domingo, 1 de julho de 2018

Viagem sem rumo

Estou no avião e nada poderá ser publicado imediatamente, mas a cabeça fervilha com ideias de coisas para vos contar. Corro o risco de, quando chegar a terra, me encontrar com a minha maior inimiga — a procrastinação — e adiar ad eternum o meu relato. Como a eternidade não mais chegará, nunca alguém lerá o que vos quero escrever. Trouxe o computador porque queria mesmo escrever mais, mas acabei por não escrever quase nada, a não ser algumas linhas no diário de papel. Acho que nunca vos disse que comprei um computador de propósito para ser mais flexível porque o iPhone e o iPad deixaram de funcionar com o Blogger. Só dá para usar pelo Safari, mas mesmo assim não funciona muito bem.

Fui numa visita rápida a Portugal: duas semanas, mas cerca de três dias e meio passei-os em Inglaterra para ir conhecer alguns membros da minha equipa de trabalho; verdade, verdadinha, a viagem a Inglaterra nasceu de um desejo que não teve nada a ver com trabalho. No ano passado, quando visitei Londres, procurei por trabalhos de Egon Schiele que estivessem a ser expostos. Não encontrei nenhum, mas descobri que haveria uma exposição brevemente na Tate Liverpool e eu fiquei um bocadinho obcecada com a ideia de ir. Pela primeira vez, iriam combinar o trabalho de Schiele com o de Francesca Woodman, uma fotógrafa que eu desconhecia, mas depois de a investigar, suscitou-me imensa curiosidade.

Já devia saber que as coisas, às vezes, acontecem e os desejos se tornam realidade, mas quando se passa a vida a pensar em e a trabalhar com probabilidades sentimo-nos muito insignificantes e tudo o que acontece toma um sabor a incrível e improvável. Quando comecei o meu emprego novo, aconteceu que parte da minha equipa está mesmo em Liverpool e aquela ideia elusiva começou a tornar-se mais concreta.

Aconteceu que eu "teria" de vir a Portugal — uma amiga ia casar-se e, estranhamente, encontrei-me convidada. Acho estranho porque saí de Portugal antes de a maior parte dos meus amigos se casar e, quando cheguei aos EUA, como muitas das minhas amizades eram recentes, fui a muito poucos casamentos. Agora já não contava que me convidassem para estas coisas. Numa inspiração de momento, quando me ofereceram o novo emprego, em Fevereiro, perguntei se poderia vir a Portugal para o casamento em Junho. Mais tarde tive a ideia de ir a Liverpool conhecer a nossa equipa que lá trabalha e, estando lá, bastava uma caminhada de 10 minutos para ir à Tate Liverpool porque os nossos gabinetes são mesmo naquela área.

Outra coincidência é que a minha mãe faz anos em Junho e poder vir a Portugal nesta altura significa que posso ir ao cemitério colocar flores na sua campa. Sou bastante dada a rituais, apesar de não gostar de participar em muitos, prefiro observar, mas ir ao cemitério colocar flores faz parte de mim. A nossa campa é de família e eu cresci a visitá-la aos Sábados de manhã para levar flores aos meus avós. Era costume ir a pé e, no meu regresso, a minha mãe se admirar de eu ter demorado tão pouco tempo. Nessa altura, convinha eu ser muito calada e pouco ou nada conversava com os vizinhos que encontrava pelo caminho. Se fosse agora, as visitas ao cemitério demorariam mais tempo.

Em cada visita a Portugal, sinto-me mais distante porque é difícil entender a (des)organização do país, mas, entretanto, a América lentamente invadiu Portugal, o que facilita a minha vida. (Pensei que fosse defeito meu, mas em Liverpool, achei que tenho mesmo razão. Há muita confusão em Portugal. Demasiados carros, mal estacionados, pessoas a discutir na rua, muito lixo, trânsito ilógico, etc.

No início de estar aí, senti-me um pouco confusa, como se não soubesse onde estava. Agora há tanta mobilidade e contacto tão imediato, que tudo parece mais pequeno. Na última vez que estive em Amsterdão, fui a uma exposição no Museu Marítimo, onde diziam que há coisa de 500 anos uma carta entre dois continentes poderia demorar dois anos a chegar ao destinatário. Dois anos nessa altura era muito tempo, ainda mais do que é hoje porque as pessoas tinham uma esperança de vida mais curta: em dois anos, não era raro que quem enviava ou quem recebia correspondência falecesse.

[Quase escrevi "recipiente" por causa do inglês “recipient" e recordei-me deste erro a primeira vez que o dei, quando a Vera, tão paciente e compreensiva, me corrigiu e depois tentou curar o ego ferido porque, como eu já estava nos EUA há tanto tempo, havia desculpa para as minhas afrontas à língua portuguesa.

Almoçámos aqui no avião, entretanto, e depois de seguida perdi toda e qualquer noção de alguns minutos que passaram. Será que dormi sentada? Não faço ideia e, se o fiz, penso que devo ter feito uma bela figura. Aliás, quando estou com sono, sou invadida por uns pensamentos estranhos. Uma vez, quando conduzia de Stillwater, OK, à noite, com destino a Fayetteville, AR, tive tanto sono que desejei morrer só para não ter de estar acordada. Tenho medo dessas alturas, em que os instintos primais nos controlam.]

Regressando à minha ideia: será que, há 500 anos, dois anos para saber de alguém criava a mesma proximidade que hoje sentimos com as novas tecnologias? E deve ter sido assim também quando começámos a escrever uns aos outros pelas nossas próprias mãos, sem ter de depender dos poucos terceiros que nos levavam as notícias de boca em boca ou que escreviam e liam cartas por nós? Estou curiosa acerca das coisas que nos aproximarão ainda mais do que hoje, mas a maior parte delas ocorrerão num futuro do qual já não farei parte.

Esqueci-me de ver o contador de quilómetros quando entreguei o carro, mas já passava dos 1.600 Km em pouco mais de uma semana e depois houve a visita a Liverpool. Não sei como surgiu a ideia de viajar assim, tentando visitar muitos sítios e muitas pessoas. Parece-me intervenções de organizações humanitárias porque assim que se atinge um certo conforto numa área, é hora de partir para outro sítio. Quando nos damos a tanta gente tão depressa, será que nos damos verdadeiramente a alguém? E os sítios — deixamos um pouco de nós ou levamos um pouco deles connosco?

Ontem cheguei a Vila Nova de Gaia perto do final do dia. Ao fim de vários dias a dormir poucas horas, estava cansada, mas ainda tive oportunidade de estar com alguns amigos que encontrei para jantar. Enquanto conversávamos, Portugal foi eliminado e recebi uma mensagem da L., de Washington, D.C., a perguntar como estávamos depois da derrota (um dia destes, recebo uma intimação para a visitar, já sei do que gasta a casa!). Respondi-lhe que desfrutávamos de um belo jantar para nos recompormos. À beira rio, via-se a corrente das águas do Douro fazer riscos abstractos na superfície. O Porto brilhava na outra margem e por vezes ouviam-se gaivotas. Discutíamos se as gaivotas grasnavam ou se era outro o termo técnico. Falei de Liverpool, de como não há colinas no centro da cidade, mas que também tem edifícios de pedra e se passeia ao som das gaivotas.

Perguntei-lhes se havia uma livraria aberta onde podia ir comprar livros. Tinha adiado várias vezes durante a visita, a pensar que teria mais tempo antes de partir, mas quase que perdi a oportunidade. E que dizer dos amigos que, quando lhes digo que preciso de ir a uma livraria quase às 10 da noite de um Sábado e depois quero ir abraçar o meu edifício preferido, me satisfazem todos os desejos?

Ontem à noite, o Porto estava mágico: Marte brilhava entre a lua e a Torre dos Clérigos, as pessoas passeavam pelos jardins e pelas ruas na zona das Galerias de Paris, e eu abraçava a antiga Cadeia da Relação.

P.S. Depois de vários dias a dormir pouquíssimo, estou exausta. Perdoem se não faz sentido...






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