domingo, 22 de julho de 2018

Arte longa, vida breve

Não é diferente do que aconteceu em Houston de, no início, não ter pessoas com quem ir a museus. Talvez essa seja a situação ideal -- não ter pessoas -- porque todos nós temos um ritmo diferente de ver as coisas e acho intrusivo que tenhamos de convergir para um ritmo comum. Quer dizer, não julgo intrusivo da parte dos outros, mais da minha parte porque sou bastante lenta e deambulo bastante, mas também sou bastante acomodatícia, logo adapto-me bem ao ritmo dos outros.

Uma amiga perguntou-me, na Sexta-feira, o que ia fazer no fim-de-semana e respondi-lhe que ia ao Brooks, um dos museus de Memphis, o qual apenas visitei uma vez, quando houve uma exposição de gravuras do Salvador Dalí; interessava-me ver as de "Alice no País das Maravilhas". Da colecção permanente, apenas me recordava de um quadro de William-Adolphe Bouguereau. Gosto do trabalho dele, especialmente de "O Primeiro Beijo", em que Cupido beija Psique, versão infantil. Esse quadro se fosse feito hoje, seria um escândalo. A mitologia é um escândalo, como a escultura de "O Rapto de Proserpina", de Bernini, que à primeira vista parece deslumbrante -- como é possível a um pedaço de mármore parecer mais vivo do que a maioria das pessoas que se encontra na rua? Mas depois há os que, quando sabem do que se trata, acham uma desgraça, como se fosse um elogio à violência contra as mulheres.

É uma visão um bocado optimista que apenas as mulheres fossem alvo de violência. A mitologia é, acima de tudo, muito democrática e o que não falta é violência contra homens, mulheres, e crianças. Se calhar estas histórias revertem de um tempo em que o mundo era extraordinariamente violento e talvez a história oral não servisse de ode à violência, mas de alerta contra a violência: se não te portas bem, os deuses castigam-te; se és muito atraente, os deuses cobiçam-te... Conclusão, não dês nas vistas e talvez te safes.

A arte serve de memória colectiva, de reflexão. Nem tudo o que parece é e, por vezes, há coisas que são umas coisas agora e tornam-se coisas diferentes mais tarde. Ou talvez o que as coisas são não tenha nada a ver com as coisas em si, mas sim connosco. Fui ao Dixon depois do Brooks e no jardim há uma escultura de Rodin: os três homens que estão no topo de "As Portas do Inferno". São figuras de homens fisicamente fortes, mas contorcidos em dor. O que me cativa são as suas mãos: seis mãos e quase todas têm os dedos como que a formar uma mudra. A procura da paz interior, mesmo quando tudo em redor os oprime.

Mas talvez seja só eu que veja isto e quando Hipócrates disse que a arte é longa e a vida curta, não estava a falar do tempo que dura uma versus a outra, mas sim da multitude de experiências de uma e de outra: a nossa vida está reduzida a ser vista à luz da nossa experiência; já a arte é vista pela experiência de cada um, e qualquer uma peça inspira algo muito mais longo do que qualquer uma vida.




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