quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Floricultura 3

Sonhou com uma planta que só floria dentro das entranhas de homens ou mulheres. No sonho não viu se eram de homens ou mulheres os estômagos onde vislumbrou as pétalas escarlates que nunca encontrara em outras plantas e outros lugares.
 Por isso, acordado, as barrigas que abriu de alto a baixo eram indiferentemente masculinas e femininas. Em becos mal iluminados e debaixo de pontes quase todos os dias se descobriam novos cadáveres. Bêbedos tardios e operários madrugadores tropeçavam em tripas espalhadas pelas ruas e vomitavam sobre os próprios pés. Escorregavam em bílis e sangue e gritavam de horror. Mesmo quem está habituado aos mortos não se habitua a todas as maneiras de os ver mortos. Dos mortos tranquilos de corpos incólumes espera-se que tenham tido uma morte do mesmo modo tranquila. Dos mortos de corpos retalhados sabe-se como morreram, com violência. E de morrer sabe-se que, havendo que passar de vivo a morto, quem assim passa vive enquanto passa, pois está vivo antes e só depois morre, e não lhe é indiferente se a morte é violenta ou tranquila. Sofre-se imaginando o pior, feridas e cólicas e fogo e água. Espera-se imaginando que simplesmente o coração pára. Entre desmaiar de dor e adormecer, sabemos o que preferiríamos. Depois de cortados os ventres, espera que as pétalas e as folhas se sigam às vísceras excarceradas, que vão saindo. Que até ontem isto não tenha acontecido não o fez desconfiar do sonho. Até ontem, não deixou de pensar que nos sonhos vemos as coisas que temos de procurar. Mulheres com asas e caudas de peixe, homens de cabeças enterradas na areia, montanhas de ouro, cavalos voadores. As fontes inesgotáveis e o movimento perpétuo. O bem comum e o perfume superlativo. O fim do mundo, o fim do espaço, o fim do tempo. O princípio de todas as coisas. O umbigo do universo. O universo olhando para o seu próprio umbigo. É pelo umbigo que começa o corte. Depois, continua para baixo. Depois, sobe. Em nenhum momento olha para as caras daqueles a quem não deseja mal. Mas deseja mais a flor da planta que viu num sonho do que não deseja mal àqueles a quem mata para roubá-la. Até ontem matou sem qualquer dúvida. Mas hoje, e apenas porque alguma vez teria que ser, o sangue que lhe encharcou os pés lembrou-lhe que as pétalas vermelhas que viu no sonho podiam afinal ser não mais do que uma forma poética de representar o líquido vital que em nós circula. Má poesia, certamente, mas aos sonhos não se exige que sejam de bom gosto. 

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