quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Meu caro Eurico Lemos Pires


Perguntei pela tua saúde há pouco mais de um mês, quando estive pela última vez no Instituto de Educação da UM, que, na sua versão inicial (a Unidade Científico-Pedagógica de Ciências da Educação, nos já distantes anos 70 do século passado), tu ajudaste a criar. Tinhas vindo de Angola, um “retornado” que como tantos outros não quis carpir mágoas mas trabalhar, e decidiste abraçar uma das tuas paixões – pensar a educação de um ponto de vista sociológico, mas suficientemente abrangente para não ficares pelos discursos cheios de palavras e vazios de conteúdo prático, que sempre prezaste.


Conhecemo-nos quando, numa primeira reunião do então “grupo da Educação”, fui apresentado como o novato que nele se ia integrar. Corria o ano de 1977, e quando em Abril comecei a minha actividade como docente, e naturalmente como membro activo da escola, tivemos ocasião de conviver e de começar uma amizade que se cimentou quando, em meados do ano seguinte, ambos decidimos aproveitar uma oportunidade oferecida pelo British Council e rumar a Inglaterra, onde, primeiro em Reading e depois em Londres, fomos companheiros diários na expatriação. Lembras-te como tu te deliciavas ao conhecer um novo pub, o que para mim era indiferente? Fartos de comer mal no John Adams Hall decidimos alugar um flat na Woburn Square, a dois passos do Instituto de Educação, e nele vivemos meio ano, repartindo as nossas habilidades culinárias: tu dizias que eu temperava as saladas como ninguém, e eu ainda hoje, confesso, tenho na memória um doce que tu fazias – e era uma maravilha! Bons tempos esses de Londres, meu caro.

Depois… ficaste na Inglaterra e eu regressei. De vez em quando trocávamos correspondência, mas só anos mais tarde voltámos a privar mais de perto, quando da tua aventura na política, que te fez deputado. Acho que nunca falámos a sério sobre isso, mas fosse qual fosse a minha opinião a tua seria sempre justificável, tanto mais que acabaste por ter um papel importantíssimo para a feitura da lei de bases do sistema educativo. Lembro-me que uma tarde me telefonaste para Faro para me dar a notícia de que a lei tinha sido aprovada nesse dia! Depois, ainda em Faro, foste visitar-me na altura em que andavas a trabalhar no PEPT 2000.

Curiosamente, quando regressei ao Minho, em 1993, já não estavas lá, mas no Porto, e apesar da proximidade tivemos menos contactos. Mas fui sempre sabendo das tuas ideias e do teu entusiasmo naquilo que empreendias, seja do refúgio em Felgueiras seja da Escola Superior de Gestão e Tecnologia, de que foste o primeiro director e que te prestou uma bela homenagem em 2009. Eu e a minha Mulher estivemos lá.

Ainda me convidaste para umas jornadas de reflexão sobre a educação em Portugal, que irias organizar e onde encontraríamos amigos comuns, como Bártolo e o Manuel Sarmento, mas tiveste de desmarcar porque adoeceste. Coisas da idade!

Disseram-me há pouco que partiste de viagem. Tenho pena de não termos conversado antes, mas um dia destes pode ser que nos encontremos, lá para onde foste.

Um abraço, meu Amigo.

Cândido Varela de Freitas

Sem comentários:

Publicar um comentário

Não são permitidos comentários anónimos.