terça-feira, 15 de março de 2016

História gótica

Nota: Hoje começo a publicar uma história gótica em 101 partes. Tem quase tudo para quase todos os gostos. Alea jacta est.

1. Há três dias que não sai do caixão.
 Isto apesar de terem estado muito escuras as noites, sem lua, sem estrelas, só nuvens muito pretas contra um céu muito preto. Dentro da cripta também não há qualquer luz, seja de dia seja de noite. Não há velas nem lareira, apesar do frio. Com uma vela poderíamos ver uma humidade verde pastosa a deslizar devagar pelas paredes. E vermes no chão alimentando-se uns dos outros, e as cascas dos insectos apanhados pelas aranhas. Três dias sem movimentação e as aranhas não perderam tempo, há teias do chão ao tecto, de parede a parede, algumas em volta dos castiçais. As folhas das árvores empurradas pelo vento do outono amontoam-se à porta, junto das frestas por onde entraram e dos buracos na madeira podre. Ouve-se no silêncio perto do chão o restolhar sibilante dos bichos que se devoram e perto do tecto as asas e guinchos dos morcegos. De fora, chegam os uivos dos lobos. Dentro, o cheiro de pombos putrefactos e dos restos dos roedores espalhados ali pelas aves de rapina atrai os corvos que gritam sem conseguir chegar ao banquete de carne ainda agarrada ao pêlo. Ossos desfeitos por todo o lado. Podridão emparedada e pelo meio dela a vida dos bichos comendo, digerindo, expelindo, e os cadáveres à disposição dos necrófagos.  Num canto, crânios e cabeças de bonecas de pano sem olhos misturam-se com cacos de loiça e restos de sapatos. Toda esta actividade seria apenas nocturna, mas os dias e as noites não se distinguem dentro do túmulo, e é por isso que não conseguimos ver as argolas de metal presas à pedra das paredes, ferrugentas e de onde pendem ainda pedaços de tecido esfarrapado.

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