados dos agricultores, vou dizer-vos que o meu cão Alfred ia comigo ao Farmers' Market em Fayetteville, no AR, todos os Sábados de manhã. Então se eu mencionasse "Farmers' Market", o Alfred imediatamente ia para a porta de acesso à garagem pôr-se a postos para ir às compras. Era um mercado numa praça da cidade e os cães eram bem-vindos. Depois disso, ainda não encontrei outro Farmers' Market onde eu pudesse levar os meus cães.
Em economia, nós dizemos que os preços são a forma como a informação circula no mercado. Quando se acompanha um mercado estamos essencialmente a acompanhar o preço actual e depois usamos informação fundamental do mercado (acerca de quantidades produzidas, procuradas, armazenadas, etc.) para vermos se o preço reflecte essa informação e para formarmos expectativas de preços futuros. Ora se os preços são a forma como produtores e consumidores comunicam, é importante haver uma forma de todos terem acesso a essa informação para que haja realmente a formação de um mercado. Notem que para haver um mercado, tem de haver uma intersecção da oferta e da procura; se estas duas nunca se intersectam, nunca há uma transacção, e nunca há um mercado.
A informação não é grátis, há um custo associado ao processo de descoberta do preço, mas os benefícios dessa informação são dispersos por todos--isto é uma situação de externalidades positivas. Nem sempre o benefício pessoal excede o custo de descoberta. Por exemplo, quando vos chega a publicidade de um hipermercado a casa, quem paga o custo de vos informar é a loja, mas cada um de vós beneficia dessa informação e pode assim fazer escolhas mais educadas. Já no caso do Mercado D. Pedro V, em Coimbra, como o preço é determinado no local, quem suporta o custo de descoberta do preço é quem vai ao mercado, mas há consumidores que vão ao mercado e não compram nada, logo tiveram o custo mas não tiveram um benefício que excedesse o custo. Agora podem dizer-me que talvez a pessoa achasse que o preço estava demasiado caro e não conseguiu regatear, logo era preferível ir à loja da esquina ao pé de casa. Sim, mas ir à loja da esquina também tem um custo de deslocação e de descoberta de preço.
No mercado de commodities agrícolas, o processo de descoberta de preço é extremamente importante e em muitos países o processo é facilitado pelos governos ou por associações de produtores. Há produtos que têm mais informação do que outros por causa do tamanho e importância do mercado. Por exemplo, eu contei-vos no outro dia que encontrei informação acerca dos preços de mandioca numa página de Internet tailandesa. É a página da Thai Tapioca Starch Association. O amido de mandioca tailandês é o melhor do mundo, logo os produtores de lá organizaram-se e formaram um mercado de futuros, e disponibilizam informação acerca de produção, preço de futuros, preço spot, etc. ao mercado mundial .
Para a formação da expectativa de preços não é apenas importante o preço actual; também se deve ter em atenção a história dos preços, pois pode haver sazonalidade (efeito de coisas como época do ano, feriados, etc.) e efeitos lag (isto é atraso no efeito que uma variável tem na outra). Por exemplo, a produção de gado nos EUA ainda não recuperou totalmente da seca que houve em 2012. Nessa altura, abateram-se muitos animais, inclusive vacas reprodutoras; como demora pelo menos dois anos a reconstruir o rebanho reprodutor, o número de animais produzidos para abater ainda hoje sofre efeitos desse evento. Quer isto dizer que para entender o efeito de uma seca no preço da carne que se vende no supermercado, por exemplo, é importante ter acesso a vários anos de dados para se fazer a análise. O ideal seria ter uma série de dados suficientemente longa para que houvesse mais do que uma seca representada.
Recolher e manter todos estes dados custa dinheiro e esforço, especialmente para um produtor individual que pode ou não ter um benefício que excede o custo de tanto esforço. Mas se houver uma forma de centralizar o custo de obter a informação e disseminá-la prontamente por muitos produtores, então divide-se o custo por muitos e é muito mais provável que o benefício de ter acesso a essa informação exceda essa fracção do custo. É esta a lógica pela qual a USDA (United States Department of Agriculture) despende tanto esforço e dinheiro a recolher e a disponibilizar tantos dados agrícolas (ver Quickstats ou PSD online), não só para os EUA, mas também para alguns países que são importantes competidores dos produtores americanos. Mas não são só os americanos que fazem isto, pois a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no Brasil, o Ministério de Agricultura, Gado e Pesca na Argentina, a Associação de Produtores de Tapioca da Tailândia, etc. também reconhecem que esta informação é importante para os produtores planearem a sua actividade e terem uma vantagem no mercado mundial. Ter acesso a dados que podem ser facilmente manipulados e analisados é muito importante.
Há um blogue dos produtores de leite portugueses no Wordpress que usa dados recolhidos pelo Observatório do Mercado de Leite da Comissão Europeia. A Comissão Europeia publicou o último relatório dos preços do leite em 5/3/2015 e comparando-o com o americano ficamos a saber o seguinte:
- O relatório da UE está completo até final de Janeiro e o mês de Fevereiro está incompleto, i.e. não há dados para todos os países; o relatório da USDA tem dados completos até 2/27/2015.
- O relatório da UE é mensal e tem dados mensais; o relatório da USDA é semanal e tem dados diários, semanais, e mensais.
- O relatório da UE refere-se a preços nacionais; o relatório da USDA refere-se a preços em zonas dos EUA.
- A UE tem um relatório diferente para os lacticínios e nesse há uma tabela semanal de preços, logo é um relatório semanal; a USDA tem leite e lacticínios no mesmo relatório semanal.
- A UE não formata os documentos em texto, usando imagens para ilustrar alguns dos dados; a USDA formata o documento em texto de forma a que os utilizadores possam usar macros para automaticamente recolher os dados e guardá-los em bases de dados, i.e., não há imagens, é tudo texto.
terça-feira, 3 de março de 2015
Não percebi...
2.1) Actualizar a Carta Agrícola de Portugal, para que definidos os locais de melhor resultado de produção se evitem os excessos, que originam desequilíbrios dos preços, permitindo apoiar essas produções.Quer isto dizer que eu não percebi a lógica de como isto irá funcionar no mercado. Vou explicar a minha deficiência de compreensão para que talvez um de vós me possa esclarecer como é que isto é melhor para Portugal.
Na produção agrícola, há uma tremenda incerteza e risco. A piada que se usa é que os agricultores adoram risco, são "risk lovers" na gíria economicista. Parte do risco vem do preço dos inputs, como fertilizantes, que são o resultado do que se passa no mercado mundial e estão ligados ao mercado da energia porque a urea, um fertilizante que fornece nitrogénio, é produzida com gás natural. Quando o milho começou a ser usado para fazer etanol nos EUA, o mercado de fertilizantes ficou ainda mais ligado ao mercado de energia porque o milho consome muito nitrogénio--e também há a óbvia ligação de o etanol ser energia. Quem usa água subterrânea para irrigar os campos, também consome energia para extrair a água. Em Portugal, também temos de ter em conta que os preços de energia para transportar os produtos têm impostos altos.
Mas a maior parte da componente de risco vem da meteorologia, isto é, quando o tempo é bom, a produção agrícola é muito boa e o excesso de produto no mercado deprecia os preços. Em anos de mau tempo com secas ou demasiada chuva, parte da produção fica comprometida e a escassez melhora o preço, isto é, os produtores que sofrem menos perdas conseguem ter melhor retorno. Mas o tempo é acima de tudo uma grande incógnita. Sabe-se lá o tempo que vai fazer dois meses depois de se plantar as sementes...
O retorno de um agricultor depende de duas coisas: o custo de produzir o produto e o preço ao qual o produto é vendido. Quando o agricultor decide o que plantar, tem melhor informação acerca do custo, mas o preço final a que o produto vai ser vendido é desconhecido. Os agricultores são normalmente price-takers, um agricultor não consegue influenciar o preço de mercado. Como fazemos parte da União Europeia, temos também de ter em atenção os preços internacionais, pois o preço de um produto em Portugal não pode ser muito mais alto do que o preço dos produtos noutros países. A lei do preço único, em que os preços diferem no espaço e no tempo pelo custo de transporte e armazenagem, tem de ser observada.
No entanto, o risco do preço pode ser mitigado por várias vias. Por exemplo, nos produtos em que há mercados de contratos de futuros, o produtor pode vender a sua colheita antecipadamente. Isto reduz o risco de perda monetária, mas também pode reduzir o potencial de ganho em anos em que há escassez e os preços no mercado spot seriam muito altos. O objectivo dos contratos de futuros é reduzir a incerteza, isto é, eliminar as caudas da distribuição probabilística dos preços, eliminam-se os preços muito maus, mas também os preços muito benéficos porque sendo os produtores price-takers é virtualmente impossível que consigam ficar sempre a ganhar ao mercado. Outra forma de mitigação de risco pode ser o uso de seguros agrícolas, muitas vezes estes são subsidiados pelo estado, em que quando as perdas da colheita excedem um certo valor, o seguro é activado desde que o agricultor não tenha sido negligente na gestão da colheita. Ainda uma outra forma de gerir o lucro na agricultura é o agricultor fazer um contrato antecipado com alguém que usa o produto, por exemplo, um produtor de batatas poderia vender a sua colheita a um processador de batatas ou a uma empresa que vendesse batatas ao público.
Relativamente aos custos, há que ter em atenção os custos variáveis e os custos fixos. Os custos variáveis são os inputs, onde os produtores agrícolas são também price-takers. Nos custos fixos, que são custos de curto prazo, inclui-se, por exemplo, a maquinaria, a os custos da terra, os edifícios, etc. Para os custos fixos é muito importante o volume de produção para que o produtor consiga obter economias de escala, isto é, dividir estes custos por uma quantidade maior de forma a que o peso dos mesmos no custo final seja o mais pequeno possível.
Perante todos estes factos, a solução que António Costa propõe traduz-se essencialmente em criar uma condição permanente de escassez em Portugal para garantir preços altos para os agricultores. Só que preços altos para os agricultores portugueses são preços altos para os consumidores e processadores e distribuidores portugueses no mercado aberto da União Europeia. Isto implica que é uma medida impossível porque o mercado iria fazer arbitragem de produto e os produtos agrícolas estrangeiros entrariam em Portugal e depreciariam os preços. Portugal é um price-taker--se António Costa ainda não entendeu isto, não reúne as condições mínimas para ser Primeiro Ministro de Portugal. E depois há a tal história dos custos fixos, pois ao reduzir a escala de produção, os produtores estão a aumentar o custo por unidade. E ao ter uma produção reduzida a um custo superior ao preço de mercado mundial, os produtos portugueses não seriam muito atractivos para serem exportados. Portugal só consegue crescer se conseguir exportar mais! Como é que isto ainda não está interiorizado em todos os candidatos a Primeiro Ministro?!?
Quais seriam propostas muito mais sensatas para a agricultura portuguesa? Uma seria identificar produtos que têm escassez no mercado mundial, por exemplo, os produtos gourmet, como os cereais antigos, os legumes e frutas menos conhecidos e que têm procura cada vez maior, e educar os produtores de quais as colheitas mais vantajosas. Outra seria desenvolver serviços de apoio para os agricultores poderem tomar decisões mais educadas e fazerem gestão de risco, por exemplo, ter boas bases de dados de preços de produtos e inputs, bons orçamentos de produção para os diferentes produtos e regiões de Portugal; outras ainda seriam incentivar o diálogo entre os agricultores e a indústria processadora e distribuidora, ter em atenção as necessidades da agricultura quando se planeia infraestrutura, desenvolver bons planos de gestão de água e solos, etc. Também se deveria pensar em desenvolver campanhas de diferenciação do produto e educação dos consumidores. Em suma, conhecer bem o mercado em que operamos e pensar fora da caixa.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Em Washington, D.C.
Um exame da lista indica-nos que há pelo menos os seguintes europeus:
- duas pessoas da Comissão da União Europeia estão presentes, sendo uma delas de relações públicas da Comissão
- duas pessoas da França
- uma pessoa de Espanha
- uma pessoa da Irlanda
- uma pessoa da Dinamarca
- cinco pessoas do Reino Unido
- cinco pessoas da Noruega
De outros países, vale a pena salientar a presença de indivíduos dos seguintes países:
- Canadá
- Austrália
- Nova Zelândia
- Japão
- China (apenas uma pessoa identificável)
- Coreia do Sul
- México
- Brasil
- Argentina
- Uruguai
É a microeconomia, estúpido...
Voltando à Califórnia: saiu um estudo da Universidade de Califórnia-Davis que analisa o que sucederá ao uso de água para fins de agricultura e urbanos, se a California sofresse um cenário de seca persistente durante 70 anos. Este é um cenário catastrófico muito improvável de acontecer, mas que permite estudar o pior que poderá acontecer e quais os efeitos de redistribuição do recurso água, os preços sombra, o que sucede ao mix de culturas, etc. A ideia de fazer isto é mais ou menos como aquela expressão que indica: "esperar pelo melhor e preparar-se para o pior". Este ano, a Califórnia está em seca, mas como muita da água usada é subterrânea, grande parte do efeito sente-se no custo de obter água. O acesso à água está sujeito aos direitos de propriedade vigentes no estado, mas sítios que têm excesso de água podem vendê-la a outros sítios com falta. Para conservar água, os agricultores deixaram de usar irrigação por inundação e usam agora sistemas de irrigação subterrânea que são muito mais caros de instalar e manter--com estes sistemas, é necessário que se produzam coisas que gerem receita suficiente para absorver os custos fixos adicionais do sistema de irrigação, como por exemplo amêndoas em vez de algodão. O algodão é uma "commodity", já as amêndoas são um produto de maior valor acrescentado.
A agricultura é uma das áreas onde Portugal poderia ser mais competitivo internacionalmente, pois tem recursos excepcionais em termos de qualidade de solos, microclimas, e recursos hídricos. No entanto, nota-se em Portugal que não há grande mestria em gerir os recursos naturais, nem há conhecimento dos produtos que seriam aconselháveis produzir. Por exemplo, há alguns meses, a Câmara de Mogadouro ofereceu sementes aos agricultores para plantar soja. É uma das piores ideias que eu já ouvi. Portugal não deve investir em soja porque é um produto de baixo valor acrescentado, que é altamente subsidiado pelos EUA, o que deprecia os preços mundiais. Não há propriamente falta de soja no mundo. Se for soja biológica até compreendo mais ou menos, mas soja não-biológica não é assim tão atractiva, mesmo sendo grande parte da soja americana geneticamente modificada e a soja portuguesa não. As únicas pessoas que ganham com isto são as companhias que vendem sementes e as que vendem equipamento agrícola. E depois a soja não é exactamente uma colheita que seja amiga do ambiente, apesar de não necessitar de muito fertilizante de nitrogénio por ser uma leguminosa. Que tal investigar cereais antigos, como quinoa, cujo preço é muito mais atractivo e cuja procura está a aumentar exponencialmente?
Também se nota que a gestão de risco está completamente ausente. Por exemplo, seria importante saber quais os rendimentos agrícolas históricos e os custos de cultivo de produção por região para saber qual a colheita mais atractiva antes de se decidir o que plantar. Se formos à página de Internet do Ministério da Agricultura, não se encontra nenhuma informação que seja útil para um produtor agrícola planear a sua actividade, nem sequer ficamos com uma ideia do que exactamente o Ministério da Agricultura faz. A página, que é bastante simples, até tem ligações que dão a páginas que não têm informação. Fui à página da Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural e também não encontrei informação de mercado para os agricultores planearem a sua actividade. Como fazemos parte da UE, se calhar é lá que os produtores agrícolas devem informar-se, mas não. Se forem a esta página da Comissão Europeia, encontram lá uns relatórios em PDF acerca de preços agrícolas de algumas commodities. Contrastem isso com as estatísticas americanas, ou brasileiras, ou até argentinas, e verão que a utilidade da informação da União Europeia para a agricultura não passa de uma ilusão, que nos sai bem cara, porque as pessoas que trabalham para a UE não são pagas salários assim tão baratos.
No Texas, as universidades já estão a trabalhar com os proprietários de terra há vários anos para que quando o preço do petróleo descesse, estes pudessem ter uma actividade mais rentável de apoio. Nesse sentido, tem-se vindo a incentivar o cultivo de oliveiras para começar a produzir azeite. Estes americanos estão sempre a planear o futuro. Em Portugal, ainda estamos a tentar perceber como é que falhámos no passado.
Como dizia o Michael Porter, não há nenhum apoio à microeconomia; mas, parafraseando Bill Clinton, "é a microeconomia, estúpido..."

