sábado, 16 de junho de 2018

Calor caloroso

Não fazia ideia que Portugal e Espanha se debatiam ontem, até os meus colegas me chamarem a atenção que "eu" estava a jogar. Levantei-me para ver o que se passava e aproximei-me da TV onde normalmente passa o canal da Bloomberg. Perguntava-me um colega se eu não era fã de futebol e eu disse que não, ao que ele me pergunta se eu não tinha vivido em Portugal. Olha, vivi, mas claramente sou uma portuguesa meio-desnaturada. Mas nesse exacto momento o Cristiano Ronaldo marca o segundo golo e o Cristiano Ronaldo eu conheço.

O que o meu colega estava a fazer era mesmo a chatear-me porque tinha lido a notícia que o Cristiano Ronaldo ia para a prisão, o que me repetia várias vezes e eu não compreendia o que ele dizia -- afinal é pena suspensa, ele tinha-se esquecido dessa parte. E ainda por cima, dizia-me, ia pagar $20 milhões de dólares. Ah, essa parte eu percebo: isso é troco para o CR7. Perguntei ao meu colega se ele tinha noção de quanto ganhava o CR. Lá foi ao nosso amigo Google e concluiu o mesmo que eu: é troco, mas também descobriu que o Floyd Mayweather, que é um boxer americano semi-reformado, ganha mais do que o CR7.

E o colega, que é americano, encheu-se de orgulho por um americano ganhar mais do que português. Olha a grande dificuldade: há mais americanos do que portugueses, logo estatisticamente é mais fácil encontrar os outliers no lado dos americanos, ou seja, o nosso outlier português é mais valioso do que o deles. Mas não se preocupem que eu já mandei a estatística às urtigas em nome do interesse nacional e ganho mais do que a maioria dos americanos -- é verdade que também sou americana, mas, como boa portuguesa que sou, devo ignorar detalhes importantes quando necessário para formar as conclusões falaciosas que me dão jeito.

Mais tarde, estava eu em frente à televisão por uns segundos outra vez e outro colega, desta vez mexicano, começa a puxar pela seleção espanhola. Fiquei paralisada por um segundo, mas recompus-me e comecei a planear a malha que lhe ia dar por aquela afronta quando, de repente, ele "cai na real" e diz-me: "Desculpa, Rita, esqueci-me que eras de Portugal." e conclui "Não temos ninguém de Espanha na nossa equipa, logo temos de apoiar a seleção de Portugal." Pronto, livraste-te de boa, pensei eu!

A conversa final foi com uma colega brasileira que achou toda aquela atmosfera uma grande pobreza. No Brasil vive-se a copa, vestem-se a preceito, vibram com os jogos, decoram a sala, há alegria, um calor caloroso... A nossa sala por comparação devia ser mais triste do que um velório e o nosso calor é ar-condicionado literal e figurativamente. Tinha de fazer qualquer coisa pela saúde mental da minha colega e perguntei a um outro colega americano e jovem para me recomendar um bom pub irlandês onde ir ver jogos. Falou-me de Celtic Crossing perto do cruzamento da Cooper-Young, que é uma zona muito artística de Memphis, que fica em Midtown (em Memphis, há Downtown e Midtown, mas não há Uptown).

Bem, no final do dia, levei a minha colega brasileira lá para jantar. Tinha esplanada com música ao vivo e ela ficou logo encantada: "Que delícia!" Uma das TVs tinha a repetição do jogo de Portugal-Espanha e imagens do CR7 apareciam na outra de vez em quando, durante os intervalos de notícias de desporto. Espalhadas pela esplanada, havia bandeirinhas e calhou que nos sentámos numa mesa mesmo por baixo de uma bandeira portuguesa. O duo que cantava versões de canções de outras pessoas tinha uma rapariga com uma voz linda. Saímos de lá perto das 10 da noite, ainda estava um calor maluco característico de Memphis, mas era mais caloroso.

Oh, I thought the world of you...

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Portugal’s flag in #Memphis, #Tennessee...

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