segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Espírito de comunidade

Durante as minhas arrumações recentes, abri a minha caixa de recordações de Stout Hall, a residência onde morei quando vim estudar para os EUA. A primeira vez que vi Stout foi no dia 17 de Agosto de 1995. O edifício é muito bonito, a varanda das traseiras e as zonas comuns do primeiro andar eram deslumbrantes, apesar da mobília velha e do calor insuportável que exacerbava os cheiros estranhos que se tinham acumulado ao longo dos anos.

Nessa altura, Stout era uma das poucas residências que não tinham ar-condicionado central, apenas em algumas das zonas comuns. As primeiras semanas do Fall Semester eram horríveis, mas os Stouties achavam que não ter ar-condicionado nos quartos era uma mais-valia porque forçava os residentes a irem para as salas comuns e a conviverem uns com os outros. Era o sacrifício que tínhamos de fazer para podermos integrarmo-nos melhor.

O meu quarto era o 359, na ala norte, que ficava ao fim do corredor, no meio da ponta leste; a janela orientava-se nessa direcção. Era dos quartos mais pequeninos, mas eu também não tinha grande coisa para o encher. O amanhecer de Agosto aquecia-o e enchia-o de uma luminosidade intensa e eu, com o jet lag, passei as primeiras noites a observar o nascer dos dias. No segundo semestre mudei de quarto e fui para um maior. Era comum trocarmos de quarto assim que havia algo mais desejável. Os quartos mais procurados era os dos cantos porque tinham duas janelas em duas paredes diferentes, o que permitia criar correntes de ar para refrescar os quartos nas noites de verão.

O Hall Director de Stout, no meu primeiro ano, era o Adam, já não me recordo do último nome. Era um rapaz judeu, estudante de mestrado, e que me parecia muito adulto e ponderado, apesar de ser pouco mais velho do que eu. Na caixa encontrei uma newsletter com uma nota do Adam, que me pedia para ver a secção de notícias relativas a Stout. Na altura fiquei super-feliz; mas hoje, quase 21 anos depois, é que vejo o significado de ser reconhecida como uma das pessoas que tinha contribuído para o espírito de comunidade da residência: é que eu tinha chegado aos EUA e à residência há menos de três meses.

A minha experiência nos EUA e a minha formação como pessoa teriam sido completamente diferentes se eu não tivesse vivido ali, num sítio que acabou por me dar a minha primeira família fora de Portugal. Ainda hoje, mantenho contacto com alguns dos Stouties, que se tornaram em alguns dos meus amigos mais antigos. Os laços de comunidade que criámos são excepcionalmente fortes e resistentes e, já na altura, eram famosos na universidade.

Na newsletter, descreve-se alguns dos programas educativos para os residentes. Stout Hall tinha vários comités que organizavam várias actividades ao longo do ano e era tudo o produto das ideias das pessoas que lá viviam. O brainstorming era constante e todas as Segundas-feiras, à noite, tínhamos uma reunião geral para discutir os assuntos da residência.


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