Quando se fala no enviesamento de selecção que está presente no ensino privado, pensa-se que se está a dizer que só os ricos andam em escolas privadas. Isto não é verdade. Há o enviesamento de selecção causado pelo preço das propinas e que irá estar correlacionado com a classe social do aluno. Os alunos de melhor classe social, em média, têm vidas em que têm mais actividades de lazer, fazem férias, são mais acompanhados pelos pais, estão rodeados de pessoas que falam melhor e provavelmente lêem livros, têm melhor alimentação, vivem em casas mais confortáveis, etc., o que lhes dá alguma vantagem em conseguir melhores notas. Mas há outros enviesamentos de selecção.
Um aspecto que é pouco discutido é a obrigação de prestação de serviços, se bem que a nossa fabulosa Helena Araújo já o tenha mencionado várias vezes no Facebook. Se um aluno, independentemente da sua classe social, reprovar no ensino privado várias vezes, a escola privada não tem obrigação de continuar a prestar-lhe serviços. Ele pode tentar encontrar outra escola privada, mas, mais uma vez, não há obrigação de lhe prestar serviços. E se for rejeitado por todas as escolas privadas, onde é que ele acaba? No ensino público porque o estado não só não tem a capacidade de lhe recusar serviços, como tem a obrigação constitucional de lhos prestar até ele terminar a escolaridade mínima obrigatória. Note-se que, ao aumentar a escolaridade mínima obrigatória, o estado aumentou o custo por aluno porque o aluno estuda mais anos, os últimos anos são mais caros, e o aluno tem mais anos escolares nos quais pode reprovar.
Logo, os resultados do ensino público e do ensino privado são enviesados não só em termos de notas, mas também em termos de custo por aluno, pois enquanto que o ensino privado pode truncar as suas distribuições probabilísticas (de custo por aluno e de notas), o ensino público não o poderá fazer.
Seria interessante comparar a média e a variância de idades por ano escolar entre o privado e o público, pois o efeito que descrevo acima seria identificável na demografia de cada escola: as escolas que fazem selecção teriam uma variância e uma idade média inferiores às escolas que não o fazem (o efeito de classe social também teria de ser controlado para isolar o que descrevo).
Dados mais detalhados até seriam úteis para identificar as escolas públicas que fazem selecção de alunos, pois não são só as escolas privadas que discriminam. Bastaria ver as notas médias do aluno no ano escolar anterior à e a idade média de entrada na escola por ano escolar, pois os alunos com piores médias e mais velhos (reprovaram mais anos antes) teriam menor probabilidade de entrar em certas escolas.
Adenda: aos meus amigos que me dizem que as escolas com contratos de associação não discriminam, gostaria de vos lembrar que essas escolas não são verdadeiramente privadas, pois o estado paga e influencia a forma como a escola é gerida. Se o estado tem de pagar para as escolas não discriminarem, é porque os privados reconhecem que não são muito bons a conseguir resultados com certos alunos. Logo, os meus amigos que dizem que o ensino privado é muito melhor do que o público têm uma contradiçãozinha que terão de resolver.