terça-feira, 3 de novembro de 2015

Perguntas para um guião

O PSD e o CDS já devem andar a preparar um guião para a oposição a um governo de esquerda, no qual devem constar perguntas aos comunistas e neocomunistas do género: “Condenam ou não os crimes de Estaline com os seus milhões de vítimas?”; “Consideram ou não a Coreia do Norte e Cuba ditaduras implacáveis, que perseguem e matam, nomeadamente de fome, centenas de milhares ou milhões de pessoas?”; “Dêem lá um exemplo de um país em que o comunismo tenha gerado paz e prosperidade?”.

Há uma máquina de propaganda que nos quer convencer de que a esquerda radical já não é o que era. Estão mais moderados, deixaram-se de fantasias “internacionalistas”, "nacionalizaram-se", libertaram-se da tralha ideológica e só lhes sobrou o seu amor pelos trabalhadores. Provavelmente, este processo de conversão implica transfusões de sangue no Largo do Rato, e deve ser por isso que o famigerado acordo tarda em ver a luz do dia. Infelizmente, sou um céptico nestas matérias, tenho de ver para crer. E, até ao momento, ainda não vi estes “novíssimos socialistas” a condenarem os crimes hediondos cometidos por esse mundo fora em nome dos “amanhãs que cantam”.

Frases famosas 12


12. Vinha ruminando na questão desde que, na tarde de um domingo quente, assistira ao assassínio de Bartolomeu Beltrão. Era este Bartolomeu figura bem conhecida de cafés e jogos de cartas, que acompanhava de impropérios vernáculos e cuspidelas para o chão. Reinou deste modo dez anos, até ao domingo fatal em que, aos gritos de batoteiro e insinuações nada veladas acerca da virtude da mãe, lhe espetaram na órbita do olho esquerdo um picador de gelo deixado com negligência sobre o balcão. Também ali pegara a moda da caipirinha, só que adaptada ao bagaço. Era o assassino um rival à altura de Bartolomeu, e não se deixou intimidar pelo tufo de pêlo farpado que lhe saía da camisa como arame. Nem pela tatuagem de uma serpente rodeando-lhe o pescoço. Avançara sobre o bruto hesitando nada. Sem tremer da mão, certeiro como um Guilherme Tell, mas sem arco. Não foi instantânea a morte de Bartolomeu. Agarrado ao cabo do picador de gelo, uivou aos tombos pela sala, arrastando cadeiras e derrubando mesas. Quem tentou ajudá-lo levou murros e pontapés sobre-humanos, pois que às vascas da morte a vontade de sobreviver multiplica as forças. Foi também difícil agarrar o assassino, posto que perceber que se vai perder a liberdade do mesmo modo aquece as paixões para lá do ponto de fervura.  Quem de fora ouviu gritos e uivos correu para o estabelecimento, e foram tantos a puxar o homicida, agora que lhe não enchiam as mãos quaisquer objectos cortantes ou agudos, que as roupas deste quase não resistiram inteiras. Não se meteu na descomposta multidão aguada aquele inicialmente apresentado que, desde o caso violento, não pudera evitar ruminar nele. Por vezes, um passo acima das multidões, há espectadores reflexivos. A este não lhe custara o aparato grotesco. E não meditava sobre esta nossa espécie, para a qual é tão fácil aniquilar o semelhante. Servem-nos os pretextos mais frívolos, jogos de cartas ou desrespeito pelas regras da prioridade. É tantas vezes pouco importante o que nos basta para mudar um amigo em cadáver. O que sói conduzir-nos a conclusões lapidares como esta, por trás de cada sorriso amigável espreita um esgar homicida. Não foram deste teor as ruminações suscitadas. Mais do que moralista era esteta este espectador pensativo. Doía-lhe mais o como se fazia do que o que era feito. Escolheu um dia de aniversário e uma vítima delicada. Abriu a porta e disse, com sua licença. Se for preciso matar alguém, não custa nada ser bem educado. 

Mudanças na demografia americana

A demografia americana está a mudar. Todos os meses, os media que cobrem negócios lançam previsões e fazem inferência com base em tendências passadas. Já dei aqui a conhecer o meu enviesamento: há demasiadas mudanças demográficas para se poder inferir com a mesma confiança com que se inferia há uns anos.

Angus Deaton, que ganhou o prémio Nobel de Ciências Económicas este ano, e sua esposa Anne Case, ambos economistas em Princeton, disponibilizaram um estudo esta segunda-feira que revela mudanças demográficas trágicas: a análise dos dados de mortalidade da pessoas entre os 45 e os 54 anos de raça branca não-hispânica, demonstram que a mortalidade deste grupo está a crescer.

O efeito é mais pronunciado em pessoas de baixo nível económico e é suficientemente forte para afectar o grupo etário inteiro. Este aumento da mortalidade está associado ao maior número de suicídios e consumo excessivo de drogas e álcool.

Esta constatação junta-se a outras que indicam que a esperança média de vida nos EUA diminuiu. Os tempos mudam, mas não para melhor...

Fonte: The New York Times

Mar

Mar tamanho, mar tamanho,
água tão abandonada. 
Não me queixo nem estranho, 
embora desesperada. 

~ Cecília Meireles

P.S. Não é delicioso na sua simplicidade?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Hollywood enganou-nos

Afinal o Body Heat estava todo errado. Aquilo não podia ter acontecido durante uma onda de calor na Florida. Seria mais provável que tivesse acontecido em Fargo, ND. Sinto-me enganada...

Houston, we have a problem!

"Climate change has been blamed for many things over the years. Never, until now, has anyone thought it was possible to see it as a kind of contraceptive.

Hot weather leads to diminished “coital frequency," according to a new working paper put out by the National Bureau of Economic Research. Three economists studied 80 years of U.S. fertility and temperature data and found that when it’s hotter than 80 degrees F, a large decline in births follows within 10 months. Would-be parents tend not to make up for lost time in subsequent, cooler months."

Fonte: Bloomberg

Pecados

"My sins are too many and varied to mention and frankly I intend to continue sinning, so I won't waste your time." Responde Miss Phryne Fisher a um padre católico, quando ele lhe pergunta se a razão de ela ter ido à igreja era estar a precisar de se confessar.

"Miss Fisher's Murder Mysteries" é uma série australiana, já com três temporadas, e que ficou disponível pelo Netflix nos EUA em Setembro deste ano. Phryne Fisher é uma "lady detective", que opera em Melbourne nos anos 20. Não é muito claro a idade da personagem, mas percebe-se que é uma mulher com bastante experiência de vida.

A série é inovadora por várias razões, sendo a principal a forma como Miss Fisher se apresenta ao mundo: é uma feminista muito feminina; sexualmente liberada; domina as situações, mas não é dominadora; é forte, mas empática; consegue relacionar-se tanto com as pessoas da alta sociedade como com os mais destituídos, e a todos trata com respeito. Outra coisa inovadora é que a actriz principal tem 45 anos. É raro ver uma mulher com esta idade em papéis assim. E depois há o "eye candy", como dizem os americanos: visualmente, a série tem uma estética extraordinária, onde o guarda-roupa de Miss Fisher é, sem dúvida, o prato principal.

Esta série vai ter um impacto significativo na televisão americana. Até eu já sucumbi ao pecado de ligar a TV lá em casa. Preparem-se para ver mais mulheres maduras, muito super-sexy, a conquistar os écrans.

Temporada 2, Episódio 1

A mais longa e triste paragem da economia portuguesa

Entre 2001 e 2014 a taxa média de crescimento anual do PIB português foi 0%. Ou seja, estamos hoje no ponto onde estávamos em 2001. Na análise macroeconómica da economia portuguesa não há nada mais triste que esta longa paragem da economia portuguesa.
Na história do século XX, só nos primeiros 20 anos encontramos um período semelhante em termos de desempenho económico (período de mudança do regime monárquico para a República).
Esta longa paragem torna-se ainda mais chocante no contraste com o excelente desempenho nas quatro décadas anteriores, em que a economia portuguesa esteve entre as economias do mundo que mais cresceu. Entre 1960 e o ano 2000, a economia portuguesa cresceu a uma taxa média anual de 4,3%, ou seja, a produção anual da economia foi multiplicada em mais de cinco vezes. Para as gerações acima dos 40 anos, a estagnação e, em muitos casos, a contração dos seus rendimentos transformou as expetativas optimistas, que o crescimento das décadas passadas tinha criado, numa enorme desilusão.
Entre 2001 e 2014, só há duas economias da UE com pior crescimento médio anual: a Itália e a Grécia, com uma taxa de -0,1%. Naquele período, as taxas médias anuais de crescimento da EU e da zona do euro foram, respectivamente, 2,1% e 0,9%, e da Alemanha 1%.
É verdade que o crescimento das economias ocidentais tem vindo a desacelerar desde os anos 70. A economia japonesa, por exemplo, está praticamente estagnada desde o início da década de 90. Mas a economia japonesa, como outras economias desenvolvidas, pararam ou abrandaram o seu crescimento quando os níveis de rendimento eram dos mais elevados do mundo. E é também esta dimensão que choca quando analisamos o desempenho da economia portuguesa desde o início do século XXI. 
Portugal parou de crescer quando se encontrava a meio do processo de convergência para os níveis de rendimentos dos países mais ricos da Europa. Os economistas costumam designar esta fase de crescimento como “catching-up”, uma fase em que as economias podem beneficiar da imitação das formas de organização nos países mais desenvolvidos.
Ou seja, os obstáculos que se colocam ao nosso crescimento têm uma natureza diferente dos obstáculos que os países que se encontram na fronteira da inovação enfrentam – alguns deles são aqui descritos por Tyler Cowen. Devia, por isso, ser mais fácil encontrarmos uma saída para o bloqueio em que a economia portuguesa se encontra há mais de uma década. Mas talvez não seja, porque não há nada mais difícil do que transformar e melhorar a qualidade das instituições.    

Momento Aristóteles Sexy Hot

O amor é compatível com a democracia, mas o sexo necessita da dita dura.

Fez-se luz!

Quando passeava os meus cães na quarta-feira, notei que o meu vizinho andava pelo telhado de sua casa a testar luzes. Pensei que era um bocado cedo para ele andar a tratar das luzes de Natal, mas nos EUA, nada é estranho. Há lojas que começam a vender coisas de Natal no final de Julho e até há as que só vendem coisas de Natal o ano inteiro--a minha preferida é a Santa's Quarters em Nova Orleães, onde comprei vários enfeites de Natal dos quais gosto muito: o Pai Natal bêbado encostado a um candeeiro, o Pai Natal em cima de um jacaré (não há crocodilos nos EUA, são jacarés), e o presépio pequenino em que o Menino Jesus e os pais têm pele escura.

No dia a seguir lá percebi que as luzes não eram de Natal; eram de Halloween. Foi novidade este ano, pois não me recordo de ele ter esta decoração o ano passado. Aqui está um cheirinho do espectáculo deste ano:

Alfred says: trick or treat!

A video posted by Rita (@stellathepug) on

domingo, 1 de novembro de 2015

Uma farsa

Em 1922, um senhor chamado Walter Lippmann publicou um livro fundamental intitulado “Public opinion”. Na verdade, Lippmann fala pouco sobre opinião pública, mas introduz uma série de conceitos fundamentais. O mais importante é, sem dúvida, as “pictures in our heads”.
As “pictures in our heads” são os estereótipos, um termo introduzido por Lippmann nas ciências sociais. Como é sabido, os estereótipos são generalizações, hipersimplificações da realidade, visões rígidas sobre nós e os outros. Para Lippmann, todos estamos condicionados pelos estereótipos, criados por nós próprios ou que nos foram inculcados pelos outros. Os estereótipos são mapas que nos permitem orientar num mundo cada vez mais complexo. Podem induzir-nos muitas vezes em erro, mas são inevitáveis, dada a nossa compreensão finita das coisas.
Os estereótipos podem não ser uma fotografia completa do mundo, mas são uma fotografia de um mundo possível ao qual o indivíduo está adaptado. Em consequência, qualquer perturbação dos estereótipos parece um ataque às fundações do universo. E, quando as coisas importantes (big things) estão em perigo, o indivíduo não faz qualquer distinção entre o seu universo e o universo.
Os estereótipos não são, portanto, apenas uma forma de substituir a confusão ruidosa do mundo pela ordem. Não são apenas um atalho. São a garantia da manutenção do sistema de valores do indivíduo e do status quo. Cada indivíduo cria uma realidade que considera apropriada para si. Usa estereótipos que garantam o autorrespeito e uma projeção do mundo de acordo com os seus próprios valores e age como se as suas representações correspondessem aos factos reais.
Carradas de estudos empíricos têm confirmado aquilo que Lippmann intuiu há quase 100 anos. É o caso das chamadas “profecias auto-confirmatórias”, a tendência do indivíduo para se concentrar nos factos que confirmam as suas convicções e se afastar ou desvalorizar aqueles que as contradizem.
93 anos depois da publicação da obra de Lippmann e das milhentas confirmações das suas teses, acho quase caricato ouvir ainda os jornalistas a dizer que se limitam a contar as coisas tal como elas são. O primeiro passo para serem rigorosos e se aproximarem da verdade é reconhecerem, pelo menos para eles próprios, que estão condicionados pelos seus estereótipos.
Em muitos países civilizados, os media assumem a sua ideologia e todos sabem ao que vão quando os compram. Em Portugal, alimenta-se uma farsa.

Acidente divertido

Nem sei o que chamar a este post porque nem sequer era para existir. Ontem fui ao International Quilt Festival de Houston, que é só um dos maiores eventos de colchas de retalhos do mundo. Tenho uma reportagem a marinar para vos apresentar, mas enquanto a não preparo, ficam com este aperitivo.

A Jess é uma amiga minha americana, que é professora de francês, e está quase a fazer anos. Tenho andado a recolher pequenas coisas para compor a prenda dela. No Festival, encontrei umas toalhas de cozinha--os americanos chamam-lhes "tea towels"--à venda num expositor que vinha da Carolina do Norte, chamado French Connections, que vende coisas francesas e africanas. A senhora, quando me viu em volta das toalhas, disse-me que eram importadas da França e que as tinham levado à feira porque havia muitas pessoas que as usavam para fazer projectos--por exemplo, um avental de cozinha.

Comprei quatro, duas para a prenda e duas para mim, que custaram $56.07. São muito giras e bem feitas e mesmo agora as estive a admirar. Notei que tinham uma etiquetazinha branca por baixo da etiqueta da marca francesa. Inspeccionei com atenção e encontro "made in Portugal." Fartei-me de rir. A Jess vai pensar que eu fiz de propósito porque ela sabe que eu gosto muito de comprar português. Foi um acidente divertido...

“Radicalização” passageira

Como já aqui referi, entre 1820 e 2015, em números redondos, a direita governou Portugal 126 anos e a esquerda 64. Na altura, num comentário a esse post, aventei duas explicações para esse fenómeno - nada originais, diga-se de passagem. Primeira, a crónica desunião das esquerdas, reconhecida e invocada por todos, pelo menos até 4 de outubro de 2015. Segunda, a capacidade e a flexibilidade da direita (tirando os absolutistas e Salazar) em adoptar as causas da esquerda, sempre que as circunstâncias e a sua sobrevivência política o exigem. Esta é, em meu entender, a grande vantagem da direita em relação à esquerda - ajusta-se melhor às circunstâncias, é mais pragmática.

A elevação da “cultura” a ministério no governo que tomou posse na passada sexta-feira é apenas mais um exemplo desse velho estratagema de sobrevivência política da direita - escusavam era de piscar o olho à esquerda de forma tão descarada. A “radicalização” que por aí se fala do PSD é uma falsa questão. Como é fácil de perceber, no dia 9 ou 10 de novembro, a coligação vai apresentar na Assembleia da República um programa de governo quase igual ao do PS antes das eleições.

Rumo

Ia publicar o meu post seguinte, mas fui ver o que o LAC tinha antes. O dele é um post triste, o meu é divertido. Senti vergonha. O mundo é uma tragicomédia, já sei, mas, caraças, sete milhões de anos de evolução humana podia ter dado numa coisa melhor.

Tenho de vos dizer que gosto do Tsipras. Tem métodos pouco convencionais, mas acho que, no fundo, tem boas intenções e quer o melhor para o seu país. No entanto, também sabe que num país como a Grécia, é muito complicado mudar de rumo. Será que mudam desta?

Portugal pensava que tinha mudado de rumo, mas neste momento, há quem nos tente vender o sistema que existia antes da crise. Para todos os efeitos, a crise portuguesa podia ter sido muito pior; mas, se não nos emendámos com a última, decerto que o futuro nos proporcionará outra oportunidade.

Não contemos com uma Europa benevolente para nos ajudar. E tenhamos vergonha por não nos sabermos governar de forma a podermos estar numa situação em que podemos ajudar outros que não tiveram o luxo de escolher o seu rumo.

...

Greek PM Ashamed at 'Crocodile Tears' for Dead Children

Stop with the “crocodile tears” for dead children, Greece's prime minister says to Europe.

Posted by AJ+ on Saturday, October 31, 2015