domingo, 20 de agosto de 2017

Os livros da hipócrita epicurista

Uma das piadas recorrentes no meu grupo de amigas tem a ver com a compra de livros de mesa de café ao quilo -- ou à libra, que aqui ninguém usa o quilo. Há pessoas que não têm interesse no conteúdo de um livro, preferindo o aspecto estético. Para elas não há grande diferença entre um livro e uma jarra: servem o mesmo propósito, são ingredientes que se usam na receita de conforto do espaço que nos rodeia, mas não estão activamente associados ao espaço interior da pessoa.

Foi isso mesmo que George Michael confessou quando deu uma tour da sua casa à Oprah Winfrey: os livros antigos foram comprados ao quilo porque ia com a decoração e eram essencialmente mobília. Mas estou a ser um pouco injusta, pois muitas vezes a compra de livros ao quilo é aconselhada pelo profissional de decoração e era mesmo esse o ponto da piada: era acerca de uma senhora cujo decorador a mandou comprar um certo número de quilos de livros para a casa.

Quando se gosta de tudo, será que isso não é sinal de que não se gosta de nada? Pergunto isto porque gosto de tudo num livro e tenho dificuldade em livrar-me de livros que sei que nunca irei ler. Há uns anos, dois amigos meus "desimigraram" (tinham imigrado para os EUA, mas decidiram emigrar um para a Arábia Saudita e o outro para a Austrália) dos EUA e deixaram-me os seus livros. Das duas pilhas de livros, dois são memoráveis: um é sobre a metodologia de investigação em Economia Aplicada; o outro é "A Arte da Guerra" de Sun Tzu.

O primeiro título era o livro de referência quando fiz a cadeira de Metodologia de Investigação, mas acabei por vendê-lo porque na altura não pensei que voltasse a fazer investigação para além do mestrado. No entanto, isso não explica grandemente a decisão de o vender, pois deve ter sido o único livro que vendi depois de começar o mestrado. Depois de o vender, muitas vezes pensei nele, até que um dia o meu amigo me deu outra cópia -- meti-o na prateleira e nunca mais o abri. Já o segundo livro nunca me tinha ocorrido comprá-lo, apesar de ter visto muitas referências a ele. Ainda não o li, mas vou lê-lo um dia destes. A sério que o irei ler, já estive a estudá-lo e tudo.

Muitos dos outros livros eram estranhos e apesar destes dois amigos serem de sítios completamente diferentes -- um da Índia, o outro da ex-Jugoslávia --, os tópicos dos livros que me deixaram tinham bastante em comum. Ambos liam livros sobre de como ter sucesso. Havia os do Tony Robbins, os do Robin Sharma, etc. Probabilidade de eu alguma vez ler estas coisas: zero; probabilidade de eu as ter guardado ainda: 100%. Porquê? Não faço ideia, mas deve ter a ver com o ter vendido o livro de metodologia e depois ter ficado a pensar nele. Sinto, no entanto, que as coisas estão a mudar...

Ultimamente ando a fazer auto--terapia e a tentar abdicar de coisas, inclusive livros. Tento comprar apenas o que penso que irei ler, mas depois compro mais depressa do que a velocidade a que leio. De vez em quando, aparecem uns livros cá em casa que me atrasam os planos. Por exemplo, no outro dia, deram-me uma pilha de livros de decoração. Adoro livros com fotos, mas sou um bocado esquisita com a estética da coisa e alguns dos livros não pareciam ser coisas que eu apreciasse. Pensei em livrar-me de um desses livros, pois a capa era um bocado *meh*, mas antes decidi dar uma olhada, pois não se deve julgar os livros pela capa.

Sentei-me a desfolhá-lo um dia de manhã, enquanto o sol se levantava e enchia a sala de luz -- a minha sala tem uma janela para este. (Se calhar, fiz tudo mal, pois devia ter escolhido um ambiente horrível para me deixar mal-disposta e prestes a deitar aquilo fora, mas a vida vivida em retrospectiva seria perfeita.) Demorei-me nas fotos, como é meu hábito, mesmo as que inicialmente não me atraíam. A propósito, isto lembra-me que, quando comecei a consultar o Instagram Stories: senti-me extremamente frustrada porque as fotos desapareciam mais depressa do que eu as conseguia estudar. Depois descobri que quando colocamos o dedo na foto, ela não avança e senti um enorme alívio.

O Instagram Stories tem várias coisas que não me agradam: a qualidade do efémero e a espontaneidade. Não gosto de ver uma coisa e depois perdê-la e não gosto de fotos mal compostas e abandalhadas. E, no entanto, uma das coisas que me fascina é o que as pessoas comem no dia-a-dia, as receitas do que se come em casa, mas não aquelas coisas que as pessoas inventam, tiram uma foto janota, e metem nas redes sociais. A mim atraem-me as receitas que se repetem e se tornam rotina, até que passam a tradição. No entanto, tudo é inventado antes de se tornar tradição e, se querem saber, não consigo cozinhar assim -- estou sempre a inventar coisas só minhas, exactamente o comportamento de que me queixo nos outros. Podem chamar-me a hipócrita epicurista.

Regressando ao livro de decoração de que não gosto, para o fim, há uma foto que não é nada de especial, aliás, desgosto de quase tudo nela -- talvez o móvel de chinoiserie não seja mau de todo --, mas tem uma pilha de livros a compor a natureza morta. Um deles era "A Taste of Portugal" e imediatamente na minha cabeça "Olha, que giro! Eu até acho que tenho isto..." Mas não, o que tenho cá em casa é "The Taste of Portugal", da Edite Vieira. Fiquei curiosa e fui investigar o título.

"A Taste of Portugal" foi publicado em 1967 por Shirley Sarvis -- a introdução diz Julho de 1967. Nos resultados do Google sobre a autora aparecia o obituário de Ms. Sarvis, uma americana que escrevia sobre comida, vinhos, e dava festas e jantares muito badalados. Sarvis foi uma das primeiras pessoas nos EUA a escrever sobre como combinar comida e vinhos. Para além de cozinha portuguesa, também escreveu sobre cozinha escandinava, e cozinha caseira (home cooking). Fui à Amazon e comprei imediatamente uma cópia.

Ontem, quando chegou, sentei-me a ler o meu livro novo. Fiquei surpreendida por o livro, que tem 50 anos, estar em tão boa condição. No texto, fala-se da forma como se comia em Portugal, mas claramente era uma rotina idealizada. Apenas a classe mais abastada, com empregadas domésticas a tempo inteiro, comia assim. Muitas das receitas são mesmo recolhidas das cozinheiras dessas famílias. Mas o livro é muito giro: fala de como apetece fazer piqueniques em Portugal porque há muitos sítios que convidam a isso, a excelência do café, a frescura do peixe, a variedade de vinhos e queijos, a criatividade da nossa cozinha... Diz também que nos restaurantes tradicionais a comida tem bom sabor, apesar de muitas vezes não ser muito bem apresentada no prato. Não foi dito em tom de crítica, mas sim mais a guisa de desculpa, como que a dizer que as pessoas que frequentavam esses estabelecimento eram simples, logo o sabor era mais importante do que a apresentação.


Um pedaço de Portugal numa natureza morta


Tem 50 anos, mas está em excelente condição


Uma pequena descrição do livro

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