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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Redemoinho da framboesa

No outro dia decidi ver uma série no Netflix sobre sexo--Hot Girls Wanted: Turned On. É uma docu-série produzida pela Rashida Jones. Não sei a razão de ter decidido ver aquilo, mas depois de ver fiquei deprimida. Acho que é desta que a nossa espécie vai entrar em vias de extinção. É a única conclusão possível dadas as novas tendências de acasalamento que mais me parecem os primórdios da civilização humana.

Mas o meu momento WTF foi quando num dos segmentos sobre pornografia se fala de raparigas que gostam de ter sexo enquanto a sua cabeça é enfiada numa retrete e o autoclismo ligado. Eu não vos disse? What the fuck!?! A estas moças chamamos "swirlie girls" -- raparigas de redemoinhos. A sério! Eu tenho uma imaginação fértil, mas garanto-vos que não imaginava uma coisa destas.

"Ó Rita, mas o que é que te deu para falares nisto?" É simples e é por causa do Cristiano Ronaldo. O mais triste é que eu não ligo nada ao Cristiano Ronaldo; só sei o nome e a profissão dele; vá lá também sei a nacionalidade. Se me perguntarem onde ele joga, não sei dizer, mas vejo-me na posição de advogada do diabo por causa da Fifth Amendment da Constituição americana e porque ele se enfiou numa situação que é muito interessante do ponto de vista legal.

No outro dia, a propósito de violação sexual, ofereceram-me um argumento paralelo mas aplicado ao atropelamento numa passadeira. Só que ser atropelado numa passadeira é, na minha cabeça, uma variável binomial: ou se é ou não, e, quando se é, é claro de se ver que há um carro, um peão, uma passadeira e estão combinados de forma a nós concluirmos que aquilo é atropelamento.

Sexo não é assim porque quando eu descrevo alguém a ter sexo tipo, ele chicoteou-o enquanto o penetrava, ou ela enfiou o punho pela vagina dela adentro, ou ele sodomizou-a enquanto enfiava a cabeça dela na sanita e puxava o autocolismo, vocês não sabem se é violação ou se é sexo "não-baunilhado", como dizia o Mr. Gray. Talvez a minha reacção seja exagerada porque, quando a população é 7 mil milhões, é natural que haja pessoal com gostos esotéricos e, se calhar, até há quem goste de ser atroplelado, mas tenho sérias dúvidas acerca do potencial de reprodução destes indivíduos, pois devem ter esperanças de vida limitadas.

Pela minha parte, redemoinhos só de framboesas: "if you want inside her well, boy you better make her raspberry swirl..."





domingo, 22 de maio de 2016

O futuro do desejo

Depois da Amazon criar o mercado em segunda mão de livros e discos, uma das primeiras buscas que fiz foi do primeiro álbum da Jill Jones. Havia em segunda mão e custava mais de $300. Agora encontra-se muito mais barato, $68 por vinil e $105 por CD (a cassete é mais barata). Mas quem é forreta pode ouvir temas como "Mia Bocca" no YouTube e deliciar-se com toda a carga sexual do vídeo realizado por Jean-Baptiste Mondino (1987), onde rapazes espreitam a Jill enquanto ela dança. É aceitável para meninos olharem para mulheres assim, até fazem filmes sobre isso, como o "Malena" com a Mónica Bellucci.

Ao ver este vídeo, recordo-me de outro igualmente sexy, mais recente, e com um visual parecido: o "Love Will Never Do (Without You)" da Janet Jackson, da autoria de Herb Ritts, e que conta com o corpo delicioso objectificado do Antonio Sabato, Jr., entre outros. Aqui todos os homens são adultos e não aparecem em transe a olhar cheios de desejo para uma mulher. Lentamente, os homens estão a ser promovidos a objectos desejáveis. Nós, mulheres, devemos muito aos homossexuais e ao seu desejo de ver homens nus, pois não fica "muito bem" para mulheres desejarem olhar para homens nus.

Estou curiosa acerca dos próximos desenvolvimentos da civilização em termos de desejo, até porque em "Mia Bocca", Jill Jones canta "I have only had one lover since I was 12 years old".

Adenda: Para aceitar fazer um vídeo com a Janet, o Herb mandou-a perder peso...

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Estou desapontada!

Nenhum de vós me escreveu a corrigir o vocabulário no meu post da cerveja e dos tremoços. Estava a contar que alguém, com olho muito clínico, me dissesse que era "pénis" e "vagina" que eu devia ter usado. Tanto trabalho, não apreciado por vós, para vos demonstrar que:
  • As mulheres pensam em sexo e algumas até pensam muito
  • A mulher pode parecer muito inocente, mas o que está dentro da cabeça dela, se calhar, não é...
  • As fantasias das mulheres até podem ser mais excitantes do que a pornografia dos homens
  • Talvez vos excite usar umas palavrinhas do vernáculo quando estão com @ voss@ parceir@
  • Talvez devessem fazer uma coisa tipo discos pedidos, mas com actos sexuais
  • Esta coisa do sexo é uma em que, por vezes, nem é fácil falar, nem é fácil fazer
  • Haver cumplicidade entre os membros do casal é essencial
  • E aquela coisa chata do diálogo também...

No outro dia li uma coisa engraçada no The New York Times, infelizmente não guardei o link. Falava de um casal em que a mulher tinha tido uma relação extra-conjugal onde sexualmente era mais livre do que nas relações que tinha com o marido. Sempre achei uma coisa muito interessante, que as pessoas de quem gostamos mais, ou que gostam mais de nós, por vezes não nos inspiram a confiança de estranhos. Temos medo que pensem mal de nós, não sei bem. Não tenho solução, nem sequer vos posso dizer que sempre tive um bom nível de confiança com todos os parceiros que tive. Fica aqui apenas o apontamento.

Finalmente, não se preocupem, não tenho uma boca assim tão "porca" no dia-a-dia. Frequentemente, tenho de recorrer à Internet (o "bater uma grelada" do outro dia veio da Internet) ou perguntar a amigos porque o meu calão em português é bastante limitado. Não namorei muito aí, nem tinha amigos, na altura, que usassem muito calão -- caramba, nem sequer tinha muitos amigos --, logo não vivi Portugal assim. Mas, às vezes, o calão é uma ferramenta que deve ser usada na escrita. Como diz o Stephen King, no seu fabuloso "On Writing: A Memoir of the Craft", até os escritores têm uma caixa de ferramentas, e eu ando a aprender a escrever logo ainda tenho uma caixa meio-vazia...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Cerveja e tremoços

O LA-C, ontem, deu-nos uma dica muito importante para reduzir os custos de saúde em Portugal: a necessidade de se fazer mais minetes. Lamentou-se por a Patrícia Motta Veiga não ter incluído fotos na sua extraordinária peça para a Capazes, mas eu até nem acho que as fotos sejam assim tão necessárias.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O flirt francês...

Four easy principles which I swear to you work. Walk in like you own the place, pout, look straight at your new-found prey, look away, pout, look again, look away, pout, insert sensual movement here, get accosted, smile, throw a witty comment, done. These elements put together are the most powerful of weapons, they don’t stand a chance. Practice lots, comment back, and enjoy every minute of Le French Flirt!

~ Cecile Charlot, aqui

Algumas francesas falam inglês com um sotaque que derrete os americanos. Quando eu trabalhava no Gabinete de Relações Internacionais durante o meu programa de intercâmbio, tinha uma colega francesa, chamada Caroline. Era uma louraça, toda bem parecida, com um sotaque pronunciado, cheio de rrrrrs, como se ela estivesse prestes a rasgar a roupa de alguém. Havia homens que telefonavam para lá só para a ouvir atender o telefone "Office of International Programs, how may I help you?" Coitados dos homens -- precisavam tanto de ajuda, estavam tão desamparados...

Não julguem que tenho inveja das francesas, aquilo parecia ser muito trabalho para ela, ter de aturar tanto homem embasbacado. Eu, por outro lado, também tinha a minha quota parte fora do escritório, mas eram seduzidos de outras formas, até porque tenho um sotaque quase imperceptível, as pessoas pensam que eu sou de algures nos EUA, mas não sabem bem de onde. Para além disso, eu detestava atender o telefone porque era muito tímida -- agora sou uma tímida funcional -- e preferia ir para a sala das traseiras arquivar a papelada. Era muito mais relaxante, só é pena naquela altura não haver iPods porque seria melhor ainda, se eu pudesse ouvir a Enya.

Bem, falava eu nas francesas... Como está quase no dia de S. Valentim, temos de falar na arte da sedução e nisso, os franceses, que inventaram o perfume para não se afugentarem uns aos outros, são os craques. Entra a minha amiga Cecile, que mais francesa do que ela não há, e ela é, obviamente, toda sexy. A Cecile anda a tentar educar as mulheres, especialmente as americanas, a serem mais sexy -- a página dela no Facebook chama-se "Excuse my Sexy" -- e escreveu um post sobre como as francesas caçam homens. Eu li, mas achei muito trabalho -- ainda!

No entanto, para enriquecimento cultural, julgo que vocês, mulheres portuguesas, deviam ter noção da competição. E entretenham-se a praticar a arte da caça portuguesa e francesa, mas não se esqueçam que gajos que saibam discutir a ortogonalidade nos teoremas de Pitágoras e de Gauss-Markov ou figuras de estilo não vos interessam muito por enquanto. Depois aviso-vos quando o caminho estiver livre.

Ah, e a Cecile tem um podcast sobre sexo também, está na página principal, lá pelo meio...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Como fazer melhores amigo(a)s...

Mas a verdade é que fazê-lo [sexo] com uma amiga ajuda mesmo a fortalecer esses laços. Pelo menos foi a conclusão a que chegou o Departamento de Comunicação da Boise State University (EUA), num estudo com mais de 300 pessoas – homens e mulheres – em que 20% assumiu já o ter feito com uma amiga(o) e desses, 3 em cada 4 afirmaram que a amizade melhorou imenso.

Por isso, estás à espera de quê para fortalecer a amizade com as tuas amigas?

Fonte: SóParaHomens.pt, 31/1/2016

Quando vi isto, comecei a fazer contabilidade mental: quantos amigos tenho eu com quem tenha feito sexo?.. Hmmm, pelo menos nove que eu me lembre. Mas alguns saiu ao contrário: éramos melhor amigos antes do que depois. E houve outros em que tivemos uma relação amorosa que durou vários meses, ou anos, e o sexo fez parte disso, não foi uma coisa esporádica, e conseguimos manter a amizade. Não sei até que ponto confio na direcção de causalidade deste estudo.

Ah, escusam de fazer amizade comigo a pensar em sexo. Não sou uma gaja fácil e, se vocês forem comprometidos, é o mesmo que terem a peste: não têm sex-appeal nenhum. Não gosto de homens infieis.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Hollywood enganou-nos

Afinal o Body Heat estava todo errado. Aquilo não podia ter acontecido durante uma onda de calor na Florida. Seria mais provável que tivesse acontecido em Fargo, ND. Sinto-me enganada...

Houston, we have a problem!

"Climate change has been blamed for many things over the years. Never, until now, has anyone thought it was possible to see it as a kind of contraceptive.

Hot weather leads to diminished “coital frequency," according to a new working paper put out by the National Bureau of Economic Research. Three economists studied 80 years of U.S. fertility and temperature data and found that when it’s hotter than 80 degrees F, a large decline in births follows within 10 months. Would-be parents tend not to make up for lost time in subsequent, cooler months."

Fonte: Bloomberg

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mistério resolvido...

Ontem voltei a ler parte de "Mistério" de Mário de Sá Carneiro, mas não é desse mistério que eu vos quero falar. De vez em quando, vou ver as estatísticas do nosso blogue. Entre elas, há as palavras de busca que foram introduzidas no Google e que deram acesso a "A Destreza das Dúvidas". Uma das buscas que vos levou até aqui foi "depois do orgasmo risse". Abençoado Google, que percebe de pragmática, pois deveria ter sido "ri-se" em vez de "risse", mas chegou até nós, logo funcionou.

Tenho reparado que alguns homens se assustam quando uma mulher se ri durante o sexo. Meus caros, não se assustem, não é nada de misterioso; pelo contrário, regozijem-se porque vocês são uns garanhões e estão a dar à vossa companheira muito prazer. Deixem que ela vocalize todo esse prazer. É tão bom rir (e, às vezes, até chorar)...

Diz a Women's Health Magazine:

Why We Sometimes Cry (or Laugh) After Sex

Perhaps it's your partner's insistence on humming Celine Dion songs during intercourse, but more likely it's a physiological reaction. "An orgasm instigates the release of powerful hormones, such as dopamine, epinephrine, and oxytocin, all of which rile the emotions," says Pepper Schwartz, Ph.D., author of Everything You Know About Love and Sex Is Wrong. The good news: You should consider giggles (or tears) a reassuring sign about the status of your relationship. If getting physical with someone can move you that much, it's probably because you have a profound, intimate relationship.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Queridos homens: mais um golpe contra vós...

O mundo é um sítio cruel... Então as senhoras vão falar com o rabi para ele tentar convencer os maridos a ficarem mais picantes na cama e o rabi, como acha que não consegue convencer os homens, decide dar às mulheres um substituto: um vibrador kosher! Não, eu não estou a inventar--está tudo no meu site preferido: a Bloomberg.
The rabbi is a self-described religious nationalist, meaning he’s devout but accepts most aspects of modern life, and that makes some ultra-Orthodox people, or haredim, as it’s referred to in Hebrew, skeptical of his authority. “Of course, I could find them rabbis, but these women come from serious haredi families, who aren’t going to listen to a religious nationalist,” says Alexander, sitting among fellow yarmulke-wearing patrons. “Instead, I offered to find her the right product that replaces the man.”

Ah, e a descrição do vibrador parece muito interessante e ainda por cima o rabi mora ao pé de uma adega! Se calhar eu devia meter isto na minha lista de Natal porque afinal Cristo era judeu e o vibrador deve passar "o teste de cheiro" de brinquedos permissíveis. E eu sou muito brincalhona...

The device, he explains in incrementally hushed volumes at a winery by his home in the Gush Etzion settlement, is a sex toy of rotating silicone.

Risco de SIDA na população portuguesa

As pessoas têm uma percepção errada de análise de dados. Análise de dados e estatística não nos dizem tudo o que sabemos, dizem-nos os limites do que sabemos e identificam muitas coisas que ainda não sabemos. Ou seja, em vez de responder a todas as perguntas, muitas vezes, a análise de dados levanta ainda mais perguntas. É por isso que no fim dos artigos científicos há uma secção onde se identificam os limites do estudo e o potencial para continuar a estudar.

Neste caso do SIDA e dos homossexuais, estão a usar-se pontos para construir tendências: tenta-se responder a um problema dinâmico usando análise estática. Foi por isso que Portugal acabou na bancarrota, foi por isso que a crise sub-prime estoirou. Já aprenderam a lição? Não, claro que não, continuamos na mesma como a lesma.

Porque é que o VIH é mais prevalente nos homossexuais? Por duas razões: (1) no passado este segmento da população tinha comportamentos mais arriscados e o vírus espalhou-se com mais rapidez; (2) entretanto encontraram-se tecnologias que permitem gerir a doença e a taxa de sobrevivência de quem é seropositivo aumentou.

O que é que isto quer dizer? Quer dizer que se estes dois factores mudarem, o nível de risco de contágio na população homossexual fica diferente. Que grande surpresa! Reparem, também, que à medida que o tempo passa, os homossexuais seropositivos mais velhos morrem e as gerações mais jovens não têm tanta prevalência de VIH, logo o número de portadores do vírus tem tendência a diminuir nos homossexuais. Mas porquê, ó Rita, sua maluca?

Então e o que é que mudou, perguntais vós? Mudaram os comportamentos de risco. Hoje em dia, o virus do SIDA espalha-se mais rapidamente na população heterossexual. Não acreditam? Leiam com os vossos próprios olhos este relatório das Nações Unidas de 2010, onde se estuda o vírus do SIDA nos países de língua oficial portuguesa. Diz lá, na página 101, o seguinte:

Do número total de infecções reportadas, foram reportados em

  • homossexuais: 1983-2007, 13%; 2006-2007: 9%,
  • heterossexuais: 1983-2007, 35%; 2006-2007: 44%,
  • consumidores de drogas injectáveis: 1983-2007, 47%; 2006-2007: 34%,
  • transmissão mãe-filho: 2006-2007: < 0,2%.
Do número total de casos assintomáticos de infecção VIH, foram reportados em
  • relações homem-homem: 1983-2007: 11%; 2006-2007: 19%.
  • em consumidores de drogas injectáveis: 1983-2007: 42%; 2006-2007: 19%.
  • relações heterossexuais: 1983-2007: 42%; 2006-2007: 60%.
  • transmissão mãe-filho: 1983-2007: 0,8%; 2006-2007: 0.9%

Depois, o relatório tem esta pérola:

A via heterossexual é o modo de transmissão mais freqüente, conforme mostra o gráfico 5. Outras vias de transmissão importantes são: por meio do compartilhamento de instrumentos para o uso de drogas injetáveis e a transmissão sexual entre homens que fazem sexo com homens. Até o ano de 2003, a transmissão do VIH pelo uso de drogas injetáveis foi o modo de transmissão mais freqüente (Gráfico 6).

Ou seja, percebem agora que o problema é dinâmico e não estático? Como se verifica ao ler o relatório, o nível de risco está a crescer nos heterossexuais e a diminuir nos homossexuais. O Instituto Português de Sangue acha por bem eliminar o grupo onde o risco desce e voltar a associar o VIH a homossexuais, quando devia estar a despender mais esforço em diminuir o risco nos heterossexuais. Como é que ao eliminar o grupo onde o risco diminui mais depressa se acaba com um risco total mais baixo? É pá, eu tenho dificuldades em fazer contas de cabeça, deve ser isso a razão porque isto não computa na minha cabeça... Porque é que vocês se admiram de Portugal ser um país pobre? Quem toma decisões pobres não costuma acabar rico.

Mas as coisas ainda são muito mais engraçadas do que isto! É que numa dissertação de 2003 identificaram-se os comportamentos sexuais dos jovens portugueses para avaliar o risco de VIH e, surpresa, ricos! Os jovens são muito descuidados. Eram uns malandrecos há 12 anos, acham que agora estão mais atinadinhos? Então eles até fazem canções sobre "Hoje ficas cá em casa, uma vez não são vezes." Para onde é que ela vai as outras vezes, meus amores?

Então diz a dissertação a propósito do SIDA que:

Verificámos que 74,4% dos adolescentes do meio não urbano adoptam um comportamento de risco, sendo o valor de 71,2% para os adolescentes do meio urbano. De salientar que 28,8% dos adolescentes do meio urbano têm um comportamento preventivo sendo este valor de 25,6% para os adolescentes do meio não urbano.
[...]
Verificámos que 90,6% dos adolescentes do meio urbano têm atitudes de risco, sendo este valor de 83,3% para os adolescentes do meio não urbano. De salientar que 16,7% dos adolescentes do meio não urbano têm atitudes preventivas, sendo este valor de 9,5% para os adolescentes do meio urbano.
[...]
Face aos resultados observados e da análise efectuada, é urgente uma maior contribuição de todos na prevenção da SIDA, proporcionando uma informação adequada e persistente, que permita aos adolescentes optar por estilos de vida mais saudáveis.

Viva Portugal! Somos geniais, vamos ser ricos com probabilidade 100%. Já fizemos a análise de dados, está tudo certinho...

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Multiplicação, aka, sexo

É Quarta-feira, e vocês sabem o que isso significa: é hora de termos prazer e salvarmos Portugal. É o dia que eu dedico à Campanha de Natalidade da nossa Ministra das Finanças. Sabem o que eu acho giro? Que tenha sido uma mulher do nosso governo que disse "Multipliquem-se"; os homens andavam a pensar em impostos e subsídios, como de costume. Estes políticos matam o tesão de qualquer pessoa. Ainda bem que eu estou fora de Portugal e não estou sujeita a tantas manobras de tortura. Então vamos lá a isto.

Depois de ler o meu post de achincalhamento, o NAJ enviou-me um poema de Carlos Drummond de Andrade. Digo-vos: este poema é perfeito! Até parece que eu o encomendei ou que o conhecia; mas, não, só o vi quando ele mo enviou. Quando chegarem a casa, façam o favor de olhar para o chão e pensar nas possibilidades. Depois, traduzam para a realidade o desejo que vos consome.

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a húmida trama.

E para repousar do amor,
vamos à cama.

~ Carlos Drummond de Andrade

E eu acho este vídeo muito sexy e gosto bastante da espontaneidade na praia--adoro o mar. Sejam malucos, eu já sou...

P.S. Obrigada, Nuno. Ah, e uma nota pessoal, que já me assaltou a cabeça várias vezes: trabalhar em equipa é muito mais engraçado e produtivo do que trabalhar a solo e parece que o Luís tem talento para construir equipas que funcionam bem. Obrigada, Luís; gosto muito de aqui estar...

terça-feira, 5 de maio de 2015

More than ever...

No ano passado, uma amiga minha pediu-me para conversar com um jovem português, que andava à procura de emprego. Pensava eu que iria ser fácil. Muitos dos meus antigos alunos ainda mantêm contacto comigo e, de vez em quando, eles pedem-me ajuda para os orientar e as coisas correm bem, normalmente. Conversamos, exploramos oportunidades, corrijo cartas e CVs, faço sugestões de conteúdo, tento antecipar perguntas que eles possam encontrar em entrevistas, etc. Eu não sou a responsável pelo sucesso deles, mas tento posicioná-los de forma a aumentar a probabilidade de eles terem sucesso mais rapidamente. Também tenho outras pessoas em Portugal, com quem eu mantenho contacto e, quando é necessário, sirvo de claque de apoio. Eu também tenho uma claque de apoio, logo tenho uma responsabilidade moral de fazer o mesmo pelos outros.

Quando comecei a conversar com o meu jovem amigo, fiquei um pouco chocada com a falta de humor e a facilidade com que pequenas coisas se tornavam grandes dramas. Houve um drama em que o meu jovem amigo não sabia se devia fazer mestrado ou ir trabalhar. Tanto no trabalho, como no mestrado, havia várias opções, mas ele não conseguia decidir sequer para onde se candidatar. Houve uma vez que me fartei da indecisão do rapaz, abri um folha de Excel, criei vários pressupostos e simulei o rendimento da vida de trabalho para cada opção. Ele, que é de ciências duras, ficou fascinado. E eu disse-lhe "É isto que os economistas fazem: avaliam opções alternativas e tentam fazer escolhas educadas". Já sei que há muita gente que acha que isto é completamente aborrecido e nós, economistas, somos umas pessoas muito pouco interessantes porque tudo deve ser feito por amor. Quando nos querem insultar, dizem que somos tecnocratas porque ser tecnocrata não é nada inspirador para muita gente. Desculpem, que vos desiluda, mas aborrecida, eu não sou.

O último drama que atravessamos é que o meu jovem amigo está, finalmente, a trabalhar, mas é num emprego do qual não gosta e perguntaram-lhe se ele queria ficar permanente depois do contrato terminar. Ele, que não tem outra oportunidade de emprego, está muito chateado com esta ideia de ter de ficar num sítio do qual não gosta. Parece que ele vê isto como uma sentença de prisão. Eu digo-lhe que é uma maratona, não é um sprint, mas não serve de nada. Não entendo como um jovem, que não tem grandes responsabilidades e tem um curso superior, tem um comportamento tão ilógico. Já sei que o que é racional para alguém, pode não ser racional para outrem, mas eu não consigo compreender isto.

É que, quando ele estava desempregado, dizia que estava aborrecido, mas também não saía de casa para acumular experiências, nem pegava num livro porque dizia que não tinha tempo--todos nós temos 24 horas por dia. É a coisa mais equitativamente distribuída do mundo. Eu dizia-lhe que ele precisava de arranjar maneira de desenvolver as suas capacidades sociais e ter tópicos sobre os quais fazer conversa leve porque isso era importante para as entrevistas de emprego, e ele achava que tudo isso era irrelevante para um emprego. Eu dizia-lhe que eu já tinha tido vários empregos, logo eu teria melhor condição de avaliar o que é relevante e o que não é, mas ele achava que não era assim.

Agora, que tem emprego, também está aborrecido. Eu digo-lhe para ele manter o emprego e candidatar-se a outros sítios, mas argumenta comigo e diz que não. Para ele é preferível despedir-se sem ter um emprego alinhavado do que despedir-se porque vai para outro emprego. Na cabeça dele, o ideal é sair daquele emprego e depois *puf* aparece logo um emprego super-interessante para onde ir. A minha vida nunca foi assim e ninguém que eu conheço teve uma vida assim, logo eu digo-lhe que não é uma expectativa razoável. Na semana passada, fartei-me outra vez, mas desta vez disse-lhe:

"Compra um iPad e vê pornografia. É muito prático.

Tu devias deixar de complicar a tua vida. És muito jovem, ela complicar-se-á eventualmente. Não apresses a complicação..."

Estão a ver? Eu disse-vos que eu não sou uma pessoa aborrecida; afinal, eu cresci a ver filmes do David Lynch.

Depois pensei no Steve Jobs, eu penso muito nele. Então, quando o Steve Jobs anunciou o iPad, ele disse:

"The precise Multi-Touch interface makes surfing the web on iPad an entirely new experience, dramatically more interactive and intimate than on a computer."
O Steve Jobs sabia que o iPad iria dar-nos uma experiência muito mais íntima com o conteúdo online. Não há razão para andarmos aborrecidos. O homem era um génio, apesar do seu mau feitio. E o percurso do Steve Jobs foi tudo menos linear. Ele até foi humilhado e esteve desempregado...

Por falar em David Lynch, vou dar-vos uma experiência íntima para o vosso iPad ou smartphone. Aqui está a Alice e o Pete no deserto à noite, em "Lost Highway". Quando David Lynch fala desta sequência, ele diz que até o pó é uma personagem na acção. Não estava no roteiro do filme usar o reflexo da luz dos faróis do carro no pó, mas quando estavam a filmar, o David notou e aproveitou a oportunidade, que se revelou naquela noite, para construir mais uma camada de magia na cena. E eu acho que é isso, há pessoas que reconhecem e coleccionam oportunidades; há outras que as ignoram e desperdiçam.

P.S. Ah, não posso desperdiçar esta oportunidade de contribuir para a campanha de natalidade de Portugal da nossa caríssima Ministra das Finanças. Aqui vai, meus amigos: Quando tudo o resto falha, "Foda-se, literalmente!" E usem um tablet na cama para construir esses momentos de intimidade. Lembrem-se disto, como diz a Alice, "more than ever"...

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Amorosa

Hoje estou muito amorosa. Não se iludam, meus caros, pois há explicações para este mal. A mais óbvia é eu estar a ouvir os Goldfrapp e uma pessoa dificilmente escapa a "Dreaming, you're dreaming of the love" porque eu sou bem mandada. Ainda por cima fala do mar--"Rushing like the sea, you've come back to me!"--e, para quem não sabe, o Oceano Atlântico é o meu amante mais-que-perfeito--eu amo este mar tanto! Não sinto nenhuma afinidade pelos outros oceanos, no entanto.

Outra explicação é que eu falei com um amigo meu que está apaixonado por uma mulher e conversa comigo acerca do que deve e não deve fazer. Ele acha que eu sou muito intuitiva e conheço a natureza humana. As coisas que as pessoas vêem em mim... Eu acho que sou um bocado maluca, pois eu falo do "amor" e cito Nassim Taleb. Está bem, eu cito Taleb porque eu sei que o meu amigo, que trabalha com investimentos, percebe o que eu quero dizer com Taleb. E depois eu também cito Eugénio de Andrade e Nuno Júdice e, claro, não se pode falar de amor sem se falar de Neruda. Sim, também há a Florbela e muitos mais...

De quem eu gosto mesmo é de Aristófanes. Eu que não percebo nada de filosofia--a sério que não, apesar de eu ter um Doctorate of Philosophy--e percebo ainda menos de amor, gosto imenso da origem do amor que Aristófanes relata n'O Banquete de Platão.

Diz Aristófanes que, no início, havia uns seres que se pareciam com duas pessoas coladas umas às outras (eram duas bolas, com quatro pernas, quatro braços, etc) e que podiam ser femininos (duas pessoas do sexo feminino; este ser era descendente da Terra), masculinos (duas pessoas do sexo masculino; este ser era descendente do Sol), ou andróginos (uma fêmea e um macho; este ser era descendente da Lua). Como estes seres eram muito poderosos, revoltaram-se contra os deuses, o que não agradou aos deuses. Depois dos deuses deliberarem sobre o destino destas criaturas, Zeus decidiu separá-las: cortá-las ao meio a todas. A separação, do ponto de vista de Zeus, tinha a vantagem de duplicar o número de seres que adorariam os deuses e manteriam templos. Sem adoradores, de pouco valeria ser um deus. Zeus era, acima de tudo, pragmático.

À medida que Zeus cortava as criaturas, Apolo moldava-as em duas pessoas e polia-as. Em algumas das pessoas, Apolo deixava lembranças da sua antiga condição. Para se reproduzir, as criaturas separadas faziam como as cigarras e geravam na terra, pois não tinham a forma de pessoas actuais. A separação não correu muito bem, pois, segundo Aristófanes,

[...] desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro. E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher--o que agora chamamos mulher--quer com a de um homem; e assim iam-se destruindo.

Zeus teve pena destas pseudo-pessoas suicidas que não funcionavam sem uma outra metade e decidiu mudar-lhes o sexo para a frente do corpo. Nos casais andróginos, o macho acasalaria com a fêmea de forma a que nova vida pudesse ser gerada nas mulheres. Nos casais homossexuais não haveria reprodução, mas haveria saciedade do desejo que sentiam um pelo outro. Diz Aristófanes:

E então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. [...] Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como qualquer outro, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, a ponto de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um pequeno momento. E os que continuam um com o outro pela vida afora são estes, os quais nem saberiam dizer o que querem que lhes venha da parte de um ao outro. A ninguém com efeito pareceria que se trata de união sexual, e que é porventura em vista disso que um gosta da companhia do outro assim com tanto interesse; ao contrário, que uma coisa quer a alma de cada um, é evidente, a qual coisa ela não pode dizer, mas adivinha o que quer e o indica por enigmas.

Ou seja, diz Aristófanes que os casais eram um só, foram separados, e desde então procuram a sua outra metade. Quando duas pessoas se encontram e amam, é como se voltassem a ser um só: aquele ser unido que era tão poderoso que constituía uma ameaça aos próprios deuses. Acho lindo...

Ah, o Taleb! Já sei que vocês estão a pensar o que é que o Taleb tem a ver com o amor. Bem, é assim: o meu amigo relatava-me coincidências e dizia-me que "it was meant to be". E eu dizia-lhe que o Nassim Taleb dava o exemplo de poemas no "Fooled by Randomness", que ele já leu: se construirmos combinações de todas as palavras que existem, algumas combinações formarão os mais belos poemas--alguns deles ainda nem foram escritos--e há uma probabilidade infinitamente pequena que, se nós tirássemos uma amostra aleatória desta população de combinações de palavras, alguns desses poemas seriam seleccionados. Isso não quer dizer que tenha havido uma intenção divina, foi apenas um resultado aleatório. You were fooled by randomness!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Prenda de natalidade para os governantes de Portugal

Caros Governantes Actuais e Futuros,

Parece que andam preocupados com a falta de bebés que as mulheres não produzem em Portugal. As mulheres também andam preocupadas com a falta de homens que lavam pratos lá em casa. É necessário um compromisso. O ideal será permitir, em Portugal, a poliandria: uma mulher e vários homens. Este arranjo é o ideal porque muitas mulheres para além de trabalhar fora de casa, também tratam de filhos e casa, ou seja, são multi-taskers. Os homens ainda não conseguiram obter tanta desenvoltura, logo é preciso um período de transição. A poliandria como suporte desse período de transição tem vários benefícios, como por exemplo:

  • As políticas actuais para governar Portugal causam depressão e homens deprimidos não têm vontade sexual, logo aumentando o acesso de uma mulher a vários homens, sem que a sociedade torça o nariz, ultrapassa-se esse problema facilmente.
  • É pro-natura: o pico da vida sexual das mulheres ocorre mais tarde do que o dos homens, logo é preciso mais do que um homem para as satisfazer, à medida que elas envelhecem.
  • Os homens teriam outro homem (ou outros) com quem partilhar a mancave e, partilhando as responsabilidades de casa, estas seriam feitas mais rapidamente, logo os homens poderiam jogar jogos de vídeo mais tempo.
  • Permite a uma mulher ter conversas especializadas: um homem com quem discutir poesia, outro matemática, etc.
  • Os lares terão pelo menos três salários ou três subsídios de desemprego/formação etc., o que permite economias de escala no consumo e aumenta a qualidade de vida dos cidadãos. Isto permite ao governo português continuar políticas de baixos salários, já que há uma clara incapacidade de produzir crescimento de salários (e da economia).
  • Esta política aumentaria a imigração de mulheres de outros países que viriam viver para Portugal.
  • É provável que mais homens estrangeiros também imigrassem para Portugal: o incentivo de ter mais tempo para jogar no computador ou na Playstation é imbatível.
  • Portugal seria visto como um dos países socialmente mais avançados no mundo e seríamos reverenciados internacionalmente pelo nosso engenho.
  • Haveria uma grande probabilidade de nós roubarmos população à Alemanha, em vez de eles continuarem a levar os nossos cérebros e a deixarem para os contribuintes portugueses a dívida dos ditos.
  • Os homens já passaram tempo suficiente a pensar em threesomes, agora é a vez das mulheres.

Claro que é necessário um estudo mais aprofundado desta alternativa. Sugiro que esse estudo seja conduzido apenas por mulheres, pois os homens já passaram tempo mais do que suficiente a forçar e a legislar o corpo da mulher. Nós já conquistámos o direito de decidir como melhor organizar a sociedade por uns tempos, pois os homens já tiveram esse privilégio por vários milénios.

P.S. Obrigada pela inspiração, Luís Lavoura. Isto é que é trabalho de equipa!

I love Bloomberg...

As coisas maradas que eu aprendo a ler a Bloomberg! Como por exemplo,
[...] the minimum number of days a man should wait between orgasms, a protocol Asprey found in an ancient Taoist text. (Age minus 7, divided by 4.)
Agora percebo porque é que eu gosto de homens mais novos do que eu...

sábado, 28 de março de 2015

A tratar da minha reforma

Pode parecer estranho, mas já ando a pensar na minha reforma desde os 15 anos. Foi por pensar na minha reforma que eu decidi ir estudar economia em vez de estudar inglês, que era realmente a coisa que me obcecava completamente. Eu andava sempre com um dicionário de inglês atrás e lia-o só porque sim. Mas reparei que havia muita gente que estudava inglês e não tinha emprego, então eu não quis ser desempregada. Eu amo o inglês, mas amo mais ter um emprego. Então ter um emprego onde eu uso inglês é ouro sobre azul. E não é que realmente aconteceu?

A minha fixação com a reforma deve ter qualquer coisa a ver com a minha avó materna, que vivia connosco. Quando eu nasci, ela é que tomou conta de mim durante os meus primeiros oito anos. A minha mãe sofria de depressão, o meu pai e a minha avó não se davam muito bem, então lá em casa aquilo era uma completa novela. Mas quando eu estava só com a minha avó, eu era muito feliz, as coisas eram calmas e previsíveis e extremamente educativas. Eu comecei a pensar que esta coisa de ser mãe era uma grande chatice porque eu notava que a minha mãe não era muito feliz, já a de ser avó era muito melhor.

A minha avó era reformada, logo parecia-me muito bem ser reformada, ir ao pinhal colher míscaros, andar pela rua e apanhar espargos silvestres para fazer omeletes e agrião aquático para fazer salada, dar gemada de ovos super-frescos e ainda mornos à Rita, fazer-lhe sopas fervidas... E depois a minha avó deu-me uma quinta: era um pedacinho de terra, com menos de meio metro de comprimento e talvez 30 cm de largura e na minha quinta eu plantava as sementes de salsa e alface que ela me dava. E eu, que não sou uma pessoa ingrata, dizia à minha avó que se ela quisesse mais sementes, podia depois colher da minha quinta quando chegasse à altura.

Claro que, quando precisavam de salsa da minha quinta, tinham de pedir a minha autorização porque eu não era parva. Era uma miúda muito calada, mas parva eu não era, apesar de o meu avô paterno costumar dizer "Esta criança é estúpida!" por eu não demonstrar grande personalidade. O mais giro é que depois de eu me tornar adulta, o meu tio disse que eu sou exactamente como a minha avó paterna, ou seja, a mulher com quem o meu avô se casou. E fisicamente, eu sou a "cara chapada" dela, como me disseram no outro dia quando eu mostrei uma foto dela. Extraordinário, não?

Mas como eu dizia, esta coisa de ser reformada já me interessa há mais de duas décadas. A primeira vez que eu vim aos EUA, passei pelo aeroporto de Cincinatti, no Ohio. Era Agosto e havia muita luz dentro do aeroporto e o aeroporto estava cheio de pessoas reformadas a conduzir carrinhos e muitas delas eram mulheres. E lá andavam todas felizes, com sorrisos enormes, e eu senti que a qualquer momento, o Rod Serling iria entrar em acção e dizer "You've just now crossed over into The Twilight Zone!" Mas não, era a normalidade americana. Os reformados fazem voluntariado para não morrerem tão depressa. "The number one killer is retirement!" é uma coisa que se ouve por aqui frequentemente.

Hoje em dia, os reformados americanos têm uma vida super-interessante: têm empregos part-time e/ou fazem voluntariado, jogam golfe, e têm sexo--muito sexo! As doenças sexualmente transmissíveis estão a subir nessa faixa etária. A comunidade com maior crescimento demográfico nos EUA é uma pequena cidade de cidadãos sénior na Florida, chamada The Villages. Quando eu vou a um museu, é reformados contentes por todo o lado. Quando se pede informações no aeroporto, o balcão de boas vindas tem uns reformados simpáticos. Nas universidades, os voluntários reformados vão buscar os estudantes internacionais ao aeroporto, ou levam-nos para casa durante um fim-de-semana. O meu grupo de conversação de francês em Fayetteville, no Arkansas, era quase todo de reformados. Havia uma senhora com mais de 80 anos, cujos pais eram franceses e tinham imigrado para os EUA--imaginem que o pai dela quase morreu com a gripe espanhola (1918)--, outros mais jovens, mas que tinham sido voluntários do Peace Corp em África, etc.

Em Portugal, os nossos reformados não têm vidas tão interessantes. Mas criar oportunidades para eles fazerem voluntariado é mau porque o país está pobre e não há dinheiro para dar emprego a desempregados, logo por que razão se iria criar oportunidades para os reformados se distraírem e contribuírem para a sociedade? É uma lógica daquela que é multiplicativa, à la Ministra das Finanças, porque estando eles em casa também não se arranja dinheiro para dar emprego a desempregados. Temos é que arranjar dinheiro para pagar as contas do médico dos reformados porque uma pessoa só e deprimida acaba por adoecer mais frequentemente--e também morre mais depressa, talvez seja esse o objectivo.

Olhem, tirem daí o cavalinho porque eu vou gastar o dinheiro da minha poupança-reforma em Portugal. Vocês têm um pouco mais de 20 anos para tratar de me arranjar uma vida à americana, com muito voluntariado e sexo. O golfe dispenso porque eu não sou uma pessoa muito exigente.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Eroticamente interessante

“For me it’s a bit like math: I have no talent for it but find it still erotically interesting.”

Davis Foster Wallace

Para o escritor David Foster Wallace, os impostos, como a matemática, são eroticamente interessantes--ler na Bloomberg. [E imaginem que o autor do "paper" no qual isto é revelado é Arthur Cockfield--como dizem os americanos, "you cannot make this shit up!"] Talvez o mesmo se passe com a nossa Ministra das Finanças. A mim, a matemática, a poesia, a arte moderna também me dão tesão. Se vocês me apanham no Berardo, preparem-se porque eu fico um bocadinho enlouquecida de desejo. E já sabem que eu tenho uma ligeira obsessão por uma certa cadeira...

Et tu, Maria Luís!*

Hoje acordei às cinco da manhã, o que não foi mau de todo pois tenho andado a dormir mal porque tenho saudades do meu cão. Decidi abrir o Facebook, o Instagram, e o Tumblr para me distrair. No Facebook, o tópico quente de hoje é o "Vocês que são jovens, multipliquem-se!" Claro que toda a gente está "chocada" porque isto é uma forma politicamente correcta de se dizer "Fodam-se!" Estão a ver, a Sílvia Baptista, que é jovem, tinha razão e antecipou-se à nossa Ministra com o seu "Fodamos!"?

Nós percebemos a mensagem, senhora Ministra. Mas nada de significante mudou entre ontem e hoje. Se não havia vontade para ter sexo ontem, o que é que exactamente nos dá vontade para ter sexo hoje? É um bocado como dizia o Einstein: a mentalidade que causou os problemas não pode ser a mentalidade que os resolve. E nós ainda não vimos em como é que a mentalidade da governação do país mudou. Ainda andamos numa de impostos, subsídios, e cursos de formação. Note-se que essas políticas estão correlacionadas com um declínio da natalidade. Já se sabe que correlação não implica causalidade, mas não deixa de ser curioso, não é?

No entanto, há que lhe gabar o timing, pois com a Primavera a chegar, os pássaros todos irão andar a cantar para acasalar, que é como quem diz andam a perguntar uns aos outros quem é que quer ir ter sexo--muito sexo!!!--e isso certamente tem alguma influência na vontade de os humanos fazerem o mesmo--é o poder da sugestão.

Também há que ter em atenção uma particularidade muito importante de Portugal e faria bem que os governantes do país deixassem de se comportar como avestruzes e reparassem realmente como as coisas estão. As crianças portuguesas estão completamente desencantadas com Portugal. Na minha última viagem, conversei com os filhos dos meus amigos, e os mais velhos, que tinham 13, 16 e 17 anos foram peremptórios: já tinham desistido de Portugal, já estavam a fazer planos para sair. Se as crianças que já existem querem sair, porque é que o governo quer que os portugueses produzam mais crianças? Será que temos um acordo com a Alemanha para exportar jovens qualificados a custo zero para os alemães? Ou será que sermos insultados pelos alemães rotinamente faz parte do plano de pagamento? É que "amor com amor se paga e com desdém se paga também". E quem diz amor, diz sexo...

Mas passo a relatar as minhas conversas com os jovens portugueses, pois normalmente pensa-se que os jovens são imaturos, não sabem nada da vida, etc. Isso não é verdade, há jovens extremamente sábios e eles apercebem-se de muito mais coisas do que nós pensamos. As mais velhas, duas raparigas, boas alunas, de famílias com uma vida confortável e que se interessam por medicina e neurologia, já estavam a planear a saída e ainda nem sequer tinham completado o ensino secundário. O rapaz, o mais jovem, perguntou-me se era fácil sair de Portugal. Também era de uma família com boa qualidade de vida e já tinha a ideia de sair a enraizar-se. Eu respondi a ele com estatística--já se sabe do que gasta a casa na minha cabeça--, disse-lhe que o avô dele, a tia, e o pai tinham passado tempo no estrangeiro a trabalhar e a estudar, logo a probabilidade de ele sair era muito alta. Mas eu não lhe disse tudo o que eu pensava, não lhe disse que a probabilidade de ele regressar seria muito baixa.

Fiquei profundamente triste por ver pessoas tão jovens que já tinham desistido de Portugal. Assim como fico profundamente triste por ver a forma como Portugal é desgovernado.

* Para quem não sabe latim, nem lê Shakespeare, investiguem "Et tu, Brute!"

terça-feira, 10 de março de 2015

A vida é bela...

Não sei se repararam no meu post sobre a nossa triste sina, que o Manuel Cabral disse que eu não tinha sido muito exacta por supor que as mulheres apenas tentariam engravidar num mês, e ele tem razão: não é de todo um pressuposto razoável, pois quem quer engravidar tenta mais do que um mês. Há uma razão por eu não ter feito inferências sobre uma mulher em particular. Mas primeiro vou-vos explicar a razão de ser da lógica do Manuel.

Depois de se ter sexo desprotegido, estar ou não estar grávida é uma variável binomial. Binomial, como o prefixo "bi" da palavra indica, quer dizer que a variável pode tomar um de apenas dois valores possíveis: ou está grávida ou não está, não há mais nenhuma possibilidade. Há uma distribuição probabilística para as variáveis binomiais, que é a distribuição binomial. Uma distribuição probabilística é como se fosse uma regra de comportamento para as variáveis aleatórias (uma coisa aleatória é uma coisa incerta). Se nós sabemos como essas variáveis se comportam, então podemos fazer certas previsões. E foi isso exactamente que o Manuel fez. Se uma variável binomial segue a distribuição binomial, então podemos fazer certas previsões. Os cálculos que ele apresentou foram para uma mulher de 37 anos. Presumindo que ela tem uma probabilidade de engravidar de 10% num mês, então a probabilidade de ela engravidar ao fim de seis ciclos pode ser calculada como sendo um menos a probabilidade de não engravidar, i.e.,

P(engravidar) = 1 - (1 - 0.1) x (1-0.1) x (1-0.1) x (1-0.1) x (1-0.1) x (1-0.1) = 1 - 0.53 = 0.47,
próximo de 50% como diz o Manuel.

Um dos pressupostos da distribuição binomial é a independência dos resultados dos eventos. No nosso caso, isto quer dizer que uma mulher engravidar num mês é completamente independente de ela engravidar noutro mês. E aqui é que eu acho que encontramos um problema de insuficiência de informação e eu e o Manuel divergimos de opinião. Foi por isso eu fiz inferência acerca de 10 mulheres diferentes (eu devia ter dito que elas tinham sido seleccionadas aleatoriamente da população) porque essas são todas independentes umas das outras (OK, podiam algumas ser irmãs gémeas, o que violaria o meu pressuposto de independência). Não sabendo nós nada acerca da saúde de uma mulher em particular, corremos o risco de violar o pressuposto da independência e a confiança que temos nas previsões é fortemente reduzida, logo a probabilidade de ela engravidar ao fim de um certo número de meses pode ser muito inferior à sugerida pela distribuição binomial.

No entanto, os cálculos que o Manuel fez são usados pelos médicos para identificar suspeitas de algo estar errado. Quando uma mulher quer engravidar e vai ao médico, é recomendado que ela tente durante três meses; se ao fim de três meses ela não engravidar, os médicos recomendam que se façam certos testes para ver se tudo está bem. O pressuposto é que se tudo está bem com ela, engravidar num mês é independente de engravidar no outro e podemos usar a distribuição binomial como guia, que nos indica que, cada mês que ela tenta, aumenta a probabilidade de ela engravidar. Se ao fim de três meses ela não engravida, levanta-se a suspeita de que há algo de mês para mês que pode estar a afectar a probabilidade de ela engravidar, isto é, o pressuposto da independência está a ser violado.

P.S. Isto foi uma boa desculpa para falar sobre probabilidades e "sexo" ao mesmo tempo--a vida é bela!