quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Cobertura mediática

Alguns dos nossos leitores sugeriram que se tinha dado pouca cobertura mediática às falhas dos Clinton em comparação com as falhas de Donald Trump. Decidi fazer uma pequena experiência que, apesar de não-científica, indica que há bastante cobertura mediática de ambos.

Fui ao Google e meti algumas palavras chave acerca de tópicos mais controversos associados com Clinton e Trump. Apenas vi o número total, não fiz nenhuma triagem por período específico, mas se estão interessados em perder mais algum tempo do que eu, podem pedir ao Google para apenas procurar num período de tempo específico. Fiz estas buscas entre as 20:00 e as 20:30 horas de Houston, do dia 18 (02:00 e 02:30 de Lisboa, do dia 19). Fiz buscas gerais e buscas dentro do subgrupo notícias. Note-se que é impossível saber se todos os resultados são a favor ou contra os candidatos, apenas podemos ver que tiveram tracção na Internet.

Os tópicos vencedores para Trump são os impostos e o racismo; para Clinton, vencem os e-mails e a corrupção.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Trump e os perdedores

A Mafalda escreveu um texto bastante interessante e estimulante sobre o populismo de Trump e a sua eventual correlação com os perdedores e ganhadores da globalização. Se bem entendi a Mafalda, esta tese tem vários problemas. Primeiro, não é certo que os perdedores sejam um fruto da globalização, porque, afinal de contas, sempre houve perdedores e a “destruição criativa” gera-os automaticamente, com ou sem globalização. Segundo, alguns estudos parecem sugerir que os eleitores de Trump não são propriamente “perdedores”, têm até rendimentos acima da média, apesar de muitos viverem em bairros pouco recomendáveis. Bem, por onde é que hei-de começar? A globalização gera ou não perdedores? Gera, claro que sim. A maioria esmagadora dos economistas defende o comércio livre. Acreditam que, no fim, o bolo aumenta para todos os países envolvidos. Todavia, nos anos 1940, os economistas Paul Samuelson e Wolfang Stolper (o teorema Stolper-Samuelson) chamaram a atenção para o facto de, em cada país, haver grupos que ficam relativa e absolutamente pior em termos de rendimento com a abertura das fronteiras. Os autores, claro, não defenderam por causa disso o proteccionismo. Mas sublinharam a necessidade de compensar os “perdedores”, redistribuindo o rendimento total, que, de qualquer maneira, aumentaria com a liberalização do comércio.
Ao contrário do que previam muitos autores de esquerda há 20 anos, presos às teorias do imperialismo de Marx e Lenine, a globalização não foi apenas um estratagema dos países mais ricos para explorarem os países mais pobres. Na verdade, houve milhões de pessoas que foram tiradas da pobreza. Globalmente, o mundo ficou melhor. Mas, de caminho, houve grupos que perderam, nomeadamente nos países mais ricos. Stolper e Samuelson não se enganaram nas suas previsões. E esses grupos acham que não foram devidamente compensados pelas suas perdas relativas e absolutas.
Todavia, em meu entender, esta nem é a questão principal. Podemos até dizer que os eleitores de Trump não têm muitas razões para se queixar porque, afinal de contas, nem vivem assim tão mal e é errado atribuir à globalização a causa dos seus problemas. Mas o que interessa é a percepção que as pessoas têm do problema. Até podem estar enganadas (e, como disse acima, se calhar nem estão completamente enganadas), mas, provavelmente, muitas acreditam que a abertura da América ao mundo lhes está a piorar a vida e a dos seus filhos. Mais grave: acham que ninguém se preocupa com esse facto. Trump deu voz a essa gente e, como todos os populistas, promete criar uma fortaleza contra os invasores.

Histórias de qualquer maneira 19

 Sujo o úmero e esdrúxulo como um ídolo, foi do cotovelo ao ombro e vai agora do ponto A ao ponto B no rectângulo de terra onde se afunda o esqueleto completo. Gostamos de figuras como rectângulos ou círculos e nelas arrumamos coisas pouco rectangulares e nada circulares como o úmero sujo e esdrúxulo e o completo esqueleto a que ainda pertence. Rectângulos e círculos são esdrúxulos também mas nunca sujos, ainda que haja sujidade no mundo das ideias e das coisas abstractas, porque também a sujidade é ideia e coisa abstracta antes ou depois de ser o que um úmero é quando está sujo. No úmero a sujidade é terra, são pedaços de folhas putrefactas, são insectos carnívoros e os dejectos dos insectos carnívoros, são pêlos e saliva de roedores, é lama se chove, pó, seco o tempo. No tempo e na terra a linha recta do úmero quebra, mói-se. Moem, a terra e o tempo, ao mesmo tempo sujam e abstraem, escarnecem a geometria, usurpam o espaço, o grande constrangedor.

Contabilidade jornalistico-presidencial



A globalização e o populismo: o caso de Trump

Vários fenómenos políticos recentes têm sido interligados, a nível teórico e analítico, por pundits, académicos, intelectuais e pela população em geral. Entre estes estão a vitória do Brexit, o sucesso de Donald Trump, o aparecimento de um populismo de esquerda, como o preconizado pelo Podemos, pelo Syriza e por Bernie Sanders, e o ressurgimento da extrema-direita europeia, através de figuras como Marine Le Pen (Frente Nacional) e Frauke Petry (AfD). A estrutura conceptual utilizada para interligar todos estes fenómenos tem sido a dos perdedores e ganhadores da globalização. A globalização trouxe muitas vantagens e melhorou as vidas de muita gente. No entanto, e pese embora o saldo final seja positivo, a globalização tem também perdedores, que querem o seu mundo (fechado) de volta. Esta tese tem sido muito propagada, mas tem também muitos problemas, quer a nível abstracto, como estrutura conceptual, quer a nível concreto, quando aplicada a fenómenos específicos, como o de Donald Trump. Neste post, deixo algumas notas sobre os problemas desta explicação no caso norte-americano.

Ironia ou má fé?

Nicolau Santos, no Expresso, diz que "É de uma enorme ironia que o menor défice alguma vez alcançado em 42 anos de democracia seja da responsabilidade de um governo do PS, apoiado pelo Bloco e pelo PCP."

O meu português já não é o que era, se é que alguma vez foi alguma coisa, mas não acho isto irónico. Acho que é o produto da má fé de António Costa porque, se um governo de Direita tivesse proposto isto, António Costa teria um fanico no Parlamento e andaria pela Comunicação Social a fazer figura de frango a quem cortaram o pescoço. Que os líderes de Direita não tenham fanicos até é um elogio porque nós sabemos quem mais tem fanicos em política: Donald Trump.

Campanha do jejum

No outro dia, o meu amigo Eric enviou-me um SMS a desejar-me um "Happy Rosh Hashanah". É uma celebração judaica (de 2/10 a 4/10, deste ano), acerca da qual não sei nada. Hoje quando lia a imprensa portuguesa, vi que, no Público, havia uma notícia sobre uma Campanha do Jejum; não li a notícia, mas pensei que tivesse alguma coisa a ver com religião.

Não me lembrava de nada católico relevante para esta altura, mas eu não sou uma boa fonte porque, lá em casa, era a minha mãe que prestava atenção a essas coisas e eu nunca precisava de me lembrar de nada. Por exemplo, há um dia em que não devemos ir ao quintal, mas eu não sei qual é. Talvez a Campanha do Jejum fosse uma coisa desses novos cultos religiosos que por aí andam, pensei.

Depois li o post da Helena Matos no Blasfémias e percebi que não era jejum porque jejum é uma coisa voluntária e estas pessoas não estão em jejum voluntariamente; estão em jejum porque não têm o que comer, ou seja, passam fome. Mas é mais do que passarem fome, pois desmaiam em transportes públicos, possivelmente a caminho do trabalho, ou seja, trabalham e não ganham para comer.

A Troika já se foi embora, logo não podem culpá-la. Catarina Martins diz que tinham conseguido proteger quem tinha menos rendimentos em 2016. O Primeiro-Ministro, no Parlamento, disse que o objectivo do crescimento era criar emprego e o desemprego está a diminuir, logo está tudo bem encaminhado. Se o desemprego diminui e o PIB não aumenta, para onde vão os salários dos que já não estão desempregados? Será que há mesmo criação de emprego e salários?

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um amor chato...

Ou seria paixão? Hoje, à hora do almoço, cheguei à encruzilhada de Alder e Evergreen, vinda do norte em Alder. Quis virar à direita para a Evergreen e estavam dois carros parados de cada lado da rua, na Evergreen: o carro à minha esquerda, quando virei, tinha a porta do condutor escancarada a bloquear a passagem. Imediatamente, comecei a dizer asneiras na minha cabeça: "What the fuck? Are these people idiots? What on earth are they doing here?"

Finlândia e Escócia

A Primeira-Ministra escocesa, Nicola Sturgeon, anunciou que, a partir de 1/1/2017, a Escócia, à semelhança da Finlândia, irá entregar uma caixa com bens básicos (roupas, fraldas, ferramentas de manutenção da higiene do bebé, preservativos para os pais, etc.) para o primeiro ano de vida de um bebé aos novos pais.

O programa não terá um alcance nacional imediatamente, mas irá começar a ser implementado em áreas piloto. O programa finlandês já dura há 80 anos e tem tido bastante sucesso. Uma curiosidade: a caixa de cartão onde os produtos vêm é usada pelos pais como berço do bebé durante os primeiros tempos. Na Finlândia, o programa é visto como um símbolo de que todas as crianças são iguais, independentemente dos recursos dos pais. Na Escócia, um dos objectivos do programa é mesmo uniformizar o início de vida das crianças, i.e., tentar colmatar as diferenças entre crianças de pais abastados e crianças de pais mais necessitados.

Achei o artigo do Independent acerca deste programa fascinante.

No tempo deles...

Para quem se interessa pela "falta de civilidade" da actual campanha presidencial americana, o NYT tem uma op-ed de Alan Taylor, um professor de História, muito interessante sobre rivalidade na época dos "Founding Fathers":

But myths become dysfunctional when they cripple instead of inspire. The cult of the founding fathers has become masochistic, as we invoke them to rebuke ourselves for having such petty politicians. We put the founders on an imaginary pedestal to look down on our own politics as beneath their contempt. It is all too easy to pick on Mrs. Clinton as no Jefferson or to denigrate Mr. Trump as a sad declension from Hamilton’s lofty heights. We castigate ourselves for not risking our lives, or property, for some higher ideal.

And that’s a good thing. We don’t have to make the sacrifices demanded by a bloody revolutionary war waged against our loyalist neighbors and a mighty overseas empire. We need to preserve our free institutions and values rather than create them in the first place. We have to manage a superpower rather than struggle to endure as a third ­rate country in the midst of rival empires. We cannot repeat the founders’ showy performances, for we must play less heroic political roles far downstream in the flow of time and events.

Our politics are not always worse than theirs were. The revolutionary era was no golden age. To preserve the union, the founding fathers felt compelled to preserve slavery. Today, women can vote and lead. In the founders’ era, a husband could beat his wife provided the stick was no thicker than his thumb. And despite the multiplying insults of modern politics, we have not yet resumed shooting one another in duels. We distort the past and discredit the present by inflating the founders’ virtues and denying our own.


Fonte: Alan Taylor, NYT

Toilet papering

Toilet papering (also called TP-ing, House Wrapping or Yard Rolling) is the act of covering an object, such as a tree, house, or another structure with toilet paper. This is typically done by throwing numerous toilet paper rolls in such a way that they unroll in midair and thus fall on the targeted object in multiple streams. Toilet papering can be an initiation, a joke, a prank, or an act of revenge. It is common in the United States and frequently takes place on Halloween or after the completion of school events such as graduation or homecoming football game.

Fonte: Wikipedia

Este fim-de-semana, enquanto passeava os meus cães, encontrei uma casa decorada com papel higiénico. A actividade chama-se "toilet papering" e é frequente ser feita por jovens, a meio da noite, que pregam uma partida a alguém que conhecem, normalmente outro jovem -- os pais do jovem foco da atenção não acham grande piada.

Quanto mais "popular" o jovem é na escola, mais provável será que alguém se dê ao trabalho de lhe pregar uma partida. Outra partida comum é pintar os vidros do carro, com coisas como "I love you", "You're the best", "Happy birthday!", "Congrats!", etc. Também há quem faça coisas dessas por vingança.

Se procurarem na Internet por imagens de "toilet papering", encontrarão verdadeiras obras de arte. E há também quem escreva sobre a experiência em blogues como aqui e aqui.

"Simple Twist of Fate" por Bob Dylan


Simple Twist of Fate by Bob Dylan with lyrics from StjepkoRS on Vimeo.

A eterna solteira?

"Centeno recusa o falhanço do modelo de crescimento económico do Governo, explicando a questão sobretudo com a quebra da confiança e com a economia externa, muito abaixo do esperado aquando do Orçamento anterior."

Fonte: Jornal de Negócios

Este governo chegou ao poder em 2015, teve o pseudo-apoio, na altura, de mais de 50% dos eleitores votantes e Mário Centeno conclui que a quebra no crescimento deve-se à falta de confiança. Nesse caso, explique-se como é que o PSD/CDS, que só mereceu a confiança de 36,87% dos eleitores votantes, conseguiu os resultados de 2015. Não tem lógica!

Quanto à economia externa, nada do que aconteceu em 2016 foi imprevisível: o preço do petróleo já estava a baixar e era mais do que óbvio de que Angola estava em apuros. Se as projecções anteriores tinham pressupostos irrealistas, isso foi escolha de quem fez as previsões; não foi culpa da realidade.

Ao fim de quase um ano no governo, Mário Centeno conclui que "Vamos ter de viver numa restrição orçamental muito bem definida". O que é que isto significa? A restrição não é nova, já existia antes, logo por que razão vem agora à baila?

Reduzir a carga semanal dos funcionários públicos irá custar €25 milhões, ou seja, €2,4 por casa português (adultos e crianças). Mas não nos disseram que não iria custar nada, que os funcionários públicos até iam ser mais produtivos, que isto pagava-se a si próprio, etc.? Mas o mais engraçado será ter funcionários a trabalhar menos horas por semana ao mesmo tempo que o número de funcionários públicos é reduzido com a regra 2 por 1. Sugiro a criação de um Observatório para ver como isto vai funcionar. É desta que o processo de José Sócrates prescreve de vez...

A regra 2 por 1 que, supostamente, irá poupar €127 milhões ao estado está a fazer-me espécie. Por cada dois funcionários públicos que saem, entra apenas um. Quando os funcionários públicos saem, para onde vão? Eu vou apostar que irão reformar-se, logo aparecem noutro sítio da despesa, pois quem lhes vai pagar a reforma é o estado. Ou seja, não há poupança nenhuma líquida na despesa, a não ser que o governo mate dois reformados por cada funcionário público que contrata. O que pode haver é uma desaceleração do crescimento dos encargos.

Para o ano, quando as contas derem mal outra vez, a culpa certamente não será de quem governa. Mas talvez não acabe solteira, talvez seja nossa porque não confiamos cegamente em números mal cozinhados...


* Se querem um conselho, caros governantes, certifiquem-se que os novos funcionário públicos contratados são pessoas muito jovens, para desacelerarem o aumento da despesa. Tem várias vantagens: os jovens demoram mais tempo a reformar-se; ficam doentes menos frequentemente; se tiverem um emprego, não vão andar de borla pelo Inter-Rail, logo terão menos tentação de emigrar; dentro da função pública, a probabilidade de desemprego é menor, logo o jovem acaba por ter menos episódios de desemprego e maior tempo de contribuições à Segurança Social; com um emprego estável e alguma previsibilidade de emprego, as mulheres terão melhores condições para ter filhos, o que ajuda a natalidade; os mais jovens têm mais experiência com computadores e Internet, logo precisarão de menos treino para implementar as regras do Simplex (i.e., quando enviamos um email a pedir ajuda à Autoridade Tributária, somos capazes de não receber a resposta "Dirija-se à sua Repartição de Finanças mais próxima e fale com o colega."), etc.

domingo, 16 de outubro de 2016

Which noble words must a man write down?

No passado dia 13 de Outubro, a Academia Nobel surpreendeu uma boa parte do mundo ao atribuir o galardão máximo da Literatura a Robert Allen Zimmerman, mais conhecido por Bob Dylan. A explicação do Comité sueco foi, como é habitual, lacónica: "por ter criado novas formas de expressão poética no âmbito da grande tradição musical norte-americana”.
Não se trata, por certo, do primeiro poeta a ser distinguido, mas alguém mais conhecido como músico e que tem uma vida rica em desastres pessoais, de conversão ao Cristianismo e que tem marcado sucessivas gerações de apaixonados pela música. Logo se ouviram “velhos do Restelo” a caricaturar a honra, alvitrando que a Academia estaria a vulgarizar o Nobel. Discordo desta visão, embora não esteja absolutamente deliciado com a escolha. Creio, na verdade, que os membros do júri mostraram uma ímpar capacidade de ler o mundo e de compreender que prémios como este devem estar onde as pessoas se encontram, junto dos sentimentos universais que, não apenas escritos ou lidos, são amplificados por uma voz inconfundível.
Só quem nunca prestou a devida atenção às letras das músicas de Dylan pode ficar atónito com o prémio. Mesmo sem um trabalho exaustivo que cabe aos críticos literários, julgo não errar ao crismar Bob o “poeta das coisas comuns”, no sentido mais expedito e belo da expressão. Canta o amor, “essa palavra de quatro letras” (Love is Just a Four-Letter-Word, 1967), sem um tom lamechas, necessariamente perscrutando as suas várias dimensões. Mas Dylan é, sobretudo, um homem que vivenciou boa parte do século transacto com distanciamento crítico. Trouxe, como outros, para a poética e para a música, as duas Grandes Guerras (Masters of War, 1963), o capitalismo sem escrúpulos, a criminalidade (The Lonesome Death of Hattie Carroll, 1964), o poder de Wall Street (“Os homens de negócios bebem o meu vinho”, in: All Along the Watchtower, 1968). Mas também a crítica ao imobilismo, o incentivo a uma sociedade civil organizada e a funcionar como efectivo poder balanceador dos “oficiais” (“A maior parte do tempo/ Nada mudaria ainda que pudesse”, in: Most of the Time, 1989). É um feroz adepto de uma justiça independente de classes, o que nos EUA e em todo o mundo é um ideário sempre incompleto. As iniquidades, a fome, a desigualdade baseada na raça, no género (veja-se a referência à simplificação estereotipada e à classificação sacana em All I Really Want to Do, 1964), não lhe são indiferentes: “Posso sorrir na face da humanidade” (idem). Apetece repeti-lo: “Quantos anos têm as pessoas de existir/ Até lhes ser permitido serem livres?”.
O poeta é, ainda, um cantador do divino (de entre tantos, Changing the Guard, 1978: “Onde o bom pastor se lamenta/ Homens e mulheres desesperados dividem-se”), um crente na paz (T.V. Talkin’ Show, 1990). A sua ligação ao Cristianismo demonstra-se por um bom conhecimento bíblico: não há nenhum cabelo da tua cabeça que caia sem que Deus o saiba e autorize (Every Grain of Sand, 1981), a traição de Judas, a destruição do Templo, a ira do Senhor. Fá-lo sem qualquer mácula extremista, com um profundo humanismo. O poema Watered Down Love, 1981, é uma espécie de versão aggiornata de uma das mais belas passagens do Livro cristão: a ágape grega de S. Paulo aos Coríntios. Dylan revela o rosto humano do divino, um Deus compassivo e misericordioso, de bondade e clemente. Longe de tantas outras visões muito típicas no seu país de origem. Quem aborda estes temas não pode passar ao lado da dimensão temporal: “Se amanhã não fosse um tempo tão distante,/ Então a solidão nada significaria para ti” (Tomorrow is a Long Time, 1963). Interessante ainda é a personificação de um Deus que acompanha o homem nas maiores carnificinas como os conflitos bélicos declarados ou a Guerra Fria: em todos, Ele “está ao nosso lado” (With God on Our Side, 1963).
Da política traça um retrato fiel: arte de sobrevivência, de imposição pela posição ocupada, de troca de favores, mas também, de quando em vez, de nobilíssimo exercício do poder.
Por certo Bod Dylan não seria o escritor que mais mereceria receber o Nobel, certo que estes “merecimentos” são sempre muito relativos. Um pouco por todo o mundo, existem pessoas que escrevem com mais profundidade e riqueza, com um verdadeiro sobressalto intersticial. Tal não retira o mérito do actual Prémio, simplesmente obriga-nos, como sempre deve acontecer, a colocá-lo em perspectiva. Quantos escritores já não partiram sem nenhum reconhecimento da Academia sueca e, nem por isso, deixam de marcar, de forma indelével, o destino dos povos e aquele traço civilizacional que nos vai distinguindo de outros seres? Quem em Portugal não encontraria outros candidatos tão bem ou melhor posicionados, no mundo da Lusofilia e, claro está, no espaço linguístico-cultural de outros Estados?
Relativizemos a importância da medalha e das honras de Alfred Nobel. Todos sabemos que galardões como este têm sempre um significado político-social e económico, mas essa é a natureza última da natureza humana e, em especial, dos nossos tempos. As vendas costumam disparar, assim como as traduções, a cerimónia tem o seu quê de interessante e os discursos proferidos oscilam entre o enfadonho e inspirador. Neste último grupo, perdoe-se o orgulho nacional, está sem dúvida o do nosso Saramago.

It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)

"You lose yourself, you reappear
You suddenly find you got nothing to fear
Alone you stand with nobody near
When a trembling distant voice, unclear
Startles your sleeping ears to hear
That somebody thinks they really found you

A question in your eyes is lit
Yet you know there is no answer fit
To satisfy, insure you not to quit
To keep it in your mind and not forget
That it is not he or she or them or it
That you belong to

Although the masters make the rules
For the wise men and the fools
I got nothing, Ma, to live up to"