domingo, 10 de junho de 2018

Tempos difíceis

Estou profundamente triste. Soube na Sexta-feira à noite, que o meu orientador de mestrado e doutoramento tinha falecido há uma semana. De vez em quando menciono-o aqui, mas devia escrever algo mais substancial porque era uma pessoa extraordinária e, se não tivesse sido ele, a minha vida teria sido muito diferente, mas agora não consigo ainda. A família não disse como morreu, mas, uma vez, quando a minha vida estava numa reviravolta e ele soube-o através de uma amiga em comum, enviou-me um longo email preocupado comigo. Dizia-me que eu não devia ter vergonha de pedir ajuda, se achasse que não aguentava a pressão. Ele também já tinha pedido quando atravessava tempos difíceis. Espero que este não tenha sido um tempo difícil para ele...

Foi uma semana de tempos difíceis para algumas pessoas, duas delas muito famosas. No fim-de-semana passado, perdemos a Kate Spade, que era um ícone da moda americana. A Kate Spade nasceu no Kansas, uma de seis crianças, estudou em Austin, Texas, mas a marca que criou é muito identificada com as grandes metrópoles como Nova Iorque, Paris e Londres: a rapariga que compra Kate Spade é jovem de espírito, viaja, gosta de cor, coisas bonitas, e sabe o que quer na vida. As carteiras da Kate Spade vêm acompanhadas de sacos protectores de pó, com uma frase inspiradora estampada: "She tucked her coral lipstick away and floated back to the party". A Kate Spade sofria de depressão e, depois de ter batalhado durante vários anos, decidiu não regressar à festa.

Passámos a semana a tentar digerir esta notícia, falando de suicídio, de como está a aumentar nos EUA -- em 17 anos, o número de suicídios aumentou 30% --, especialmente entre os mais jovens e, na Sexta-feira de manhã, soubemos que também tínhamos perdido o Anthony Bourdain. Muitas pessoas em Portugal não reconhecem o nome, mas ele fala, quer dizer falava, ainda não estou habituada à ideia, muito em Portugal e tem sido um grande campeão da cozinha portuguesa.

Era comum mencionar que tinha trabalhado para um português quando era chefe executivo do restaurante Les Halles, em Nova Iorque, e a sua sopa preferida era caldo verde. Ficava sempre emocionada quando o via dizer isso em entrevistas. O normal naquela altura era pensar em portugueses que viviam em Nova Iorque como sendo pessoas que tinham profissões de ranking mais baixo, mas aqui estava ele, um dos melhores chefes dos EUA, a falar de ter trabalhado para um português, José Meirelles, com orgulho. E também falava com orgulho dos tempos em que lavava pratos na cozinha de um restaurante.

Bourdain era, acima de tudo, um grande humanista, que usava os seus programas de televisão para reduzir as relações entre pessoas ao elemento mais básico da nossa evolução: partilhar uma refeição. Não é difícil imaginar que, desde há milhares de anos, essa é a forma com que celebramos a amizade e a boa-vontade que temos para com os outros. É tão elementar e, no entanto, esquecemo-lo tão facilmente.





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