sexta-feira, 8 de junho de 2018

O Homo Deus ao virar da esquina

Tenho andado a ver a excelente série The handmaid’ tale, baseada no livro com o mesmo nome de Margaret Atwood, publicado em 1985 e que ainda não li. A América é agora Gilead. Num futuro não muito distante, o mundo é atacado por uma epidemia de infertilidade. As mulheres são remetidas às tarefas do lar. As servas servem de "barrigas de aluguer" às elites estéreis. Todo este retrocesso civilizacional, toda esta desumanidade são feitos em nome de Deus. Talvez hoje esta história pareça  mais credível do que nos anos 80, quando os EUA eram vistos como um baluarte e um farol dos direitos humanos por contraponto à União Soviética, esse império do mal. Aliás, nos tempos que correm, a ficção distópica ganha um novo fôlego. Autores como Zamiatine, Aldous Huxley, George Orwell, Philip K. Dick, J. G. Ballard, Ray Bradbury, Kurt Vonnegut e Isaac Asimov estão na ribalta. Em todos eles, o futuro surge como um lugar mal frequentado e pouco recomendável. Assustador e arrepiante, por vezes. São traçados cenários apocalípticos.
A inteligência artificial e a robótica, a internet, a genética levantam imensas questões, algumas bastante inquietantes. Em última instância, tudo dependerá das escolhas que fizermos enquanto sociedade. Um cenário possível é o nascimento de uma nova espécie, o Homo Deus, como lhe chama o historiador Yuval Noah Harari. Uma raça de super-homens, eternamente jovens e saudáveis, com cérebros superpotentes, graças aos avanços da ciência. E estamos a falar, segundo Harari, de um cenário não muito longínquo. 20, 30 anos. E isto não é ficção científica. Neste momento, empresas como a Google gastam por ano biliões de dólares em investigação genética, à procura desses elixires.
Há, de facto, motivos para estarmos apreensivos. Primeiro, a história diz-nos que uma espécie superior, ou que se considera superior, costuma ser implacável com as outras espécies, consideradas inferiores. Nos seus primeiros 60 mil anos de existência, o Homo Sapiens tratou as outras espécies animais de igual para igual. Tudo mudou com a revolução agrícola há 12 mil anos. Não temos por isso grandes motivos para ter esperança em relação à generosidade (ia dizer humanidade, mas essa palavra perderá o seu próprio sentido) dos Homo Deus em relação a nós, os pobres e fracos Homo Sapiens. Segundo, tenho-me lembrado das arrepiantes teses de Nietzsche. Que nos diz esse terrível filósofo? Os mais egoístas, fortes, auto-afirmativos e saudáveis impõem aos outros a sua vontade pela força da sua natureza. Esta raça dominante mantém o seu poder castigando todos os desvios dos escravos. Os escravos, demasiado fracos, tímidos e desmoralizados para se rebelarem, recebem esse castigo como uma retaliação. Uma vez que não têm força para se revoltarem, os escravos acabam por interiorizar que os castigos são justos e merecidos pelas suas transgressões. Não conseguindo vingar-se, dirigem o re-sentimento (como lhe chama Nietzsche) para si próprios. E assim nasceram o sentido de culpa e a ideia de pecado. Daqui o filósofo deriva uma explicação de toda a visão teológica e moral do cristianismo, uma religião de escravos.
Sempre tive esperança que Nietzsche estivesse errado. Por que motivo uma chicotada ou vergastada nos há-de fazer sentir culpados e não apenas sentir medo? Por que motivo o exercício da força há-de ser visto como um castigo e não apenas como mera necessidade de quem o executa, como observam autores perspicazes como Roger Scruton?
De qualquer maneira, não convém baixar a guarda. Se estivermos distraídos, quando dermos conta, pode ser tarde demais. O Homo Deus está ao virar da esquina.

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