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sexta-feira, 1 de setembro de 2023

A americana é do piorio

Dizia um nosso ilustre leitor, há uns posts atrás, que a Rita portuguesa era mesmo bem portuguesa porque se tinha atrasado na submissão do forumulário de IRS. Coitadinha da Rita portuguesa, uma santinha, ou não tivesse ela o nome de duas, que até doente tentou entregar a tempo, mas a página de Internet da AT levou-a pelos maus caminhos. Mesmo assim só entregou com horas de atraso.

Já a Rita americana em vez de tratar dos impostos a tempo e horas, que este ano até era a 17 de Abril, porque o tradicional dia 15 calhava no Sábado, andou a engonhar e, uns pares de dias antes, enviou um email para o seu contabilista a pedir para entregar um pedido de extensão do prazo. Depois levou meses a tratar da coisa. Só tratou no último dia de Julho e foi porque o contabilista lhe disse que era melhor tratar antes de ele ir de férias, senão ela tinha esperado até Outubro, quando terminasse o prazo da extensão, preguiçosa como é, só faz aquilo que lhe agrada. Como hoje.

Hoje, quinta-feira, dia do relatório semanal das exportações agrárias americanas, que sai às 7:30 da manhã, a Rita americana já estava em frente do computador minutos antes, até porque também sai, à mesma hora, o mapa de monitorização da seca. É um dia espectacular, com tanto número e mapas coloridos com que brincar. Então a Rita americana passa o dia inteiro a pastorear números e a enviar emails e mensagens com quê, perguntam? Ora, mais números.

Já passava das 17:30 quando a Rita americana se apercebeu que já ia além da hora de terminar o serviço, mas que felicidade! E ainda estava esperta que nem uma alface salpicada de gotas de orvalho, aliás, pensava ela que ainda nem eram 15:00. Os olhos já estavam cansados e secos, as pernas precisavam de dar um esticão, mas a Rita americana insistia que não: ainda era preciso processar mais outro relatório, o da CFTC que saiu à tarde, e enviar mais um email à equipa a pedir comentários para o relatório que vai ser finalizado no Domingo de manhã -- é ao Domingo para ter a informação meteorológica mais actualizada para a próxima semana. Há quem vá à missa, a Rita americana vai ao Microsoft PowerPoint, o que dá no mesmo.

Por ano, a Rita americana tem direito a duas semanas de baixa médica, mas na semana dos impostos portugueses, quando estava febril e quase a delirar, não tirou sequer uma hora. E férias? Tem direito a 4 semanas de férias por ano (20 dias úteis), mais dois dias por motivos pessoais, e ainda só tirou 4 dias e meio o ano inteiro. E as férias de Setembro, que estava a planear fazer, a Rita americana já as adiou até Outubro, mas ainda nem sequer comprou o bilhete de avião. Ao menos, quando chegar a Outubro, já não terá de entregar os impostos.

É do piorio, a Rita americana. Só faz o que lhe dá na telha e não tem vergonha de andar sempre a adiar coisas.

sábado, 24 de junho de 2017

Morder a bala

Às vezes, é preciso morder a bala ("bite the bullet"). As coisas não são o ideal, mas sobrevive-se...
http://www.humansofnewyork.com/post/137356399781/im-a-customer-engagement-program-operations

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O porteiro da Goldman-Sachs

Diz o zazie que eu digo asneiras e que, se calhar, só conheço o porteiro da Goldman Sachs ou a mulher da limpeza, se isso. Nunca vi o porteiro mais gordo, até porque é mais provável que a Goldman Sachs contrate com terceiros a posição de porteiro, assim como os empregados de limpeza também são contratados de fora, através de outras companhias. Não são funcionários directos da GS porque muita gente que acaba nesses empregos, especialmente de limpeza, são emigrantes ilegais e, contratando com terceiros, a Goldman-Sachs não pode ser acusada de dar emprego a imigrantes ilegais, o que é ilegal nos EUA. Quando se vive em Portugal, onde o sistema de justiça não funciona e o estado é incompetente, é fácil ignorar estes pequenos detalhes; mas os EUA são, acima de tudo, um país litigioso.

Lamento informar o zazie, que conheço quem tivesse trabalhado na Goldman-Sachs, mas na altura não me ocorreu perguntar como é que foi o processo de selecção. Antes da crise financeira essa pessoa viu que a economia ia para o charco -- toda a gente na GS sabia --, decidiu fechar as posições e liquidar tudo o que tinha, e despediu-se: reformou-se com menos de 40 anos. Vive só do dinheiro que gere, mas a esposa, quando eu o conheci, ainda trabalhava na Goldman-Sachs. O sonho dela era ir para África, abrir um orfanato -- não estou a inventar. Ele nunca me revelou o seu sonho, mas sentia-se aborrecido e decidiu telefonar a uma universidade e perguntar se podia ensinar uma cadeira para passar o tempo. E a universidade disse que sim, ele não se candidatou, ofereceu-se. Eu conheci-o nesse primeiro verão em que começou a ensinar.

A diferença entre quem tem dinheiro ou influência e quem não tem nenhum dos dois é que as regras são completamente diferentes e maleáveis. Acho que devia ser óbvio, mas parece que não...

Como trabalhar na Goldman-Sachs

No outro dia, a propósito da Fayez Sarofim & Co., um fundo de investimento localizado em Houston, do qual já vos falei, fiquei a saber que um amigo meu tinha sido entrevistado para um emprego lá. Não foi seleccionado porque, quando se candidatou, não percebia como o processo de contratação funcionava.

E funciona assim: envia-se o CV, vai-se à entrevista, e depois telefona-se à Fayez & Sarofim e informamos que queremos trabalhar para eles. Não são eles que nos oferecem o emprego; nós é que dizemos que ainda estamos muito interessados, depois da entrevista, e oferecemo-nos para trabalhar. Foi por isso que o meu amigo não foi seleccionado: ele tinha ficado à espera do convite. Dizia-me o meu amigo que na Goldman-Sachs, o processo é igual.

Julgo que isto é uma forma de selecção de empregados interessante, pois é tão contra o normal, que só quem tem amigos lá dentro, que nos informam como o processo funciona, é que entra. Só mais tarde, é que o meu amigo foi informado por um terceiro acerca de como devia ter procedido.

Seria interessante saber se Durão Barroso foi convidado ou convidou-se para ir trabalhar para a Goldman-Sachs. Ou será que contratou um head-hunter para o vender?

sábado, 16 de janeiro de 2016

O valor da reputação

Relativamente à redução do horário de trabalho da função pública, foi usado o argumento de que a oitava hora do dia não contribuía nada para o serviço. As pessoas já estavam tão cansadas que não faziam nada a não ser receber o seu salário. Os sindicatos acenaram com a cabeça que sim, realmente assim era. E muitos funcionários públicos também.

Tenho sérias reservas acerca disto, até porque, por experiência própria, muitas vezes sou mais produtiva ao fim do dia do que ao princípio. Para além disso, é frequente a hora a seguir ao almoço, especialmente nos dias de calor, ser a mais chata de todas. Mas isto não é acerca de mim porque eu até nem tenho horário de trabalho. Desde que o meu serviço apareça feito a tempo e horas -- porque eu presto contas do meu serviço -- e que esteja presente para as reuniões, a minha chefe não quer saber como é que eu trabalho, onde, e quando. Isto é acerca de vocês.

Meus caros funcionários públicos, vocês foram insultados. Foram chamados de preguiçosos e ladrões com a benção do vosso sindicato. Em troca receberam uma hora de folga por dia ou irão aumentar as vossas horas extraordinárias, o que reforça a ideia de que realmente são ladrões. A vossa reputação vale muito pouco. Quem não se respeita não é respeitado pelos outros.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Da competência...

No último dia de 2015, o Jornal de Notícias diz-nos que, no Instituto de Emprego, se deu o seguinte:
"A "dissolução do Conselho Diretivo" e "a cessação das comissões de serviço" dos delegados e subdelegados foi esta quinta-feira confirmada ao JN pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Justifica a decisão com a nova orientação do PS assente na promoção do emprego e no combate à precariedade.
[...]
A direção cessante tem sido alvo de contestação por parte do Bloco de Esquerda (um dos partidos que garante maioria parlamentar ao Governo) precisamente devido aos recibos verdes. O deputado José Soeiro entregou, anteontem, uma pergunta dirigida a Vieira da Silva, denunciando o recurso a falsos recibos verdes no concurso que a direção do IEFP lançou para docentes e formadores na rede de centros de emprego e formação profissional. O procedimento de seleção foi aberto segunda-feira para 2016-2018. Há quase 900 vagas."

Fonte: JN.pt, 31/12/2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Curiosidades

Encontrei uma notícia a dizer que o Presidente do Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários ganha €12.000/mês; o sindicato factura €50 milhões por ano. Acho excessivo, mas não tenho grandes referências. Os bancários querem que os seus dirigentes sindicais ganhem menos. Parece-me bem.

Tentei encontrar informação acerca de sindicatos bancários nos EUA, mas não encontrei--nem sei se existem. Havia era uma coisa a analisar os salários dos empregados dos reguladores bancários federais, cujo o salário médio era $15.833/mês em 2012. Em 2014, a Janet Yellen ganhava $16.808/mês e o Inspector Geral $26.000/mês.

Depois lembrei-me de consultar salários de um sindicato que conheço, a United Automobile Workers Association, que factura $214 milhões por ano; o seu presidente ganha o equivalente a €13.545.59/mês. As contas do sindicato são públicas. Continuo a achar que o salário do Presidente do Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários é excessivo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Ainda a produtividade

Ontem fui a um evento para o qual fui convidada pela minha chefe. Ao chegar lá a minha chefe apresentou-me a várias pessoas. A uma delas disse "This is Rita, my Director of Research. She tries to make me look intelligent." É obviamente uma piada, mas contém alguma verdade.

A pessoa para quem trabalho é uma mulher extremamente inteligente e sagaz. O meu papel na empresa é fazê-la melhor ainda e é essa a expectativa que ela associa ao meu emprego. Isto está perfeitamente claro. Ela já mo disse várias vezes; mas notem que não implica que eu seja melhor do que ela. Implica apenas que há coisas que eu faço melhor do que ela: por exemplo, eu sei ler espanhol e português, e posso consultar as notícias e os dados oficiais da Argentina e do Brasil directamente; também tenho mais conhecimento de técnicas de análise de dados do que ela. Mas eu não conheço o mercado financeiro tão bem como ela; ela também sabe os meus pontos fortes e fracos e pode gerir-me para criar valor e para eu crescer profissionalmente.

Ou seja, ela e eu somos complementares; juntas somos melhores do que seríamos sozinhas. Faz sentido eu trabalhar com ela porque juntas criamos valor extra, ou seja, aumentamos a produtividade uma da outra. Não pensem que isto acontece em todas os empregos nos EUA; nem todas as pessoas para as quais trabalhei eram assim.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ROI e filosofia de trabalho

ROI quer dizer "return on investment" e é um conceito que se adapta a muita coisa. Não gosto de trabalhar com pessoas que não têm noção que têm de criar valor, dado o custo que representam para a entidade patronal. Quando eu trabalhava em consultoria, por exemplo, os nossos projectos tinham orçamentos e nós tínhamos de indicar quantas horas trabalhávamos em cada projecto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Justificação

Está a decorrer o plantio de soja na Argentina. Como tal, acompanhei as eleições na Argentina atentamente. Maurício Macri, quem eu tinha previsto que iria ganhar no Domingo, foi o vencedor.

Depois da vitória surgiram uns rumores acerca da política que ele iria seguir na agricultura. Na segunda-feira, a minha chefe perguntou-me o que eu achava. Depois de consultar os jornais argentinos para ter a informação mais recente e sem ser filtrada pelos media americanos, informei-a da minha opinião. Hoje o novo Presidente da Argentina confirmou o que eu tinha dito.

Fiquei feliz porque justifiquei o meu salário.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Ainda os CEOs bem/mal pagos...

Ontem, falei-vos do artigo acerca de Marissa Mayer ser a CEO mais over-paid de sempre. Isto é uma grande piada, claro está.

Exactamente ontem, também na Bloomberg, relata-se o também o caso de Jeffrey Smisek, ex-CEO da United Airlines, que para além dos resultados desastrosos que teve desde que a United Airlines se uniu à Continental Airlines, deixou que a companhia fosse envolvida num escândalo de corrupção com o Port Authority of New York & New Jersey, do qual vos falei há vários meses.

Smisek tem um "severance package" de $29 milhões, que ainda pode receber desde que coopere com as autoridades na investigação do caso de corrupção e não seja dado como culpado em tribunal.

Sinceramente, estou farta destes gajos, que chegam a CEO. Para obter compensação de milhões de dólares, o mínimo que se exige é que a companhia não seja envolvida em corrupção. Quem não consegue isso, nem merece ser considerado para o cargo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Mulheres

Eu não me identifico muito com todos os aspectos do movimento feminista, mas obviamente beneficio dele. Para além disso, nós, mulheres, ainda somos maltratadas em muitos locais de trabalho e isso é transversal a muitos países, logo é preciso haver feminismo.

Uma amiga minha em Portugal uma vez foi a uma entrevista para um cargo para o qual ela era mais do que qualificada. Quando lhe ofereceram o emprego e lhe disseram a compensação, ela achou pouco. A dona da empresa, ela própria mulher, informou a minha amiga que a expectativa era que ela vivesse com um homem, pois assim teria alguém que lhe ajudasse a pagar as contas, ou seja, a própria dona da empresa admitiu que era uma má gerente. Tão má que nem sequer tinha vergonha de ter empregados a ganhar salários de porcaria, apesar de ter receitas suficientes para lhes pagar um salário decente (as receitas do trabalho da minha amiga eram superiores a 10 vezes o salário oferecido).

Depois veio o engodo: se o emprego for declarado às finanças, a pessoa ganha o salário mínimo que, com os impostos "generosos" do estado, não dá para ter uma casa e criar um filho sozinha; mas porque não aceitar o trabalho e não declarar às finanças? Assim não paga impostos e leva mais para casa. Verdade, não paga impostos, nem tem protecção do estado quando a patroa decide não pagar o combinado ao fim do mês.

Atravessemos o Atlântico e visitemos os EUA. Uma outra amiga relatou-me uma outra história. Falou com um antigo colega, uma pessoa do "upper management" de uma empresa do sector de energia, que odeia o seu supervisor. Esse supervisor assedia sexualmente todas as empregadas com menos de 35 anos. Nenhuma ainda se queixou ao Gabinete de Recursos Humanos ou ao Equal Employment Opportunity Office.

Os EUA são um país muito litigioso, mas uma mulher que inicia um processo de assédio sexual corre o risco de ficar marcada, pois quando for a entrevistas pode ser preterida por outros candidatos--o mundo é pequeno, os gerentes de recursos humanos falam uns com os outros, as coisas sabem-se. Quando se é uma mulher jovem, com muitos anos de carreira pela frente, tem de se medir os riscos. Só vale a pena fazer queixa se o assédio é grave e o retorno de um processo em tribunal é significativo. Para casos menos graves, mais vale mudar de emprego ou ignorar.

Há outra possibilidade: outro colega, preferencialmente homem, faz a queixa ao Gabinete de Recursos Humanos. Foi isso que a minha amiga perguntou ao antigo colega: "Porque é que tu não inicias a queixa?" Ele disse que acha que o supervisor está prestes a ser despedido brevemente, sem ser preciso uma queixa formal. Enquanto há vida, há esperança...

Alguém uma vez disse que saberemos que as mulheres estão ao mesmo nível dos homens no mercado de trabalho quando houver tantas mulheres incompetentes em cargos de chefia quanto há homens. Um professor da NYU diz que a Marissa Mayer é a CEO mais "overpaid"--paga muito acima do que merece--desde sempre. Ele tem memória muito fraca porque a história recente está repleta de homens que foram pagos a preço de ouro e levaram as empresas à falência. Diz ele que ela só não é despedida porque está grávida de gémeos. Eu acho isto óptimo! Quantas mulheres são despedidas todos os dias por estarem grávidas ou são encorajadas a não engravidar? Só é pena não haver mais Marissa Mayers, para a distribuição probabilística ser mais simétrica...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Relatividade e preguiça

Não sei se ouviram, mas Jeb Bush meteu o pé na argola. Jeb Bush é o irmão de George e o terceiro Bush a candidatar-se à presidência dos EUA. Sugeriu ele que, para os EUA crescerem a 4% ao ano (Ora, digam lá se ele não é um candidato presidencial ambicioso?), os americanos deveriam trabalhar mais horas.

As pessoas ficaram ofendidas porque os americanos já trabalham muitas horas. Depois ele clarificou, dizendo que queria dizer que os americanos que trabalham a horário parcial deviam trabalhar mais horas. Presume ele que quem trabalha a horário parcial preferia trabalhar a tempo inteiro; se não têm esta preferência são preguiçosos. Nestas discussões, o que se segue é a óbvia constatação de que o trabalho paga impostos mas o tempo de lazer não, logo a solução é reduzir os impostos sobre o trabalho, especialmente sobre o trabalho dos mais ricos, que pagam taxas de impostos mais altas porque também ganham mais dinheiro.

Como eu já estive desempregada involuntariamente várias vezes--a crise financeira foi um "óptimo" exercício de resistência emocional e financeira--, acho esta discussão interessante, mas um bocado aérea. Sim, o trabalho paga impostos e o lazer não, mas o lazer tem o custo de usarmos as nossas poupanças, mais vários custos de oportunidade, como o salário que se prescinde porque não se trabalha e os juros que prescindimos porque temos de usar as nossas poupanças.

Os desempregados involuntários, quando têm direito, têm um seguro de desemprego muito baixo e não dá para ter o nível de vida de um salário normal; para além disso só dura no máximo seis meses (durante a crise financeira, houve extensões). Ainda por cima, sem emprego não há seguro de saúde; tem de se comprar com o nosso próprio dinheiro e agora é obrigatório ter ou então pagamos uma multa. (Mesmo com emprego, nem todas as companhias oferecem seguro de saúde.)

As férias de trabalho normais nos EUA são 10 dias, i.e. duas semanas, mas há companhias que dão um pouco mais ou aumentam o número de dias de férias com o número de anos que se trabalha para a empresa. Note-se que os americanos têm mais feriados do que os portugueses, mas a lei não obriga a que sejam pagos, depende do acordo entre trabalhador e patrão.

Quando eu conto aos meus amigos em Portugal o que é trabalhar nos EUA, toda a gente fica horrorizada, mas gostam dos salários. Quando eu conto aos americanos como é trabalhar em Portugal, os americanos ficam horrorizados com tanto lazer e regalias, e detestam o salário.

Os americanos acham os europeus pessoas muito preguiçosas, pouco ambiciosas, e paparicadas pelo estado. É mais ou menos a ideia que os europeus têm dos gregos.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Acerca de sucesso

Reparei agora que a Diane von Furstenberg tem uma entrevista deliciosa no New York Times. É refrescante ver alguém com muito sucesso falar dos seus "shortcomings", das coisas que tem de melhorar, do significado de falhar e da necessidade de transformar os falhanços em oportunidades, etc.

Gostei particularmente da forma como ela descreveu sucesso: não o fez de forma fechada, como se o sucesso de alguém ficasse reduzido ao indivíduo que o tem; mas sim de forma aberta, diz ela que uma pessoa que tem sucesso deve construir uma ponte que une os que não têm voz ao resto do mundo.

"So the first thing that success gives you is financial independence. That’s great. The second thing that success gives you is a voice. You have a voice. All of a sudden, people listen to you, pay attention to what you say. And what I feel is that if you acquire that, it’s your duty, responsibility and also privilege to use that voice for people who have no voice. That’s my description of success."

~ Diane von Furstenberg

terça-feira, 5 de maio de 2015

More than ever...

No ano passado, uma amiga minha pediu-me para conversar com um jovem português, que andava à procura de emprego. Pensava eu que iria ser fácil. Muitos dos meus antigos alunos ainda mantêm contacto comigo e, de vez em quando, eles pedem-me ajuda para os orientar e as coisas correm bem, normalmente. Conversamos, exploramos oportunidades, corrijo cartas e CVs, faço sugestões de conteúdo, tento antecipar perguntas que eles possam encontrar em entrevistas, etc. Eu não sou a responsável pelo sucesso deles, mas tento posicioná-los de forma a aumentar a probabilidade de eles terem sucesso mais rapidamente. Também tenho outras pessoas em Portugal, com quem eu mantenho contacto e, quando é necessário, sirvo de claque de apoio. Eu também tenho uma claque de apoio, logo tenho uma responsabilidade moral de fazer o mesmo pelos outros.

Quando comecei a conversar com o meu jovem amigo, fiquei um pouco chocada com a falta de humor e a facilidade com que pequenas coisas se tornavam grandes dramas. Houve um drama em que o meu jovem amigo não sabia se devia fazer mestrado ou ir trabalhar. Tanto no trabalho, como no mestrado, havia várias opções, mas ele não conseguia decidir sequer para onde se candidatar. Houve uma vez que me fartei da indecisão do rapaz, abri um folha de Excel, criei vários pressupostos e simulei o rendimento da vida de trabalho para cada opção. Ele, que é de ciências duras, ficou fascinado. E eu disse-lhe "É isto que os economistas fazem: avaliam opções alternativas e tentam fazer escolhas educadas". Já sei que há muita gente que acha que isto é completamente aborrecido e nós, economistas, somos umas pessoas muito pouco interessantes porque tudo deve ser feito por amor. Quando nos querem insultar, dizem que somos tecnocratas porque ser tecnocrata não é nada inspirador para muita gente. Desculpem, que vos desiluda, mas aborrecida, eu não sou.

O último drama que atravessamos é que o meu jovem amigo está, finalmente, a trabalhar, mas é num emprego do qual não gosta e perguntaram-lhe se ele queria ficar permanente depois do contrato terminar. Ele, que não tem outra oportunidade de emprego, está muito chateado com esta ideia de ter de ficar num sítio do qual não gosta. Parece que ele vê isto como uma sentença de prisão. Eu digo-lhe que é uma maratona, não é um sprint, mas não serve de nada. Não entendo como um jovem, que não tem grandes responsabilidades e tem um curso superior, tem um comportamento tão ilógico. Já sei que o que é racional para alguém, pode não ser racional para outrem, mas eu não consigo compreender isto.

É que, quando ele estava desempregado, dizia que estava aborrecido, mas também não saía de casa para acumular experiências, nem pegava num livro porque dizia que não tinha tempo--todos nós temos 24 horas por dia. É a coisa mais equitativamente distribuída do mundo. Eu dizia-lhe que ele precisava de arranjar maneira de desenvolver as suas capacidades sociais e ter tópicos sobre os quais fazer conversa leve porque isso era importante para as entrevistas de emprego, e ele achava que tudo isso era irrelevante para um emprego. Eu dizia-lhe que eu já tinha tido vários empregos, logo eu teria melhor condição de avaliar o que é relevante e o que não é, mas ele achava que não era assim.

Agora, que tem emprego, também está aborrecido. Eu digo-lhe para ele manter o emprego e candidatar-se a outros sítios, mas argumenta comigo e diz que não. Para ele é preferível despedir-se sem ter um emprego alinhavado do que despedir-se porque vai para outro emprego. Na cabeça dele, o ideal é sair daquele emprego e depois *puf* aparece logo um emprego super-interessante para onde ir. A minha vida nunca foi assim e ninguém que eu conheço teve uma vida assim, logo eu digo-lhe que não é uma expectativa razoável. Na semana passada, fartei-me outra vez, mas desta vez disse-lhe:

"Compra um iPad e vê pornografia. É muito prático.

Tu devias deixar de complicar a tua vida. És muito jovem, ela complicar-se-á eventualmente. Não apresses a complicação..."

Estão a ver? Eu disse-vos que eu não sou uma pessoa aborrecida; afinal, eu cresci a ver filmes do David Lynch.

Depois pensei no Steve Jobs, eu penso muito nele. Então, quando o Steve Jobs anunciou o iPad, ele disse:

"The precise Multi-Touch interface makes surfing the web on iPad an entirely new experience, dramatically more interactive and intimate than on a computer."
O Steve Jobs sabia que o iPad iria dar-nos uma experiência muito mais íntima com o conteúdo online. Não há razão para andarmos aborrecidos. O homem era um génio, apesar do seu mau feitio. E o percurso do Steve Jobs foi tudo menos linear. Ele até foi humilhado e esteve desempregado...

Por falar em David Lynch, vou dar-vos uma experiência íntima para o vosso iPad ou smartphone. Aqui está a Alice e o Pete no deserto à noite, em "Lost Highway". Quando David Lynch fala desta sequência, ele diz que até o pó é uma personagem na acção. Não estava no roteiro do filme usar o reflexo da luz dos faróis do carro no pó, mas quando estavam a filmar, o David notou e aproveitou a oportunidade, que se revelou naquela noite, para construir mais uma camada de magia na cena. E eu acho que é isso, há pessoas que reconhecem e coleccionam oportunidades; há outras que as ignoram e desperdiçam.

P.S. Ah, não posso desperdiçar esta oportunidade de contribuir para a campanha de natalidade de Portugal da nossa caríssima Ministra das Finanças. Aqui vai, meus amigos: Quando tudo o resto falha, "Foda-se, literalmente!" E usem um tablet na cama para construir esses momentos de intimidade. Lembrem-se disto, como diz a Alice, "more than ever"...

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Re: Ela não te merece

Li o Fictiongram no Expresso e fiquei perplexa com a ideia avançada. Será que devo sentir pena de alguém? Como é que, estando o trabalho mal feito, a chefe diz que está mal feito, e os empregados dizem que vão melhorar apesar da chefe não merecer? É que, para mim, esta gente não tem profissionalismo nenhum: a chefe porque não sabe comunicar com os empregados; os empregados porque têm uma atitude de merda, a da filosofia do "Para quem é, bacalhau basta".

A qualidade do nosso trabalho deve ser independente do nível de idiotice do chefe. Nós somos pagos para fazer uma coisa e devemos fazê-la o melhor que podemos dentro das nossas capacidades. Ter um chefe idiota é uma infelicidade, mas não deve servir de justificação para nós apresentarmos um trabalho abaixo do nível de qualidade que podemos apresentar. Quem se comporta assim não vai, nem merece ir, longe. E um país onde coisas destas acontecem também não vai longe.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Marco

Hoje vi o Marco outra vez. Ontem o meu carro aqueceu demais--é um carro muito "hot", como eu, se calhar...*--e hoje consegui levá-lo à oficina sem o escavacar por ter aquecido demais. O Marco é um dos rapazes que trabalha na oficina que eu uso e que me dá boleia da oficina para o trabalho e vice-versa, pois as boleias fazem parte do atendimento ao cliente da empresa. É do Equador e já está nos EUA há nove anos, se não estou em erro. Primeiro foi para Miami, na Florida, mas não gostou porque não conseguia sair da comunidade latina, quer dizer, quase que não aprendeu inglês. Depois veio para Houston, já não me recordo quando, e já sabe conversar em inglês. A maior parte das pessoas com quem trabalha são americanas e ele tem de usar inglês para trabalhar. Achei giro, que ele se sentisse mais à vontade no Texas porque, nas notícias, o Texas dá a ideia de ser um sítio muito pouco tolerante de imigrantes.

Na penúltima vez que vi o Marco, ele disse-me que queria arranjar outro emprego. Eu sugeri que ele fosse para uma universidade, mas ele disse que já tinha um curso universitário. Ele tem o curso de Ciências Computacionais (Computer Science) de uma universidade no Equador. Ele gosta do seu emprego actual, mas não acha que seja particularmente estimulante para o seu cérebro, e acha que pode fazer um trabalho mais exigente. Nesse dia, eu sugeri que ele procurasse emprego pela Internet, usando o motor de busca Indeed. Dei-lhe instruções de que palavras chave ele devia usar e de como aquilo funcionava. Sugeri empresas que poderiam usar os conhecimentos que ele tem. Depois disse-lhe para ele procurar exemplos de CVs na Internet para se orientar a criar o seu. Dei-lhe o meu email, caso ele precisasse de alguém para rever o CV em inglês.

Quando eu lhe sugeri para procurar por emprego na Internet, ele disse que ainda não tinha pensado nisso. Parece uma estratégia lógica, mas para quem não está habituado a fazer as coisas assim, por vezes o que parece óbvio é o que distancia a pessoa dos seus objectivos.

Durante a boleia para o trabalho, hoje, perguntei-lhe como ia a busca de emprego. Ele disse que ainda não tinha investido muito tempo. Há coisa de dois meses, ele e a esposa compraram uma casa e, como tal, há um período de ajustamento e de organização da casa. Hoje, disse-me que já estava tudo organizado, já tinha um quarto onde tinha o computador a funcionar. Eu disse-lhe que nesta altura do ano, há boas oportunidades de emprego. Muitos estudantes universitários terminam o curso em Maio, logo as empresas orientam a gestão dos seus recursos humanos para aproveitar e poder escolher os melhores candidatos. Ele ficou surpreendido quando eu lho disse, ainda não tinha pensado na dinâmica do mercado de trabalho dos EUA. É natural porque ele não fez o curso aqui.

Há mil e uma coisas que parecem ter pouca importância, mas algumas pessoas sabem-nas e outras não. Muitas vezes, são as pequenas coisas que fazem a diferença. Quando um balde apara a água de uma torneira a pingar, há uma gota de água que faz o balde transbordar. Essa gota, que parece tão insignificante de pequena que é, é que faz toda a diferença entre conservar o recurso e desperdiçá-lo.

* Já sabem que eu gosto de fazer piadinhas. Vocês têm vidas mais stressadas do que eu, logo sinto-me na obrigação de vos fazer rir ou, pelo menos, abanar a cabeça e queimar uma caloria para ficarem mais perto de um corpo de verão. Não é preciso agradecer, faço-o por gosto...

terça-feira, 14 de abril de 2015

Matemática, bom senso, e carreira

Já que andamos numa de matemática e de gestão de carreira--OK, eu sou um bocado aborrecida, mas que queriam vocês? Eu tenho Carreira no nome...--sugiro que vejam este vídeo com um seminário de James Simons. É sempre bom estarmos expostos ao percurso de outras pessoas: isso abre os nossos horizontes e ajuda-nos a pensar não só fora da caixa, mas também a médio e longo prazos.

domingo, 12 de abril de 2015

Ainda os doutorados...

O iv fez um comentário muito interessante acerca dos doutorados descamisados que temos andado a discutir. Eu disse, no post do Zé Carlos, que ter um doutoramento reduz o número de trabalhos para os quais nos consideram, ao que o iv respondeu:
E a sociedade não terá razão nessa afirmação? Para mim, ter um Doutoramento é principalmente a prova de que não sendo completamente estupido uma pessoa pode focar-se durante vários anos apenas num assunto e avançar um pouco nesse estudo. Não me parece que fora da universidade existam muitas aplicações diretas para essa capacidade, e durante o tempo em que o aluno está envolvido nesse trabalho não só não aprende capacidades mais "vendáveis" como integrar-se em grupos, como se tiver essas capacidades provavelmente vai ter mais dificuldade em se tornar o maior perito mundial numa micro-área (o que é, convenhamos, o principal objetivo de um doutoramento).

Pessoalmente, a coisa mais gratificante que eu fiz foi o doutoramento. Foi difícil, houve desejo de morrer, de acabar com o sofrimento e estar por tudo, até por receber o doutoramento postumamente. Estes gajos nos EUA são uns chatos e espremem-nos mesmo. Mas, depois de terminar, aconteceu qualquer coisa em mim porque senti, realmente, uma mudança de atitude, não no sentido de ficar mais arrogante, mas no sentido de sentir que se eu tinha sobrevivido àquilo, poderia sobreviver a muito mais coisas. Isto foi a parte interior; já do ponto de vista inverso, do ponto de vista de como as pessoas olham para nós, as coisas ficam piores.

Eu nunca digo a ninguém que tenho um doutoramento sem haver razão para justificar dar essa informação. Quando as pessoas sabem que temos um doutoramento, olham para nós de forma diferente e inibem-se. Quando eu trabalhei na Informa Economics, as assistentes administrativas ficaram muito surpreendidas quando, após vários meses de me conhecerem, souberam que eu tinha um doutoramento porque na companhia só havia homens com doutoramento, mais nenhuma mulher tinha, até havia muito poucas mulheres que não fossem assistentes administrativas. E quando eu falava com as assistentes, e muitas delas eram senhoras já com 50 e 60 anos, eu falava de culinária, costura, jardinagem, decoração, etc. e elas deviam pensar que eu era demasiado terra-a-terra e quem tinha doutoramentos existia mais próximo das nuvens.

Aqui há coisa de dois meses, a pedido da minha chefe, estive a ajudar um grupo de mães com um leilão para angariar fundos para a equipa de softball das filhas. O meu papel era o de automatizar a logística do leilão: a lista de itens a vender, a lista de clientes, etc. Este grupo de mulheres pertencem à classe alta e, muitas delas, são "stay-at-home moms". Quando a minha chefe me apresentou e disse que eu tinha um doutoramento houve um silêncio na sala. Eu achei isto estranho porque elas estavam a educar as filhas para ser como eu: para irem para a faculdade e tirarem mestrados e doutoramentos e, no entanto, não se sentiam à vontade comigo.

Ou seja, na minha opinião, há uma percepção errada da sociedade relativamente a quem tira um doutoramento: nós, doutorados, não ficamos tão especializados que nos esquecemos de tudo o resto, nem ficamos tão especializados que não conseguimos aprender mais nada, nem somos tão inteligentes que não nos conseguimos relacionar com "meros" humanos. Eu tinha muitas conversas com o meu orientador acerca do que era esperado de mim depois de eu sair do programa e lembro-me de uma vez ele me dizer que um doutoramento não era para aprender um tópico e ficar especialista no mesmo; o doutoramento era um programa que nos ensinava a ensinar-nos a nós próprios. Quer isto dizer, que o doutoramento deve dar ao aluno um conjunto de ferramentas que podem ser usadas para muitas coisas e não apenas para a área da dissertação. Sim, há pessoas doutoradas que gostam imenso do mesmo tópico e decidem apenas fazer aquilo, mas também há alguns que são mais promíscuos e são como as vacas: gostam de andar pelo prado a comer relva de vários sítios.

A questão das soft skills é uma questão muito interessante porque isso pode não ser totalmente possível de obter dentro de uma sala de aula. No meu caso, o que fez toda a diferença foi que, no primeiro ano que eu vim para os EUA, tive de arranjar um emprego part-time porque a CEE decidiu que não ia atribuir bolsa ao programa de intercâmbio que eu fiz (eles tinham dito que haveria e depois deram o dito pelo não dito). Eu indiquei ao Gabinete de Relações Internacionais da universidade americana que precisava de um emprego part-time e eles deram-me um emprego lá no gabinete.

Tive uma sorte fabulosa porque muitos alunos internacionais arranjam part-times nas cantinas e eu tinha um emprego de gabinete e não era num gabinete qualquer: era um gabinete onde eu tinha de aprender a lidar com pessoas de muitos países, tinha de aprender o sistema de imigração dos EUA, tinha de estar à vontade tanto com estudantes como com dignitários de outros países, etc. Foi lá que me ensinaram a atender um telefone, a telefonar a alguém para obter informações, a receber as pessoas num gabinete, a conversar informalmente, a antecipar as necessidades dos outros, como navegar os EUA, especialmente uma universidade, para obter informação, etc. Quando eu vim para os EUA eu era extremamente tímida e não tinha nenhuma presença física, logo essa experiência foi muito enriquecedora. Para além disso, como eles viram que eu era deficiente nessa área ajudaram-me imenso e o meu manager era mesmo muito bom em social skills. Mas nem todos os americanos ficam com uma formação assim apesar de crescerem nos EUA.

Depois, durante o mestrado/doutoramento, como o meu departamento e a residência onde eu vivia tinham muitos estudantes internacionais, acabei por melhorar muitas coisas no relacionamento inter-humano. Também ajudou que o meu orientador fosse uma pessoa extremamente sensível e empática, pois ele tinha vivido na Tailândia e tinha muita paciência para os estudantes internacionais. Passava muito tempo connosco a falar de coisas, que não apenas o nosso tópico de investigação. Era mais como um segundo pai. E ele gostava de me desafiar e meter-me em "alhadas", quer dizer, tirar-me da minha zona de conforto.

Por exemplo, na minha dissertação quem fez o esquema do sistema de irrigação subterrânea fui eu. Tive de ter várias reuniões com um professor de engenharia e outro de solos para aprender a fazer aquilo, depois tive de telefonar às empresas que vendiam equipamento agrícola para me darem os preços de cada peça para eu fazer o orçamento, visitei a área onde estavam a ser conduzidas experiências de irrigação e produção de milho, etc. Quando o meu orientador querido me disse para desenhar o sistema, eu ri-me e disse-lhe "You're joking, I'm not an engineer." Ele riu-se de volta e disse qualquer coisa como "Yes, yes, you can do it. Go meet with Mike and Jeff and get it done." Mike e Jeff eram professores em Biosystems Engineering e Plant and Soil Sciences, respectivamente. Despacha-te, Rita...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tomem lá este pacote

Conversei agora com um amigo acerca de um pacote que ele enviou para os EUA. Ontem eu disse-lhe para usar o número do pacote que está no recibo para ele ver a situação do pacote na página dos CTT. Ele não sabia que o pacote tinha número no recibo. A página dos CTT dizia que o pacote já tinha sido expedido. Então hoje pergunta-me ele qual a página internacional onde fazer o tracking do pacote. Para os EUA é a USPS (United States Postal Service). Sabem porque é que ele me perguntou isto? Porque eu já o tinha ajudado com outro pacote.

Aqui há uns meses, a irmã do meu amigo enviou um pacote para uma pessoa em Londres. O pacote nunca chegou ao destinatário porque ela enganou-se na morada. O meu amigo não sabia isto, apenas sabia que não tinha chegado, logo foi aos correios ver o que tinha sucedido ao pacote. Não sabiam dizer nem sabiam como ele podia obter mais informação. Esse pacote tinha tido um seguro, não era correio normal, mas eles também não se disponibilizaram a accionar o seguro. Não havia nada a fazer--não é esta a solução de António Costa?

Ele falou-me no caso, pois estava frustrado. Eu disse para ele ver o número do pacote e ir à página dos CTT para ver se tinha saído de Portugal. Ele viu e já tinha saído. Então eu fui ao Google procurar a página dos correios britânicos. Nessa página, inseri o número do pacote e vimos qual a empresa privada que o tinha apanhado. Fui à página dessa empresa, meti o número e vi que estava retido em armazém porque como a morada estava errada, tinha sido recusado. Depois escrevi um email para ele enviar para o Customer Service da empresa britânica. Houve uma troca de emails durante alguns dias.

Durante este processo, o meu amigo disse-me "Como é possível que tu me tenhas ajudado mais do que as pessoas que trabalham para os CTT?" Eu nunca trabalhei para os correios, mas sei como o processo funciona. Há pessoas que trabalham para os correios e não sabem como funciona, nem demonstram interesse em aprender e atender bem o cliente. Sempre que eu envio algo nos EUA, o empregado dos correios americanos informa-me que há um número no recibo com o qual eu posso acompanhar o pacote. Depois dizem-me que, dentro dos EUA, eu posso estar descansada que as coisas funcionam relativamente bem; quando o pacote sai dos EUA, eles dizem que não se podem responsabilizar pela performance dos correios estrangeiros.

Portugal é um país com uma alta taxa de desemprego. É impossível que estas pessoas que têm emprego nos correios, e que demonstram este desinteresse pelo que fazem, sejam o melhor que existe no país. E é triste que quem tenha emprego não sinta que tê-lo é um privilégio e não dê o seu melhor para contribuir para a empresa e para Portugal, especialmente numa área tão sensível como os correios.