segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O arco da governação vai ter mesmo de consolidar

Nem a adesão ao euro, com a disciplina orçamental imposta pelas regras europeias, foi suficiente para conter os défices públicos e uma dívida pública crescente desde 2001, como se pode ver nos gráficos.

A partir de 2001, quando Portugal se torna o primeiro país a violar o PEC – e que continuaria a violar ininterruptamente até hoje -, todos os governos tomaram medidas para consolidar as contas públicas, isto é, para reduzir o défice orçamental. Do lado da despesa, destacam-se o congelamento e o corte de salários, o congelamento das carreiras, restrições no acesso às prestações sociais, e, claro, a redução do investimento público (ou o adiamento da sua factura com os contratos de PPP). Do lado da receita, com a excepção da redução do IRC nos últimos anos, desde 2002, todos os impostos têm sido aumentados por todos os governos. Apesar destes esforços, a dívida pública não parou de aumentar. PSD/CDS e PS reconhecem a urgência de inverter esta tendência e, por isso, de reduzir os défices orçamentais.

Se é verdade que foram os partidos do arco da governação que criaram este problema orçamental, também é verdade que só eles o poderão resolver – o BE e o PCP ignoram nas suas propostas a existência de restrições orçamentais. O acordo entre PSD/CDS e PS é assim uma condição necessária para que Portugal não interrompa o processo de consolidação orçamental. 
Depois da crise financeira e depois da troika o mundo mudou mesmo. Hoje os mercados observam-nos atentamente. Os sistemas financeiros, sobretudo na Europa, ainda estão combalidos. E qualquer sinal de desvio do processo de consolidação orçamental em curso terá consequências muito negativas.

Um acordo de governo entre PSD/CDS e PS tem riscos. Se os partidos do arco da governação falharem, fica aberta a porta para a radicalização do nosso sistema político. No entanto, depois de um tão longo período de crise económica e redução dos rendimentos das famílias, se o próximo governo falhar será toda a estratégia de desenvolvimento, iniciada em 1977 com o pedido de adesão à CEE pelo então governo do PS, que estará em causa. E o que verdadeiramente distingue os partidos do arco da governação dos partidos da extrema esquerda, BE e PCP, é o desejo de sucesso do projecto de integração europeia. O arco da governação vai ter mesmo de consolidar. 

domingo, 18 de outubro de 2015

Conflito irresolúvel

Das, digamos, improvisações metodológicas que menos aprecio na Economia é a utilização do conceito do indivíduo representativo. Uma pessoa que não é uma pessoa mas que se comporta como se fosse todas as pessoas e nenhuma em particular. Em Política, ainda aprecio menos a ideia de que há uma espécie de "vontade do povo"; que os resultados eleitorais se podem analisar como se fossem o reflexo da vontade de uma entidade abstrata e singular. A Política é, essencialmente, o conflito. O conflito entre ideias diferentes que não se diluem numa nova ideia - ou que, pelo menos, não se diluem imediatamente. E a democracia, se for funcional, é uma forma de resolver o conflito entre ideias que quase sempre são legítimas, válidas e incompatíveis, de uma maneira pacifica e temporária: até às eleições seguintes, a ideia que manda é a da maioria das pessoas que votou (com limites, para que não se transforme a democracia numa tirania da maioria). 

Em Portugal, há neste momento duas ideias. As duas são igualmente válidas, legítimas e incompatíveis. A direita tem razão quando diz que ganhou as eleições, e que a esquerda não foi a votos como um bloco unificado. A esquerda tem razão quando diz que recebeu a maioria dos votos, e que os programas com que os três partidos foram a votos tinham como principal objetivo o de derrubar o governo. Ideias válidas, verdadeiras e incompatíveis. A única maneira de resolver o conflito seria convocar novas eleições. Mas a nossa democracia nem sempre é funcional, e o Presidente, que serve para tão pouco, não pode servir o país quando é preciso que o sirva. Qualquer das "ideias" que vingue até que o Presidente possa convocar novas eleições terá sempre uma legitimidade fragilizada. Eu, claro, prefiro que seja a maioria de esquerda a governar - mas isso é apenas porque essa é a minha "ideia", e, sinceramente, não porque me sinta inteiramente confortável sobre a legitimidade de a concretizar. Tenho a certeza que a ideia alternativa não é mais legítima, mas isso não me sossega. 

Zelotas

Acabaram de enviar um email, com anexos que reproduziam duas entradas minhas no Facebook e que aqui reproduzo, para o presidente da minha escola, com CC para mim e para o Ministério do Ensino e da Ciência. Reproduzo o email na íntegra.  Sinceramente, olha que há cada palhaço!

Em anexo dois extractos de publicações em rede social de Luis Conraria (LC), Professor Associado da Univ. do Minho.
As publicações falam por si, e escuso-me de aqui tecer quaisquer comentários.
Não querendo de todo sugerir que LC seja limitado na sua liberdade de expressão, por mais pobre e vulgar que a mesma se revele, não quero deixar de chamar a atenção que este tipo de comportamento é, em locais civilizados, alvo de processos disciplinares.
À V. consciência deixo qual o melhor modo de actuar.
Atentamente,
Carlo Carlucci --- [carlocarlo1900@gmail.com]

Vamos às casas...

Hoje quero convidar-vos a vir comigo num dos meus passatempos preferidos: ver as casas dos outros.

Realiza-se este fim-de-semana e no próximo The 2015 Bellaire Fall New Home Showcase. Isto é uma tour de seis casas que foram construídas recentemente em Bellaire. A cidade de Bellaire é uma pequena cidadezinha dentro da cidade de Houston. Houston é uma cidade tão grande, que tem cidades mais pequenas dentro dela.

Primeiro vou explicar-vos o conceito deste tipo de eventos. É comum haver tours de casas durante o ano e por várias razões: as casas foram construídas recentemente, as casas estão decoradas para o Natal, as casas têm jardins bonitos, etc. Para ir visitar as casas, paga-se uma entrada. Neste caso, eu paguei $15, que para vocês terem noção do valor, é o preço de uma refeição num restaurante barato, mas não tipo McDonald's.

O dinheiro da entrada é usado para fins não-lucrativos, no caso deste evento está a angariar-se fundos para construir um espaço verde, o Evelyn Park. Por falar no parque, há oportunidades de fazer voluntariado na organização que está a gerir o parque--imaginem se isto fosse em Portugal, andava tudo a dizer que os voluntários do parque andavam a tirar o emprego de alguém. Não é nada disso, é uma questão de eficiência, pois há pequenas actividades de curto prazo em que não faz sentido contratar uma pessoa para as fazer.

Por exemplo, as pessoas que estão à porta das casas da tour a vender bilhetes. É uma coisa que dura dois fins-de-semana, logo usa-se voluntários porque é mais eficiente e ajuda a estabelecer um sentimento de comunidade. Não se pode contribuir para a sociedade apenas por troca de dinheiro; o altruísmo tem de ser incentivado também. E isto são actividades muito importantes para os jovens, os reformados, etc. Até para desempregados é importante porque é uma forma de estes encontrarem pessoas num encaixe profissional, o que pode colocá-los em contacto com outros profissionais e potenciais oportunidades de emprego.

Então venham lá ver casas comigo. Até fiz estes dois vídeos para se sentirem mais incluídos. E vão ter uma surpresa quando ouvirem a música que eu escolhi para o segundo vídeo.

Aqui está a primeira casa que eu vi. Não tem "backyard", logo não é nesta que vocês podem ter uma horta com couves para a sopa. É considerada uma construção verde/ecológica por causa dos materiais que foram usados e da forma como foi construída. Esta casa é "pequena", comparada com as outras (tem um pouco mais de 375 metros quadrados) mas tem um elevador que dá acesso aos três andares. É uma casa que seria boa para alguém já com alguma idade que quisesse viver num sítio mais pequeno, que necessite de menos cuidados com o jardim.

Esta casa faz parte de uma pequena urbanização e foi a primeira casa a ser construída, logo é a casa modelo que vai ser mostrada para se tentar vender as outras. Reparem que a casa está decorada, apesar de não estar ocupada. A bem dizer, eles terminaram de plantar as o jardim e de arranjar a mobília na sexta-feira. Como eu passo por aqui todos os dias para ir para o trabalho fui acompanhando o progresso. É normal nos EUA fazer-se um "staging" da casa para a tornar mais atraente para ser vendida e para dar uma melhor ideia da proporção das divisões relativamente ao tamanho da mobília.

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A segunda casa que eu vi, na Pine St., era enorme e foi "custom-built". Tem mais de 700 metros quadrados, e o pátio, que é coberto, tem uma cozinha e até uma TV. Esta casa tem seis quartos, sete quartos de banho, e dois meios-quartos de banho. Acho que eles gastam mais num mês para manter o stock de rolos de papel higiénico do que eu num ano.

Que tipo de pessoa mora aqui, perguntam vocês? Este casal era jovem, ela deve ter vinte-e-tal anos e ele isso ou trinta-e-poucos, e têm duas crianças, se não estou em erro. Não faço ideia do que fazem, para além de gastarem dinheiro em casas enormes. Ah, não se iludam, eles não são ricos; se fossem ricos, estariam a viver em River Oaks, numa casa mais pequena, mas provavelmente mais cara. O terreno desta casa é tão grande que constitui uma grande parte do valor da casa. Em 2014, a casa antiga que lá estava, que tinha pouco ou nenhum valor porque foi deitada abaixo para esta ser construída, foi avaliada em $782.550 e os impostos de propriedade foram de $18.258-ver Zillow. Notem que o Texas não tem imposto de rendimento.

A Zillow diz que a casa foi vendida por $2 milhões em Julho de 2015. Se os donos deram 20% de entrada, estima-se que o valor da hipoteca seja de $7,256/mês. O preço inicial desta casa era de $3,2 milhões, mas este construtor usa uma estratégia de marketing em que cobra de preço o custo mais uma margem, logo as pessoas sabem quando custou a construir e qual a margem de lucro do construtor. E se escolherem materiais mais baratos, podem reduzir o custo.

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Não pensem que eu vivo em casas assim. Quando andava a visitar estas casas -- até me perdi na segunda --, senti que faltava qualquer coisa. Depois reparei o que era: era aquela sensação de ninho. Sabem, entrar em casa, olhar para a estante, puxar um livro e ler uma coisa que nos dá imenso prazer? Ou ver o naperon que a nossa mãe fez. Nestas casas, para se encontrar livros, temos de ir ao quarto das crianças. Tudo o resto está cheio de tchotchkes... Eu nem devia dizer isto porque a Raquel Varela ainda diz que eu gosto de "piroseira", mas eu gosto de viver perigosamente para além de piroseiramente.

Bem, fiquem entretidos, que eu tenho mais casas para visitar neste resto de Domingo. Ciao...

PPC tem sentido de humor

Hoje, recebi uma notificação push do Jornal de Negócios a dizer que Pedro Passos Coelho tinha pedido ao PS para "shape up or ship out": apareçam, negoceiem, e contribuam. Quer dizer, mostrem que estão empenhados em construir uma solução politicamente estável para o país que dure mais do que um ano.

Não pude deixar de pensar que o nosso Primeiro Ministro tem sentido de humor. Envia uma carta de três páginas num domingo de manhã, quando a extrema esquerda está a gozar o fim-de-semana e não pode trabalhar, senão violaria os direitos adquiridos dos trabalhadores.

É óbvio que PPC fez isto sem consultar Paulo Portas. O método de correspondência preferido de PP para assuntos oficiais é o SMS, pois cartas em papel já estão completamente demodé...

Uma vergonha

No Governo Sombra, Pedro Mexia disse o que havia para dizer sobre a actuação no Ministro dos Negócios Estrangeiros sobre a greve de fome de Luaty Beirão:
Vocês são uma vergonha!

sábado, 17 de outubro de 2015

Big FAIL, Apple!!!

Estava à procura dos Hundred Waters no meu iPhone, quando notei que havia uma categoria para Alternative e Punk. Fui ver o que lá estava e eis a minha surpresa quando encontro a "Antologia" dos Madredeus. 

Este álbum foi comprado em CD e metido no iTunes por mim há muitos anos, mas eu não o aloquei a nenhuma categoria e, se o tivesse feito, certamente não teria sido esta. Agora o algoritmo da Apple decidiu colmatar a minha falha e saiu isto. Nem sei que mais vos diga...


Homens bons...

Como podem imaginar, estas últimas duas semanas têm sido uma mistura de terror e excitação por causa das eleições portuguesas. Eu tenho uma grande fascinação por crises e gosto muito delas, mas aprecio-as mais quando eu sei que há alguém que tem visão para as aproveitar. Realmente, vê-se pessoas a tentar aproveitá-las, mas não para os fins que eu quero. Cheguei ao ponto em que estou farta. Estou farta de homens maus e preciso de me distrair com um punhado de homens bons.

Esta semana vi o filme "Vivir es Fácil con Los Ojos Cerrados", um filme espanhol com Javier Cámara como protagonista. O filme é muito engraçado e eu achei que este tipo, o tal Javier, é interessante.

Javier Cámara

Vá lá, não se choquem; para mim isto é um homem bom. Mas também é verdade que amanhã tenho de ir à caça de uns óculos para ler. Acho que voltou a ser época de usar óculos.

Estive a estudar o tipo de homens de que eu gosto e, na verdade, eu não tenho tipo nenhum: eles são louros, ruivos, morenos, altos, baixos, com cabelo, sem... É uma grande misturada, a única coisa que têm em comum é que estar ao pé deles é como chegar a casa.

Hoje apareceu o "Serendipity" no Netflix--isto é o que se chama um "chick flick" e eu pensei "Why not?!?" Não é nada de especial, mas tem o John Cusack e eu gosto dele. E também tem o Jeremy Piven e eu adoro-o. Se eu tivesse de fazer uma lista de homens bons, quem é que eu meteria? Esses dois, se eu me lembrasse.

John Cusack

Jeremy Piven

Algures na lista, de certeza que apareceria o Ryan Gosling porque eu vi-o em The Believer e nunca mais o esqueci--esse filme é um dos meus preferidos. E depois conhece o sistema decimal Dewey...

Ryan Gosling

O Alexander Skarsgård porque ele também gosta de livros. O que é que é mais sexy do que um homem que gosta de livros? Sim, um vampiro que gosta de livros! "Ring, ring, hooker...", como diria o Lafayette.

Alexander Skarsgård

E no topo, rodeado de morangos e cerejas, para se dar boas dentadas, eu meteria o Dave Mathews--é esse o lugar dele, apesar de ele achar que não.

If I were a king
If I had everything
If I had you
And I could give you your dreams
If I were giant-sized, on top of it all
Then tell me what in the world would I go on for?

Estado da Educação 2014

O Conselho Nacional de Educação (CNE) disponibilizou ontem no seu site o documento Estado da Educação 2014. Nas suas 383 páginas contém elementos de muito interesse que merecem atenção, em especial porque inclui dados comparativos obtidos pelo PISA (Programme for International Student Assessment) e, também, porque apresenta números actualizados sobre o sistema de ensino em Portugal.
Na Introdução, o Presidente do CNE, o Prof. David Justino, dá relevo ao facto de que, entre 2000 e 2012, Portugal “esteve entre os países que maior progresso obtiveram no conjunto dos três testes”, contrariando a opinião de muitos que acham que a nossa educação é um desastre. E continua: “Essa melhoria do desempenho dos alunos portugueses revelou ainda o facto de ela ter resultado da diminuição da percentagem de alunos com baixo desempenho e de um ligeiro aumento da proporção dos que tiveram melhores resultados”. Por outro lado, anota que a melhoria de resultados aconteceu numa altura em que o desempenho económico do país estava em declínio, pelo que “a educação progrediu mais do que a economia”.
David Justino enuncia depois cinco áreas que considera vitais para o futuro: (1) a educação de infância, (2) o sucesso escolar, (3) a condição docente, (4) o conhecimento escolar e (5) o ajustamento das qualificações à estratégia de desenvolvimento do país. Anuncia depois que o CNE vai, até ao fim de 2016, promover uma série de debates sobre estes temas, comemorando de algum modo os 30 anos da Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº 46/86). E define o que em seu entender se espera do futuro:
“Estes cinco domínios representam outros tantos desafios que não são suscetíveis de se transformar em medidas de curto prazo. Representam alterações estruturais que exigem debate, visão de futuro, compromisso político e capacidade de assegurar a continuidade das respetivas políticas. Em democracia a alternância política não pode significar errância das políticas, especialmente no domínio da educação cujo tempo é bem mais longo que o dos ciclos políticos. Esta exige convergência, visibilidade e continuidade das opções estratégicas, confiança dos atores diretamente envolvidos e capacidade para os mobilizar para a prossecução dos objetivos de médio e longo prazo” (ortografia original do documento).
Não poderia estar mais de acordo com estas palavras, e congratulo-me por David Justino, que enquanto Ministro da Educação (2002-2004) não pareceu muito disponível para aceitar políticas definidas consistentemente pelo governo anterior, defender agora a necessidade evidente de estabilidade na educação.

Uma grande pena...

Que a Vera não possa escrever aqui, mas mesmo não podendo, foi através deste blogue que eu a conheci e depois mantivemos contacto pelo Facebook e, por isso, tive oportunidade de passar tempo com ela em Portugal.

A Vera é especial--ela acha que eu sou exagerada, mas não sou nada. Quando eu estou ao pé dela, fico feliz. Quando converso com ela, corre-me bem o dia. E ela até lê o que eu escrevo e corrige-me os erros, que são mais do que muitos. Mas são erros felizes porque são também razões para receber uma mensagem dela.

Aqui está a Vera num artigo de 2014. Eu disse-vos que ela era especial...

Eu espero que não seja e que não se baseie no anterior modelo assente na procura interna. Mas não vejo feitas as reformas estruturais que a deviam sustentar e não as veremos em 2015, até porque há eleições legislativas. De resto, a instabilidade política - a nível nacional, com um Parlamento sem maiorias absolutas, eventualmente, ingovernável e, a nível europeu, com partidos radicais a terem assento em Espanha e Reino Unido - é um risco que se soma aos já referidos.

Fonte: Económico

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O anti-europeísmo pode ser mainstream

O que mais distingue o debate político em Inglaterra e em Portugal é o anti-europeísmo. Em tudo o resto há pontes, se não mesmo uma sobreposição. O último confronto eleitoral foi entre um governo de coligação de direita e um partido de centro-esquerda que não quer perder os votos da direita, não quer perder os votos do centro, e acaba a perder os votos da esquerda, perdendo assim as eleições. Cá e lá. Discute-se o modo de financiamento do serviço nacional de saúde, a vantagem de ter uma televisão pública, a eficácia das medidas de austeridade na redução do défice, e como aumentar a produtividade e diminuir o desemprego. Existirão diferenças de grau, claro, e no tempo, também: cá, a discussão sobre os serviços públicos com gestão privada ou entregues a privados está em como reverter as políticas dos anos 70 e, em Portugal, em como as iniciar. São diferenças no grau e no tempo mas em pouco mais.  

O anti-europeísmo inglês é que não tem qualquer paralelo no debate político em Portugal. Nem sequer tem paralelo com o ainda residual anti-europeísmo em Portugal. Bom, na verdade, em relação ao anti-europeísmo português, não só o inglês não tem paralelo, como até se pode definir como o seu oposto. O anti-europeísmo em Portugal é por aquilo que a Europa deveria ser, mas se recusa a sê-lo. O anti-europeísmo inglês tem a ver com o que a Europa não é, e julga ser. Para o inglês, está por provar que aquilo que une os 28 países da União seja mais forte do que aquilo que une Inglaterra a outros países que estão fora da União. Quando Cameron diz que quer ficar na Europa, mas nos seus próprios termos, está a dizer que não quer ficar nos termos em que o resto da União se julga basear. Está a pôr em causa a própria identidade da Europa construída enquanto oposição ao resto do mundo - oposição, diferenciação, que Inglaterra simplesmente não vê. E daí tudo o resto decorre. Em particular a recusa de que, em nome dessa identidade que a seu ver não existe, se queiram unificar países que são muito diferentes entre si.  A ideia de que a Comissão Europeia não está a unir a Europa, mas sim os países da Europa. Que não está a aproximar as pessoas da Europa, mas sim as pessoas entre elas. Que não está a formular políticas para conduzir todos os países a um destino comum, mas políticas que obrigam países que já estão onde querem - como Inglaterra - a caminhar na direção de países que não estão exatamente lá. E, por fim, a ideia de que, não tendo desígnio último, a Comissão está apenas a servir-se a si mesma. 

Não concluo. Ainda só estou na fase de uma genuína surpresa com esta impossibilidade de encontrar paralelo com a maneira como Inglaterra e o Continente vêem a mesma questão (e sim, digo Inglaterra, e não Reino Unido, propositadamente, dado que a Escócia e Gales parecem-me ter uma visão bastante diferente). 

Envelhecimento da população

No outro dia, quando escrevi o post sobre os reformados americanos, fui à base de dados internacional do Census.gov, que tem estimativas anuais para todos os países. A vantagem desta base de dados é que dá números anuais, enquanto que em Portugal não se divulgam números anuais; é mais comum encontrar apenas os números oficiais do censo da população que é efectuado de 10 em 10 anos. Os americanos gostam de preencher os espaços vazios.

A página da Census.gov é a página oficial do governo americano no que diz respeito a estatísticas da população. O governo americano é sem dúvida o utilizador de estatísticas mais sofisticado do mundo. Antes de existir a febre do Big Data no sector privado, já o governo americano andava a recolher estatísticas sobre as coisas mais malucas. Uma outra coisa que fazem é que também medem e fazem estimativas acerca de outros países. Fiz uma nota mental que deveria voltar e ver o que é que eles diziam acerca de Portugal. É importante saber isto porque muitos analistas em todo o mundo usam a informação disponibilizada pelos Estados Unidos, logo convém saber essa versão do que é dito acerca de nós.

Hoje, ao ler este artigo no Expresso acerca do aumento da pobreza entre os mais idosos, decidi ir ao Census.gov. E depois também fui à Pordata para calibrar os números da versão americana. Recolhi o número de individuos com idade igual ou superior a 65 anos. As estimativas americanas foram feitas com informação disponível em 2002-2003; os dados da Pordata são os actuais. Fiz esta tabela para comparar os dois:

Como podem ver, a população portuguesa tem um número de pessoas com 65 anos ou mais que é neste momento cerca de 3,6% superior à estimativas americanas, ou seja, os portugueses estão a sobreviver muito mais tempo do que o previsto. Isto da sobrevivência é importante porque, de vez em quando, aparece no jornal que o número de idosos a morrer em hospitais está a aumentar. Pudera, se estas pessoas não morreram mais cedo, como acontecia antes, é lógico que terão de morrer mais velhas, mas também mais doentes. Isso indica que os nossos cuidados médicos estão a melhorar, mas também indica uma outra coisa: nós ainda não pensámos muito bem na qualidade de vida dos nossos idosos, nem se discute se é preferível eles morrerem em hospitais, em salas de espera de urgências, ou noutros sítios.

Este é um tópico que me interessa bastante porque muitos dos meus amigos têm idade avançada e eu preocupo-me com a sua qualidade de vida e acho que nós, como sociedade, estamos a falhar brutalmente nesta área--isto não é só verdade em Portugal; também é verdade nos EUA. Também é por uma razão egoísta, pois eu preocupo-me com a qualidade da minha vida e morte, se eu chegar a uma idade avançada. A minha esperança de vida é de pouco menos de 76 anos, mas é natural que eu viva um bocadinho mais. Depois eu digo-vos; aliás, acho que é bastante óbvio que, se eu não estiver satisfeita, não irei ficar calada...

De acordo com os dados do Census.gov, o maior crescimento no número de idosos esperava-se que fosse nas pessoas com mais de 80 anos. Estas pessoas, com saúde mais debilitada e poupanças reduzidas têm obviamente maior risco de estar em situações de pobreza. Infelizmente, não consegui obter dados sobre este grupo etário na Pordata. Fica aqui o boneco dos dados americanos.

Nota: As Nações Unidas também têm modelos de simulação da população anual por país, que vão até 2100.

Revisitar o passado

O que me incomoda no PS é a falta de inovação de pensamento e estratégia. O que propõem para construir o futuro são versões daquilo que enterrou o país no passado. Como diz Vasco Pulido Valente, no Público:
[...] Costa não tem dinheiro para pagar os compromissos do PS e os que vier a tomar para angariar os votos do PC e do Bloco. Em vários tons, os papas da economia já avisaram que, nesse capítulo, o programa do PS leva a uma segunda catástrofe. Para não os citar todos, basta falar da sra. dra. Teodora Cardoso, presidente de um organismo respeitável, o Conselho das Finanças Públicas. Previne a senhora que “o regresso a uma política de estímulo ao consumo privado pode agravar o défice externo”, “o défice orçamental” e, logicamente, “o grau de endividamento” do país. E, para não deixar dúvidas, Teodora Cardoso não hesita em dizer que a estratégia de Costa cria o “risco” de provocar uma “nova crise”. Se criar, como de resto pessoalmente acredito, não se tornará a ouvir em Portugal o nome do PS.

Ou os dirigentes do PS re-examinam o papel do partido no país, e o do país no mundo, ou o PS está prestes a se auto-implodir.

A importância dos líderes políticos

Ao contrário do que aconteceu na Grécia e pode acontecer em Espanha, as eleições não ditaram o fim do sistema político português como o conhecemos. Esse risco existia e existe - a ausência de crescimento económico e medidas de austeridade são a maior ameaça para qualquer democracia. Os partidos radicais têm vindo a ganhar importância em muitos países europeus.

No entanto, o que o povo português não escolheu quer António Costa escolher por nós, unindo os derrotados das eleições de 4 de outubro. De facto, o risco que a estagnação económica e a austeridade representam para o sistema democrático é tanto maior quanto mais fracos forem os líderes políticos.  

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Pausa de almoço

Hoje houve um programa de almoço na zona onde eu trabalho, a Greenway Plaza, em Houston. Organizaram um evento de food trucks para os empregados. Aqui está o panorama do sítio (dá jeito trabalhar no andar 33):


Cheguei lá antes do meio dia, mas mesmo assim já havia bastantes filas. O sítio mais popular tinha lagosta do Maine. Havia dois ou três sítios com cozinha de fusão, como por exemplo asiática e mexicana, ou asiática e cajun.



O sítio que eu escolhi era uma mistura de asiática com canadiana e texana. A coisa principal que tinham era poutine, que são batatas fritas com coisas por cima. Eu não fui muito aventureira, e escolhi um hambúrguer com queijo Gouda fumado e lagosta. Estava bom, mas não vou sonhar acordada a desejá-lo, como acontece com o hambúrguer de salmão e choco, que comi n'O Prego da Peixaria. Acho que já não posso comer mais sal, nem gordura, o resto da semana...