sexta-feira, 20 de março de 2015

VIPs

Pois é, esta lista VIP está a dar-me azia e isto parece mais uma coisa de Very Incongruous Practices do que outra coisa.

Estas pessoas que fazem parte da lista VIP não são todas seres como o meu cão, que era um ser angélico, bondoso, que não fazia mal a uma mosca. A tendência para a prevaricação tem uma forte correlação com a pertença à lista VIP. Não há futebolistas, políticos, e empresários com problemas com o fisco? E, se esse é o caso, exactamente porque se quererá fechar a informação dos VIPs a sete chaves e dizer aos funcionários da AT para terem cuidado e não acederem à informação dos VIPs? Não vos parece uma prática contrária ao interesse dos contribuintes e dos cidadãos?

Já agora, dado que o PM anterior e o actual têm umas histórias fiscais um bocadinho exóticas, que tal os candidatos a PM elucidarem-nos das suas histórias fiscais antes de nós votarmos que é para sabermos exactamente do que gasta a casa?

Os jornalistas estão a investigar o background de toda a gente ou também têm uma lista VIP de pessoas às quais não devem incomodar? Será que Miguel Relvas faz parte de todas as listas VIP porque quando ele foi nomeado ministro, toda a imprensa falava do quão bons o seu CV e a sua experiência eram?

Afinal estamos em ano de eleições ou em ano de insultos ao eleitorado?

Nós é que não somos parvos!

Depois de ler o post do Zé Carlos, não mais pude ignorar o argumento de Helena Matos. Eu li a peça de opinião dela e senti uma profunda decepção; na verdade, senti verdadeiro asco por ela defender a existência de uma lista VIP no reino a Autoridade Tributária (AT), que é como quem diz o reino do Big Brother português.

Quase todo os dias somos assediados pelas Finanças para voluntariamente lhes darmos mais informações, como por exemplo, para darmos o nosso número de contribuinte nas compras que fazemos. Este assédio é feito nos meios de comunicação social, mas também é feito através do nosso email--uma coisa privada. A AT gasta dinheiro a tentar convencer-nos que lhes devemos dar mais informação e depois não têm a mesma preocupação em gastar dinheiro para proteger a nossa informação. E ainda chegamos ao cúmulo de as violações de privacidade se darem no seio da AT, i.e., a falha é interna, não foi um hacker que decidiu aceder à informação. Ah, e que dizer da solução encontrada? A tal lista VIP... O que são exactamente os VIP em Portugal? Ultimamente, dá-me ideia que VIP quer dizer Very Incompetent Person.

Há vários problemas de raciocínio com o comportamento da AT:

  • A falha é interna! Isto só por si revela-nos que a AT não se preocupa com a ética das pessoas que emprega. Esta falha não tem justificação possível porque salvaguardar a privacidade de qualquer cidadão é um requisito para se trabalhar na AT.
  • A criação de uma lista VIP é uma solução medíocre e viola ela própria as leis de Portugal. Ao se criar uma lista VIP presume-se que a privacidade dos VIP é mais digna de protecção do que outros, ora isto não é verdade de acordo com a lei portuguesa.
  • Justifica-se a criação de uma lista VIP porque estas pessoas podem ser alvo de maior interesse. Pois podem e devem ser alvo de maior interesse--é por isso que a lei portuguesa obriga a que quem vai trabalhar para o estado tenha o seu salário publicado no Diário da República, logo à partida há a indicação que este pessoal não tem a expectativa de privacidade que teria um empregado do sector privado. Na minha opinião, os VIP deveriam ter se fazer público o seu formulário de impostos.
  • Será que eu sonhei ou temos nós em prisão preventiva um ex-Primeiro Ministro sob suspeita de ter cometido fraude fiscal?
  • Será que eu sonhei ou temos nós em exercício de funções um Primeiro Ministro que admitiu que esteve em falta nas suas responsabilidades fiscais?
Já se demitiram duas pessoas da AT por causa deste incidente, mas isso é para deitar areia para os nossos olhos. Desculpem, mas comigo não pega. Eu estou à espera que o Primeiro Ministro ou a Ministra das Finanças venha a público e peça desculpa pela falta de profissionalismo da AT e garanta aos portugueses que não há desculpa possível para esta situação e que irá ser remediada o mais depressa possível. E depois quero um responsável da AT que saiba alguma coisinha de estatística e computadores e que implemente um processo semelhante ao seguinte:
  • Treino anual de ética dos funcionários da AT, no fim do qual têm de fazer um pequeno exame para obter uma certificação de que compreendem as regras básicas de comportamento dentro da agência.
  • Ter um código de conduta para os empregados da AT onde se identifica claramente as consequências de não observar esse código. Ser despedido, ter o salário congelado durante um certo número de anos, etc. devem ser opções.
  • Cada empregado da AT deve ter um acesso único ao sistema, mas o ideal será dar acesso à informação fiscal dos contribuintes apenas a quem precise dela para efectuar o seu trabalho.
  • Construção de uma base de dados onde se guarda toda a informação de acesso.
  • Cálculo de estatísticas de acesso dos empregados--será que alguns acedem demais ou acedem informação que não faz sentido para as suas funções?
  • Regularmente, seleccionar aleatoriamente o histórico de acesso de uma amostra de empregados para ver se há irregularidades.
  • Todos os empregados da AT devem ter a clara noção de que o seu acesso à informação está a ser escrutinado e podem ter de justificar a sua actividade perante os seus superiores.
Isto é o mínimo que se deve exigir a quem é pago com o dinheiro de contribuintes que estão a ser massacrados com uma carga fiscal absurda!

Ou há moralidade ou comem todos

Na semana passada, a questão era se existia ou não uma lista VIP, com o governo a desmentir a sua existência. Nesta semana, ficou provado que existe e já rolaram as duas principais cabeças da Autoridade Tributária. O governo, como é costume, chutou para canto, passando as culpas para funcionários. Não sei se o Secretário de Estado Paulo Núncio sabia ou não sabia da coisa, mas se não sabia devia saber e, por isso, devia pedir a demissão.

É mais ou menos consensual o direito ao sigilo fiscal dos cidadãos, que até está consagrado na lei. Desgraçadamente, o Estado não consegue garanti-lo. Vai daí a Autoridade Tributária entendeu defender apenas alguns, os que seriam alvo de maior interesse público, os VIP. Com base nesse argumento, Helena Matos defende a existência da tal lista, uma vez que não se pode tratar de forma igual o que é diferente. Discordo. Porque, apesar da situação fiscal do sr. Francisco não ser tão interessante para os media como é a de Passos Coelho, isso não significa que a violação do sigilo não possa ser igualmente devastadora para o sr. Francisco na sua comunidade. Ou há moralidade ou comem todos.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Eroticamente interessante

“For me it’s a bit like math: I have no talent for it but find it still erotically interesting.”

Davis Foster Wallace

Para o escritor David Foster Wallace, os impostos, como a matemática, são eroticamente interessantes--ler na Bloomberg. [E imaginem que o autor do "paper" no qual isto é revelado é Arthur Cockfield--como dizem os americanos, "you cannot make this shit up!"] Talvez o mesmo se passe com a nossa Ministra das Finanças. A mim, a matemática, a poesia, a arte moderna também me dão tesão. Se vocês me apanham no Berardo, preparem-se porque eu fico um bocadinho enlouquecida de desejo. E já sabem que eu tenho uma ligeira obsessão por uma certa cadeira...

Problema resolvido

Quem tem um iPhone, já deve ter reparado que o dicionário de português que o autocorrector usa é uma porcaria. Eu escolhi o dicionário de português de Portugal, mas o meu telefone insiste em dar-me sugestões do português do Brasil. E depois tem as questões do vernáculo, pois o dicionário não gosta que eu escreva asneiras. Eu não tenho o hábito de dizer asneiras, mas tenho um grupo de patetices no Facebook onde a comédia implica que de vez em quando se diga uma asneira. Ou então quando eu estou a tentar dizer alguma coisa a um amigo ou amiga e digo uma asneira só para criar choque porque eles, conhecendo-me bem, sabem que não é uma coisa que eu costume fazer no dia-a-dia. Mas vocês já devem ter reparado nisso porque eu também escrevo assim por aqui. No meu grupo de patetices, muitas vezes aparece um "fofa-se", porque o autocorrector do iPhone acha mal que eu diga asneiras em português, apesar de não ter qualquer problema quando eu escrevo "Fuck the police!"

Mas agora com o "multipliquem-se", basta eu escrever "multiplica-se" no iPhone e está o assunto arrumado. Obrigada senhora Ministra das Finanças por esta solução tão prática. Pena que o pragmatismo não se estenda a outros assuntos.

Et tu, Maria Luís!*

Hoje acordei às cinco da manhã, o que não foi mau de todo pois tenho andado a dormir mal porque tenho saudades do meu cão. Decidi abrir o Facebook, o Instagram, e o Tumblr para me distrair. No Facebook, o tópico quente de hoje é o "Vocês que são jovens, multipliquem-se!" Claro que toda a gente está "chocada" porque isto é uma forma politicamente correcta de se dizer "Fodam-se!" Estão a ver, a Sílvia Baptista, que é jovem, tinha razão e antecipou-se à nossa Ministra com o seu "Fodamos!"?

Nós percebemos a mensagem, senhora Ministra. Mas nada de significante mudou entre ontem e hoje. Se não havia vontade para ter sexo ontem, o que é que exactamente nos dá vontade para ter sexo hoje? É um bocado como dizia o Einstein: a mentalidade que causou os problemas não pode ser a mentalidade que os resolve. E nós ainda não vimos em como é que a mentalidade da governação do país mudou. Ainda andamos numa de impostos, subsídios, e cursos de formação. Note-se que essas políticas estão correlacionadas com um declínio da natalidade. Já se sabe que correlação não implica causalidade, mas não deixa de ser curioso, não é?

No entanto, há que lhe gabar o timing, pois com a Primavera a chegar, os pássaros todos irão andar a cantar para acasalar, que é como quem diz andam a perguntar uns aos outros quem é que quer ir ter sexo--muito sexo!!!--e isso certamente tem alguma influência na vontade de os humanos fazerem o mesmo--é o poder da sugestão.

Também há que ter em atenção uma particularidade muito importante de Portugal e faria bem que os governantes do país deixassem de se comportar como avestruzes e reparassem realmente como as coisas estão. As crianças portuguesas estão completamente desencantadas com Portugal. Na minha última viagem, conversei com os filhos dos meus amigos, e os mais velhos, que tinham 13, 16 e 17 anos foram peremptórios: já tinham desistido de Portugal, já estavam a fazer planos para sair. Se as crianças que já existem querem sair, porque é que o governo quer que os portugueses produzam mais crianças? Será que temos um acordo com a Alemanha para exportar jovens qualificados a custo zero para os alemães? Ou será que sermos insultados pelos alemães rotinamente faz parte do plano de pagamento? É que "amor com amor se paga e com desdém se paga também". E quem diz amor, diz sexo...

Mas passo a relatar as minhas conversas com os jovens portugueses, pois normalmente pensa-se que os jovens são imaturos, não sabem nada da vida, etc. Isso não é verdade, há jovens extremamente sábios e eles apercebem-se de muito mais coisas do que nós pensamos. As mais velhas, duas raparigas, boas alunas, de famílias com uma vida confortável e que se interessam por medicina e neurologia, já estavam a planear a saída e ainda nem sequer tinham completado o ensino secundário. O rapaz, o mais jovem, perguntou-me se era fácil sair de Portugal. Também era de uma família com boa qualidade de vida e já tinha a ideia de sair a enraizar-se. Eu respondi a ele com estatística--já se sabe do que gasta a casa na minha cabeça--, disse-lhe que o avô dele, a tia, e o pai tinham passado tempo no estrangeiro a trabalhar e a estudar, logo a probabilidade de ele sair era muito alta. Mas eu não lhe disse tudo o que eu pensava, não lhe disse que a probabilidade de ele regressar seria muito baixa.

Fiquei profundamente triste por ver pessoas tão jovens que já tinham desistido de Portugal. Assim como fico profundamente triste por ver a forma como Portugal é desgovernado.

* Para quem não sabe latim, nem lê Shakespeare, investiguem "Et tu, Brute!"

A minha homenagem ao pai desconhecido

Caros leitores (machos)
Alguns de vocês andaram por aí a espalhar a vossa semente em vasos de outros jardins. Dessa lavra, é natural que tenham crescido flores de que não vos tenham dado conhecimento, sendo o crédito atribuído a outro jardineiro.
Em nome da vossa descendência desconhecida, desejo-vos um bom dia do pai.

Um milagre de altruísmo

Na sequência do recurso da defesa de Sócrates, o Tribunal da Relação de Lisboa considerou anteontem "completamente descabida" a ideia de que os direitos do ex-governante foram violados. E sobre os "empréstimos" avultados de Santos Silva a Sócrates, os juízes consideraram estar perante um "Um verdadeiro milagre de altruísmo pelo amigo!” Quem não gostaria de ter amigos assim, que nos emprestassem centenas de milhares ou milhões e nunca nos pedissem o dinheiro de volta, ainda por cima quando assumimos ser pessoas de rendimentos modestos? É realmente um milagre de altruísmo.

Kierkegaard em quadras populares

Um dia chamei por Deus
Mas Ele não me ligou
Nesta profusão de eus
Que escreveram o Ou-Ou

Infinita resignação
É o passo antes da fé
O pobre do Abraão
Lá fez o caminho a pé

Ter angústia é lixado
Um gajo fica confuso
Porque nos leva ao pecado
Livres como um parafuso

quarta-feira, 18 de março de 2015

Interpretações de privacidade

Em Portugal, as notas dos alunos são públicas. No final do trimestre ou no final dos exames, depois de estes serem corrigidos, lá aparecem as notas na parede com o nosso nome para todos verem. Às vezes, é humilhante. Lembro-me da minha primeira nota da faculdade, que foi na frequência de Matemática I e que foi 10,7. Quando vi aquilo os meu olhos ficaram rasos de lágrimas e senti vergonha de ter uma nota tão má. Os meus amigos diziam que ao menos dava para ir à segunda frequência, logo não havia crise. E não houve crise, até porque essa nota acabou por ser completamente irrelevante porque eu chumbei a segunda frequência porque comi um pastel de carne estragado no bar da faculdade e fiquei com envenenamento alimentar.

A prática de notas públicas em Portugal contrasta com a prática nos EUA. É proibido revelar as notas dos alunos a outras pessoas e um professor ou uma escola que o faça fica em grandes sarilhos porque se violou a privacidade do aluno. Por exemplo, quando entregamos testes a alunos, normalmente, coloca-se a nota numa página interior para que ninguém a veja ao se entregar. Compreende-se que o sistema português quer controlar o favoritivismo, mas mesmo assim ele existe e nós sabemos que ele existe. A existência de procedimentos que supostamente o eliminam pode ser reconfortante para a alma, mas é apenas isso.

Agora com a chamada lista VIP das Finanças, Portugal discute a privacidade dos cidadãos VIP cuja informação acerca dos seus rendimentos deve estar fechada a sete chaves e só disponível a certas pessoas. Mas isso, para nós, é apenas a ponta do iceberg. Diz o Vítor Lourenço, chefe da Autoridade Tributária, que entretanto se demitiu:

“Eu estou mais preocupado com os contribuintes em geral do que com os VIP, porque imagino que se se passa com os contribuintes VIP, o que não se passará com os contribuintes comuns, porque um funcionário tem a possibilidade, ou a facilidade, de entrar na privacidade de qualquer contribuinte sem qualquer fundamento”, afirmou Vítor Lourenço.
Eu concordo com Vítor Lourenço, realmente a privacidade dos VIP, na minha opinião, não tem maior importância do que a privacidade dos não-VIP; muito pelo contrário. Os VIP da política, especialmente os que são pagos com o dinheiro dos contribuintes, deviam facilitar essa informação voluntariamente para promover a claridade na política e para combater a corrupção. Por exemplo, se forem à página de Internet da Casa Branca, encontram o formulário de impostos que o Presidente Obama entregou todos os anos. Como funcionário público VIP ele não tem direito a privacidade nos EUA.

Mas, voltando a Portugal, e nós cidadãos comuns? Parece que os funcionários da Autoridade Tributária abusam dos seus poderes. Será que isso revela falta de treino, falta de bom senso, ou quê? E em que é que a demissão de Vítor Lourenço nos ajuda a construir um sistema melhor do que este que agora diverte os jornalistas? Para mim, um sistema perfeito não é um que guarda a sete chaves a informação de pessoas VIP que podem abusar do sistema, como o que Vítor Lourenço parecia defender. Mas o chefe da Autoridade Tributária não é o responsável pelas leis de privacidade que se criam em Portugal.

Re: a gravata sem véu

Neste artigo, já antigo, Fernanda Câncio procura perceber o porquê da gravata. Estranhamente, engana-se completamente, pelo menos no que a mim diz respeito.
Há, pelo menos, três motivos para usar gravata:
1 - A gravata é um símbolo fálico. Um bom simbolismo, portanto. Ao mesmo tempo, é também um excelente adereço para termos connosco caso a nossa amada esteja numa de S&M, o que é sempre de aproveitar
2 - Há esta fabulosa frase, cuja autoria desconheço: "A tie is like an arrow pointing to my crotch." Querem melhor motivo?
3 - Nunca recebo tantos comentários elogiosos como quando uso gravata. Mesmo que um dia criminalizem o piropo, estejam à vontade comigo.

Da vergonha...

Será que vale a pena ter vergonha de Portugal, pergunta a Paula Cosme Pinto no Expresso. Olhem, para mim é simples. Há pessoas que fazem coisas estúpidas em todo o lado, Portugal não tem, nunca teve, e nunca terá o monopólio. E eu nem tenho vergonha do Portugal dos pequeninos porque não há Portugal dos pequeninos. O que há são uns seres pequeninos e alguns deles vivem em Portugal. Mas confunde-se a pequenez de certas pessoas com a pequenez do país. Quem é pequeno, é pequeno independentemente do país onde vive e do tamanho da sua conta bancária. Vou contar-vos a história de um dos seres pequeninos que eu encontrei num país grande.

Aqui há uns meses levei a minha empregada, a Carolina, com a sua filha a tomar café na Rice Village, que é uma zona frequentada por pessoas afluentes em Houston. A Carolina é de El Salvador e tem um tom de pele mais escuro do que o dos europeus; a sua filha também tem um tom de pele escuro. Fomos a uma pastelaria que serve pastelaria tipo francês e tem bom café, da marca Danesi, que é a minha preferida. A filhota dela sentou-se a uma mesa que estava vaga, enquanto eu e a Carolina fomos ao balcão. Já tínhamos pagado e estávamos à espera da nossa comida, que estava a ser posta no tabuleiro, quando aparece um senhor louro que se dirige à Carolina a perguntar se era dela a menina que estava a ocupar a mesa. O homem fumegava de fúria. A Carolina não sabe inglês, logo eu viro-me para ele e digo-lhe que sim, a menina estava connosco e perguntei-lhe se havia algum problema. Ele quase salta quando vê que eu sou branquinha como ele e falo inglês tão bem como ele.

A minha aparência física é engraçada porque eu sou muito branquela, até quando vou comprar maquilhagem, as empregadas confundem-se sempre porque pensam que o tom do fond-de-teint para mim deve ser escuro por causa do meu cabelo, mas não, eu tenho de usar um dos tons mais clarinhos, normalmente o segundo mais claro. Lembro-me de uma vez o meu pai se virar para mim horrorizado e dizer que eu era tão pálida que parecia doente, tinha de ir para a rua passar mais tempo ao sol. O meu pai estava enganado, a vantagem de não andar ao sol é que eu tenho muito poucas rugas na cara, apesar de já ter mais de 40 anos.

Mas de regresso a Houston, começa o homem a refilar por a criança estar a ocupar uma mesa. De todas as mesas ocupadas foi logo implicar com a mesa que tinha uma menina hispânica. Não implicou com a mesa que tinha quatro mulheres brancas que não tinham consumido nada ou com a mesa do senhor de certa idade que lia depois de ter tomado o café, implicou com aquela. Eu disse-lhe que não via em como eu o podia ajudar porque a nossa comida estava a ser preparada e nós precisávamos da mesa. A vantagem de eu ser muito lenta a falar e a reagir, porque ainda estou a avaliar a situação, é que, em situações destas, dá quase a impressão de que eu estou entediada com quem me interpela, o que se torna irritante para os outros. Em situações de conflito, isto é muito vantajoso.

Julgo que a certa altura ele reparou que estava a ser ridículo e virou costas e saiu. O que ele fez foi estúpido, até porque ele ainda não tinha sequer comprado nada. Estava furioso por nós termos marcado a mesa antes de termos as coisas prontas, quando ele queria fazer exactamente o mesmo. Mas o que o incomodava mesmo era a cor da pele da menina. A América é grande, faz-se muita coisa grandiosa, mas isso não impede que haja pequenez e mediocridade de comportamento. A minha supervisora já me tinha avisado para eu ter cuidado com estas pessoas. Dizia-me ela, "Rita, é admirável o que estás a fazer, mas a Carolina e a filha são tuas convidadas e tu és responsável pelo seu bem-estar e pela sua protecção. Tens de estar preparada para as defender se chegar a esse ponto." Pois é, nós somos todos responsáveis. Os maus são responsáveis pelas suas maldades; mas os bons também são responsáveis por não fazerem pressão para que os maus mudem.

It's getting hard...

"It's very hard to be an econometrician right now, when everything is fundamentally changed."

Robert Shiller, 18/3/2015

We must, nevertheless, acknowledge the irony of it all. We got into a mess because many people, many of whom were not economists, were playing with econometrics, making predictions outside of sample and assuming that the confidence that they had in the predictions was the same as if they were in-sample predictions. And because they were so damned wrong, the market crashed so hard that they fundamentally changed the behavior of the market. Now we are back to square one: we do not have enough data of this new behavior to learn how it works. We have computer power and tools, but not enough usable data.

The thing is, if you push the data in physics, even if you screw up, you're not going to fundamentally change the laws of the universe. If you push the data in economics, if you screw up, you can fundamentally change the behavior of the agents. In economics, you walk on egg shells, so it is best to slow down and be humble.

terça-feira, 17 de março de 2015

Aprendamos com Herr Memmert!

“Germans think ‘the state is clever—the citizen is stupid’. We have to get more flexible,” diz Herr Memmert, um alemão que eu admiro. De um artigo do The Economist onde se ilustra a atracção da estupidez às portas:
Mr Memmert is one example; he even won an innovation award. He saw a crunch coming in 2008. In a town that once had five doctors, several had retired and the others were thinking of leaving. The 9,000 residents were at risk of having no doctor at all. A care home for the old would have had to close; families would have had to move for lack of paediatric care. So Mr Memmert found ten doctors in fairly distant cities in Lower Saxony and an investor in Nuremberg. He offered them the use of a big empty building, where a discount store had moved out, and persuaded them to take turns commuting to the town for one or two days a week, without quitting their old practices. Between them the doctors and a physiotherapist give continuous service. The first hurdle was the doctors’ association, a state-sponsored agency of self-regulation; it refused to grant permits. Mr Memmert overcame that with fierce lobbying. Then came volumes of pedantic laws. Mr Memmert either bent them or complied as far as possible. The physiotherapist, for example, must use a separate door, for reasons nobody quite understands. [ênfase meu]

Reforma à americana

A Bloomberg tem um artigo acerca dos reformados americanos a viver fora dos EUA. Aqui está o gráfico que eles publicam:

Note-se que os gregos têm 11 milhões de pessoas e, mesmo sendo a chacota do mundo civilizado e tendo um sistema de saúde corrupto, conseguem atrair mais reformados americanos do que Portugal e Espanha juntos. Façamos uns cálculos rudimentares. O rendimento médio de um americano reformado é cerca de $31.742/ano. Para a Grécia, presumindo que o gráfico indica um número de reformados americanos à volta de 24.000 pessoas, isto equivale a mais de 700 milhões de euros, presumido que um euro custa $1.06, ou seja, mais do que a linha de crédito de apoio às PMEs da CGD e do BEI em Portugal.