terça-feira, 19 de setembro de 2017

Criaturas metafísicas 79

Não há respostas. Não faço perguntas. É por isso.
Cruzo as pernas sentado sobre cascalho e urze, a montanha abriga-me há décadas. Vim perguntar. É verdade. Os primeiros dez anos passei-os em pé, de cume em cume. Uma cabra montesa por trás de um penedo parecia-me ir a algum lado e segui-a. Descobri que é impossível seguir uma cabra montesa, há milénios que aperfeiçoam saltos sobre escarpas e desfiladeiros, as pernas finas muito juntas alçam-nas e os cascos fincam-nas na parede de rocha. Desisti, mas foram dez os anos durante os quais subindo penhascos escapei por pouco às avalanches que as cabras montesas não temem. A segunda década foi a década dos milhafres. Passei dez anos de pescoço esticado e cabeça inclinada para os céus quase vazios. Nunca se aproximaram de mim, a barba desgrenhada não enganou as aves que caçam pequenos animais de pêlo castanho. A minha barba que passou de ruiva a branca ao longo dos vinte anos entre as pedras. Ao fim deles, decidi procurar aquelas flores raras de que falam os aldeões supersticiosos dos vales, as flores com que se curariam todas as febres e todas as mazelas. Não encontrei nenhuma. Não saberia reconhecê-las, receio. Os aldeões fizeram sempre relatos vagos e discordantes e na terceira década na montanha a minha memória continha muito pouco para além das fragas vistas ontem e das ervas da primavera passada. Não tenho a certeza de estar já na quarta década entre penhascos. Mas a julgar pelo frio penso que sim.

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